{"id":211194,"date":"2021-07-02T09:00:41","date_gmt":"2021-07-02T08:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=211194"},"modified":"2021-06-28T11:12:29","modified_gmt":"2021-06-28T10:12:29","slug":"lusofonias-mia-o-mapeador-de-ausencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-mia-o-mapeador-de-ausencias\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; Mia, o Mapeador de Aus\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p><em>Tony Neves, no Porto<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-MiaCouto-CatedralEscolaArteseOficiosBeira.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-211195\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-MiaCouto-CatedralEscolaArteseOficiosBeira.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-MiaCouto-CatedralEscolaArteseOficiosBeira.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-MiaCouto-CatedralEscolaArteseOficiosBeira-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-MiaCouto-CatedralEscolaArteseOficiosBeira-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-MiaCouto-CatedralEscolaArteseOficiosBeira-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-MiaCouto-CatedralEscolaArteseOficiosBeira-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-MiaCouto-CatedralEscolaArteseOficiosBeira-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-MiaCouto-CatedralEscolaArteseOficiosBeira-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mia Couto tem-nos acompanhado nas \u00faltimas semanas e hoje quero apostar no seu \u00faltimo romance. Mas dou ainda uma volta a \u2018O universo num gr\u00e3o de areia\u2019 para algumas cita\u00e7\u00f5es que s\u00e3o provoca\u00e7\u00e3o: \u2018O medo foi o mestre que me fez desaprender\u2019 (p.20); \u2018Para fabricar armas \u00e9 preciso fabricar inimigos\u2019 (p.21); \u2018H\u00e1 uma arma de destrui\u00e7\u00e3o massiva: chama-se fome! Em cada seis humanos, um passa fome\u2019 (p.22).<\/p>\n<p>\u2018Professor n\u00e3o \u00e9 quem d\u00e1 aulas. \u00c9 quem d\u00e1 li\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 aquele que vai \u00e0 escola ensinar. \u00c9 aquele cuja vida \u00e9 uma escola\u2019 (p.35); \u2018A palavra \u2018trabalho\u2019 suscita fort\u00edssimas alergias. Enriquecer r\u00e1pido e sem esfor\u00e7o s\u00f3 pode ser feito de uma maneira: roubando, vigarizando, corrompendo e sendo corrompido. N\u00e3o existe, no mundo inteiro, outra receita\u2019 (p.48); \u2018Grande parte das l\u00ednguas bantu do meu pa\u00eds n\u00e3o possui palavras espec\u00edficas para dizer \u2018pobres\u2019. Para designar um pobre, diz-se \u2018chissiwana\u2019. Essa palavra quer dizer \u2018\u00f3rf\u00e3o\u2019. Pobre \u00e9 quem vive sem fam\u00edlia nem amigos, pobre \u00e9 quem perdeu os la\u00e7os de solidariedade\u2019 (p.86); \u2018Enquanto a justi\u00e7a fica \u00e0 espera, os bandidos aceleram o passo. A impunidade \u00e9 um poderoso estimulante para malfeitores\u2019 (p.143); \u2018As pessoas boas (querendo dizer pessoas \u00edntegras, generosas, solid\u00e1rias e dispon\u00edveis) deviam ser protegidas como um patrim\u00f3nio da humanidade. Um patrim\u00f3nio cada vez mais raro, cada vez mais em risco. Uma pessoa boa ensina mais que todos os comp\u00eandios\u2019 (p.210); \u2018Meu pai mostrou-me um outro saber, um outro prazer: o da busca pela intimidade dos seres e das coisas\u2019 (p.250).<\/p>\n<p>Agora, sim, ataquemos \u2018O Mapeador de Aus\u00eancias\u2019, romance publicado em 2020. Mia Couto regressa \u00e0 hist\u00f3ria para cruzar acontecimentos com romance. Em \u2018O Mapeador de Aus\u00eancias\u2019, existe a terra onde tudo acontece (a Beira, em Mo\u00e7ambique, onde o autor nasceu e cresceu), existiram tamb\u00e9m a era colonial, a pol\u00edcia secreta do regime (a pide-dgs). Tamb\u00e9m foram reais as pessoas, origin\u00e1rias da Europa, de \u00c1frica ou da \u00c1sia que, em Mo\u00e7ambique jogaram a favor ou contra o regime colonial. Por isso, este romance junta todos os ingredientes para uma leitura apetec\u00edvel que ajuda a perceber o fim da era (e da guerra) colonial, as lutas mais ou menos sangrentas que aconteceram e o perfil das pessoas que atravessaram este momento crucial da hist\u00f3ria da ex-col\u00f3nia portuguesa.<\/p>\n<p>Mia Couto tra\u00e7a a vida de Diogo Santiago, poeta e professor que regressa \u00e0 Beira para ser homenageado, mas, sobretudo, ele quer reconciliar-se com a sua hist\u00f3ria. E faz esta viagem nas v\u00e9speras do ciclone Ida\u00ed que arrasaria a cidade em 2019. S\u00e3o ricas as figuras que o autor cria e recria para que a intriga do romance nunca permita que o leitor desligue.<\/p>\n<p>Destaco frases que marcaram a minha leitura: \u2018Eis a minha doen\u00e7a: n\u00e3o me restam lembran\u00e7as, tenho apenas sonhos. Sou um inventor de esquecimentos\u2019 (p.16); \u2018Estamos velhos quando n\u00e3o sabemos o que fazer de n\u00f3s mesmos\u2019 (p.28); \u2018Os lugares s\u00e3o como os livros: s\u00f3 existem quando os lemos pela segunda vez\u2019 (p.32); \u2018Todas as noites me esque\u00e7o de como se dorme\u2019 (p.59); \u2018Foi aqui que a minha inf\u00e2ncia se rasgou. Venho aqui emendar esse rasg\u00e3o\u2019 (p.62); \u2018Tenho demasiada hist\u00f3ria, sofro de um excesso de passado\u2019 (p.69); \u2018O mundo seria perfeito se houvesse poesia sem ter que haver poetas\u2019 (p.77); \u2018N\u00e3o saber para onde fugir \u00e9 t\u00e3o triste como n\u00e3o ter casa\u2019 (p.90); \u2018As viagens s\u00e3o assim(\u2026). Sabemos do seu prop\u00f3sito apenas depois de regressarmos\u2019 (p.127); \u2018Os barcos s\u00e3o como os c\u00e3es: regressam \u00e0s casas onde lhes d\u00e3o de comer\u2019 (p.130); \u2018Quem mais sente a guerra \u00e9 quem nunca vestiu uma farda: as mulheres\u2019 (p.147); \u2018Soldados: somos o gatilho vivo de mandadores sem rosto\u2019 (p.148); \u2018A maneira mais segura de chegar ao capitalismo \u00e9 come\u00e7ar por instalar um regime socialista\u2019 (p.176); \u2018Estou t\u00e3o velho e t\u00e3o magro que j\u00e1 tenho mais ossos que palavras\u2019 (p.191); \u2018O meu filho ter\u00e1 orgulho por ter um pai que n\u00e3o se vende\u2019 (p.216); \u2018Volte hoje \u00e0 noite(\u2026). No escuro as palavras perdem o dono\u2019 (p.252); \u2018A \u00faltima guerra, a chamada \u2018guerra civil\u2019, ficou escrita nos edif\u00edcios. N\u00e3o h\u00e1 edif\u00edcio onde n\u00e3o sejam vis\u00edveis as marcas das balas. Vemos essas tatuagens nas paredes e parece que voltamos a ouvir os antigos disparos\u2019 (p.301); \u2018A guerra tem costas largas. Usam-na para explicar o que sucedeu e para justificar o que n\u00e3o aconteceu\u2019 (p.328); \u2018Despimos os suspeitos antes de os torturarmos. Est\u00e1 provado: a roupa atrapalha a sinceridade\u2019 (p.345); \u2018Quando um regime come\u00e7a a prender os poetas \u00e9 porque esse regime est\u00e1 perdido\u2019 (p.350); \u2018As boas leis s\u00e3o as que n\u00e3o precisam de ser escritas\u2019 (p.355); \u2018O amor \u00e9 um outro nome da vida\u2019 (p.380).<\/p>\n<p>Este romance \u00e9 \u2013 no dizer de Mia Couto \u2013 \u2018uma narrativa ficcional inspirada em pessoas e epis\u00f3dios reais\u2019. Outros vir\u00e3o onde a semelhan\u00e7a com factos conhecidos \u00e9 mera coincid\u00eancia\u2026ou talvez n\u00e3o!<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-211194-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/lusofonias.miaCouto3-0207-2021.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/lusofonias.miaCouto3-0207-2021.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/lusofonias.miaCouto3-0207-2021.mp3<\/a><\/audio>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, no Porto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":114253,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-211194","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=211194"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211194\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=211194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=211194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=211194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}