{"id":21113,"date":"2006-11-13T16:20:58","date_gmt":"2006-11-13T16:20:58","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/11\/13\/pastoral-universitaria-em-dialogo\/"},"modified":"2006-11-13T16:20:58","modified_gmt":"2006-11-13T16:20:58","slug":"pastoral-universitaria-em-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pastoral-universitaria-em-dialogo\/","title":{"rendered":"Pastoral Universit\u00e1ria em di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"<p>No in\u00edcio de mais um ano acad\u00e9mico, o Secretariado Diocesano da Pastoral Universit\u00e1ria no Porto retoma o ciclo de confer\u00eancias intitulado \u201cDi\u00e1logos\u2026\u201d. Este ano o seu tema geral \u00e9, como vem sendo h\u00e1bito, o lema assumido anualmente pela Pastoral Universit\u00e1ria, desta feita \u201cDar(-se)\u201d e a esse prop\u00f3sito, pretende-se reflectir a aplica\u00e7\u00e3o da Doutrina Social da Igreja (DSI) no quotidiano. O primeiro \u201cDi\u00e1logo\u2026\u201d ocorreu no passado dia 7 de Novembro pelas 18 horas na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e tinha por t\u00edtulo \u201cDar(-se): uma Doutrina?\u201d. Na mesa estiveram, como orador, o Prof. Doutor Pe. Jorge Cunha (UCP) e, como comentador, o Prof. Doutor Pedro Teixeira (FEP). A interven\u00e7\u00e3o do Prof. Jorge Cunha come\u00e7ou pela leitura de um excerto da colect\u00e2nea Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen, da hist\u00f3ria de \u201cBaltasar\u201d. A vida da personagem Baltasar pode assemelhar-se ao percurso da \u00e9tica social no mundo ocidental: de um per\u00edodo liberal, passando por um per\u00edodo socialista at\u00e9 ao per\u00edodo do sujeito \u00e9tico. Na sua exposi\u00e7\u00e3o, o Prof. Jorge Cunha tomou como equivalentes a DSI e a \u00e9tica social crist\u00e3. Assim, come\u00e7ou por buscar as origens da \u00e9tica social no sentido de situar a DSI e de a distinguir de todas as outras \u00e9ticas sociais. Arist\u00f3teles, fil\u00f3sofo e cientista do s\u00e9c. I a. C., acreditava que em toda a natureza h\u00e1 uma finalidade e o Bem era o fim de todos os fins \u2013 aquele horizonte que todos procuram como fim de tudo, para al\u00e9m das coisas interm\u00e9dias que todos procuramos. Em S. Tom\u00e1s de Aquino ainda existia este discurso sobre o fim de todos os fins que deve orientar a conduta e a vida do homem; mas acabou ap\u00f3s a Idade M\u00e9dia. Depois, aparecem os Est\u00f3icos para os quais existe uma ordem no mundo correspondente a uma Lei Natural. Essa lei est\u00e1 presente no cosmos mas tamb\u00e9m no esp\u00edrito humano. Cada homem era um mundo em miniatura, um microcosmos que reflectia o macrocosmos. Com base nisso, fundamenta-se a \u00e9tica e a pr\u00f3pria dignidade do homem, como tal: o homem \u00e9 sagrado para o  homem. Mais tarde, j\u00e1 no s\u00e9culo XVIII da nossa era, aparece Immanuel Kant que defendia que n\u00e3o era poss\u00edvel ordenar a sociedade com base numa ordem emp\u00edrica, como diziam os est\u00f3icos, mas devia-se pensar a realidade de modo formal. Kant achava que todos os homens tinham uma raz\u00e3o pr\u00e1tica que lhes diz sempre o que \u00e9 justo e o que \u00e9 injusto no dom\u00ednio da moral. Ele considerava esta lei moral universal t\u00e3o v\u00e1lida como as leis f\u00edsicas da natureza. Ficou conhecida como o Imperativo Categ\u00f3rico de Kant que pode ser formulado da seguinte forma: devemos tratar os outros homens sempre como um fim em si e n\u00e3o como um meio para qualquer outra coisa. O formalismo de Kant \u00e9 muito interessante mas pode desvirtuar completamente porque \u00e9 preciso primeiro saber o que \u00e9 justo e injusto no dom\u00ednio da moral. Assim, a DSI introduz um novo factor imprescind\u00edvel neste caminho da \u00e9tica social: o  frente-a-frente com Deus. A normal moral para o crist\u00e3o reside no testemunho do Bem que Deus colocou no esp\u00edrito humano: \u201cUma sociedade justa pode ser realizada somente no respeito pela dignidade transcendente da pessoa humana. Esta representa o fim \u00faltimo da sociedade, que a ela \u00e9 ordenada.\u201d (n.\u00ba 132 do Comp\u00eandio da DSI). Sem renunciar ao formalismo, a \u00e9tica crist\u00e3 imp\u00f5e a caridade. \u00c9 a caridade que re\u00fane todos os homens e que faz de todos irm\u00e3os dos seus semelhantes: \u201cA caridade pressup\u00f5e e transcende a justi\u00e7a: esta \u00faltima \u201cdeve ser completada pela caridade\u201d.\u201d (n.\u00ba 206 do Comp\u00eandio da DSI). A DSI tamb\u00e9m trouxe um novo princ\u00edpio \u00e9tico regulador dos direitos e deveres do indiv\u00edduo, da fam\u00edlia e do Estado que \u00e9 a subsidiariedade.  \u201cA subsidiariedade est\u00e1 entre as mais constantes e caracter\u00edsticas directrizes da doutrina social da Igreja, presente desde a primeira grande enc\u00edclica social. (\u2026)\u201d (n.\u00ba 185 do Comp\u00eandio da DSI). J\u00e1 n\u00e3o se trata de uma \u00e9tica de sobreviv\u00eancia como no liberalismo em que apenas se pode diminuir a liberdade ou impor deveres em favor da pr\u00f3pria liberdade, nem como no socialismo em que o Estado \u00e9 omnisciente e programador de toda a sociedade: \u201cAssim como \u00e9 injusto subtrair aos indiv\u00edduos o que eles podem efectuar com a pr\u00f3pria iniciativa e trabalho, para o confiar \u00e0 comunidade, do mesmo modo, passar para uma sociedade maior e mais elevada o que comunidades menores e inferiores podiam realizar, \u00e9 uma injusti\u00e7a.\u201d (n.\u00ba 186 do Comp\u00eandio da DSI). A DSI n\u00e3o \u00e9 apenas uma justifica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da \u00e9tica mas decorre muito mais do clamor do Outro.  A \u00e9tica crist\u00e3 foi tamb\u00e9m pioneira na utiliza\u00e7\u00e3o do termo globaliza\u00e7\u00e3o. A ideia que existia de que a tecnologia resolveria todos os problemas, e ficar\u00edamos todos em posi\u00e7\u00f5es similares \u00e9 hoje comprovadamente errada. \u00c9 preciso pensar globalmente para resolver os problemas do mundo e a mera exist\u00eancia do progresso tecnol\u00f3gico nada garante a esse respeito. Apesar da DSI, no seu modo sintetizado e compilado, ter partido da iniciativa dos Papas n\u00e3o significa que seja algo de recente nem que eles sejam o sujeito da DSI. Na verdade, a DSI existe desde o tempo de Jesus. \u00c9 d\u2019Ele, dos seus ensinamentos que surge toda essa doutrina, esse corpo amplo de saber inacabado acerca da defesa do valor do ser humano, da vida, do cosmos. Quanto ao sujeito da DSI, embora tenham sido os diversos Santos Padres que a foram completando e preenchendo, a \u00e9tica crist\u00e3 deve ser interpretada, recebida e posta em vigor por todos. Incumbe \u00e0 sociedade orientar-se pela liberdade, pela responsabilidade que a DSI apresenta como projecto de vida.  Ap\u00f3s esta exposi\u00e7\u00e3o da DSI como doutrina, o Prof. Pedro Teixeira come\u00e7ou por evidenciar a dificuldade existente em definir a DSI. Pode ser pensada como discurso da Igreja sobre a realidade humana ou como pensamento social cat\u00f3lico. Surgiu como urg\u00eancia mas poderia pensar-se como algo sup\u00e9rfluo j\u00e1 que apenas vem reafirmar o que j\u00e1 estava dito nos Evangelhos. No entanto, a DSI \u00e9 muito importante para ajudar a concretizar na realidade hist\u00f3rica essas verdades eternas dos Evangelhos. A DSI distingue-se do capitalismo liberal e do socialismo marxista. Ao n\u00edvel da cria\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, a Igreja n\u00e3o questiona o valor da propriedade privada mas n\u00e3o deixa desaparecer a desresponsabiliza\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios: \u201cA doutrina social requer que a propriedade dos bens seja equitativamente acess\u00edvel a todos, de modo que todos sejam, ao menos em certa medida, propriet\u00e1rios, e exclui o recurso a formas de \u201cdom\u00ednio comum e prom\u00edscuo\u201d.\u201d (n.\u00ba 176 do Comp\u00eandio da DSI). A subsidiariedade  foi tamb\u00e9m salientada pelo Prof. Pedro Teixeira como um princ\u00edpio importante que representa um caminho de s\u00edntese entre o primado do indiv\u00edduo e o primado do Estado.  Terminadas as interven\u00e7\u00f5es dos conferencistas convidados, o debate abriu-se ao p\u00fablico que partilhou d\u00favidas, experi\u00eancias e modos de pensar a DSI que muito contribu\u00edram para enriquecer este \u201cDi\u00e1logo&#8230;\u201d. A pr\u00f3xima sess\u00e3o deste ciclo de \u201cDi\u00e1logos\u2026\u201d ser\u00e1 no dia 16 de Novembro, pelas 18 horas na Faculdade de Direito da UP subordinado ao tema \u201cDar(-se)\u2026 na pol\u00edtica: uma utopia?\u201d. Ser\u00e3o intervenientes o Prof. Doutor Paulo Rangel (UCP) e o Prof. Doutor Paulo Adrag\u00e3o (FDUP).  <i>Secretariado Diocesano de Pastoral Universit\u00e1ria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio de mais um ano acad\u00e9mico, o Secretariado Diocesano da Pastoral Universit\u00e1ria no Porto retoma o ciclo de confer\u00eancias intitulado \u201cDi\u00e1logos\u2026\u201d. 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