{"id":210914,"date":"2021-06-25T09:00:28","date_gmt":"2021-06-25T08:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=210914"},"modified":"2021-06-24T12:56:30","modified_gmt":"2021-06-24T11:56:30","slug":"lusofonias-mia-couto-o-bebedor-de-horizontes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-mia-couto-o-bebedor-de-horizontes\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; Mia Couto, o bebedor de horizontes"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Tony Neves, em Lisboa<\/strong><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-Beira-MiaCouto2021.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-210916\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-Beira-MiaCouto2021.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-Beira-MiaCouto2021.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-Beira-MiaCouto2021-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-Beira-MiaCouto2021-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-Beira-MiaCouto2021-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-Beira-MiaCouto2021-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-Beira-MiaCouto2021-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Lusofonias-Beira-MiaCouto2021-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mia Couto \u00e9 um dos maiores escritores lus\u00f3fonos da atualidade. Nascido na Beira (Mo\u00e7ambique) e a viver e trabalhar no seu torr\u00e3o natal, este bi\u00f3logo n\u00e3o nos cansa de surpreender pela sua criatividade e mestria lingu\u00edstica, criando mesmo palavras novas. Dou um exemplo: num dos seus livros, o autor apresenta o conto do \u2018fintabolista\u2019, um futebolista que fintava muito bem! Esta hist\u00f3ria integra uma colect\u00e2nea que se chama \u2018Contos do nascer da terra\u2019. Ora, na nossa linguagem corrente, falamos do \u2018nascer do sol\u2019\u2026<\/p>\n<p>Mas voltemos \u00e0 trilogia \u2018As Areias do Imperador\u2019, atacando o terceiro livro, com o sugestivo t\u00edtulo: \u2018O Bebedor de Horizontes\u2019(2017). Fa\u00e7o mais recortes: \u2018Os soldados s\u00e3o como os ca\u00e7adores: as suas hist\u00f3rias t\u00eam pouco a ver com a realidade\u2019 (p.39); \u2018S\u00f3 h\u00e1 um crit\u00e9rio para medir a grandeza de um comandante: o modo como trata os vencidos\u2019 (p.45); \u2018A mais grave heran\u00e7a da guerra n\u00e3o s\u00e3o as feridas nem os escombros. A pior heran\u00e7a s\u00e3o os vencedores. Acreditam os vencedores que avit\u00f3ria os fez donos da terra e acham-se no direito de ser os seus vital\u00edcios governantes\u2019 (p.65); \u2018Vou para longe de mim, sem bagagem nem documentos. Mas levo comigo o meu filho, o princ\u00edpio da minha eternidade\u2019 (p.106); \u2018Envenenamos tantos po\u00e7os que acabamos matando a nossa pr\u00f3pria gente\u2019 (p.136); \u2018A coragem n\u00e3o mora no c\u00e9rebro. Emerge das entranhas\u2019 (p.144); \u2018Na nossa terra n\u00e3o se morre de um \u2019qu\u00ea\u2019. Morre-se de um \u2018quem\u2019. A morte n\u00e3o tem causa. Apenas culpado\u2019 (p.157); \u2018O amor move montanhas. Mas o desamor cria abismos\u2019 (p.168); \u2018As cartas de amor nunca dizem nada\u2019 (p.171); \u2018Nada se vende t\u00e3o caro como o sil\u00eancio\u2019 (p.172); \u2018O amor \u00e9 a mais passageira de todas as doen\u00e7as mortais\u2019 (p.172); \u2018Sucede sempre assim: os humilhados acabam por ficar iguais aos opressores\u2019 (p.174); \u2018Na arte de matar n\u00e3o evolu\u00edmos muito desde os tempos primitivos. A bala o que \u00e9 sen\u00e3o uma pequena pedra que aprendeu a voar?\u2019 (p.220); \u2018As fotos s\u00e3o como n\u00f3s, os sargentos: dizem o que lhes mandam dizer\u2019 (p.253); \u2018Algo de inesperado nos une na guerra, africanos e europeus: do outro lado do mar, na terra distante em que nascemos, todos nos julgam mortos\u2019 (p.257); \u2018Todas as m\u00e3es que perderam os filhos s\u00e3o sepultadas por dentro\u2019 (p.258); \u2018Os filhos dos chefes s\u00e3o quase sempre insuport\u00e1veis: o que lhes falta em maturidade sobra-lhes em arrog\u00e2ncia\u2019 (p.263); \u2018O grande rei n\u00e3o \u00e9 o que conduz o seu povo na guerra mas o que afasta a guerra para longe do seu povo\u2019 (p.311); \u2018Os ausentes servem para isso mesmo: para serem convertidos em hist\u00f3rias\u2019 (p.323); \u2018Ali (S. Tom\u00e9) nos ocupamos com o que j\u00e1 antes faz\u00edamos: absolutamente nada\u2019 (p.332); \u2018Sou negra, \u00e9 verdade. Mas entro e saio da minha ra\u00e7a quando quero\u2019 (p.356);\u2018Na minha idade tudo \u00e9 pesado, a come\u00e7ar pelos meus pr\u00f3prios bra\u00e7os\u2019 (p.366).<\/p>\n<p>\u2018O universo num gr\u00e3o de areia\u2019 \u00e9 um regresso a um estilo j\u00e1 antes usado por Mia Couto. Faz muitas confer\u00eancias por esse mundo al\u00e9m, escreve artigos para jornais e revistas. Ao fim de algum tempo, h\u00e1 muitas ideias dispersas que faz sentido juntar. Assim nasceu mais um livro, publicado em 2019. \u00c9 uma colect\u00e2nea de 27 interven\u00e7\u00f5es deste escritor mo\u00e7ambicano, todas elas publicadas ou proferidas recentemente. Como explica a introdu\u00e7\u00e3o, o livro aborda \u2018temas que v\u00e3o da pol\u00edtica \u00e0 literatura, da cultura \u00e0 antropologia e \u00e0 biologia\u2019. Fiz alguns recortes. Cito hoje s\u00f3 o artigo que publicou no jornal \u2018The Times\u2019 (Londres) com o t\u00edtulo \u2018Uma segunda alma\u2019. Mia Couto conta a trag\u00e9dia do ciclone de 1962 em paralelo com o que vitimou a sua cidade da Beira em 2018. Na visita que ali fez, andou \u00e0 procura \u2018de um her\u00f3i, de algu\u00e9m que assegure que h\u00e1 gentes neste mundo cujo \u00fanico poder \u00e9 serem generosas\u2019 (p.15). Beira ficou destru\u00edda, mas quando as televis\u00f5es se esquecerem, tudo regressar\u00e1 ao mesmo de sempre. At\u00e9 a tristeza, hoje, se tornou descart\u00e1vel\u2019 (p.16).<\/p>\n<p>Muito mais conta o escritor-bi\u00f3logo nesta colect\u00e2nea, mas os restantes 24 textos merecem mais espa\u00e7o. Se \u00e9 verdade que o universo \u00e9 feito de bili\u00f5es de gr\u00e3os de areia, ele est\u00e1 todo em cada um destes min\u00fasculos gr\u00e3os. Voltaremos a Mia Couto.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-210914-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/lusofonias-MiaCouto2-25-06-2021.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/lusofonias-MiaCouto2-25-06-2021.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/lusofonias-MiaCouto2-25-06-2021.mp3<\/a><\/audio>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, em Lisboa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":114253,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-210914","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/210914","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=210914"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/210914\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=210914"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=210914"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=210914"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}