{"id":210641,"date":"2021-06-21T11:42:58","date_gmt":"2021-06-21T10:42:58","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=210641"},"modified":"2021-06-21T11:43:43","modified_gmt":"2021-06-21T10:43:43","slug":"as-festas-populares-na-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-festas-populares-na-igreja\/","title":{"rendered":"As Festas Populares na Igreja"},"content":{"rendered":"<p><em>Rui Ferreira, Arquidiocese de Braga<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_210644\" aria-describedby=\"caption-attachment-210644\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fotografias-hugo-delgado.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-210644 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fotografias-hugo-delgado.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fotografias-hugo-delgado.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fotografias-hugo-delgado-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fotografias-hugo-delgado-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fotografias-hugo-delgado-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fotografias-hugo-delgado-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fotografias-hugo-delgado-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fotografias-hugo-delgado-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-210644\" class=\"wp-caption-text\">Romagem \u00e0 Capela de S\u00e3o Jo\u00e3o da Ponte durante as Festas de S\u00e3o Jo\u00e3o em Braga [Hugo Delgado, 2014]<\/figcaption><\/figure>1 \u2013 Junho \u00e9 um m\u00eas especialmente devotado \u00e0s festas dos santos populares: Santo Ant\u00f3nio, S\u00e3o Jo\u00e3o e S\u00e3o Pedro. Apesar da longeva tradi\u00e7\u00e3o atribu\u00edda a cada um destes folguedos, cada um deles se apresenta com fundamentos e cronologias muito distintas. Est\u00e3o, no entanto, irmanados indiscutivelmente na sua forma e expressividade. Junho \u00e9 o m\u00eas do solst\u00edcio de ver\u00e3o, o per\u00edodo do calend\u00e1rio em que a Europa celebra o seu dia mais longo, mesmo antes do Cristianismo absorver esse costume. Tempo favor\u00e1vel para perduradas vig\u00edlias, privilegiava-se o conv\u00edvio, a festa e a exulta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o admira, pois, que os santos mais populares do devocion\u00e1rio crist\u00e3o vissem a sua celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica coincidir com este especial per\u00edodo do calend\u00e1rio anual.<\/p>\n<p>2 \u2013 A mais ancestral festividade \u00e9 a de S\u00e3o Jo\u00e3o Baptista, e do seu prodigioso nascimento, santo fundamental na onom\u00e1stica evang\u00e9lica e, por conseguinte, na Igreja nascente. Seguiu-se S\u00e3o Pedro, o primeiro Papa e refer\u00eancia fundamental de autoridade e evangeliza\u00e7\u00e3o para os primeiros crist\u00e3os. Por \u00faltimo apareceu o franciscano portugu\u00eas Santo Ant\u00f3nio, que goza de uma singular popularidade advinda da sua excecional dota\u00e7\u00e3o taumaturga. Cada um destes oragos est\u00e1 devidamente impresso nas din\u00e2micas comunit\u00e1rias das localidades portuguesas. A sua relev\u00e2ncia pode ser inferida atrav\u00e9s dos feriados municipais, que refletem a preced\u00eancia de cada um dos cultos. S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 o primeiro com 34 feriados municipais, seguindo-se S\u00e3o Pedro com 17 e, por fim, Santo Ant\u00f3nio com 14 ocorr\u00eancias.<\/p>\n<p>3 \u2013 As festas populares realizadas no decorrer do m\u00eas de junho det\u00eam caracter\u00edsticas que as diferenciam das demais festividades do calend\u00e1rio crist\u00e3o. A exterioriza\u00e7\u00e3o excessiva concretizada em manifesta\u00e7\u00f5es de g\u00e1udio cont\u00ednuo, e sua expressividade comunit\u00e1ria, \u00e9 o mais significativo tra\u00e7o distintivo, por\u00e9m a sua extens\u00e3o vespertina encontra fundamento num imagin\u00e1rio que ainda hoje \u00e9 a base de outras manifesta\u00e7\u00f5es da religiosidade popular, inclusive no nosso pa\u00eds. Por isso mesmo, esta natureza convivial n\u00e3o deixa de se constituir como o principal momento de corporiza\u00e7\u00e3o das designadas festividades populares, dado que corresponde ao tempo dos afetos e da comunidade, desprovido de qualquer pretens\u00e3o tur\u00edstica, econ\u00f3mica ou cultural preliminar.<\/p>\n<p>4 &#8211; A festa \u00e9 sempre um acontecimento que, para se afirmar com tal estatuto, necessita de rasgar com o conceito de normalidade imposto pelo quotidiano. A exterioriza\u00e7\u00e3o \u00e9, por isso mesmo, uma das carater\u00edsticas fundamentais da festa. N\u00e3o h\u00e1 festa sem que os moldes habituais sejam transgredidos, sem que os padr\u00f5es de conviv\u00eancia comunit\u00e1ria sejam rasgados ou sem que o sistema geral de comunica\u00e7\u00f5es extravase para um n\u00edvel excessivo Na opini\u00e3o de Mircea Eliade, a festa significa, na sua origem, constitui-se como uma esp\u00e9cie de intervalo no tempo hist\u00f3rico, para permitir que os humanos possam participar no tempo divino<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Esta origem eminentemente religiosa das festas, n\u00e3o deixa de rasgar com o habitual paradoxo entre o profano e religioso, tantas vezes exposto nas teorias constru\u00eddas sobre as festas. Como sabemos a quest\u00e3o da religiosidade n\u00e3o \u00e9 consensual, muito menos o seu aprofundamento seja no \u00e2mbito eclesial ou num contexto acad\u00e9mico. Afinal, a festa \u00e9 um acontecimento profano ou religioso?<\/p>\n<p>5 \u2013 Recuemos at\u00e9 ao Conc\u00edlio de Trento, momento hist\u00f3rico fundamental para a evolu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas e manifesta\u00e7\u00f5es da religiosidade popular, mormente no \u00e2mbito da devo\u00e7\u00e3o aos santos. Obedecendo ao especial clima de religiosidade fomentado pela reforma tridentina, foi impressa uma nova din\u00e2mica \u00e0s pr\u00e1ticas promovidas pelas comunidades crist\u00e3s, nomeadamente ao n\u00edvel das manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de f\u00e9 e devo\u00e7\u00e3o. A valoriza\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o espiritual e da religiosidade na experi\u00eancia do crist\u00e3o acabou por funcionar como fen\u00f3meno propulsor de cerimoniais p\u00fablicos \u2013 onde se enquadrou, por exemplo, as prociss\u00f5es &#8211; contribuindo para o surgimento e crescimento dos folguedos que j\u00e1 integravam o calend\u00e1rio crist\u00e3o. Emparelhado aos atos eminentemente religiosos surgiriam os demais momentos da confraterniza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. S\u00f3 mais tarde surgiria a tens\u00e3o entre o profano e o sagrado.<\/p>\n<p>6 \u2013 Ainda hoje as festas populares s\u00e3o a express\u00e3o mais evidente desse antagonismo, especialmente as que s\u00e3o celebradas durante o m\u00eas de junho, nas quais o que denominamos de profano se mistura com aquilo que entendemos por sagrado. Perante estas d\u00favidas e am\u00e1lgamas, como deve a Igreja intervir? Limitar as festividades apenas \u00e0s novenas, eucaristias e prociss\u00f5es, buscando a exclus\u00e3o dos elementos mais gentios? Ou procurando uma renovada leitura da realidade, na qual a perce\u00e7\u00e3o plena do ser humano se enquadre numa antropologia mais l\u00facida? A este prop\u00f3sito, em 2004, a Arquidiocese de Braga publicou um conjunto de orienta\u00e7\u00f5es pastorais sobre festas religiosas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Considerando que as festas \u201cfazem parte da exist\u00eancia humana e constituem uma das formas de viver e manifestar publicamente a f\u00e9\u201d, apelava-se a uma crescente \u201cdignifica\u00e7\u00e3o\u201d das festas, evitando \u201cdivis\u00f5es na comunidade\u201d e \u201cesbanjamento de dinheiro\u201d, entre outras problem\u00e1ticas advindas precisamente dessa fronteira delineada entre profano e sagrado, pag\u00e3o e religioso.<\/p>\n<p>7 \u2013 As festas populares surgiram e desenvolveram-se em torno de uma determinada evoca\u00e7\u00e3o de cariz hagiogr\u00e1fico. Talvez at\u00e9 aos dias de hoje se constituam como momento primordial de expans\u00e3o de confraterniza\u00e7\u00f5es e afetos t\u00e3o necess\u00e1rios para o ser humano, cuja oportunidade eram os preceitos concedidos pelos oragos. Ao santo se associava, pois, o j\u00fabilo, a harmonia com a comunidade e, at\u00e9, os amores. Poder\u00e1 haver maiores evid\u00eancias de vida crist\u00e3? Neste tempo em que a pandemia nos obrigou a um demorado intervalo no quotidiano, que se estendeu tamb\u00e9m \u00e0s t\u00e3o aguardadas festas populares, seria certamente oportuna uma alargada reflex\u00e3o eclesial sobre as festas populares e o papel da Igreja na realiza\u00e7\u00e3o das mesmas.<\/p>\n<p><em><strong>Rui Ferreira<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> ELIADE, Mircea \u2013 O Sagrado e o Profano. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes Editora, 1992, p.47.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/orientacoes-pastorais-sobre-festas-religiosas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/orientacoes-pastorais-sobre-festas-religiosas\/<\/a> (Visto em 20\/06\/2021).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Ferreira, Arquidiocese de Braga<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":186439,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-210641","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/210641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=210641"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/210641\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/186439"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=210641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=210641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=210641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}