{"id":21062,"date":"2006-11-10T11:00:51","date_gmt":"2006-11-10T11:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/11\/10\/nao-se-deve-diabolizar-a-institucionalizacao\/"},"modified":"2006-11-10T11:00:51","modified_gmt":"2006-11-10T11:00:51","slug":"nao-se-deve-diabolizar-a-institucionalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nao-se-deve-diabolizar-a-institucionalizacao\/","title":{"rendered":"<i>N\u00e3o se deve diabolizar a institucionaliza\u00e7\u00e3o<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Armando Leandro, presidente da Comiss\u00e3o Nacional de Protec\u00e7\u00e3o de Crian\u00e7as e Jovens em risco <!--more--> Em entrevista ao mens\u00e1rio \u201cSolidariedade\u201d, da CNIS, Armando Leandro defende uma nova cultura da inf\u00e2ncia em que a pr\u00f3pria crian\u00e7a tenha uma interven\u00e7\u00e3o activa; defende a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es \u201cmais pequenas e mais familiares que permitam um tratamento mais individualizado da crian\u00e7a\u201d; defende a \u201cresponsabilidade parental\u201d em vez do \u201cpoder paternal\u201d. Afirma que Portugal n\u00e3o tem mais casos de maus-tratos a crian\u00e7as do que o resto da Europa mas os casos extremos tornaram-nos mais vis\u00edveis.  <i>SOLIDARIEDADE \u2013 No passado m\u00eas de Setembro fez um ano que assumiu fun\u00e7\u00f5es \u00e0 frente da Comiss\u00e3o Nacional de Protec\u00e7\u00e3o de Crian\u00e7as e Jovens em Risco. Que balan\u00e7o faz do trabalho desenvolvido?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Fa\u00e7o um balan\u00e7o muito positivo. O grande m\u00e9rito est\u00e1 nas pessoas que trabalham nas diversas comiss\u00f5es que n\u00e3o desistiram, apesar todas as dificuldades, do efeito p\u00fablico culpabilizante, nalguns casos infelizes, e que assumiram o seu papel como representantes de cada uma das comunidades com o intuito de que \u00e9 indispens\u00e1vel constitu\u00edrem-se como elementos important\u00edssimos para radicarem uma nova cultura da inf\u00e2ncia e da juventude, centrada n\u00e3o numa vis\u00e3o existencialista, mas numa vis\u00e3o dos direitos fundamentais da crian\u00e7a e do jovem, como titulares de uma cidadania plena do ponto de vista do outro.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 Para si, que lidou com \u00e1reas mais ligadas \u00e0 justi\u00e7a e menos ao campo social, esta \u00e9 uma experi\u00eancia que, ao fim de um ano, tem sido gratificante?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Tem sido gratificante e tem sido orientada por uma esperan\u00e7a de que s\u00e3o poss\u00edveis progressos n\u00edtidos mais r\u00e1pidos nesta \u00e1rea, principalmente na mobiliza\u00e7\u00e3o do Estado e da comunidade em geral. Tenho alguma experi\u00eancia na medida em que fui juiz de menores e de fam\u00edlia, tenho tamb\u00e9m trabalhado com associa\u00e7\u00f5es que interv\u00eam nesta \u00e1rea. Esta tem sido para mim uma aprendizagem feliz, \u00e0s vezes dif\u00edcil, mas na qual ponho esperan\u00e7a. Naturalmente que a minha interven\u00e7\u00e3o \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o modesta, mas acredito que \u00e9 poss\u00edvel radicar a cultura da inf\u00e2ncia, numa \u00e9tica da discuss\u00e3o, ou seja, ultrapassarmos a nossa vis\u00e3o apenas subjectiva por um paradigma em que sejamos capazes de p\u00f4r lealmente as nossas capacidades argumentativas a favor de um progresso no pensamento e na ac\u00e7\u00e3o para assim conseguirmos solu\u00e7\u00f5es de consenso s\u00e9rias e que correspondam \u00e0 actividade. Tamb\u00e9m uma \u00e9tica da qualidade, de servi\u00e7o e n\u00e3o de poder. \u00c9 interessante como nesta \u00e1rea \u00e9 f\u00e1cil evitar a partidariza\u00e7\u00e3o, embora haja essa tenta\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 qual se foge facilmente porque est\u00e1 em causa algo muito essencial ao nosso futuro.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 A Comiss\u00e3o sempre sofreu de falta de meios. O governo prometeu ajudar. \u00c9 o que est\u00e1 a acontecer?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Vem acontecendo. H\u00e1 realmente um plano estrat\u00e9gico de interven\u00e7\u00e3o relativamente \u00e0 inf\u00e2ncia e \u00e0 juventude, com a inten\u00e7\u00e3o j\u00e1 anunciada pelo Executivo, de elaborar um plano transversal para uma pol\u00edtica integrada da inf\u00e2ncia e da juventude. T\u00eam-se registado melhorias quanto aos meios dispon\u00edveis para as comiss\u00f5es de protec\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens. Existe uma tentativa de sensibilizar todas as entidades representadas na comiss\u00f5es &#8211; munic\u00edpios, centros de sa\u00fade, entidades ligadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es particulares de solidariedade social \u2013 por forma a indicarem pessoas com perfil para o exerc\u00edcio dessas fun\u00e7\u00f5es e reiterarem o car\u00e1cter priorit\u00e1rio das mesmas, o que ainda n\u00e3o est\u00e1 conseguido. Est\u00e3o tamb\u00e9m prestes a iniciar as fun\u00e7\u00f5es 128 t\u00e9cnicos que foram contratados para refor\u00e7o t\u00e9cnico das comiss\u00f5es. Al\u00e9m disso, h\u00e1 um protocolo celebrado entre a Seguran\u00e7a Social e o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, em que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o rev\u00ea a forma de liga\u00e7\u00e3o com as comiss\u00f5es. Assim, at\u00e9 150 processos h\u00e1 um professor, como j\u00e1 havia, mas com disponibilidade para integrar sempre a modalidade de tutor. O tutor \u00e9 uma figura que j\u00e1 consta da legisla\u00e7\u00e3o e que tem sido pouco desenvolvida, mas que vai s\u00ea-lo de forma determinante. Tem sido feito um trabalho excelente no sentido de intervir junto dos agrupamentos educativos para que haja a preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria de situa\u00e7\u00f5es de abandono, insucesso escolar e que, por outro lado, detectem aqueles casos de perigo e assim actuar-se atrav\u00e9s da escola como uma primeira linha de interven\u00e7\u00e3o.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 Tem sido um defensor da necessidade do refor\u00e7o dos agentes policiais envolvidos nas comiss\u00f5es.  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Sim, embora tamb\u00e9m se registem aspectos positivos nessa \u00e1rea. H\u00e1 quase generalizadamente uma interven\u00e7\u00e3o de muito relevo das actividades policiais. S\u00e3o agentes de muita import\u00e2ncia nas comiss\u00f5es com um sentido de interven\u00e7\u00e3o social muito acentuado e que d\u00e3o suporte a determinadas ac\u00e7\u00f5es, nomeadamente, em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia. Outro elemento, que tamb\u00e9m ser\u00e1 modificado, diz respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o, que neste momento j\u00e1 est\u00e1 a decorrer. A Comiss\u00e3o Nacional formou 76 formadores que constitu\u00edram n\u00facleos distritais e que v\u00e3o a todas as comiss\u00f5es divulgar os conceitos b\u00e1sicos, a miss\u00e3o, os valores, os princ\u00edpios, as estrat\u00e9gias e as ac\u00e7\u00f5es que importa desenvolver, refor\u00e7ando a compet\u00eancia das mesmas.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 H\u00e1 uma ideia generalizada de existem cada vez mais casos de viol\u00eancia sobre as crian\u00e7as. \u00c9 de facto uma ideia verdadeira, ou o que existe \u00e9 uma maior mediatiza\u00e7\u00e3o e den\u00fancia dessas situa\u00e7\u00f5es?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Pessoalmente estou convencido de que n\u00e3o existem mais casos, mas \u00e9 evidente que os contextos sociais complexos s\u00e3o prop\u00edcios a que eles aconte\u00e7am. O que acontece \u00e9 que eles s\u00e3o mais denunciados, porque cada vez mais h\u00e1 a no\u00e7\u00e3o colectiva acentuada da inadmissibilidade da viola\u00e7\u00e3o dos direitos das crian\u00e7as. H\u00e1 tamb\u00e9m os casos medi\u00e1ticos, que todos n\u00f3s conhecemos e que alertaram ainda mais para a gravidade de algumas viola\u00e7\u00f5es de direitos das crian\u00e7as e que sensibilizaram a opini\u00e3o p\u00fablica para este tema. O facto de haver mediatiza\u00e7\u00e3o dos casos n\u00e3o \u00e9 mau, o que \u00e9 mau \u00e9 que n\u00e3o se respeite a disposi\u00e7\u00e3o legal de que n\u00e3o se pode identificar a crian\u00e7a e a fam\u00edlia.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 Em termos estat\u00edsticos como \u00e9 que Portugal est\u00e1 posicionado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e ao Mundo?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> N\u00f3s n\u00e3o temos mais casos do que a maioria dos pa\u00edses, mas temos muitas defici\u00eancias no m\u00e9todo de elabora\u00e7\u00e3o das estat\u00edsticas. Por exemplo, considera-se como causa indeterminada de morte, a morte por via dos maus-tratos, o que \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o perfeitamente abusiva e que nos coloca indevidamente num lugar que n\u00e3o \u00e9 o nosso. Claro que devemos ter o cuidado, e j\u00e1 h\u00e1 estudos da Direc\u00e7\u00e3o-geral de Sa\u00fade, em adaptar as nossas estat\u00edsticas \u00e0 realidade para que n\u00e3o possa haver extrapola\u00e7\u00f5es.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 Enquanto especialista nestas mat\u00e9rias, fala muito numa nova cultura da inf\u00e2ncia. A que \u00e9 que se refere em concreto?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Na nova cultura da inf\u00e2ncia um dos agentes principais \u00e9 a pr\u00f3pria crian\u00e7a. Uma das evolu\u00e7\u00f5es muito positivas que se verificaram \u00e9 o reconhecimento atrav\u00e9s da ci\u00eancia e da investiga\u00e7\u00e3o de que a crian\u00e7a \u00e9 um ser interactivo desde a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o, que merece um respeito absoluto. A ideia de que a crian\u00e7a era um ser passivo, mold\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 verdadeira. O aprofundamento dos direitos das crian\u00e7as n\u00e3o est\u00e1 ainda suficientemente feito. Fal\u00e1mos muito da falta de consci\u00eancia dos deveres, mas a meu ver, esta ser\u00e1 tanto mais profunda quando mais profunda houver a consci\u00eancia dos direitos. As crian\u00e7as devem ser educadas e preparadas para saberem identificar o abuso dos seus direitos, de acordo com o seu grau de maturidade. Era indispens\u00e1vel aprofundar a educa\u00e7\u00e3o para a afectividade que tamb\u00e9m envolve a vida sexual e, por outro lado, ter servi\u00e7os para melhorar as respostas de media\u00e7\u00e3o familiar, como, por exemplo atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o parental. \u00c9 necess\u00e1rio que haja na comunidade servi\u00e7os e institui\u00e7\u00f5es que o possam fazer de forma generalizada e as institui\u00e7\u00f5es particulares de solidariedade social t\u00eam um papel important\u00edssimo neste aspecto da cultura e da ac\u00e7\u00e3o. Existem progressos n\u00edtidos no pensamento e na ac\u00e7\u00e3o, mas a grande dificuldade e o grande desafio \u00e9 a generaliza\u00e7\u00e3o dessa qualidade, colocando-a ao servi\u00e7o da crian\u00e7a onde quer que ela se encontre.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 Outra das ideias que defende \u00e9 a de que s\u00f3 se deve recorrer \u00e0 institucionaliza\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a em \u00faltimo recurso.  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> N\u00e3o devemos diabolizar a institucionaliza\u00e7\u00e3o. Ainda n\u00e3o conseguimos, como comunidade, garantir a todas as crian\u00e7as o direito a uma fam\u00edlia capaz de am\u00e1-la, logo a institucionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda necess\u00e1ria, no entanto, deve ser cada vez menor. Um dos grandes perigos \u00e9 a institucionaliza\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria e a n\u00e3o desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o segura. Apesar do respeito por todas as institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam prestado servi\u00e7o nesta \u00e1rea, \u00e9 necess\u00e1rio mudar e h\u00e1 planos nesse sentido, designadamente atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es mais pequenas e mais familiares que permitam um tratamento mais individualizado da crian\u00e7a. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio mais apoio \u00e0s fam\u00edlias para que haja a desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o tanto quanto poss\u00edvel e a necessidade do apetrechamento t\u00e9cnico das institui\u00e7\u00f5es que, muitas vezes, n\u00e3o t\u00eam o apetrechamento t\u00e9cnico necess\u00e1rio.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 Nota-se, nessa \u00e1rea, alguma diferen\u00e7a consider\u00e1vel entre as institui\u00e7\u00f5es do Estado e as institui\u00e7\u00f5es particulares?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Todas t\u00eam problemas, sobretudo com as crian\u00e7as dos 12 aos 18 anos, onde h\u00e1 grandes dificuldades de comportamento perante as quais as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam capacidade de responder convenientemente. Aqui, embora o Estado tenha o seu papel de exemplo, a verdade \u00e9 que o grande capital \u00e9 o das institui\u00e7\u00f5es particulares de solidariedade social.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 As comiss\u00f5es de protec\u00e7\u00e3o que est\u00e3o disseminadas pelo pa\u00eds todo s\u00e3o a forma mais adequada de lidar com situa\u00e7\u00f5es de risco?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Na minha perspectiva sim, mas no plano de interven\u00e7\u00e3o que lhes compete. Em primeira inst\u00e2ncia devem intervir as fam\u00edlias e as entidades com compet\u00eancia em mat\u00e9ria de inf\u00e2ncia e de juventude, porque est\u00e3o mais pr\u00f3ximas e podem intervir com menos risco de estigmatiza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 depois \u00e9 que devem intervir as comiss\u00f5es que s\u00e3o emana\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria comunidade, que deve assumir a responsabilidade pelas suas crian\u00e7as e pelos seus jovens. \u00c9 um sistema que se baseia no localismo e na co-responsabilidade do Estado. A comiss\u00e3o \u00e9 mais um elemento para que a comunidade tenha uma identidade forte, n\u00e3o autista, o que numa sociedade globalizada \u00e9 cada vez mais essencial. Hoje o progresso econ\u00f3mico depende do capital social, mas n\u00e3o actua sozinho. A rede social, por exemplo, \u00e9 certamente um parceiro importante. Tem que haver parceria e o grande desafio est\u00e1 na articula\u00e7\u00e3o dessas parcerias. A Comiss\u00e3o Nacional est\u00e1 muito interessada nesta problem\u00e1tica e apresentou nos encontros nacionais uma exposi\u00e7\u00e3o de um investigador universit\u00e1rio nesta \u00e1rea, o Prof. Jos\u00e9 Ornelas. Vamos tentar fazer um manual de organiza\u00e7\u00e3o de parcerias para articular a ac\u00e7\u00e3o, numa pol\u00edtica integrada ao n\u00edvel, local, regional e central, que assegure a continuidade do acompanhamento para n\u00e3o haver duplicidade de fun\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o contra o princ\u00edpio da interven\u00e7\u00e3o m\u00ednima e que afectam o direito \u00e0 intimidade que as fam\u00edlias t\u00eam e que, por outro lado, representam desperd\u00edcio de meios.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 Estas crian\u00e7as que morreram \u00e0s m\u00e3os dos pais, cujos processos se perderam nos meandros da burocracia de relacionamento entre comiss\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es e o direito da fam\u00edlia, podem ser vistas como m\u00e1rtires pela causa de uma nova era em que o direito da crian\u00e7a \u00e9 o mais importante?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Eu n\u00e3o gostaria de as ver como m\u00e1rtires, infelizmente existem esses casos que chocam as nossas consci\u00eancias, sinal de que h\u00e1 a sensibilidade para este problema e podem ser o est\u00edmulo a que n\u00e3o se repitam.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 Existe ainda um pouco a ideia generalizada no povo portugu\u00eas que os pais s\u00e3o os donos dos filhos e que podem inclusivamente educ\u00e1-los recorrendo \u00e0 viol\u00eancia\u2026  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> Isto est\u00e1 agora bastante mais ultrapassado, mas n\u00e3o suficientemente ultrapassado. A ideia do poder paternal como uma responsabilidade n\u00e3o est\u00e1 ainda suficientemente generalizada. \u00c9 uma responsabilidade que n\u00e3o exige reciprocidade, que n\u00e3o olha aos actos isolados, mas sim \u00e0 pessoa e ao seu desenvolvimento, que n\u00e3o se preocupa s\u00f3 com uma gera\u00e7\u00e3o mas com todas as gera\u00e7\u00f5es, tal como acontece com a humanidade inteira. Esse sentido da responsabilidade parental, que nem se deveria chamar \u201cpoder paternal\u201d, mas sim \u201cresponsabilidade parental\u201d, como j\u00e1 acontece nalguns pa\u00edses da Europa. No entanto, apesar de chamar-lhe poder paternal a nossa lei est\u00e1 actualizada, pois concebe o poder paternal como um conjunto de deveres atribu\u00eddos aos pais na zela\u00e7\u00e3o do interesse dos filhos.   <i>SOLIDARIEDADE \u2013 Considera que o processo de adop\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as que ainda \u00e9 demasiado complicado?  ARMANDO LEANDRO &#8211;<\/i> No aspecto legal avan\u00e7ou-se muito. Hoje h\u00e1 instrumentos legais que permitem que as crian\u00e7as sejam adoptadas muito mais rapidamente. A ideia da responsabilidade parental est\u00e1 muito intensificada. Desde a primeira lei da adop\u00e7\u00e3o em que s\u00f3 podiam ser adoptadas crian\u00e7as sem pais por pais sem filhos j\u00e1 se avan\u00e7ou muito. Outro exemplo, \u00e9 o do desinteresse dos pais, que antes era preciso que fosse manifestado durante um ano e hoje est\u00e1 apenas nos tr\u00eas meses. Inclusivamente pode ser por raz\u00f5es objectivas, mesmo de sa\u00fade mental. Os processos burocr\u00e1ticos e administrativos est\u00e3o a evoluir positivamente, embora ainda sem a rapidez e a perfei\u00e7\u00e3o desej\u00e1veis. H\u00e1 v\u00e1rios problemas. Em primeiro lugar h\u00e1 necessidade de um trabalho precoce e s\u00e9rio com as fam\u00edlias. E quando as fam\u00edlias n\u00e3o est\u00e3o a exercer convenientemente as suas fun\u00e7\u00f5es tem de haver a protec\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, o diagn\u00f3stico interdisciplinar adequado e um investimento s\u00e9rio para que, em tempo \u00fatil, as fam\u00edlias possam recuperar a sua fun\u00e7\u00e3o parental. Se fizermos isto bem e depressa, responsabilizando os pais, mas dando-lhes ajuda, estamos mais \u00e0 vontade para tomar outras medidas quando eles n\u00e3o podem ou n\u00e3o querem ultrapassar a situa\u00e7\u00e3o. Depois, \u00e9 necess\u00e1rio aprofundar a cultura da adop\u00e7\u00e3o para que ela seja aceite com facilidade na nossa sociedade. J\u00e1 o \u00e9 muito mais do que era, mas \u00e9 indispens\u00e1vel que os casais adoptantes aumentem a sua disponibilidade relativamente \u00e0s crian\u00e7as com mais idade, com algumas defici\u00eancias, de outras etnias. \u00c9 \u00f3bvio e n\u00e3o podemos criticar os casais que querem crian\u00e7as pequeninas, com a mesma tez, sem grandes complica\u00e7\u00f5es, \u00e9 humano e natural. O problema que se p\u00f5e \u00e9 este: n\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7as suficientes com estas caracter\u00edsticas. Basta pensarmos que das crian\u00e7as que est\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es, dois ter\u00e7os tem mais de 12 anos. Essas crian\u00e7as s\u00f3 mais dificilmente ser\u00e3o adoptadas, embora n\u00e3o seja imposs\u00edvel a sua adop\u00e7\u00e3o e temos que caminhar cada vez mais para a possibilidade de adop\u00e7\u00f5es nessas idades.   <i>Texto: V.M. Pinto e Milene C\u00e2mara<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armando Leandro, presidente da Comiss\u00e3o Nacional de Protec\u00e7\u00e3o de Crian\u00e7as e Jovens em risco<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[133,154,193,203,206,261,312,314,316],"class_list":["post-21062","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-cnis","tag-crianca","tag-educacao","tag-europa","tag-familia","tag-missoes","tag-snec","tag-solidariedade","tag-terco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21062","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21062"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21062\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21062"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21062"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21062"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}