{"id":210235,"date":"2021-06-16T11:07:21","date_gmt":"2021-06-16T10:07:21","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=210235"},"modified":"2021-06-16T11:07:21","modified_gmt":"2021-06-16T10:07:21","slug":"saber-aprender-a-conhecer-a-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-conhecer-a-realidade\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A conhecer a realidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A liga\u00e7\u00e3o que temos com o ambiente \u00e0 nossa volta \u00e9 mais forte e \u00edntima do que pensamos. Se estivermos rodeados por um ambiente degradado ficamos deprimidos, ao passo que se o ambiente estiver cuidado, repleto de beleza e sorrisos, sentimo-nos bem e seguros. Talvez o ambiente \u00e0 nossa volta seja, tamb\u00e9m, uma express\u00e3o do estado de esp\u00edrito que vivemos dentro de n\u00f3s, como indiv\u00edduos e em sociedade, tornando a <em>percep\u00e7\u00e3o humana<\/em> uma das bases para aprendermos a conhecer a realidade. Que percep\u00e7\u00e3o temos de quanto o nosso interior \u00e9 capaz de transformar o exterior? A nossa percep\u00e7\u00e3o das coisas depende da percep\u00e7\u00e3o dos outros? H\u00e1 pessoas que confundem a sua percep\u00e7\u00e3o das coisas com a autoridade que pensam ter sobre determinados assuntos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_210236\" aria-describedby=\"caption-attachment-210236\" style=\"width: 432px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/perception.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-210236 \" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/perception-1024x822.jpg\" alt=\"\" width=\"432\" height=\"347\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/perception-1024x822.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/perception-324x260.jpg 324w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/perception-768x616.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/perception-1080x867.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/perception-980x786.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/perception-480x385.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/perception.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-210236\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Mathilda Khoo em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando lemos algo impresso numa p\u00e1gina (de livro, jornal, ou revista), confiamos na sua veracidade e o conte\u00fado exerce autoridade sobre a nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade. Mas se algu\u00e9m nos disser o mesmo que est\u00e1 escrito nessa p\u00e1gina sem o sabermos, a autoridade que tem sobre n\u00f3s n\u00e3o parece ser a mesma. Por isso, a liga\u00e7\u00e3o que estabelecemos com a realidade atrav\u00e9s do meio exterior, isto \u00e9, pelo que lemos com os nossos olhos ou ouvimos da boca dos outros, afecta a percep\u00e7\u00e3o das coisas e pode dificultar o acolhimento da aprendizagem que precisamos viver para avaliar qu\u00e3o real \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o. De facto, aprendemos mais sobre a nossa percep\u00e7\u00e3o das coisas pela <em>experi\u00eancia pr\u00f3pria<\/em> do que pela autoridade alheia. Por\u00e9m, muitas vezes invoca-se mais a autoridade para ir ao encontro da percep\u00e7\u00e3o das pessoas, do que se proporciona a experi\u00eancia para que vivam a realidade na primeira pessoa. E uma das experi\u00eancias mais fundamentais para desenvolver a nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 a curiosidade.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a que n\u00e3o tem curiosidade por coisa alguma \u00e9 estranho. E se aceitarmos que a curiosidade \u00e9 uma experi\u00eancia fundamental para trabalhar a percep\u00e7\u00e3o humana da realidade, n\u00e3o admira que uma crian\u00e7a explore tudo e mais alguma coisa, arriscando. N\u00e3o deixar de ser curioso como a escola parece murchar a curiosidade de uma crian\u00e7a. Com o passar do tempo e o aumento do conhecimento que pensamos ter da realidade, em vez das experi\u00eancias estimularem a curiosidade, aparentemente, estimulam a resist\u00eancia. Depois, justificamos a menor ousadia com a prud\u00eancia e esquecemos, gradualmente, que as experi\u00eancias que a curiosidade desperta s\u00e3o, tamb\u00e9m, interiores. Nesse sentido, as percep\u00e7\u00f5es da realidade n\u00e3o prov\u00eam s\u00f3 do que est\u00e1 \u00e0 nossa volta, mas partem, tamb\u00e9m, do nosso interior que pode fechar-se sobre si mesmo ou abrir-se.<\/p>\n<p>Um colega meu, numa entrevista para a televis\u00e3o, queria mostrar como neste tempo de pandemia era importante olhar para cada coisa sob diversos pontos de vista. Mostrou um ma\u00e7\u00e3 brilhante e vistosa, mas quando a rodou tinha uma dentada e estava a oxidar. A percep\u00e7\u00e3o que os telespectadores tinham da ma\u00e7\u00e3 mudou imediatamente. Com a percep\u00e7\u00e3o da realidade acontece algo de semelhante. Se n\u00e3o existe grande rela\u00e7\u00e3o entre a nossa experi\u00eancia e os eventos que nos chegam pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, passamos do vislumbre ao ju\u00edzo num \u00e1pice. E a raz\u00e3o dessa passagem imatura deve-se \u00e0 gratifica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea que prov\u00e9m da percep\u00e7\u00e3o das realidade com o m\u00ednimo esfor\u00e7o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A realidade que mais facilmente aceitamos, sem esfor\u00e7o, \u00e9 a realidade palp\u00e1vel proveniente da experi\u00eancia dos sentidos. Se vejo, oi\u00e7o, cheiro, saboreio ou toco, \u00e9 real. Nesse sentido, qualquer aspecto relacionado com o meio ambiente que experimentamos na pele, \u00e9 real. Mas a aprendizagem experiencial que desenvolve a percep\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 a diferen\u00e7a entre conhecer uma coisa e conhecer algo sobre essa coisa. Um aspecto relevante se pensarmos como as not\u00edcias falsas nos t\u00eam afectado.<\/p>\n<p>Num mundo de desinforma\u00e7\u00e3o em que vivemos, torna-se dif\u00edcil ter a percep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 real e n\u00e3o \u00e9. Quando Donald Trump disse que as pessoas podiam tratar-se da Covid-19 com hidroxicloroquina, muitos americanos acreditaram e sofreram as consequ\u00eancias. Foi a experi\u00eancia que<\/p>\n<p>mostrou (do modo mais duro) que n\u00e3o funcionava, apesar dos estudos cient\u00edficos que demonstravam o contr\u00e1rio daquilo que Trump afirmava nas redes sociais. Por isso, n\u00e3o h\u00e1 maior autoridade na percep\u00e7\u00e3o da realidade do que aquela que surge da comunh\u00e3o especial entre as pessoas: uma <em>comunh\u00e3o de experi\u00eancias<\/em>.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode ocupar o espa\u00e7o da experi\u00eancia do outro quando essa lhe d\u00e1 uma certa percep\u00e7\u00e3o da realidade. Ali\u00e1s, a mesma experi\u00eancia ser\u00e1 sempre vivida de modo diferente quando feita por pessoas diferentes porque todos somos \u00fanicos. Mas se estivermos cientes de que a nossa percep\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 \u00fanica, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica, abrimos dentro de n\u00f3s o espa\u00e7o para acolher a percep\u00e7\u00e3o do outro sobre a mesma realidade. Como S. Paulo quando fala da Caridade.<\/p>\n<p>S. Paulo disse que de todas as virtudes (f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade) a maior \u00e9 a caridade. Muitas pessoas podem interpretar \u201ccaridade\u201d como dar esmola, mas n\u00e3o \u00e9 essa a percep\u00e7\u00e3o de S. Paulo quando se refere a essa virtude como \u201ca maior\u201d. A <em>caridade<\/em> \u00e9 a maior virtude porque significa comunh\u00e3o de experi\u00eancias vividas nos relacionamentos com os outros e na partilha rec\u00edproca da diversidade de percep\u00e7\u00f5es humanas da realidade. Basta pensar nas muitas divis\u00f5es no mundo que seriam resolvidas se houvesse uma melhor comunica\u00e7\u00e3o, comunh\u00e3o e relacionamento entre as partes.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o poder\u00e1 a pessoalidade da percep\u00e7\u00e3o da realidade correr o risco de tornar a partilha rec\u00edproca numa am\u00e1lgama de percep\u00e7\u00f5es, sem nexo, justificando o valor do relativismo onde \u00e9 melhor cada um saber de si? Por outro lado, se a minha percep\u00e7\u00e3o \u00e9 oposta \u00e0 do outro, e ambas t\u00eam na sua base uma experi\u00eancia, n\u00e3o poder\u00e1 o contradit\u00f3rio anular o valor da comunh\u00e3o de experi\u00eancias na constru\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o humana da realidade? E se o normal no mundo fosse ser dalt\u00f3nico, como poderia aquele que v\u00ea a infinidade de cores mostrar aos outros uma percep\u00e7\u00e3o da realidade com a sua experi\u00eancia?<\/p>\n<p>A comunh\u00e3o de experi\u00eancias n\u00e3o s\u00f3 exige abertura como confian\u00e7a na percep\u00e7\u00e3o da realidade que o outro vive. Podemos n\u00e3o compreender, mas nada nos impede de acolher e estarmos sempre dispostos a mudar e aprender. A vida \u00e9 um processo em devir. N\u00e3o posso mudar o outro com as minhas percep\u00e7\u00f5es se n\u00e3o estiver disposto a mudar tamb\u00e9m. A \u00fanica constante experiencial do mundo \u00e9 estar sempre em mudan\u00e7a. Estranhamente, por vezes, \u00e9 o paradoxo que nos impulsiona a saber aprender a conhecer a realidade.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-210235","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/210235","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=210235"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/210235\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=210235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=210235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=210235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}