{"id":210183,"date":"2021-06-18T09:00:44","date_gmt":"2021-06-18T08:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=210183"},"modified":"2021-06-15T12:09:21","modified_gmt":"2021-06-15T11:09:21","slug":"lusofonias-quando-acordei-para-o-mia-couto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-quando-acordei-para-o-mia-couto\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; Quando acordei para o Mia Couto\u2026"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Tony Neves, no Porto<\/strong><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-210184\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/criancas-missao-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando acordei para o Mia Couto j\u00e1 o sol ia alto. Ou seja, ele j\u00e1 tinha publicado muitos e bons livros, marcados por uma criatividade que, para mim, foi amor liter\u00e1rio \u00e0 primeira vista. Depois, passei a vida a correr atr\u00e1s do preju\u00edzo, lendo as obras mais antigas. Das que ele publicou nos \u00faltimos anos, nem sequer ousei perder uma \u00fanica linha.<\/p>\n<p>Como as f\u00e9rias \u2018amea\u00e7am\u2019 e ler faz bem \u00e0 intelig\u00eancia (faz muito mal \u00e0 ignor\u00e2ncia!), fui \u00e0 procura das notas de leitura das suas cinco \u00faltimas obras. Depois de fazer cortes e mais cortes nos recortes de texto que escrevo durante as leituras, decidi-me por um coment\u00e1rio mais longo, partido em tr\u00eas, uma esp\u00e9cie de trilogia, para imitar este autor mo\u00e7ambicano, Pr\u00e9mio Cam\u00f5es e muitos mais.<\/p>\n<p>Mia Couto decidiu avan\u00e7ar para um novo estilo de escrita com \u2018As Areias do Imperador\u2019, a trilogia que romanceia as origens ancestrais do seu pa\u00eds natal. Publicou em 2015 o primeiro livro com o sugestivo t\u00edtulo: \u2018Mulheres de Cinza\u2019. Eis alguns dos meus recortes:<\/p>\n<p>\u2018Mastigar o sil\u00eancio como se fosse um fruto amargo\u2019 (p.48); \u2018O pior modo de perder uma guerra \u00e9 esperar eternamente que ela aconte\u00e7a\u2019 (p.67); \u2018A diferen\u00e7a entre a guerra e a paz \u00e9 a seguinte: na guerra, os pobres s\u00e3o os primeiros a serem mortos; na paz, os pobres s\u00e3o os primeiros a morrer. Para n\u00f3s, mulheres, h\u00e1 ainda uma outra diferen\u00e7a: na guerra passamos a ser violadas por quem n\u00e3o conhecemos\u2019 (p.125); \u2018A guerra tinha-lhe entrado na cabe\u00e7a, apagando-lhe os olhos por dentro\u2019 (p.139); \u2018Nasci e vivi entre sombras. A minha casa tinha o cheiro e o sil\u00eancio de um orfanato. Eu tinha tudo para ser um bom soldado\u2019 (p.154); \u2018A nossa indig\u00eancia era o melhor escudo contra os agressores. Ningu\u00e9m ataca quem n\u00e3o tem nada\u2019 (p.159); \u2018O pior do passado \u00e9 o que est\u00e1 ainda para vir\u2019 (p.163); \u2018Ningu\u00e9m tem mais poder que o medo\u2019 (p.258); \u2018Na l\u00edngua dos zulus, \u2018voar\u2019 e \u2018sonhar\u2019 se diz com o mesmo verbo\u2019 (p.273); \u2018A generosidade de uma fam\u00edlia mede-se pelo modo como acolhe os seus h\u00f3spedes\u2019 (p.279); \u2018Todos neste mundo somos descendentes de escravos ou donos de escravos\u2019 (p.284); \u2018A crueldade de uma guerra n\u00e3o se mede pelo n\u00famero de campas nos cemit\u00e9rios. Mede-se pelos corpos que ficam sem sepultura\u2019 (p.297); \u2018A maior ferida da guerra \u00e9 n\u00e3o deixarmos nunca de buscar os corpos de quem amamos\u2019 (p.298); \u2018Eis o que faz a guerra: a gente nunca mais regressa a casa. E n\u00e3o h\u00e1 leito, n\u00e3o h\u00e1 ventre, n\u00e3o h\u00e1 sequer ru\u00edna a dar ch\u00e3o \u00e0s nossas mem\u00f3rias\u2019 (p.302).<\/p>\n<p>Em 2016, Mia Couto avan\u00e7a para a publica\u00e7\u00e3o do livro dois: \u2018A Espada e a Azagaia\u2019. Destaco: \u2018Foi isso que nem cat\u00f3licos nem protestantes entenderam: que em \u00c1frica os deuses dan\u00e7am. E todos cometeram o mesmo erro: proibiram os tambores\u2019 (p.65); \u2018Quantas guerras h\u00e1 dentro de uma guerra? Quantos \u00f3dios se escondem quando uma na\u00e7\u00e3o manda os seus filhos para a morte?\u2019 (p.106); \u2018Bem sabe que essa \u00e9 a natureza humana. Temos mem\u00f3ria \u00e9 para esquecer as nossas culpas\u2019 (p.115); \u2018Tentei pedir socorro, mas a boca n\u00e3o me chegou \u00e0s palavras\u2019 (p.116); \u2018O pior sofrimento n\u00e3o \u00e9 ser derrotado. \u00c9 n\u00e3o poder lutar\u2019 (p.125); \u2018N\u00e3o conhe\u00e7o mais eficiente triturador da alma: o ci\u00fame \u00e9 um moinho de vento que gira sem que haja nenhuma brisa\u2019 (p.139); \u2018Princ\u00edpio: na guerra, quem tem pressa morre depressa\u2019 (p.151); \u2018Quem chega da guerra tem muito para esquecer\u2019 (p.216); \u2018as guerras s\u00e3o tapetes. Por debaixo deles se ocultam as imund\u00edcies dos poderosos\u2019 (p.224); \u2018Como poderemos empreender uma guerra se desconhecemos a fronteira que nos separa dos inimigos?\u2019 (p.318); \u2018O medo faz o pouco ser muito. E faz o tudo ser nada\u2019 (p.319); \u2018A paz n\u00e3o nasce por se vencer um advers\u00e1rio. A verdadeira paz consiste em nunca chegar a ter inimigos\u2019 (p.341); \u2018Sobejar? Esse verbo j\u00e1 n\u00e3o se conjuga em portugu\u00eas\u2019 (p.355); \u2018A dificuldade estava nos generais que o rodeavam: a guerra podia ser arriscada, mas era a sua fonte de riqueza\u2019 (p.410); \u2018Quem foge n\u00e3o quer apenas sair de um lugar. Quer que deixe de haver lugares\u2019 (p.431).<\/p>\n<p>Como nas telenovelas, deixamos o audit\u00f3rio suspenso quando apontamos para as cenas do pr\u00f3ximo cap\u00edtulo e nos despedimos. Para a pr\u00f3xima semana, avan\u00e7amos para o \u00faltimo livro desta trilogia de Mia Couto, com o titulo \u2018o bebedor de horizontes\u2019.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-210183-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/lusofonias-miaCouto1-18-6-2021.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/lusofonias-miaCouto1-18-6-2021.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/lusofonias-miaCouto1-18-6-2021.mp3<\/a><\/audio>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, no 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