{"id":20978,"date":"2006-11-07T12:05:25","date_gmt":"2006-11-07T12:05:25","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/11\/07\/reflexoes-sobre-a-questao-do-aborto\/"},"modified":"2006-11-07T12:05:25","modified_gmt":"2006-11-07T12:05:25","slug":"reflexoes-sobre-a-questao-do-aborto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/reflexoes-sobre-a-questao-do-aborto\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre a quest\u00e3o do aborto"},"content":{"rendered":"<p>\u201cQuando um homem rouba para matar a fome podemos concluir com seguran\u00e7a que se passa algo de errado na sociedade \u2013 portanto, quando uma mulher destr\u00f3i a vida do seu filho por nascer torna-se evidente que ou por for\u00e7a da sua educa\u00e7\u00e3o ou das circunst\u00e2ncias, ela foi gravemente injusti\u00e7ada\u201d Mattie Brinkerhoff, The Revolution, 4 (9): 138-9, 2 de Setembro 1869  Estou cada vez mais convencida de que \u00e9 in\u00fatil debater a quest\u00e3o do aborto sem o colocar num contexto social e hist\u00f3rico. Temos uma mem\u00f3ria curta, vivemos no momento actual e temos dificuldade em recordar o que se passou h\u00e1 uma ou duas d\u00e9cadas, mas se n\u00e3o conhecemos o nosso passado temos grandes problemas em compreender o presente e em planear o futuro.  O aborto \u00e9 praticado h\u00e1 s\u00e9culos \u2013 n\u00e3o havia qualquer m\u00e9todo de \u201cregula\u00e7\u00e3o dos nascimentos\u201d minimamente eficaz. Existia uma grande hipocrisia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher e \u00e0 sexualidade em geral. A mulher era \u201cpropriedade\u201d do homem, existia para ter filhos. Se n\u00e3o seguisse padr\u00f5es de comportamento r\u00edgidos era abandonada e ca\u00eda rapidamente na mis\u00e9ria e na pobreza.  Em 1967, em Inglaterra, num contexto de reformas sociais e de sa\u00fade p\u00fablica, foi aprovada uma lei permitindo o aborto desde que recomendado por dois m\u00e9dicos e praticado para prevenir o risco de vida ou de danos f\u00edsicos ou de sa\u00fade mental para a gr\u00e1vida ou em caso de defici\u00eancia grave do feto, at\u00e9 \u00e1s 24 semanas.  S\u00f3 h\u00e1 relativamente pouco tempo se veio a conhecer \u201co mundo do feto\u201d e ficamos maravilhados quando assistimos a uma ecografia e vimos um beb\u00e9 milim\u00e9trico, mas perfeito ou, mais tarde, a interagir com o que se passa \u00e0 sua volta no \u201cmundo\u201d exterior ao \u00fatero da sua m\u00e3e. Qual \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o entre estes pontos? Hoje, a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher e a disponibilidade de informa\u00e7\u00e3o e acesso a m\u00e9todos de planeamento familiar levam a uma situa\u00e7\u00e3o social onde \u00e9 poss\u00edvel ultrapassar dificuldades sem recorrer ao aborto. Em Inglaterra, na semana passada, foi proposto no Parlamento reduzir o prazo em que o aborto \u00e9 permitido para as 21 semanas. N\u00e3o teve votos suficientes mas indica uma mudan\u00e7a de mentalidade. O feto j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 an\u00f3nimo. Liberalizar a lei do aborto n\u00e3o \u00e9 \u201cmoderno\u201d nem \u201cprogressivo\u201d, \u00e9 andar para tr\u00e1s. No entanto, quando lemos artigos de opini\u00e3o de militantes \u201cpr\u00f3-escolha\u201d notamos que a linguagem mudou. O aborto legalizado j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 visto como a solu\u00e7\u00e3o para um problema de sa\u00fade p\u00fablica. Agora \u00e9 um \u201cdireito\u201d da mulher que lhe garante uma total autonomia sobre o \u201cseu corpo\u201d. Interferir com a liberdade de escolha da mulher \u00e9 invadir o seu espa\u00e7o privado. Nenhuma mulher deve ser \u201cobrigada\u201d a ter um filho que n\u00e3o quer. Se, antigamente, a mulher n\u00e3o contava para nada agora \u00e9 s\u00f3 o feto que n\u00e3o tem valor. Em 1873, Elizabeth Cady Stanton, uma feminista de vanguarda americana, escreveu a Julie Ward Howe: \u201cQuando consideramos que as mulheres s\u00e3o tratadas como sendo propriedade de um terceiro, \u00e9 degradante, para n\u00f3s mulheres, tratar os nossos filhos como uma propriedade da qual poderemos dispor conforme a nossa vontade.\u201d (Di\u00e1rio de Julie Ward Howe, Biblioteca da Universidade de Harvard). Infelizmente o feminismo moderno mais radical separa a mulher do homem e separa a mulher do seu filho. Um artigo publicado pelo Pro Choice Forum recentemente, refere que \u201c\u2026(futuramente) um juiz poder\u00e1 decidir que o Decreto sobre os Direitos Humanos de 1998 abrange o feto. Se isso acontecer poder\u00e1 ter graves implica\u00e7\u00f5es para a autonomia da mulher e para a lei do aborto no Reino Unido.\u201d  Como conciliar uma vis\u00e3o do mundo t\u00e3o individualista com uma vis\u00e3o crist\u00e3 em que somos comunidade, filhos de um Deus Pai, irm\u00e3os em Cristo, respons\u00e1veis pelo bem-estar uns dos outros. S\u00e3o vis\u00f5es antag\u00f3nicas. Num debate sobre o aborto, quando falei sobre a necessidade de oferecer apoio \u00e0 mulher confrontada com uma gravidez problem\u00e1tica, a resposta foi que era necess\u00e1rio facilitar o aborto porque n\u00e3o se podia ajudar todas. Vivemos numa sociedade em que o filho se tornou um objecto: se n\u00e3o \u00e9 desejado destr\u00f3i-se, por outro lado procuram-se meios cada vez mais extremos para o conseguir quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceb\u00ea-lo naturalmente. Em que sociedade queremos viver? \u00c9 ing\u00e9nuo acreditar no que ou\u00e7o dizer tantas vezes \u201cEu n\u00e3o concordo com o aborto, mas n\u00e3o tenho o direito de proibir quem o quer fazer\u201d ou \u201cdespenalizar n\u00e3o \u00e9 liberalizar.\u201d Procura-se cuidadosamente uma linguagem herm\u00e9tica em que os termos s\u00e3o sin\u00f3nimos mascarando a realidade, por exemplo quando o aborto passa a \u201cinterrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez\u201d. Transmite-se a mensagem de que n\u00e3o interessa defender o mais fraco, desumaniza-se o beb\u00e9, evita-se oferecer apoio \u00e0 mulher que se confronta com um dilema t\u00e3o pesado e esquece-se o \u201cripple effect\u201d, de que quando se atira uma pedra para um charco o efeito espalha-se at\u00e9 \u00e0s bordas. O aborto afecta-nos a todos; todos estamos implicados. <i>Mary Anne d\u2019Avillez<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuando um homem rouba para matar a fome podemos concluir com seguran\u00e7a que se passa algo de errado na sociedade \u2013 portanto, quando uma mulher destr\u00f3i a vida do seu filho por nascer torna-se evidente que ou por for\u00e7a da sua educa\u00e7\u00e3o ou das circunst\u00e2ncias, ela foi gravemente injusti\u00e7ada\u201d Mattie Brinkerhoff, The Revolution, 4 (9): [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[93,168,189,193],"class_list":["post-20978","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-aborto","tag-diocese-da-guarda","tag-direitos-humanos","tag-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20978"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20978\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}