{"id":209660,"date":"2021-06-09T09:51:14","date_gmt":"2021-06-09T08:51:14","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=209660"},"modified":"2021-06-09T09:51:14","modified_gmt":"2021-06-09T08:51:14","slug":"saber-aprender-a-reconhecer-um-vicio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-reconhecer-um-vicio\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A reconhecer um v\u00edcio"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Nem tudo o que \u00e9 irresist\u00edvel \u00e9 viciante. Se algu\u00e9m nos oferece um caf\u00e9 depois de almo\u00e7o e gostamos dessa bebida, \u00e9 irresist\u00edvel e aceitamos. Mas se n\u00e3o tiver oportunidade de tomar caf\u00e9 depois de almo\u00e7o por ter um compromisso, penso que ningu\u00e9m fica ansioso por isso, excepto se o caf\u00e9 se tornar num v\u00edcio. Adam Alter, professor de marketing e autor de <em>Irresistible<\/em>, concluiu que as <em>\u00abapps e plataformas podem ser desenhadas para promover conex\u00f5es sociais ricas; ou, como os cigarros, podem ser desenhadas para serem viciantes.\u00bb<\/em> E, hoje, se as apps promovem mais o v\u00edcio que a conex\u00e3o, como reconhecer que um comportamento digital se tornou num v\u00edcio?<\/p>\n<figure id=\"attachment_209661\" aria-describedby=\"caption-attachment-209661\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-209661\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DigitalAddiction-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-209661\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Christopher Ott em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>O <em>desapego<\/em> \u00e9 um dos princ\u00edpios e fundamentos dos exerc\u00edcios espirituais inacianos, de modo a que uma pessoa se possa entregar totalmente a Deus. Mas tamb\u00e9m a psicologia refere o papel do desapego quando associado a um desligar mental ap\u00f3s um dia de trabalho, de modo a recuperar do cansa\u00e7o di\u00e1rio. Estar desapegados das coisas n\u00e3o significa que n\u00e3o lhes damos import\u00e2ncia, mas estamos antes a dar-lhes o devido lugar, sem comprometer a nossa liberdade. Um v\u00edcio, pelo contr\u00e1rio, vive no apego, e quando cria ra\u00edz no nosso estilo de vida, dificilmente conseguimos reconhec\u00ea-lo como v\u00edcio.<\/p>\n<p>Quando recomendo \u00e0s pessoas em <em>workshops<\/em> sobre \u201cGest\u00e3o de Tempo\u201d a experi\u00eancia de se <em>desapegarem<\/em> das redes sociais durante 30 dias, todos \u201ctorcem o nariz\u201d, ou permanecem indiferentes \u00e0 proposta. A ideia parece t\u00e3o absurda a uma pessoa que usa, regularmente, as redes sociais que considera rid\u00edculo e semelhante a pedir-lhe que n\u00e3o beba \u00e1gua durante tr\u00eas dias porque manter-se activo nas redes sociais tornou-se vital. N\u00e3o h\u00e1 qualquer motivo de fundo que n\u00e3o seja profissional que justifique uma pessoa n\u00e3o poder fazer este tipo de experi\u00eancia. Se afirma que n\u00e3o consegue porque \u201cprecisa\u201d de estar a par daquilo que os amigos e familiares andam a fazer, vive apegada.<\/p>\n<p>Questiono se as pessoas que usam as redes sociais como ferramentas de evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o correm o s\u00e9rio risco de se tornarem viciadas, sobretudo os sacerdotes. A press\u00e3o que uma rede social exige de estarmos sempre a actualizar o mural, leva a uma depend\u00eancia biol\u00f3gica da liberta\u00e7\u00e3o de dopamina, um neurotransmissor associado a um sentimento de realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso dos sacerdotes, ter mais seguidores e \u201cgostos\u201d naquilo que partilham, d\u00e1-lhes a sensa\u00e7\u00e3o de ser um sinal de sucesso na sua miss\u00e3o evangelizadora. O que desconhecem \u00e9 que as pessoas fazem \u201cgosto\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao que escrevem, mas de seguida podem fazer \u201cgosto\u201d a um v\u00eddeo de gatinhos. Logo, quem v\u00ea o \u201cgosto\u201d no pensamento profundo que partilhou fica com a impress\u00e3o de ter chegado \u00e0s pessoas, mas nada lhe garante isso. Ali\u00e1s, quando estava nas redes sociais, confrontei-me com pessoas que colocaram \u201cgosto\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 partilha de um texto meu e quando falei com elas, percebi que n\u00e3o o tinham lido. Gostaram de qu\u00ea, afinal?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m abdica daquilo que lhe faz bem, porque um v\u00edcio distingue-se de uma virtude pelo bem que gera na nossa vida e na vida dos outros. Que bem gera muito do tempo que damos \u00e0 parte digital da nossa vida? Ser\u00e1 que as pessoas incluem os apegos digitais no seu exame de consci\u00eancia? Tenho d\u00favidas, at\u00e9 porque acompanhar as din\u00e2micas digitais pode cortar-nos muito do tempo que poder\u00edamos dedicar a fazer esses exames. Logo, n\u00e3o ser\u00e1 isso um sinal de estarmos perante um v\u00edcio?<\/p>\n<p>Muitas vezes admiramos as pessoas que nos respondem logo aos emails. Contudo, ou tiv\u00e9mos muita sorte, e a pessoa estava a consultar emails no momento que recebeu a nossa mensagem e tinha tempo para responder; ou a pessoas est\u00e1, sistematicamente, a consultar os emails, a responder, e isso f\u00e1-la sentir-se produtiva, quando, na pr\u00e1tica, nada produz. Noutros tempos, para te escrever uma mensagem, fazia um rascunho, revia o texto e passava a limpo para um papel, metia num envelope e levava aos correios uma carta para ti. Depois, sabia que demoraria tempo at\u00e9 receberes a minha carta e encontrares o tempo para me responder. Hoje, basta um ecr\u00e3 e teclar. O resultado tem sido a banaliza\u00e7\u00e3o do conte\u00fado das nossas mensagens.<\/p>\n<p>O bispo americano Robert Barron \u00e9 um exemplo sadio do modo como podemos evangelizar usando a internet e os recursos digitais do s\u00e9culo XXI, mas, <a href=\"https:\/\/www.wordonfire.org\/resources\/video\/bishop-barron-on-social-media-and-the-catholic-culture-of-contempt\/27863\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">recentemente<\/a>, conta uma experi\u00eancia que fez nos <em>Social Media<\/em> onde um grupo significativo de cat\u00f3licos criticou um artigo que escreveu com coment\u00e1rios que atingiam o n\u00edvel da cal\u00fania. N\u00e3o uma contra-argumenta\u00e7\u00e3o ponderada que pudesse ajudar o bispo Barron a rever as suas ideias, mas inj\u00farias reactivas sem conte\u00fado. S\u00e3o cat\u00f3licos que se revelam como um anti-testemunho contr\u00e1rio ao prop\u00f3sito daqueles que pretendem usar as redes sociais como ferramentas da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, podiam testemunhar aos outros uma vida de unidade que leva os que n\u00e3o conhecem Jesus a dizer, como Tertuliano \u2014 <em>\u00abvede como ele se amam.\u00bb<\/em> Mas n\u00e3o o fazem. E conv\u00e9m estarmos conscientes de que o testemunho que damos atrav\u00e9s das redes sociais ser\u00e1 escrutinado pelo mundo que dir\u00e1 \u2014 <em>\u00abvede como eles reagem.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Ao reflectir sobre o impacte que a vida digital tem sobre a vida espiritual, e sendo cr\u00edtico das redes sociais como ferramenta de evangeliza\u00e7\u00e3o, estou ciente de que muitos leitores poder\u00e3o n\u00e3o chegar a este par\u00e1grafo sem antes terem dito para si mesmos \u2014 <em>\u00abl\u00e1 est\u00e1 ele\u2026\u00bb<\/em> \u2014 e carregaram outra p\u00e1gina, ou voltaram para tr\u00e1s no navegador de internet. O modo como me desapeguei das redes sociais (e estava em todas) foi apagar as contas e posso testemunhar que a minha vida digital e f\u00edsica melhorou, sem perder o contacto com as pessoas. Ali\u00e1s, pelo contr\u00e1rio, quando me encontro com um amigo, ou nos telefonamos, n\u00e3o faltam temas para p\u00f4r a conversa em dia.<\/p>\n<p>Quando o tabaco surgiu ningu\u00e9m pensava que seria um v\u00edcio que nos faria mal \u00e0 sa\u00fade. As redes sociais n\u00e3o se comparam ao tabaco, mas diversos estudos demonstram como se pode tornar num v\u00edcio e fazer mal \u00e0 nossa sa\u00fade mental e espiritual. H\u00e1 um argumento (in)compreens\u00edvel de que temos de estar presentes nas redes sociais para lhes dar o conte\u00fado profundo que reconhecemos n\u00e3o terem. Mas, em rigor, nada nos garante que esse conte\u00fado profundo atinja, profundamente, o cora\u00e7\u00e3o das pessoas como pensamos. E, apesar de fazermos miss\u00e3o com boa inten\u00e7\u00e3o, se essa se centra na nossa pessoa, como os \u201c<a href=\"https:\/\/setemargens.com\/quem-segue-o-padre-tiktok-segue-jesus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">padres TikTok<\/a>\u201d, corremos o risco de ganhar um v\u00edcio sem nos darmos conta disso. Saber aprender a reconhecer um v\u00edcio na era digital \u00e9 uma necessidade sobre a qual muito h\u00e1 ainda a reflectir.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-209660","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209660","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=209660"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209660\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=209660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=209660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=209660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}