{"id":209149,"date":"2021-06-02T11:40:25","date_gmt":"2021-06-02T10:40:25","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=209149"},"modified":"2021-06-02T11:40:47","modified_gmt":"2021-06-02T10:40:47","slug":"saber-aprender-a-deixar-se-tocar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-deixar-se-tocar\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A deixar-se tocar"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Jamais esquecerei aquele email. Com palavras sinceras e surpreendentes, um grande amigo dir-me-ia que se tornava ateu porque a ci\u00eancia explica tudo. Parece uma situa\u00e7\u00e3o t\u00edpica de uma crise de f\u00e9 se n\u00e3o soubesse o quanto ele estava empenhado em diversas actividades da Igreja. A Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o a que S. Jo\u00e3o Paulo II apelava na <em>Redemptoris Missio<\/em> em Dezembro de 1990, talvez se tenha tornado uma necessidade no interior da Igreja e n\u00e3o somente para os que est\u00e3o fora.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tocar.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-209151\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tocar.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"819\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tocar.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tocar-325x260.jpg 325w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tocar-768x614.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tocar-980x784.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/tocar-480x384.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ainda hoje penso e reflicto sobre este acontecimento. No in\u00edcio, pensava ser uma quest\u00e3o racional, uma vez que muitas das nossas interessantes conversas at\u00e9 de madrugada versavam sobre temas de filosofia e de teologia dos quais perceb\u00edamos muito pouco. Por isso, respondi \u00e0 sua mensagem rebatendo com uma s\u00e9rie de ideias inspiradas na enorme quantidade de livros que estava a ler sobre ci\u00eancia e f\u00e9. Mas de nada serviu.<\/p>\n<p>Quando a f\u00e9 em Deus cuja viv\u00eancia preencheu uma parte significativa da nossa vida \u00e9 abalada, surgem in\u00fameras quest\u00f5es. Este meu amigo colocou-me 12 e procurei <a href=\"https:\/\/www.amazon.es\/Challenges-Science-Faith-Questions-converted\/dp\/1520126131\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">responder<\/a> o melhor que podia, mas serviu de pouco. Como pode a ci\u00eancia que nutre a minha vida profissional como professor universit\u00e1rio e investigador ser causa de uma convers\u00e3o ate\u00edsta? Se a ci\u00eancia explica tudo, ficaria sem trabalho, e pela minha experi\u00eancia profissional, qualquer boa ci\u00eancia abre mais horizontes do que fecha, suscita mais perguntas do que respostas. Logo, como poderia produzir um abalo t\u00e3o grande na f\u00e9 de algu\u00e9m? Por que raz\u00e3o n\u00e3o produziu o mesmo abalo em mim?<\/p>\n<p>Quando penso no percurso de f\u00e9 que fazemos, sobretudo o relacionado com a tradi\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica que conhe\u00e7o melhor, sabemos como n\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o que sustenta a nossa f\u00e9, mas uma experi\u00eancia profunda do amor de Deus. No meu caso, aconteceu em Paray-Le-Monial, durante um encontro internacional de jovens organizado pela Comunidade Emanuel.<\/p>\n<p>Saber tocar guitarra tem a vantagem de podermos participar na orquestra de instrumentos destes encontros internacionais de jovens e essa \u00e9, j\u00e1 de si, uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel. Mas implica, tamb\u00e9m, estarmos no palco a um canto, o que nos d\u00e1 uma vis\u00e3o \u00edmpar da assembleia de jovens. Num dos dias do encontro, um jovem de cadeira de rodas estava na fila da frente. Olhou para mim, ou foi isso que senti. E no seu olhar vi reflectido o quanto Deus me amava. Sou uma pessoa emocional, mas muito racional, e n\u00e3o encontrei outra raz\u00e3o para aquilo que estava a sentir atrav\u00e9s daquele olhar que n\u00e3o fosse uma experi\u00eancia palp\u00e1vel de Deus atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo que se fazia presente entre n\u00f3s naquele encontro. Marcou-me para o resto da vida. Nunca mais duvidei do amor de Deus, apesar de muitos dissabores que vivi depois daquele momento. Ter\u00e1 o meu amigo feito uma experi\u00eancia de Deus?<\/p>\n<p>Quando abordei esse assunto numa das nossas conversas, percebi que n\u00e3o havia nada que se assemelhasse a uma experi\u00eancia de Deus como a que eu tinha feito. E quando tentei perceber se teria havido uma experi\u00eancia de Deus de outro g\u00e9nero, fiquei na mesma. Inesperadamente, este meu amigo acabava de demonstrar ser poss\u00edvel algu\u00e9m ser cat\u00f3lico durante 30 anos sem se ter uma experi\u00eancia de Deus. Por isso, quando pensamos na Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, dev\u00edamos considerar, tamb\u00e9m, a experi\u00eancia que os cat\u00f3licos fazem de Deus dentro da Igreja. N\u00e3o chega participar ou animar missas. N\u00e3o chegar participar ou coordenar grupos de jovens. N\u00e3o chega receber forma\u00e7\u00e3o ou ser catequista. Tudo isso \u00e9 importante, mas insuficiente. Sem deixarmo-nos tocar por Jesus, e fazermos uma experi\u00eancia sens\u00edvel da Sua presen\u00e7a, n\u00e3o estamos em condi\u00e7\u00f5es de O anunciar no \u00e2mbito de uma Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. Mas sabemos que n\u00e3o existem receitas quando o Esp\u00edrito de Deus sopra quando quer e ao Seu modo.<\/p>\n<p>Reflectindo sobre a minha experi\u00eancia do amor de Deus, creio ter-me deixado tocar naquele momento pelo olhar d\u2019Ele naquele jovem. Um toque que n\u00e3o acontecia por racioc\u00ednio, emo\u00e7\u00e3o ou solitariamente, mas na rela\u00e7\u00e3o com o outro atrav\u00e9s de um simples olhar. Os relacionamentos entre n\u00f3s, e a viv\u00eancia que fazemos nas mais pequenas coisas s\u00e3o as oportunidades que abrem o nosso cora\u00e7\u00e3o a nos deixarmos tocar por Deus. N\u00e3o basta acreditar em Deus ao modo cat\u00f3lico para fazer uma experi\u00eancia sens\u00edvel com Ele. Se amar cada pessoa, concretamente, deixo-me tocar no cora\u00e7\u00e3o, quer queira ou n\u00e3o, porque ser amado faz-nos um bem tremendo e transforma-nos por dentro. Mas ainda que me sinta tocado pelo amor de Deus, nem sempre \u00e9 f\u00e1cil transmitir esta experi\u00eancia aos outros, mesmo dentro da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei por que raz\u00e3o, mas tendo feito a experi\u00eancia de participar em diversos movimentos da Igreja, senti muitas vezes o risco de acharmos que a experi\u00eancia que fazemos num determinado movimento \u00e9 a mais profunda que se pode fazer. Por isso, uma Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o do ponto de vista interior \u00e0 viv\u00eancia cat\u00f3lica pode significar ir para al\u00e9m da uma viv\u00eancia em particular, associada a este grupo ou \u00e0quele, a um determinado movimento, par\u00f3quia ou diocese. Na experi\u00eancia da convers\u00e3o do meu amigo ao ate\u00edsmo aprendi que o di\u00e1logo pode ser essencial para saber aprender a deixarmo-nos tocar por Ele.<\/p>\n<p>Nas palavras de um m\u00e9dico italiano ateu, Piero Taiti, para dialogar verdadeiramente \u00e9 preciso <em>\u00ablibertar-se dos preconceitos e estar dispon\u00edvel para escutar as raz\u00f5es dos outros de modo a poder entrar numa conversa\u00e7\u00e3o que ter\u00e1 como resultado tamb\u00e9m o mudar de ideias. Deve-se entrar com a maior liberdade de esp\u00edrito, para poder tamb\u00e9m sair mudado: isto \u00e9 indispens\u00e1vel para dialogar.\u00bb<\/em> Pensando nestas palavras creio que uma maior liberdade de esp\u00edrito, aumenta a possibilidade de ser tocado por Deus.<\/p>\n<p>Para qualquer cat\u00f3lico, com uma longa experi\u00eancia de Igreja, pode ser dif\u00edcil aceitar que os valores espirituais particulares ao Catolicismo possam fazer pouco ou nada para evitar que uma pessoa mude de convic\u00e7\u00f5es gra\u00e7as \u00e0 pobre filosofia ate\u00edsta que, um dia, acaba por ler e ser mais convincente. Mas o an\u00fancio aut\u00eantico acontece sempre na fragilidade. E se n\u00e3o aceitarmos a nossa fragilidade, corremos o risco de sobrepor a nossa ac\u00e7\u00e3o \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, retirando-lhe espa\u00e7o sem ter essa inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do seu pontificado que Jo\u00e3o Paulo II falava numa \u201cnova primavera\u201d na Igreja e na <em>Evangelii Gaudium<\/em> o Papa Francisco expressa como uma \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9, tamb\u00e9m, um nova forma de estar na Igreja. Quem sabe se uma nova primavera evangelizadora n\u00e3o come\u00e7a por aprendermos sempre, cada vez mais e melhor, a deixarmo-nos tocar por Ele.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-209149","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=209149"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209149\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=209149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=209149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=209149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}