{"id":20800,"date":"2006-10-24T13:03:13","date_gmt":"2006-10-24T13:03:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/10\/24\/bispo-para-la-do-marao\/"},"modified":"2006-10-24T13:03:13","modified_gmt":"2006-10-24T13:03:13","slug":"bispo-para-la-do-marao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bispo-para-la-do-marao\/","title":{"rendered":"Bispo para l\u00e1 do Mar\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>D. Joaquim Gon\u00e7alves \u00e9 bispo h\u00e1 25 anos, 19 dos quais ao servi\u00e7o da Igreja de Vila Real. S\u00e3o esses anos que avalia \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA entre refer\u00eancias a tra\u00e7os da sua personalidade. <!--more--> Ag\u00eancia ECCLESIA (AE) \u2013 Na celebra\u00e7\u00e3o dos seus 25 anos de bispo \u00e9 tempo de olhar para tr\u00e1s e avaliar o percurso feito? D. Joaquim Gon\u00e7alves (JG) \u2013 Este \u00e9 um tempo de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e de pedido de coragem para o futuro. Primeiro, ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as porque \u00e9 um dom e deve-se agradecer o bem que se soube fazer. Em rela\u00e7\u00e3o ao pedido de coragem para o futuro, se a provid\u00eancia quiser ainda terei mais 5 anos para trabalhar neste minist\u00e9rio. Cada vez estou menos jovem e as dificuldades da sociedade adivinham-se com alguma subtileza para as quais \u00e9 preciso lucidez e coragem. Estes s\u00e3o os dois sentimentos dominantes deste dia.  <b>Tr\u00eas bispos sa\u00eddos da diocese de Vila Real<\/b> AE \u2013 Teve algum momento que o marcasse de modo mais acentuado? JG \u2013 A nossa vida de bispo \u00e9 muito rotineira mas tive, certamente, actos mais sentidos. Um deles foi a nomea\u00e7\u00e3o de tr\u00eas bispos sa\u00eddos da diocese de Vila Real. Quando da nomea\u00e7\u00e3o do primeiro, eu era ainda bispo coadjutor e na dos outros j\u00e1 era bispo diocesano. \u00c9 um acto significativo porque n\u00e3o \u00e9 muito frequente, em t\u00e3o pouco espa\u00e7o, a sa\u00edda de tr\u00eas bispos. As ordena\u00e7\u00f5es, a melhoria da S\u00e9 e a conclus\u00e3o da casa do clero foram tamb\u00e9m momentos fortes.   AE \u2013 Para perpetuar este acontecimento escreveu tamb\u00e9m uma Carta Pastoral \u00abConvosco e para V\u00f3s\u00bb. JG \u2013 O clero pediu-me, no \u00faltimo conselho presbiteral, para escrever uma carta pastoral para marcar a data. Foi publicada recentemente e o t\u00edtulo foi tirado da obra de S. Agostinho. Entre o testemunho e a profecia fa\u00e7o um pouco a mem\u00f3ria do que \u00e9 esta convers\u00e3o de um sacerdote que veio da pastoral directa para o episcopado. H\u00e1 aqui uma convers\u00e3o dentro do sacerd\u00f3cio para o novo minist\u00e9rio. No documento sublinho tr\u00eas ou quatro sectores que hoje se apresentam com alguma dificuldade. Primeiro \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre o bispo na Igreja e depois aborda a tenta\u00e7\u00e3o para a novidade absoluta e uma perda de mem\u00f3ria do passado. Advirto os crist\u00e3os para a necessidade de serem fi\u00e9is a um tesouro que \u00e9 transmitido e que n\u00e3o \u00e9 fixo e r\u00edgido mas evolutivo. Nele h\u00e1 sempre uma perman\u00eancia que vem do tesouro dos ap\u00f3stolos. Num segundo elemento fa\u00e7o uma reflex\u00e3o sobre o \u00abser crist\u00e3o num regime de laicidade\u00bb sem saudades de um regime de cristandade mas numa nova maneira de estar na sociedade civil. N\u00e3o basta dizer que a sociedade mudou. O crist\u00e3o tem de saber posicionar-se de uma maneira adulta e n\u00e3o pode transformar esse n\u00facleo \u00e9tico da sociedade civil na sua religi\u00e3o. N\u00e3o pode ter saudades das pseudo-liberdades &#8211; ficam reduzidas a isso \u2013 que n\u00e3o t\u00eam uma perspectiva transcendente.   <b>Outra riqueza de valores<\/b>  AE \u2013 Perante o quadro que nos tra\u00e7ou antev\u00ea momentos dif\u00edceis? JG \u2013 \u00c9 um mundo diferente que nunca p\u00e1ra. Tivemos uma fase de cristandade onde a igreja e os valores andavam de m\u00e3os dadas mas agora \u00e9 diferente porque a sociedade civil governa-se pelos valores da Natureza. A Igreja tem outros horizontes visto que \u00e9 escatol\u00f3gica e a sociedade n\u00e3o. O crist\u00e3o ter\u00e1 de saber viver no meio de cidad\u00e3os que n\u00e3o t\u00eam os horizontes que ele possui. Ter\u00e1 de viver com valores mais ricos e profundos do que a sociedade laicizada. A tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 ele contentar-se com aquele n\u00facleo de valores que s\u00e3o comuns a essa vida de cidad\u00e3os.  AE \u2013 Nessa linha exorta os crist\u00e3os a usarem a ci\u00eancia com muita sabedoria. JG \u2013 Exactamente. S\u00f3 assim saber\u00e3o ultrapassar esse pequeno n\u00facleo com outra riqueza de valores que s\u00e3o dele e do seu projecto de vida. Esta \u00e9 a sabedoria que o crist\u00e3o ter\u00e1 de possuir.   AE \u2013 Em 1997, na celebra\u00e7\u00e3o das bodas de diamante (75 anos) da diocese escreveu uma carta aos seus diocesanos sobre \u00abUm Povo em festa\u00bb. Ainda se nota o ambiente festivo? JG \u2013 Ainda h\u00e1 festa mas \u00e9 diferente. Naquela altura era a pr\u00f3pria diocese que estava a viver os 75 anos da sua vida, agora \u00e9 o bispo que celebra os 25 anos de ordena\u00e7\u00e3o episcopal. Simplesmente, o bispo n\u00e3o \u00e9 uma pessoa que vive de si e para si. Ele vive com o povo e para o povo (\u00abConvosco e para v\u00f3s\u00bb).  O povo sente mais depressa quando \u00e9 o anivers\u00e1rio da diocese. Quando \u00e9 o anivers\u00e1rio do bispo sente-o de forma mais indirecta embora partilhe da alegria.  AE \u2013 \u00c9 a festa do pastor? JG \u2013 Sim mas com actos comunit\u00e1rios. Primeiro publiquei a carta pastoral, a Eucaristia dominical e a exibi\u00e7\u00e3o da \u00abTravessia\u00bb &#8211; um orat\u00f3rio com quatro quadros: Distribui\u00e7\u00e3o das tribos, as tenta\u00e7\u00f5es do deserto, os frutos da terra prometida, a despedida de Mois\u00e9s e a passagem do Jord\u00e3o. J\u00e1 foi tocado em v\u00e1rios concelhos da diocese.   <b>Tenho boas rela\u00e7\u00f5es com todos os Munic\u00edpios<\/b> AE \u2013 A exibi\u00e7\u00e3o da \u00abTravessia\u00bb em v\u00e1rios concelhos e as condecora\u00e7\u00f5es recebidas de alguns Munic\u00edpios indicam um bom relacionamento com os governantes locais? JG \u2013 Tenho boas rela\u00e7\u00f5es com todos os Munic\u00edpios. Quer com os presidentes que est\u00e3o em exerc\u00edcio quer com alguns que sa\u00edram. Nunca tive atrito algum e muitos deles aparecem nas visitas pastorais. Eles t\u00eam o seu projecto que n\u00e3o \u00e9 coincidente com o do bispo. \u00c9 um projecto de governo civil e das estruturas humanas. Alguns deles esfor\u00e7am-se imenso para que o povo se mantenha presente e residente nas terras porque muitas delas est\u00e3o a ficar carecidas com a desvaloriza\u00e7\u00e3o da lavoura.   AE \u2013 Perante este fen\u00f3meno da desertifica\u00e7\u00e3o humana o que a Igreja de Vila Real est\u00e1 estagnar esta sangria? JG \u2013 N\u00e3o \u00e9 uma tarefa muito nossa. Como diz o Papa no \u00faltimo documento, a Igreja n\u00e3o tem sobre si a tarefa de fazer a reforma de justi\u00e7a social. Animamos os esfor\u00e7os dos leigos nessa \u00e1rea. Noto que os concelhos da fronteira \u2013 mais a Norte \u2013 est\u00e3o a ficar cada vez mais despovoados. Os do Sul menos. As vilas e cidades est\u00e3o a crescer. Existe uma desloca\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Nalguns concelhos a soma geral dos habitantes n\u00e3o tem descido tanto como descem nas freguesias rurais. H\u00e1 muita migra\u00e7\u00e3o sazonal ou definitiva para o estrangeiro e para outras zonas do pa\u00eds.  Perante esta situa\u00e7\u00e3o pouco podemos fazer mas mantenho a assist\u00eancia religiosa toda \u2013 as igrejas t\u00eam-se mantido renovadas \u2013 mesmo que o grupo das pessoas residentes seja cada vez menor. Nos dias de festa (incluindo as visitas pastorais), aqueles que se deslocaram para outras paragens aparecem na sua terra. As migra\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma consequ\u00eancia do dinamismo de car\u00e1cter econ\u00f3mico e social. Esta fun\u00e7\u00e3o pertence aos poderes pol\u00edticos e administrativos e n\u00e3o propriamente \u00e0 Igreja.  <b>Os problemas no Douro<\/b> AE \u2013 Para al\u00e9m dos fluxos migrat\u00f3rios, algumas aldeias durienses debatem-se com problemas? JG \u2013 Nesta celebra\u00e7\u00e3o dos 250 anos da regi\u00e3o Demarcada do Douro, os p\u00e1rocos destas par\u00f3quias t\u00eam-me feito sentir a preocupa\u00e7\u00e3o pela estagna\u00e7\u00e3o da economia do Douro. Esta regi\u00e3o est\u00e1 a produzir uma certa riqueza para gente que n\u00e3o \u00e9 do Douro. Existe algum menosprezo pelos pequenos e m\u00e9dios produtores que n\u00e3o t\u00eam capacidade, por si mesmos, de se afirmarem nessa luta econ\u00f3mica de grandes poderes. Por outro lado, entendem que h\u00e1 uma despropor\u00e7\u00e3o enorme entre o vinho de consumo ao pre\u00e7o que sai de c\u00e1 (das adegas) e aquele por que se vende nos restaurantes. Muitas vezes atinge o qu\u00e1druplo do valor e muitos inibem-se de consumir esse vinho. Eles queriam denunciar esse abuso e os lucros excessivos de alguns industriais da restaura\u00e7\u00e3o. Os lucros da planta\u00e7\u00e3o excessiva de vinha \u2013 com dinheiros da Uni\u00e3o Europeia \u2013 revertem a favor de poderes econ\u00f3micos vindos de fora para explorar as terras. Os p\u00e1rocos lamentam estes acontecimentos.   AE \u2013 Sendo natural do Minho, concelho de Fafe, como caracteriza o transmontano? JG \u2013 O transmontano \u00e9 uma pessoa muito discreta e algo reservada. No primeiro contacto espera, ouve e v\u00ea silenciosamente. \u00c9 uma pessoa que est\u00e1 na expectativa e v\u00ea o projecto apresentado. Se nota que a pessoa \u00e9 leal e que o projecto \u00e9 s\u00e9rio e transparente, adere \u00e0s causas e \u00e9 de uma fidelidade total.   AE \u2013 Utilizou esta observa\u00e7\u00e3o na sua pastoral diocesana? JG \u2013 Estive sempre atento e nas hom\u00edlias \u2013 quando vou \u00e0s par\u00f3quias \u2013 falo-lhes com franqueza. Apresento sempre o projecto e onde queremos chegar. Fa\u00e7o tamb\u00e9m refer\u00eancia a outros projectos de vida &#8211; n\u00e3o s\u00e3o inspirados pelo cristianismo \u2013 para que eles tamb\u00e9m possam comparar. Nunca tive nenhuma reac\u00e7\u00e3o negativa da popula\u00e7\u00e3o. At\u00e9 pelo contr\u00e1rio. Dentro da Igreja e, sobretudo c\u00e1 fora, tenho encontrado das pessoas uma ades\u00e3o e compreens\u00e3o. \u00c9 uma gente que tem valores de discri\u00e7\u00e3o mas de lealdade sempre que se falou verdade e se apresentou um projecto com exactid\u00e3o.  AE \u2013 Na sua Carta Pastoral \u2013 no cap\u00edtulo da \u00abPaternidade do Bispo\u00bb- faz refer\u00eancia \u00e0s fam\u00edlias que manifestam os desejo de \u00abBeijar o anel de bispo\u00bb. \u00c9 um sintoma que as ovelhas est\u00e3o com o pastor? JG \u2013 \u00c9 verdade. Isso acontece na gera\u00e7\u00e3o para cima dos 40 anos. Encontro nas visitas pastorais, sobretudo m\u00e3es de fam\u00edlia, que querem beijar o anel do bispo e dizem-no aos filhos. P\u00f5em nisso uma rela\u00e7\u00e3o afectiva muito grande, no sentido que \u00e9 o pastor da igreja e o nosso pai na f\u00e9. Penso que isso vem dos tempos da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica (AC) em que essa catequese foi feita e manteve-se. Mesmo as pessoas que n\u00e3o foram da AC foram abrangidas por essa sensibilidade.  Os mais novos n\u00e3o t\u00eam essa forma\u00e7\u00e3o expl\u00edcita mas comungam dessas ideias. Um sentimento bonito porque v\u00eaem o bispo como um pai na f\u00e9 e o condutor da comunidade.   <b>Uma mensagem quase indiscut\u00edvel<\/b> AE \u2013 Os seus diocesanos n\u00e3o t\u00eam medo da \u00abdial\u00e9ctica das palavras\u00bb do bispo? JG \u2013 N\u00e3o. As pessoas aceitam a mensagem do bispo como uma mensagem quase indiscut\u00edvel. \u00c9 o seu minist\u00e9rio. Diz-nos as verdades profundas na perspectiva de Deus e n\u00e3o contestam. Mesmo as autoridades \u2013 quando tenho uma palavra que atinge os mecanismos sociais -, eles dizem que o bispo falou \u2013 est\u00e1 no seu minist\u00e9rio \u2013 por isso temos de o ouvir. N\u00e3o nivelam o bispo como l\u00edder pol\u00edtico, cuja opini\u00e3o \u00e9 discut\u00edvel quando comparada com outros. O bispo tem de se colocar numa perspectiva de valores mais elevados e absolutos que inspiram todos os outros valores.  AE \u2013 O ditado diz que \u00abPara l\u00e1 do Mar\u00e3o mandam os que l\u00e1 est\u00e3o\u00bb e a sua mensagem nesse territ\u00f3rio \u00e9 fundamental? JG \u2013 Aceitam o meu minist\u00e9rio episcopal mas Tr\u00e1s-os-Montes abrange outras zonas. Esta frase indica tamb\u00e9m que o transmontano, naquilo que \u00e9 da sua \u00e1rea e do seu pelouro, ele n\u00e3o cede. O bispo n\u00e3o se coloca na discuss\u00e3o dos direitos do povo nem nas suas reivindica\u00e7\u00f5es. Coloca-se numa perspectiva superior que implica o respeito pelos seus direitos, pelas suas exig\u00eancias.   AE \u2013 Apesar de situada para al\u00e9m dos montes, Vila Real tem uma hist\u00f3ria de extrema import\u00e2ncia para o nosso pa\u00eds? JG \u2013 Vila Real tem uma hist\u00f3ria razo\u00e1vel no \u00e2mbito pol\u00edtico-administrativo. Agora, com a Universidade ganhou uma dimens\u00e3o cultural muito maior. Temos tamb\u00e9m um conjunto de homens ligados, sobretudo, \u00e0s For\u00e7as Armadas onde se destaca Carvalho Ara\u00fajo. Sem esquecer o Diogo C\u00e3o e Fern\u00e3o Magalh\u00e3es.     AE \u2013 Para al\u00e9m das suas bodas de prata episcopais, o Semin\u00e1rio diocesano tamb\u00e9m celebra as suas bodas de diamante? JG \u2013 Celebrou os 75 anos da sua abertura e as comemora\u00e7\u00f5es prolongaram-se at\u00e9 Maio deste ano.  <b>Aposta no Diaconado Permanente<\/b> AE \u2013 Estas comemora\u00e7\u00f5es foram prop\u00edcias para analisar o panorama vocacional da diocese? JG \u2013 Temos um n\u00famero razo\u00e1vel de voca\u00e7\u00f5es que, no panorama portugu\u00eas, n\u00e3o \u00e9 mau. Para n\u00f3s \u00e9 inferior ao nosso habitual. Neste momento temos 30 alunos (7\u00ba ao 12\u00ba ano). No sex\u00e9nio temos 17 alunos (14 no semin\u00e1rio e 3 em est\u00e1gio pastoral). Como est\u00e1vamos habituados a um n\u00famero maior, isto sabe-nos a pouco.   AE \u2013 Com a redu\u00e7\u00e3o vocacional, a aposta de futuro passa pelo Diaconado Permanente? JG \u2013 Temos tr\u00eas homens em forma\u00e7\u00e3o para o Diaconado Permanente que ser\u00e3o ordenados no pr\u00f3ximo ano. A diocese j\u00e1 tem um di\u00e1cono permanente mas n\u00e3o queremos facilitar muito. Esta \u00e9 a raz\u00e3o porque temos sido um pouco lentos nesta \u00e1rea.  AE \u2013 Nestes momentos fazem-se avalia\u00e7\u00f5es mas projecta-se tamb\u00e9m o futuro. As grandes apostas eclesiais desta diocese? JG \u2013 Sinto cada vez mais a necessidade de prepararmos ministros capazes de celebra\u00e7\u00f5es dominicais na aus\u00eancia de presb\u00edtero. Embora, os sacerdotes que temos sejam capazes de celebrar a Eucaristia em todas as par\u00f3quias (nas tardes de S\u00e1bados e Domingos), esta fase est\u00e1 a chegar ao fim devido ao envelhecimento do clero. A breve prazo precisaremos, certamente, que algumas par\u00f3quias intercalem a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia com uma celebra\u00e7\u00e3o da palavra. Para que essas celebra\u00e7\u00f5es tenham dignidade, durante este ano pastoral teremos algumas sess\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o para essas pessoas. Outra aposta passa pela intensifica\u00e7\u00e3o da pastoral vocacional \u00e0 vida consagrada e ao sacerd\u00f3cio. S\u00f3 assim responderemos \u00e0 lentid\u00e3o com que as fam\u00edlias e os jovens come\u00e7am a aderir. Com a diminui\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, os pais t\u00eam menos apet\u00eancia de as colocar no semin\u00e1rio. Com a multiplica\u00e7\u00e3o de escolas secund\u00e1rias \u00e9-lhes f\u00e1cil a promo\u00e7\u00e3o humana dos filhos que era sempre um elemento que entrava na decis\u00e3o da escolha do semin\u00e1rio. A promo\u00e7\u00e3o cultural e a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de filhos faz com que a entrada no semin\u00e1rio n\u00e3o seja uma op\u00e7\u00e3o de primeira mas uma reflex\u00e3o de segunda, quando se coloca o problema da f\u00e9 ou religioso. Neste ano pastoral pretendemos tamb\u00e9m que as comunidades rezem mais porque com a invas\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social e a Internet, as fam\u00edlias j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam a ora\u00e7\u00e3o familiar que tinham. Ficam-se somente pelos actos oficiais: a missa e os sacramentos. Vamos ver se conseguimos que nas celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas e, para al\u00e9m delas, haja alguns momentos de ora\u00e7\u00e3o que aque\u00e7am novamente o cora\u00e7\u00e3o orante desta gente. A perda desse espa\u00e7o de ora\u00e7\u00e3o cria um certo frio no comportamento das pessoas e das comunidades.  <b>Uma nova S\u00e9?<\/b> AE \u2013 N\u00e3o pensa tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o de uma nova S\u00e9? JG \u2013 Pensei mas agora j\u00e1 n\u00e3o penso tanto. Primeiro temos aqui uma igreja (da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o), relativamente nova, que precisa de ser toda restaurada porque \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o muito pobre. Precisa de ser toda revista e melhorada. At\u00e9 falei com alguns pol\u00edticos sobre este assunto. Com a renova\u00e7\u00e3o dessa igreja \u00e9 poss\u00edvel que tenhamos \u2013 na pr\u00e1tica \u2013 o problema resolvido. Quando temos celebra\u00e7\u00f5es com grandes multid\u00f5es n\u00e3o h\u00e1 nenhuma igreja que comporte e, estas, t\u00eam de ser ao ar livre. Esta igreja tem uma pra\u00e7a bonita \u00e0 frente. Sonhei com uma S\u00e9 nova mas era para um espa\u00e7o que, actualmente, n\u00e3o se pode ocupar. Com os problemas de sa\u00fade que tive n\u00e3o me sinto com for\u00e7as para me lan\u00e7ar num projecto de uma S\u00e9.   <b>Um bispo com sensibilidade cultural<\/b> AE \u2013 Para al\u00e9m das inquieta\u00e7\u00f5es pastorais, D. Joaquim Gon\u00e7alves tamb\u00e9m tem se \u00abmovimenta\u00bb no mundo cultural? JG \u2013 Tenho uma sensibilidade para a arte desde crian\u00e7a. Foi muito cultivada em casa e no semin\u00e1rio. Gosto do belo na pintura, escultura, literatura e na m\u00fasica. Aprecio o agrad\u00e1vel \u00e0 vista e ao ouvido.  AE \u2013 Escritor preferido? JG \u2013 N\u00e3o tenho um escritor preferido. Gosto de escritores com alguma profundidade, tipo Dostoievsky ou Mauriac. Dos nossos aprecio Ant\u00f3nio Vieira, Antero de Quental e Cam\u00f5es. Mais pr\u00f3ximos de n\u00f3s: Vitorino Nem\u00e9sio.  AE \u2013 E Miguel Torga que \u00e9 natural dessa zona? JG \u2013 Leio-o desde o sexto ano de semin\u00e1rio. Cada um na sua \u00e1rea, o Jos\u00e9 R\u00e9gio e o Torga despertaram-me para o problema de Deus e de Jesus Cristo. O Torga tinha o problema de Deus e o Jos\u00e9 R\u00e9gio questionava-se sobre a Divindade de Jesus Cristo. A literatura de Miguel Torga vive muito das palavras escolhidas e n\u00e3o dos adv\u00e9rbios e adjectivos. \u00c9 uma escrita do espa\u00e7o visual e auditivo. \u00c9 muito belo. Sou um leitor pela beleza da sua escrita. Torga tem um bocado de Nietzsche porque parece que Deus \u00e9 obst\u00e1culo \u00e0 sua expans\u00e3o.   AE \u2013 J\u00e1 percorreu os caminhos de Miguel Torga? Como S. Leonardo da Galafura? JG \u2013 Praticamente, j\u00e1 percorri todos os lugares que ele percorreu. A minha vida leva-me a Galafura, S. Martinho de Anta, Montalegre, Senhora da Azinheira, ao Ger\u00eas, a Chaves.   AE \u2013 O Ger\u00eas \u00e9 um local privilegiado da diocese e um s\u00edtio inspirador para a sua escrita? FG \u2013 A diocese s\u00f3 tem uma pequena parte do Ger\u00eas (zona de Pit\u00f5es das J\u00fanias). Para mim, o Ger\u00eas s\u00f3 \u00e9 visto pelos olhos e n\u00e3o calcado pelos p\u00e9s. L\u00e1 dentro, percorri-o quando estive em Braga e quando vou a Cabril. \u00c9 uma montanha diferente do Mar\u00e3o porque \u00e9 mais arborizada e mais rica de animais e \u00e1gua.  AE \u2013 Em contacto com estes elementos liberta-se? JG \u2013 \u00c9 preciso gostar e, sobretudo, percorr\u00ea-lo para se gostar. Tem elementos bonitos virados para o dram\u00e1tico, tr\u00e1gico e contrastante. As dist\u00e2ncias, as alturas e as sombras elevam-nos. Muito diferente do Minho que \u00e9 uma quinta cheia de verdura e correntes de \u00e1gua. Em cada passo que percorremos, o Minho surpreende-nos com a r\u00e9stia de luz e uma tonalidade crom\u00e1tica diferente da outra.  AE \u2013 \u00c9 uma sinfonia? JG \u2013 Sim mas uma composi\u00e7\u00e3o musical com cromatismos e tons dissonantes. Parecida com a escala Wagneriana.   AE \u2013 Pela descri\u00e7\u00e3o nota-se uma sensibilidade musical JG \u2013 Gosto da m\u00fasica densa, tipo sinfonia com alguma densidade. Em Braga educaram-me nesta \u00e1rea e tamb\u00e9m na minha aldeia onde existia uma bela banda de m\u00fasica. A minha sensibilidade vai mais para a m\u00fasica com harmonia e melodia.  AG \u2013 Tem compositores preferidos? JG \u2013 Verdi e Rossini. J\u00e1 n\u00e3o gosto tanto de Stravinzki.  AG \u2013 Ent\u00e3o ouve m\u00fasica nos trabalhos de gabinete? JG \u2013 N\u00e3o porque distraio-me. Coloco a m\u00fasica para ouvir a m\u00fasica e apreciar aquelas ondula\u00e7\u00f5es que desenha e os sentimentos que ela prepara pouco a pouco at\u00e9 ao \u00faltimo salto. Estar a trabalhar com m\u00fasica e n\u00e3o estar a contempl\u00e1-la n\u00e3o me ajuda nada. N\u00e3o consigo ter duas aten\u00e7\u00f5es em simult\u00e2neo. Sou muito direccional.  AG \u2013 Quem o inspirou na composi\u00e7\u00e3o da \u00abTravessia\u00bb? JG \u2013 Proximamente, foi ter visto em algumas dioceses obras semelhantes, chamadas cantatas. Ouvi uma no Porto, na Festa de S. Jo\u00e3o de Deus, e tamb\u00e9m em \u00c9vora, na Festa da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o. Em Braga, quando ouvia cantar algumas pe\u00e7as do Dr. Faria, \u201cAs Mondadeiras do Conde de Monsaraz\u201d e, em Guimar\u00e3es, a pe\u00e7a \u201cA Prece\u201d com letra de Vitorino Nem\u00e9sio. Depois de as ouvir pensei que seria capaz de fazer algo semelhante para a diocese. Remotamente, vem de uma sensibilidade adquirida nos tempos do semin\u00e1rio e das declama\u00e7\u00f5es profundas de alguns textos po\u00e9ticos. Recordo-me de Miguel Trigueiros, de Castro Gil e Amadeu Torres. De algumas r\u00e9citas acompanhadas a piano. Isto fica como uma m\u00fasica no subconsciente que vai dinamizando a nossa vida. Depois, nas horas em que \u00e9 preciso um sentimento grande e uma express\u00e3o afectiva, aparece com mais facilidade.  <b>Poesias privadas<\/b> AE \u2013 Construiu a \u00abTravessia\u00bb mas ainda guarda alguns in\u00e9ditos? JG \u2013 N\u00e3o tenho muitos. Fiz dois textos, um sobre a Senhora da Gra\u00e7a \u2013 j\u00e1 foi musicado e cantado em Roma \u2013 e outro sobre Santo Ant\u00f3nio dos Portugueses que tamb\u00e9m j\u00e1 foi executado l\u00e1. E agora tenho a \u00abTravessia\u00bb que \u00e9 o maior de todos e com maior f\u00f4lego.  E tenho tamb\u00e9m algumas poesias privadas sobre temas privados.  AE \u2013 Quando \u00e9 que esse privado se torna p\u00fablico? JG \u2013 N\u00e3o sei se valer\u00e1 pena. Um poema \u00e9 sobre a sa\u00edda do hospital quando fui operado. Outro \u00e9 sobre a m\u00e3e quando ela faleceu. Tenho tamb\u00e9m um sobre os Carmelitas, no fim de um retiro que lhes fiz. Poemas entre o espiritual, cultural e o pastoral. N\u00e3o \u00e9 uma quantidade que mere\u00e7a nome em qualquer antologia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Joaquim Gon\u00e7alves \u00e9 bispo h\u00e1 25 anos, 19 dos quais ao servi\u00e7o da Igreja de Vila Real. 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