{"id":20648,"date":"2006-10-13T11:15:19","date_gmt":"2006-10-13T11:15:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/10\/13\/em-ti-cantamos-a-beleza-da-misericordia-do-pai\/"},"modified":"2006-10-13T11:15:19","modified_gmt":"2006-10-13T11:15:19","slug":"em-ti-cantamos-a-beleza-da-misericordia-do-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/em-ti-cantamos-a-beleza-da-misericordia-do-pai\/","title":{"rendered":"Em Ti cantamos a Beleza da Miseric\u00f3rdia do Pai"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Ant\u00f3nio Marto na Peregrina\u00e7\u00e3o Internacional Anivers\u00e1ria de Outubro de 2006 <!--more--> Diante da tua imagem de Nossa Senhora de F\u00e1tima, \u00f3 Virgem M\u00e3e, como peregrino entre os peregrinos que hoje aqui acorreram em multid\u00e3o, em seu nome e em nome pessoal, sa\u00fado-Te afectuosamente com o conhecido hino: <i>Ave, Maria, mulher admir\u00e1vel, honra do povo! Em Ti cantamos a grandeza do Pai! Humilde serva, formosa Senhora, Ditosa M\u00e3e, na dor e na paz. Em Ti cantamos a grandeza do Pai!<\/i> Nesta minha sauda\u00e7\u00e3o de amor \u00e0 Virgem, quero envolver num grande e afectuoso abra\u00e7o todos v\u00f3s que estais a viver com a vossa presen\u00e7a este momento de gra\u00e7a. Sa\u00fado com fraterno afecto os meus irm\u00e3os bispos e sacerdotes concelebrantes, particularmente os bispos dos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa que se reuniram em F\u00e1tima. Ao presidir hoje, pela primeira vez, a uma peregrina\u00e7\u00e3o do dia 13, na minha miss\u00e3o de Bispo de Leiria-F\u00e1tima, vem-me \u00e0 mem\u00f3ria a cena dum vitral da \u00e1bside duma pequena igreja de B\u00e9nodet, na Bretanha (Fran\u00e7a): a Virgem com o menino aparece a um bispo ornado com as ins\u00edgnias: o b\u00e1culo, a mitra e as vestes episcopais. E Maria, de p\u00e9, por cima dum altar, estende-lhe o menino Jesus. Pouco importa o acontecimento que motivou esta representa\u00e7\u00e3o. O que interessa \u00e9 a simb\u00f3lica da mensagem. Parece que Maria est\u00e1 a dizer-nos: \u201cAten\u00e7\u00e3o! N\u00e3o sou eu a mais importante nem tu, bispo, com as tuas ins\u00edgnias episcopais: \u00e9 o meu Filho! Como eu, com o sopro do Esp\u00edrito, continuai a prop\u00f4-lo ao mundo de hoje. Sede simples, verdadeiros e humildes para n\u00e3o chamardes a aten\u00e7\u00e3o sobre v\u00f3s, mas sobre Jesus e a Sua mensagem. Proponde a Palavra de Deus, proponde os sacramentos da gra\u00e7a, conduzi \u00e0 Fonte da Vida que \u00e9 Cristo, Revelador do Pai e Redentor do homem e do mundo, ajudai a humanidade a descobrir e a contemplar a Beleza do Seu rosto e da Sua miseric\u00f3rdia e a deixar-se embelezar por ela.\u201d Que miss\u00e3o mais bela poderia a M\u00e3e de Jesus assinalar \u00e0 Igreja hoje, a este santu\u00e1rio de F\u00e1tima, \u201ccatedral espiritual do mundo\u201d, e ao seu humilde bispo, Ela cuja grandeza est\u00e1 na humildade e no seu servi\u00e7o ao Filho e \u00e0 humanidade?  <b>Contemplar a Beleza da Divina Miseric\u00f3rdia<\/b> Hoje, com esta celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, damos in\u00edcio ao Ano da Miseric\u00f3rdia para comemorar essa extraordin\u00e1ria manifesta\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia atrav\u00e9s de Maria, aqui na Cova da Iria, h\u00e1 noventa anos. Por isso quero convidar-vos a contemplar juntamente comigo, com os olhos cheios de deslumbramento e o cora\u00e7\u00e3o cheio de gratid\u00e3o, a beleza do mist\u00e9rio da miseric\u00f3rdia. A liturgia de hoje, desde os c\u00e2nticos at\u00e9 \u00e0s ora\u00e7\u00f5es e \u00e0s leituras, \u00e9 toda ela como que uma cantata, como uma grande varia\u00e7\u00e3o sobre a bondade e a miseric\u00f3rdia de Deus, que tem o seu v\u00e9rtice na exclama\u00e7\u00e3o comovida de S. Paulo: \u201cDeus \u00e9 rico de miseric\u00f3rdia pelo imenso amor com que nos amou, precisamente a n\u00f3s que est\u00e1vamos mortos pelas nossas faltas\u201d. Aqui S. Paulo oferece-nos a palavra-chave para compreendermos que a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o &#8211; da nossa salva\u00e7\u00e3o &#8211;  \u00e9 uma epopeia da miseric\u00f3rdia divina. Mas particularmente significativa e iluminante \u00e9 a p\u00e1gina do Evangelho em que S. Jo\u00e3o visualiza o rosto concreto desta miseric\u00f3rdia no encontro da mulher ad\u00faltera com Cristo. Esta cena \u00e9 uma p\u00e9rola evang\u00e9lica de incompar\u00e1vel beleza, de comovente ternura e profundidade doutrinal que Santo Agostinho sintetiza numa frase lapidar: \u201cRelicti sunt duo: misera et misericordia\u201d! Ficaram s\u00f3 os dois: a mis\u00e9ria humana e a miseric\u00f3rdia! A pobre pecadora aparece em toda a mis\u00e9ria da sua culpa: n\u00e3o s\u00f3 perdeu publicamente a honra, mas est\u00e1 prestes a perder a vida. Jesus manifesta-se como a miseric\u00f3rdia incarnada e pronuncia um ju\u00edzo de absolvi\u00e7\u00e3o: \u201cNem eu te condeno. Vai e n\u00e3o voltes a pecar\u201d. Tu vales mais, infinitamente mais, do que o teu pecado.  A dramaticidade da cena \u00e9 dada pelo confronto entre o abismo da mis\u00e9ria humana e o abismo ainda maior do Amor que Deus tem por n\u00f3s. Estamos diante das dimens\u00f5es inenarr\u00e1veis e indiz\u00edveis deste Amor, que S. Ambr\u00f3sio comenta de modo admir\u00e1vel: \u201cN\u00e3o tenhas medo de que o Pai n\u00e3o te acolha; na realidade, Ele n\u00e3o se alegra com que os vivos se percam. Tu tremes por t\u00ea-lo ofendido; mas Ele restitui-te a tua beleza\u201d. De facto, Jesus restituiu \u00e0 ad\u00faltera a beleza perdida: salvou-a como mulher, na sua dignidade de pessoa, na sua humanidade, na sua feminilidade, na verdade do seu amor, na sua rela\u00e7\u00e3o a Deus. Ela \u00e9, de ora em diante, um texto vivo e eloquente da miseric\u00f3rdia de Deus. Eis pois a beleza do Amor misericordioso que nela se espelha: o Amor que perdoa, cura as feridas, resgata, enche de gra\u00e7a e ternura, cumula de dons, rejuvenesce, defende com justi\u00e7a os oprimidos, arranca ao poder do pecado e da morte, relan\u00e7a no caminho de uma vida nova. \u00c9 aquele Amor entranhado do Pai que diz a cada um: Tu vales mais, infinitamente mais, do que o teu pecado. Tem confian\u00e7a! N\u00e3o h\u00e1 qualquer situa\u00e7\u00e3o irremediavelmente perdida.  <b>Repensar a nossa hist\u00f3ria \u00e0 luz da Miseric\u00f3rdia<\/b> Na figura desta mulher do evangelho podemos ler os dramas da vida de cada um e da humanidade. Ela \u00e9 imagem de uma humanidade que experimenta tremendas desilus\u00f5es e gritos de desespero porque n\u00e3o consegue ser verdadeiramente humana; que se apercebe dos g\u00e9rmenes de viol\u00eancia, \u00f3dio, crueldade e morte que traz consigo, mas que clama e espera por reden\u00e7\u00e3o. Quando desespera, est\u00e1 perdida; quando perde os horizontes de esperan\u00e7a, fecha-se, envelhece, morre, suicida-se. Cristo deu e d\u00e1 ao mundo uma outra beleza: a da miseric\u00f3rdia, a do Amor que salva. Por isso, Fran\u00e7ois Mauriac p\u00f4de dizer: \u201csobre o pecado e sobre o mal do mundo resplandece sempre a luz do Amor de Deus\u201d. Que seria o nosso mundo sem a realidade da miseric\u00f3rdia? Uma terra donde fosse exclu\u00edda a miseric\u00f3rdia poderia porventura ser legalmente justa, mas depressa se tornaria irrespir\u00e1vel e os homens tremeriam de frio. Ressoa hoje aqui, com o sabor de testamento, o \u00faltimo apelo de Jo\u00e3o Paulo II que n\u00e3o chegou a pronunciar por ter morrido na v\u00e9spera da celebra\u00e7\u00e3o do domingo da Divina Miseric\u00f3rdia: \u201c\u00c0 humanidade que, por vezes, parece perdida e dominada pelo poder do mal, do ego\u00edsmo e do medo, o Senhor ressuscitado oferece em dom o Seu amor que perdoa, reconcilia e abre o \u00e2nimo \u00e0 esperan\u00e7a. \u00c9 o Amor que converte os cora\u00e7\u00f5es e d\u00e1 a paz. Quanta necessidade tem o mundo de acolher a miseric\u00f3rdia divina\u201d (L\u2019Osservatore Romano 04\/04\/05). O amor rico em miseric\u00f3rdia \u00e9 o verdadeiro rosto de Deus \u201co Pai das miseric\u00f3rdias e Deus de toda a consola\u00e7\u00e3o\u201d (2 Cor 1,3). Se acreditarmos no Seu Amor e no Seu perd\u00e3o regenerador a nossa convers\u00e3o ser\u00e1 profundamente sincera e n\u00e3o fruto do medo de um Deus justiceiro.  <b>Maria, M\u00e3e e Rainha da Miseric\u00f3rdia<\/b> Ao Pai das miseric\u00f3rdias faz eco a M\u00e3e da miseric\u00f3rdia. Um grande te\u00f3logo, U. von Balthasar, afirma que se o olhar de numerosos crist\u00e3os parece hoje crispado, inumano e por vezes feroz, \u00e9 porque negligenciaram na sua vida a presen\u00e7a da M\u00e3e do Salvador, que proclama que a miseric\u00f3rdia de Deus se estende de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o (cf. Lc 1,50). \u00c9 \u00e0 luz do mist\u00e9rio da miseric\u00f3rdia que devemos procurar compreender a extraordin\u00e1ria mensagem que daqui de F\u00e1tima come\u00e7ou a ressoar por todo o mundo desde aquele dia 13 de Maio de 1917. Aqui, Maria, a M\u00e3e do Salvador, proclamou mais uma vez a miseric\u00f3rdia divina, fazendo sentir o grito da sua grande dor e do seu grande amor pela humanidade \u201cque anseia por erguer-se do abismo\u201d em que caiu. \u201c\u00c9 a dor da M\u00e3e que a faz falar; est\u00e1 em jogo a sorte dos filhos\u201d (Jo\u00e3o Paulo II). F\u00ea-lo com uma mensagem impressionante de advert\u00eancia, para que a humanidade e a Igreja tomassem consci\u00eancia da dimens\u00e3o infernal da loucura do mal e do pecado na hist\u00f3ria com o seu poder aniquilador; mas ao mesmo tempo, com uma mensagem de consola\u00e7\u00e3o e de esperan\u00e7a naquele Amor misericordioso que \u00e9 sempre maior que o nosso cora\u00e7\u00e3o, mais forte que os nossos males e de que se fez eco o seu cora\u00e7\u00e3o terno e materno, o seu Imaculado Cora\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a dist\u00e2ncia do tempo nos permitiu captar a profundidade e a relev\u00e2ncia hist\u00f3rica e prof\u00e9tica da mensagem.  Ela continua a dar-nos \u00e2nimo no in\u00edcio do mil\u00e9nio: Abri o vosso cora\u00e7\u00e3o a Cristo! N\u00e3o tenhais medo! N\u00e3o tenhais vergonha do Evangelho! A fidelidade e a miseric\u00f3rdia de Deus s\u00e3o mais fortes que toda a fatalidade e todo o pecado! Convertei-vos, convertei o vosso cora\u00e7\u00e3o. Ao Teu cora\u00e7\u00e3o materno, Senhora, queremos hoje confiar os nossos anseios e as nossas inquieta\u00e7\u00f5es e as do nosso mundo, com a invoca\u00e7\u00e3o que aqui fez ressoar o Papa Jo\u00e3o Paulo II: monstra Te esse Matrem, mostra que \u00e9s nossa M\u00e3e, M\u00e3e de miseric\u00f3rdia! M\u00e3e das crian\u00e7as: como o foste de Jesus menino, ajudando-as a crescer em idade, sabedoria e gra\u00e7a; M\u00e3e dos jovens: que pelo testemunho da beleza da tua humanidade e da tua f\u00e9 possam descobrir o encanto e a beleza da vida com Cristo; M\u00e3e dos lares e das fam\u00edlias, a quem chamas a redescobrir a beleza do seu amor. Faz que ele se torne mais forte que toda a fraqueza e toda a crise; M\u00e3e dos doentes e dos idosos: pela constante protec\u00e7\u00e3o nos seus sofrimentos e na solid\u00e3o, s\u00ea para eles Consoladora dos aflitos; Monstra Te esse Matrem, mostra que \u00e9s nossa M\u00e3e! M\u00e3e da nossa f\u00e9: que nos d\u00e1s a conhecer Jesus, bendito fruto do teu ventre, e nos convidas a acolh\u00ea-Lo com a alegria e a prontid\u00e3o do teu \u201csim\u201d; M\u00e3e da Igreja, humanamente limitada e pobre, santa e pecadora, mas empenhada como Tu em abandonar-se \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que a santifica, renova e embeleza, para que deixe transparecer a beleza do rosto de Cristo no mundo; Monstra Te esse Matrem, mostra que \u00e9s nossa M\u00e3e! M\u00e3e do nosso mundo, da grande fam\u00edlia humana; M\u00e3e dos pobres, que recordas ao Pai na ora\u00e7\u00e3o do Magnificat, dos humilhados e ofendidos na sua dignidade, dos que n\u00e3o encontram trabalho, nem casa, nem p\u00e3o\u2026 Que vejam reconhecida a sua dignidade; M\u00e3e dos povos, no in\u00edcio deste mil\u00e9nio, t\u00e3o amea\u00e7ados por divis\u00f5es e confrontos, por \u00f3dios, rancores, vingan\u00e7as e terrorismos. Caminha com os povos para o di\u00e1logo das culturas e das religi\u00f5es, para a solidariedade e para o amor; M\u00e3e, particularmente, dos povos do M\u00e9dio Oriente, do povo querido de Timor e do povo do Darfur, t\u00e3o martirizados pela viol\u00eancia e pela guerra. S\u00ea para eles M\u00e3e do perp\u00e9tuo socorro e Rainha da paz! Monstra Te esse Matrem, mostra que \u00e9s nossa M\u00e3e! Sim, continua a mostrar-te M\u00e3e para todos, porque o nosso mundo tem necessidade de Ti, M\u00e3e da divina miseric\u00f3rdia, M\u00e3e da consola\u00e7\u00e3o, da esperan\u00e7a e da paz!  <i>Vela por n\u00f3s, filhos teus, M\u00e3e de Jesus, nosso Bem, Tu podes, \u00e9s M\u00e3e de Deus,  Tu deves, \u00e9s nossa M\u00e3e!<\/i>  <i>D. Ant\u00f3nio Marto, Bispo de Leiria-F\u00e1tima F\u00e1tima, 13 de Outubro de 2006-10-06<\/i> \t\t\t<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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