{"id":206210,"date":"2021-04-28T10:55:43","date_gmt":"2021-04-28T09:55:43","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=206210"},"modified":"2021-04-28T10:55:43","modified_gmt":"2021-04-28T09:55:43","slug":"saber-aprender-a-beber-no-rio-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-beber-no-rio-do-tempo\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A beber no rio do tempo"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Se andares a correr atr\u00e1s do tempo, a culpa n\u00e3o \u00e9 tua. A culpa \u00e9 dos ponteiros nos rel\u00f3gios mais antigos, ou dos d\u00edgitos nos mais modernos. Basta retirar os ponteiros ou apagar os d\u00edgitos e voltas a orientar-te pelo tempo. Diz Marshal McLuhan que \u2014 <em>\u00abda nossa divis\u00e3o do tempo em unidades uniformes e visualiz\u00e1veis derivou o nosso sentido da dura\u00e7\u00e3o e a nossa impaci\u00eancia quando nos custa suportar o intervalo entre dois eventos. (\u2026) Tal como o trabalho teve in\u00edcio com a divis\u00e3o do trabalho, tamb\u00e9m a dura\u00e7\u00e3o come\u00e7a com a divis\u00e3o do tempo.\u00bb<\/em> E o resultado \u00e9 uma vida fragmentada pelo tempo e a perda do sentido de orienta\u00e7\u00e3o na vida.<\/p>\n<figure id=\"attachment_206211\" aria-describedby=\"caption-attachment-206211\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-206211\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1001\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1-768x513.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1-1080x721.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1-1280x854.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/nathan-anderson-8X1-pcDF8l0-unsplash-ecclesia1-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-206211\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Nathan Anderson em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Anualmente celebramos no dia 1 de maio, o Dia do Trabalhador. Um feriado que sempre tive alguma dificuldade em compreender. N\u00e3o por que o trabalhador n\u00e3o merece ser celebrado, mas qual a motiva\u00e7\u00e3o? Tudo come\u00e7ou em 1886 com uma greve na cidade norte-americana de Chicago, na luta pela redu\u00e7\u00e3o das horas de trabalho para as oito horas que temos hoje. \u00c9 uma luta pelos direitos dos trabalhadores. Nesse dia, celebramos, tamb\u00e9m, o santo padroeiro dos trabalhadores, S. Jos\u00e9, oper\u00e1rio. Por isso, comecei por questionar que rela\u00e7\u00e3o S. Jos\u00e9 tinha com o trabalho, e que ensinamentos nos pode inspirar, hoje, para o modo como usamos o nosso tempo.<\/p>\n<p>Em S. Jos\u00e9 percebemos como o trabalho dignifica o ser humano. O trabalho n\u00e3o \u00e9 somente o modo de sustentarmos a nossa fam\u00edlia, mas torna-nos co-criadores com Deus. Assim, quando usamos do nosso tempo para criar alguma coisa, fruto do trabalho das nossas m\u00e3os, se o que cri\u00e1mos serve para o bem das pessoas e do ambiente que nos circunda, consideramos como algo digno e dignificante. Quando trabalhamos e nos concentramos naquilo que devemos fazer, essa \u00e9 a nossa resposta ao convite de fazer bem aquilo que temos para fazer no momento presente. Este \u00e9 o meu conceito de produtividade. Mas a um n\u00edvel mais profundo, fazemos a Vontade de Deus no momento presente, como S. Jos\u00e9 o fazia. Por que raz\u00e3o deixamos que o tempo cronol\u00f3gico domine a viv\u00eancia do trabalho como meio que nos dignifica humanamente, quebrando esse prop\u00f3sito?<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o trabalho e o tempo \u00e9 intr\u00ednseca. No trabalho cumprimos hor\u00e1rios, prazos, de modo a estarmos sincronizados naquilo que fazemos e a dar espa\u00e7o a outros dom\u00ednios importantes da nossa vida como a fam\u00edlia e os amigos. Da\u00ed o sentido de haver uma hora de sa\u00edda do trabalho. Mas, no mundo que antes era virtual, e agora remoto, quantas pessoas n\u00e3o trazem o trabalho para dentro de casa. E depois da pandemia, a casa converteu-se no espa\u00e7o de trabalho de muitos, deixando de haver hor\u00e1rios fixos. Tudo \u00e9 adapt\u00e1vel com o trabalho remoto. O risco de desorientarmos a nossa vida com este desafio \u00e9 enorme. E o trabalho pode deixar de ser um meio que nos dignifica. Precisamos de uma b\u00fassola de valores.<\/p>\n<p>Quem vive somente para o trabalho, sacrifica tudo e todos para realizar as tarefas que lhe competem. Talvez pense mais na bolsa de valores (monet\u00e1rios), do que procura orientar-se por uma b\u00fassola de valores que lhe dar\u00e1 as raz\u00f5es que geram resultados, sem compromenter uma vida profunda. Por outro lado, quem n\u00e3o sabe bem o que fazer com o seu tempo, e vive ao sabor do trabalho que consegue no momento, sem se importar com a hist\u00f3ria que constr\u00f3i com aquilo que faz, vive \u00e0 deriva pelas circunst\u00e2ncias. Esse pensa mais em evitar que a sua bolsa fique vazia, mesmo que isso implique sacrificar os sonhos com as necessidades do momento. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil na qual uma b\u00fassola de valores d\u00e1 a motiva\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca que nos impele a desenvolver as capacidades necess\u00e1rias a uma vida profissional realizada, ainda que isso nos leve a estar, por vezes, numa zona de desconforto.<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio n\u00e3o domina o nosso tempo se o usarmos para acertar os nossos ritmos com os ritmos dos outros, em vez marcarmos os nossos ritmos (e os dos outros) com a divis\u00e3o temporal. \u00c9 como a diferen\u00e7a entre ver um grupo de dan\u00e7a jazz a realizar os mesmos passos, e uma parada militar. No primeiro experimentamos a harmonia entre o tempo que passa e o tempo certo, e no segundo experimentamos o automatismo que faz de n\u00f3s m\u00e1quinas nas m\u00e3os do tempo. A grande dificuldade em termos na m\u00e3o uma b\u00fassola dos valores est\u00e1 no menosprezo que damos ao tempo para pensar no que tem real valor na nossa vida.<\/p>\n<p>Quem vive atr\u00e1s dos eventos, de Zoom em Zoom, de reuni\u00e3o em reuni\u00e3o, de tarefa em tarefa e n\u00e3o p\u00e1ra, corre o risco de parar de vez. Em 2011, Ant\u00f3nio Horta-Os\u00f3rio assumiu a presid\u00eancia do Lloyds Bank e acabou por viver um dif\u00edcil per\u00edodo de burnout. J\u00e1 recuperou, e no seu testemunho partilha a import\u00e2ncia que devemos dar ao momentos de descanso, de paragem para regenerar os turbilh\u00f5es que os nossos trabalhos pode suscitar dentro de n\u00f3s. O \u00f3cio, diz o P. Vasco Pinto de Magalh\u00e3es s.j., \u00e9 <em>\u00abter tempo para escutar, ter tempo para pensar, ter tempo para ler, ter tempo para descansar.\u00bb<\/em> Ou seja, ter tempo para os valores e deixar que esses nos ajudem a viver o tempo certo para viver cada coisa.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem pense que n\u00e3o tem tempo para parar e afirma ser um luxo de quem n\u00e3o faz a m\u00ednima ideia do que \u00e9 o seu trabalho. Mas como diz Henry David Thoreau em \u201cWalden\u201d, <em>\u00abfui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir \u00e0 hora da morte que n\u00e3o tinha vivido.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Vivemos com pressa demais quando deixamos de usar a b\u00fassola dos valores. E em vez de unirmos os momentos que fazem da nossa vida, uma vida plena, usamos o tempo para dividir sem conquistar. Pois, como diz ainda Thoreau, <em>\u00abo tempo \u00e9 apenas o rio em que vou pescando. Bebo nele, mas ao beber vejo-lhe o leito de areia e percebo qu\u00e3o raso \u00e9. A fina corrente logo se esvai, mas a eternidade permanece.\u00bb<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-206210","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206210","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=206210"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206210\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=206210"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=206210"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=206210"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}