{"id":205886,"date":"2021-04-25T05:00:53","date_gmt":"2021-04-25T04:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=205886"},"modified":"2021-04-24T10:06:04","modified_gmt":"2021-04-24T09:06:04","slug":"25-de-abril-alguns-padres-foram-importantes-porque-nos-disseram-que-estavamos-a-ser-fieis-a-jesus-cristo-jorge-wemans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/25-de-abril-alguns-padres-foram-importantes-porque-nos-disseram-que-estavamos-a-ser-fieis-a-jesus-cristo-jorge-wemans\/","title":{"rendered":"25 de abril: \u00abAlguns padres foram importantes porque nos disseram que est\u00e1vamos a ser fi\u00e9is a Jesus Cristo\u00bb &#8211; Jorge Wemans"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 1972, quando organizou e participou na vig\u00edlia da Capela do Rato, em Lisboa, Jorge Wemans tinha 19 anos e acreditava que o Evangelho se concretizava tamb\u00e9m pela luta contra o regime do Estado Novo, que reprimia liberdades de a\u00e7\u00e3o e de pensamento.<\/em><\/p>\n<p><em>A crescente consciencializa\u00e7\u00e3o na rua e nos grupos da Juventude Escolar Cat\u00f3lica, por onde passou, mostravam que o caminho estava certo, apesar da dist\u00e2ncia da hierarquia da Igreja cat\u00f3lica. Hoje prefere olhar para o futuro como o tempo e o espa\u00e7o onde o mais importante est\u00e1 por fazer, sob risco de a democracia morrer.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por L\u00edgia Silveira<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-86412 alignleft\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1jorge-wemans-300x213.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"213\" \/>Ag\u00eancia Ecclesia (AE) \u2013 Como chega ao contacto com os protagonistas da vig\u00edlia da Capela do Rato, em 1972? Que passos o levaram at\u00e9 esse momento?<\/em><\/p>\n<p>Jorge Wemans (JW) \u2013 As mem\u00f3rias nem sempre s\u00e3o muito seguras &#8211; \u00e0 medida que vamos pensando nos acontecimentos passados, vamos recriando um pouco a hist\u00f3ria. Mas a minha fam\u00edlia era bastante conservadora e o meu pai era, claramente, apoiante de Ant\u00f3nio Oliveira Salazar. Eu n\u00e3o estava destinado a ser cr\u00edtico do regime, mas sim a ser um jovem integrado, dentro da ditadura que se vivia.<\/p>\n<p>Contudo, fui conhecendo quer algumas pessoas como situa\u00e7\u00f5es concretas, em que me apercebi da injusti\u00e7a, das desigualdades, das situa\u00e7\u00f5es muito degradadas em que muita gente em Portugal vivia, a quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o, as cheias de 1967\u2026<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Amigos que fugiram, para fugir \u00e0 guerra?<\/em><\/p>\n<p>JW \u2013 Sim, tamb\u00e9m. A repress\u00e3o sobre o movimento estudantil: n\u00e3o pod\u00edamos reunir\u2026 Dei-me conta da quantidade de proibi\u00e7\u00f5es que existiam: n\u00e3o pod\u00edamos ler livros que n\u00e3o chegavam, discos a que n\u00e3o t\u00ednhamos acesso. Tudo foi criando em mim uma consci\u00eancia de repress\u00e3o e aus\u00eancia de liberdade, acrescido, sobretudo, com a guerra colonial.<\/p>\n<p>O Papa Paulo VI, com a cria\u00e7\u00e3o dos dias mundiais da paz, tinha chamado a aten\u00e7\u00e3o da nossa consci\u00eancia cat\u00f3lica para a quest\u00e3o da paz, gra\u00e7as ao testemunho de v\u00e1rias pessoas envolvidas numa reflex\u00e3o mais aprofundada sobre as implica\u00e7\u00f5es da paz num pa\u00eds que estava em guerra \u2013 embora isso fosse muito escondido, e pouco p\u00fablico ou assumido, dado que a guerra se passava em \u00c1frica.<\/p>\n<p>Conhecendo a pouco e pouco a minha consci\u00eancia, gra\u00e7as ao que vi, \u00e0 capacidade de refletir sobre a realidade com outras pessoas e ao testemunho de terceiros, fui alterando a minha consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o e foi assim que cheguei \u00e0 Capela do Rato.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E em casa como \u00e9 que isso era vivido?<\/em><\/p>\n<p>JW \u2013 Isso fez parte do que \u00e9 habitual na juventude que \u00e9 alguma rutura com a gera\u00e7\u00e3o anterior. Era mais comum numa situa\u00e7\u00e3o de maior fecho, esse conflito de gera\u00e7\u00f5es \u2013 express\u00e3o que n\u00e3o gosto, mas o meu modo de viver a f\u00e9, aquilo que eram para mim as imposi\u00e7\u00f5es que decorriam de ser cat\u00f3lico eram muito diferente da forma de viver o catolicismo dos meus pais e isso era mais uma raz\u00e3o de choque, mas era s\u00f3 mais uma.<\/p>\n<p>Havia outras: o comportamento c\u00edvico, as quest\u00f5es a que a minha gera\u00e7\u00e3o era sens\u00edvel, esse foi mais um elemento de um conflito que foi bastante presente em minha casa.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 As celebra\u00e7\u00f5es da Capela do Rato, com o padre Alberto Neto, eram frequentadas por si?<\/em><\/p>\n<p>JW &#8211; A Juventude escolar cat\u00f3lica (JEC) foi uma das institui\u00e7\u00f5es, a minha equipa base e depois a equipa nacional, onde eu mais aprofundei a minha f\u00e9, a rela\u00e7\u00e3o com Jesus, e a consci\u00eancia que tinha da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O padre Alberto era um dos assistentes da JEC. Eu frequentava as suas celebra\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 as que tinham lugar na Capela do Rato, mas durante muito tempo foi assistente da equipa de base de que eu fazia parte. Celebr\u00e1vamos algumas vezes em pequeno grupo, na comunidade que era a nossa equipe de base. Estava muito relacionado com a Capela do Rato mesmo antes da vig\u00edlia de 73.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como foi prepara\u00e7\u00e3o da vig\u00edlia da Capela do Rato de 1972 para 73?<\/em><\/p>\n<p>JW &#8211; A vig\u00edlia de 72 para 73 teve uma longa prepara\u00e7\u00e3o sobretudo porque teve de ser bastante clandestina e secreta. Tudo implicava mais tempo; n\u00e3o existiam telem\u00f3veis, claro, mas sobretudo dadas as condi\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o por parte da PIDE, as comunica\u00e7\u00f5es n\u00e3o seriam indicadas.<\/p>\n<p>Prepar\u00e1mos a vig\u00edlia com algumas a\u00e7\u00f5es exteriores a quem estava na capela. A nossa ideia n\u00e3o era apenas a realiza\u00e7\u00e3o da vig\u00edlia &#8211; j\u00e1 de si importante, uma vig\u00edlia e um jejum continuado &#8211; mas seria divulgar na \u00e1rea de Lisboa, alguma periferia, nas par\u00f3quias e nas missas desse fim de semana, um apelo para que as pessoas se juntassem \u00e0 vig\u00edlia a desenrolar na capela.<\/p>\n<p>Eu estive nessa parte. Era preciso imprimir artesanalmente, na altura era o melhor que t\u00ednhamos, apelos para se dirigirem \u00e0 capela e participarem na vig\u00edlia pela paz que est\u00e1vamos a organizar.<\/p>\n<p>Foi preciso imprimir, distribuir, organizar grupos para dar panfletos \u00e0 sa\u00edda das missas \u2013 essa foi a parte em que mais participei. Em outubro ou novembro de 72 come\u00e7\u00e1mos a pensar nas pessoas para distribuir entre elas, pessoas que nos dessem garantais de confian\u00e7a e de se manterem discretas.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Sentiam-se acompanhados?<\/em><\/p>\n<p>JW \u2013 Acompanhados por quem?<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Por jovens que sentiam o mesmo. Sentiam haver lastro para o que procuravam? Eram acompanhados por padres que vos ajudavam, mas a rela\u00e7\u00e3o com a hierarquia era dif\u00edcil\u2026<\/em><\/p>\n<p>JW &#8211; \u00a0Os \u00faltimos tempos do regime de Marcelo Caetano foram tempos em que rapidamente fomos percebendo que havia muita gente, sobretudo jovens, a ganhar dist\u00e2ncia sobre o regime, a achar que n\u00e3o estava bem, que o regime n\u00e3o nos levava a lado nenhum apenas ao prolongamento da guerra colonial, \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o da liberdade.<\/p>\n<p>A partir do princ\u00edpio dos anos 70, depois das elei\u00e7\u00f5es de 69, que foram alvo de grande repress\u00e3o, as movimenta\u00e7\u00f5es, manifesta\u00e7\u00f5es e debates organizados pelos grupos de oposi\u00e7\u00e3o foram muito reprimidos; progressivamente, com as movimenta\u00e7\u00f5es a n\u00edvel estudantil, com o fecho de escolas, presen\u00e7a de \u00abgorilas\u00bb pides nas aulas, todo esse clima de repress\u00e3o que se seguiu \u00e0 primavera Marcelista, levou a que muita gente come\u00e7asse nos caf\u00e9s a debater a guerra, ainda que \u00e0 boca fechada. Houve uma consci\u00eancia de que isto n\u00e3o nos levava a lado nenhum.<\/p>\n<p>O ano de 1972 come\u00e7ou, do meu ponto de vista, com ainda a sermos poucos os que nas universidades estavam dispon\u00edveis para a\u00e7\u00f5es contra a guerra e a favor das liberdades pol\u00edticas e sociais, contra a pobreza e injusti\u00e7a, e em meados de 72 j\u00e1 as manifesta\u00e7\u00f5es contra o regime tinham muita gente. Houve uma onda que se acelerou de uma forma que nos surpreendeu.<\/p>\n<p>Posteriormente, em 1974, um grupo alargado que tinha uma pr\u00e1tica de organiza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es em comum, estava a preparar para o 1\u00ba de maio \u2013 caso n\u00e3o tivesse havido o 25 de abril &#8211; , uma grande concentra\u00e7\u00e3o no Rossio, em Lisboa, e o nosso objetivo \u00e9 que 500 ou 600 pessoas fossem presas pela Pide. Havia, portanto, um crescimento muito grande da disponibilidade para a luta contra a guerra colonial e a favor das liberdades.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 hierarquia, n\u00e3o. Os bispos em Portugal: atos de coragem, capacidade de liderar, romper, n\u00e3o \u00e9 caracter\u00edstica do nosso episcopado, nem na altura nem hoje. H\u00e1 uma atitude muito acomodat\u00edcia, n\u00e3o fazer ondas \u00e9 o grande objetivo do nosso episcopado.<\/p>\n<p>Naquela altura, no in\u00edcio em 1973 o episcopado n\u00e3o reconheceu a equipa nacional da JEC, que eu fazia parte \u2013 t\u00ednhamos sido eleitos normalmente pelos militantes, mas n\u00e3o fomos reconhecidos, o assistente apontado n\u00e3o foi nomeado. Havia uma grande diferen\u00e7a, um conflito entre o que a hierarquia pensava e queria e os que os jovens pretendiam.<\/p>\n<p>Alguns padres foram bastante importantes porque permaneceram fi\u00e9is ao acompanhamento, que era a sua miss\u00e3o, de jovens. Mesmo que a hierarquia pensasse que \u00e9ramos uns perigosos comunistas, opositores, que n\u00e3o dever\u00edamos conduzir os destinos do movimento, alguns padres foram fi\u00e9is na sua miss\u00e3o de nos acompanhar e foram importantes no apoio que deram como figuras mais velhas que nos diziam que n\u00e3o est\u00e1vamos completamente loucos e sobretudo, que n\u00e3o est\u00e1vamos longe de ser fi\u00e9is a Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Eram dois discursos diferentes: o da hierarquia que nos acusava de perdermos a f\u00e9, e destes poucos padres que nos acompanharam e que, ao contr\u00e1rio, disseram que o caminho a trilhar, as preocupa\u00e7\u00f5es que t\u00ednhamos e o desejo de alterar a situa\u00e7\u00e3o era uma forma profunda de viver a nossa rela\u00e7\u00e3o com Jesus e de sermos Igreja. Esses foram muito importantes, apesar do peso de suportar a desautoriza\u00e7\u00e3o de que fomos alvo por parte da hierarquia.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Na noite de 1972 para 73, o que aconteceu? O Jorge foi detido\u2026<\/em><\/p>\n<p>JW &#8211; A pol\u00edcia entrou na Capela do Rato, arrastou as pessoas que estavam para dentro de carrinhas.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Quantas pessoas estavam l\u00e1 dentro?<\/em><\/p>\n<p>JW \u2013 Naquele momento, creio que \u00e9ramos entre 40 a 60. A pol\u00edcia esperou que tivesse menos gente. Durante a tarde tinha estado mais gente. Ao fim da tarde a pol\u00edcia entrou na capela, arrastou para fora \u00e0 for\u00e7a, meteu-nos em carrinhas. Fomos identificados na esquadra do Rato, era a pol\u00edcia de choque com c\u00e3es, tinha um aparato violento.<\/p>\n<p>Um grupo mais pequeno, uns 20 talvez, foi levados da esquadra do rato para o governo civil, ao lado da R\u00e1dio Renascen\u00e7a e da\u00ed &#8211; uns 10 ou 12 &#8211; foram para Caxias.<\/p>\n<p>Eu fiquei em isolamento durante uns 10 ou 15 dias, preso em Caxias, com outros. Com interrogat\u00f3rios, n\u00e3o fui objeto de tortura. Estava isolado, n\u00e3o via ningu\u00e9m, estava numa cela, mas n\u00e3o fui espancado ou tive outras viol\u00eancias.<\/p>\n<p>Fui interrogado, mais do que uma vez e, ao fim de 10, 12 dias, fomos libertados com cau\u00e7\u00e3o. Nem todos foram tratados da mesma forma. Lembro-me de duas pessoas que foram espancadas e depois libertadas como n\u00f3s.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Essas mem\u00f3rias s\u00e3o dif\u00edceis?<\/em><\/p>\n<p>JW &#8211; N\u00e3o muito, hoje em dia. Lembro-me que o facto de estar preso e isolado me fazia pensar fundamentalmente em duas coisas, se bem me lembro: tinha medo de ser espancado e torturado. Lembro-me, sobretudo, que isso foi mais permanente depois de uma visita dos meus pais, porque pensei que agora que me tinham visto, a situa\u00e7\u00e3o iria apertar, pois t\u00e3o cedo n\u00e3o voltariam, e eu seria objeto de viol\u00eancia e os meus pais n\u00e3o veriam as marcas da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o com as pessoas que eu tinha envolvido na prepara\u00e7\u00e3o da vig\u00edlia: n\u00e3o tinha qualquer ideia se tinham sido presas, se estariam nas mesmas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Preocupava-me com as buscas que a Pide teria feito em casa dos meus pais \u2013 eu tinha muito cuidado, mas tinha preocupa\u00e7\u00e3o. Eram os sentimentos mais dominantes.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A seguir \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o, como foi a vossa vida durante aquele ano e meio?<\/em><\/p>\n<p>JW &#8211; Todos n\u00f3s, n\u00e3o s\u00f3 os que foram presos, mas os que estiveram envolvidos na prepara\u00e7\u00e3o e participado na vig\u00edlia, tomamos precau\u00e7\u00f5es para termos cuidado, n\u00e3o nos relacionamos tanto como no passado, cuidados com\u00a0 telefonemas e pap\u00e9is. Mas isso durou dois ou tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Depois, o sentimento e consci\u00eancia que t\u00ednhamos era que a vig\u00edlia tinha sido muito importante para desbloquear a consci\u00eancia de v\u00e1rios setores cat\u00f3licos e, em geral, a oposi\u00e7\u00e3o ao regime estava mais musculada. Dois ou tr\u00eas meses est\u00e1vamos de regresso \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de pessoas para encontros e reflex\u00f5es, distribui\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is com testemunhos sobre a guerra que n\u00e3o chegavam c\u00e1 mas que t\u00ednhamos acesso. Antes do ver\u00e3o est\u00e1vamos a funcionar em pleno.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E no 25 de abril? Estava onde?<\/em><\/p>\n<p>JW \u2013 Estava a dormir. Quando come\u00e7aram as opera\u00e7\u00f5es, eu estava em casa com os meus pais, um irm\u00e3o estava a estudar e veio dizer que a revolu\u00e7\u00e3o estava na rua. As indica\u00e7\u00f5es era para que a popula\u00e7\u00e3o se mantivesse em casa, e eu assim fiz. No pr\u00f3prio dia 25 de abril, viv\u00edamos em Alvalade, e ali ficamos, a receber not\u00edcias e a fazer telefonemas, na expetativa de ver como iria acabar, sabendo que sim.<\/p>\n<p>O Marcelo Caetano tinha sido detido &#8211; foi talvez o momento mais significativo, t\u00ednhamos sabido que ele, n\u00e3o em direto, tinha sido detido e era o s\u00edmbolo que o regime tinha um fim. Esse foi talvez o momento mais alto do dia em que a perce\u00e7\u00e3o clara que t\u00ednhamos derrubado o regime e ficou na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um balde de \u00e1gua fria foi quando, em direto, vimos a Junta Militar, encabe\u00e7ada pelo Sp\u00ednola, de negro, velho, antigo, parecia que o regime tinha voltado. A apresenta\u00e7\u00e3o da Junta de salva\u00e7\u00e3o nacional n\u00e3o nos deixou dormir tranquilos. A imagem \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o completa da alegria do dia. E o Sp\u00ednola n\u00e3o tinha uma reflex\u00e3o claramente favor\u00e1vel para p\u00f4r termo \u00e0 guerra e \u00e0 independ\u00eancia dos povos africanos. Foi um fim de dia muito contradit\u00f3rio com a alegria do 25 de abril.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Qual era a vossa preocupa\u00e7\u00e3o seguinte?<\/em><\/p>\n<p>JW \u2013 Fundamentalmente o que marcou as pessoas que estavam na JEC e no in\u00edcio das universidades, do ponto de vista cat\u00f3lico, foi celebrar o que nos estava a acontecer e o que tinha acontecido. O lado festivo e celebrat\u00f3rio foi o que marcou os meses depois, e o ver\u00e3o, muito marcado pela convi\u00e7\u00e3o que est\u00e1vamos certos, t\u00ednhamos vivido algo que s\u00f3 acontece raramente, a realidade a dar-nos raz\u00e3o. Os esfor\u00e7os e dificuldades, tudo pelo qual lutamos e sofremos, de repente parecia que estava certo.<\/p>\n<p>Lembro-me de v\u00e1rias vezes, quando andava na igreja, tudo muito aflito porque a maioria dos cat\u00f3licos n\u00e3o estaria contra a guerra, nem animados para derrubar o regime. Quando andam afli\u00e7\u00f5es pela igreja, varias vezes dissemos: n\u00e3o h\u00e1 muito a mudar, continuamos no caminho \u2013 j\u00e1 com uma mudan\u00e7a exterior muito grande, com a possibilidade de falar nos telhados o que se dizia \u00e0 boca fechada, mas o 25 de abril veio confirmar o que j\u00e1 faz\u00edamos antes, agora com mais facilidade, havendo mais gente que se envolveu na JEC.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o que t\u00ednhamos era essa: que \u00e0 nossa volta havia grandes preocupa\u00e7\u00f5es por mudar, ajustar as pr\u00e1ticas, ideias, maneira de se encontrar \u00e0 nova situa\u00e7\u00e3o e n\u00f3s, na nossa situa\u00e7\u00e3o, t\u00ednhamos de continuar. N\u00e3o havia muito a mudar, apesar de, \u00e0 nossa volta, muito ter mudado.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 No seu entender, os cat\u00f3licos t\u00eam um dever perante o 25 de abril, de continuar a lutar pelos valores conquistados na altura?<\/em><\/p>\n<p>Eu tenho muito pouco a ideia de que as pessoas que n\u00e3o participaram s\u00e3o devedores de alguma coisa. O que temos \u00e9 de construir o futuro.<\/p>\n<p>Tenho muita pena de a Igreja em Portugal nunca ter pedido desculpa, nunca ter feito o seu ato de contri\u00e7\u00e3o pelo pouco que ajudou o povo portugu\u00eas a libertar-se da guerra e do regime fascista. Nunca fez um ato de contri\u00e7\u00e3o p\u00fablico e, do ponto de vista hist\u00f3rico, mancha a Igreja portuguesa. A incapacidade de reconhecer que n\u00e3o andou bem, devia pedir perd\u00e3o pela quantidade de anos que esteve em sil\u00eancio perante injusti\u00e7as e repress\u00e3o. Isso sim, tenho pena.<\/p>\n<p>Mas o nosso episcopado tem uma marca de falta de g\u00e9nio, acomodat\u00edcia, falta de coragem, que se tem prolongado pelas d\u00e9cadas e, salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, caracteriza a generalidades dos nossos bispos.<\/p>\n<p>Pode ser que a 50 anos de dist\u00e2ncia, a Igreja em Portugal tenha este gesto.<\/p>\n<p>Tirando isso, aquilo que est\u00e1 pela frente n\u00e3o \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o perante o 25 de abril. O que temos pela frente \u00e9 a defesa da democracia e reduzir a indiferen\u00e7a perante as desigualdades.<\/p>\n<p>Em Portugal, qualquer cat\u00f3lico deve pensar e tomar consci\u00eancia, que a nossa democracia, como projeto de inclus\u00e3o, est\u00e1 hoje mais em causa do que j\u00e1 esteve; somos chamados a participar na constru\u00e7\u00e3o da cidade, a envolvermo-nos nas juntas de freguesia, nos partidos, para que a democracia inclua cada vez mais pessoas.<\/p>\n<p>Em Portugal, somos muito indiferentes \u00e0 desigualdade \u2013 achamos que os pobres s\u00e3o pobres porque n\u00e3o querem trabalhar, se distra\u00edram, que o problema da pobreza \u00e9 dos pobres, n\u00e3o do sistema, n\u00e3o da maneira como se organiza o dia a dia. Preferimos n\u00e3o pensar e culpabilizar os pobres.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o, nem da Igreja, uma movimenta\u00e7\u00e3o na sociedade portuguesa contra isto, dizer que n\u00e3o aceitamos ser um dos pa\u00edses da Europa com grande desigualdade, um quinto das pessoas vive abaixo do limiar da pobreza. Mas este \u00e9 um problema dos pobres, apesar dos estudos que indicam que h\u00e1 algo sistem\u00e1tico, que as condi\u00e7\u00f5es marcam a vida e que esta vida vai ser marcada pela pobreza.<\/p>\n<p>Uma terceira quest\u00e3o \u00e9 a paz. N\u00e3o estamos em guerra, n\u00e3o temos conflitos armados, mas acho que cada vez mais estamos em guerra connosco pr\u00f3prios; temos um discurso de \u00f3dio cada vez mais presente, pessoas com discurso p\u00fablico no sentido de que seria bom se alguns n\u00e3o existissem. Dentro de n\u00f3s somos levados a pensar que era bom que alguns n\u00e3o existissem, ou porque s\u00e3o corruptos, s\u00e3o diferentes. Este discurso de eliminar outros \u00e9 uma guerra, \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o da paz.<\/p>\n<p>A paz n\u00e3o para por fim a guerras com ex\u00e9rcitos, mas a que precisamos para colocar termo a esta guerra que nos p\u00f5e uns contra os outros e que nos desvia de uma constru\u00e7\u00e3o de uma vida social e pol\u00edtica em que desejamos que quem \u00e9 diferente tamb\u00e9m fa\u00e7a parte. Um projeto de inclus\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>A democracia n\u00e3o \u00e9 uma realidade que se fixa: \u00e9 um projeto em movimento para trazer mais pessoas, ouvir mais opini\u00f5es, tratar das periferias e traze-las para dentro do sistema, para o centro, ou ent\u00e3o vai morrer aos poucos.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Corremos o perigo de perder a voz dos protagonistas e n\u00e3o termos estrutura para continuar a construir a democracia?<\/em><\/p>\n<p>JW &#8211; A hist\u00f3ria e o discurso sobre a hist\u00f3ria, os acontecimentos s\u00e3o sempre uma luta pelo presente e futuro.<\/p>\n<p>Para mim, as comemora\u00e7\u00f5es sobre o 5 de outubro, mesmo com algumas pessoas ainda presentes, pouco me dizia. E pouco a pouco o 25 de abril pode tornar-se isso. N\u00e3o acho muito importante o endeusamento do passado.<\/p>\n<p>Sobre o 25 de abril h\u00e1 uma constru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria. Eu guardo linhas de for\u00e7a que podem n\u00e3o ser as mesmas de protagonistas que estiveram no 25 de abril e, com toda a legitimidade, querem coisas diferentes daquelas que eu desejo.<\/p>\n<p>O 25 de abril foi uma alegria, uma abertura de futuro. N\u00f3s viv\u00edamos num regime em que nada era poss\u00edvel, s\u00f3 pod\u00edamos repetir o que nos diziam o que tinha de ser. T\u00ednhamos um rio ribeiro muito estreito, por onde todos tinham de seguir, com margens opressoras. De repente, encontramos um mar livre, cada qual a caminhar por onde quer. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o que s\u00f3 acontece raramente, a minha gera\u00e7\u00e3o teve muita sorte por viver esse momento quando era novo. Eu tinha 20 anos.<\/p>\n<p>Isso foi um marco. H\u00e1 que recordar isso, sem d\u00favida, mas h\u00e1 que recordar outras coisas que conseguimos fazer mais recentemente.<\/p>\n<p>Sim, temos na hist\u00f3ria momentos muito interessantes, mas no futuro dir-se-\u00e1 sobre eles tudo o que tem a ver com o presente que se esteja a viver e o futuro que se queira viver. Por isso acho que a democracia, as desigualdades e a paz continuam t\u00e3o atuais. \u00c9 o que me preocupa no presente e no futuro.<\/p>\n<p>Devemos comemorar com grande liberdade de pensamento, percebendo que o 25 de abril foi um marco. O que isso significa para amanh\u00e3? Compete a cada um de n\u00f3s criar esses imperativos para criar uma sociedade mais justa e fraterna, mais crist\u00e3 \u2013 diria eu, mas para os que n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3os, mais justa, mais fraterna e livre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1972, quando organizou e participou na vig\u00edlia da Capela do Rato, em Lisboa, Jorge Wemans tinha 19 anos e acreditava que o Evangelho se concretizava tamb\u00e9m pela luta contra o regime do Estado Novo, que reprimia liberdades de a\u00e7\u00e3o e de pensamento. 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