{"id":205710,"date":"2021-04-21T16:54:22","date_gmt":"2021-04-21T15:54:22","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=205710"},"modified":"2021-04-21T16:58:12","modified_gmt":"2021-04-21T15:58:12","slug":"saber-aprender-a-ser-sabio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-ser-sabio\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A ser s\u00e1bio"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Um pequeno gesto com o dedo \u00e9 o suficiente para nos ligar a um oceano de informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da internet. Por\u00e9m, tal como \u00e9 necess\u00e1rio um mapa e uma b\u00fassola para nos orientarmos por esse oceano, assim os motores de busca, sendo o Google o mais conhecido, ajudam-nos nessa tarefa. A ideia que uma pessoa tinha antes da internet era a de que a sabedoria se atingia com o acesso a um universo \u201cinfinito\u201d de informa\u00e7\u00e3o. Vivemos <em>quase<\/em> num mundo assim. Mas experimentamos ser mais s\u00e1bios?<\/p>\n<figure id=\"attachment_205711\" aria-describedby=\"caption-attachment-205711\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-205711\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"957\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom-400x255.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom-1024x653.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom-768x490.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom-1080x689.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom-1280x817.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom-980x625.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/hector-j-rivas-jvitXXO6KdM-unsplash-Custom-480x306.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-205711\" class=\"wp-caption-text\">Foto de H\u00e9ctor J. Rivas em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1941, o escritor argentino Jorge Luis Borges ofereceu-nos uma pequena hist\u00f3ria intitulada <em>\u201cA Biblioteca de Babel\u201d<\/em>. Essa possu\u00eda um n\u00famero infinito de c\u00e9lulas hexagonais, qual forma perfeita de organiza\u00e7\u00e3o escolhida at\u00e9 pelas abelhas, que continham quatro paredes de livros organizados aleatoriamente, sem qualquer refer\u00eancia definida que guiasse as pessoas aos mais valiosos e \u00fateis. Ali\u00e1s, a maior parte dos livros era ileg\u00edvel, cheios de palavras sem sentido e letras aleat\u00f3rias, ou se eram leg\u00edveis, estavam codificados. Por\u00e9m, como esta biblioteca era infinita, por defini\u00e7\u00e3o, deveria conter todo e qualquer conhecimento. Mais ainda, por ser infinita, quaiquer conjuntos aleat\u00f3rios de texto, s\u00edmbolos, e disposi\u00e7\u00f5es dos mesmos, deveriam presentear-nos a poesia, o mist\u00e9rio, ou a biografia de algu\u00e9m. Mas h\u00e1 mais: cada livro existe nas diversas l\u00ednguas conhecidas (e desconhecidas), algures metidos numa das c\u00e9lulas hexagonais desta biblioteca. Qual a moral da hist\u00f3ria? Infinitas quantidades de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos aproximam da sabedoria. Pois, \u00e9 preciso orienta\u00e7\u00e3o no oceano da informa\u00e7\u00e3o. E quem nos orienta melhor nesse oceano do que a Google?<\/p>\n<p>Em 2010, numa entrevista ao <em>Wall Street Journal<\/em>, o (ent\u00e3o) CEO da Google, Eric Schmidt, disse \u2014 <em>\u00abeu penso que a maioria das pessoas n\u00e3o quer que o Google responda \u00e0s suas quest\u00f5es. (\u2026) O que querem \u00e9 que o Google lhes diga o que elas devem fazer a seguir \u2026 N\u00f3s sabemos grosso-modo quem \u00e9s, grosso-modo o que te interessa, grosso-modo quem s\u00e3o os teus amigos.\u00bb<\/em> \u2014 Ou seja, h\u00e1 anos que o Google deixou de ser a promissora \u201cBiblioteca de Babel\u201d, passando a ser o cobi\u00e7ado \u201cMestre-dos-Livros\u201d que nos orienta pelo oceano da informa\u00e7\u00e3o. Se conferimos \u00e0s m\u00e3os de algoritmos de intelig\u00eancia artificial o caminho de sabedoria a fazer no oceano da informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o admira que seja cada vez mais dif\u00edcil ir em profundidade seja em que tema for. Pois, cada dia, o \u201coceano inform\u00e2ntico\u201d tem cada vez mais \u00e1gua, e muitas pessoas sentem-se, gradualmente, a afogar pela dificuldade que sentem em manter a cabe\u00e7a \u00e0 tona de tanta informa\u00e7\u00e3o. O significado deste afogamento \u00e9 que pode ser diferente do esperado.<\/p>\n<p>Em vez de sabermos mais com mais informa\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 ficarmos mais confusos com tanta disparidade na informa\u00e7\u00e3o que cresce, o que sinto \u00e9 a crescente insensibilidade das pessoas \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, perdendo o interesse, vivendo insatisfeitas e cada vez mais isoladas. H\u00e1 tanta coisa para saber que mais vale n\u00e3o perder muito tempo a saber coisa alguma. Quando for necess\u00e1rio, faz-se uma pesquisa e j\u00e1 est\u00e1. A sabedoria n\u00e3o assenta na quantidade de informa\u00e7\u00e3o que interiorizamos, ou a que temos acesso, mas talvez assente no modo como traduzimos a informa\u00e7\u00e3o em vida atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa mensagem no Dial Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es em junho de 2019, o Papa Francisco disse que \u2014 <em>\u00abDeus n\u00e3o \u00e9 Solid\u00e3o, mas Comunh\u00e3o; \u00e9 Amor e, consequentemente, comunica\u00e7\u00e3o, porque o amor sempre comunica; antes, comunica-se a si mesmo para encontrar o outro\u00bb<\/em>. Ali\u00e1s, j\u00e1 na <em>Laudato Si\u2019<\/em> (47), o Papa refere os riscos de nos afogarmos no mundo digital e mass-media, pois<\/p>\n<blockquote><p>\u00abquando se tornam omnipresentes, n\u00e3o favorecem o desenvolvimento duma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste contexto, os grandes s\u00e1bios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ru\u00eddo dispersivo da informa\u00e7\u00e3o. Isto exige de n\u00f3s um esfor\u00e7o para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da humanidade, e n\u00e3o numa deteriora\u00e7\u00e3o da sua riqueza mais profunda. <strong>A verdadeira sabedoria, fruto da reflex\u00e3o, do di\u00e1logo e do encontro generoso entre as pessoas, n\u00e3o se adquire com uma mera acumula\u00e7\u00e3o de dados, que, numa esp\u00e9cie de polui\u00e7\u00e3o mental, acabam por saturar e confundir.<\/strong> Ao mesmo tempo tendem a substituir as rela\u00e7\u00f5es reais com os outros, com todos os desafios que implicam, por um tipo de comunica\u00e7\u00e3o mediada pela internet. Isto permite seleccionar ou eliminar a nosso arb\u00edtrio as rela\u00e7\u00f5es e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emo\u00e7\u00f5es artificiais, que t\u00eam a ver mais com dispositivos e monitores do que com as pessoas e a natureza. Os meios actuais permitem-nos comunicar e partilhar conhecimentos e afectos. Mas, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m nos impedem de tomar contacto directo com a ang\u00fastia, a trepida\u00e7\u00e3o, a alegria do outro e com a complexidade da sua experi\u00eancia pessoal. Por isso, n\u00e3o deveria surpreender-nos o facto de, a par da oferta sufocante destes produtos, ir crescendo uma profunda e melanc\u00f3lica insatisfa\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais ou um nocivo isolamento.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>Eric Schmidt achava que a Google sabia melhor do que n\u00f3s o que \u00e9 melhor para n\u00f3s. Mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que saiba isso. Nem n\u00f3s, nem os outros. Dizemos muitas vezes que Deus <em>sabe<\/em> o que \u00e9 melhor para n\u00f3s, mas n\u00e3o creio que seja por estar <em>mais informado<\/em>, antes, por ser mais s\u00e1bio. Por\u00e9m, penso que n\u00e3o h\u00e1 contempla\u00e7\u00e3o de mar que substitua a contempla\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica gota de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Quantas vezes n\u00e3o basta uma \u201cgota de \u00e1gua\u201d de compaix\u00e3o para ajudar o outro a superar as suas dificuldades e, assim, contribuir para que a sua, e a nossa, sejam vidas mais plenas. Com muita informa\u00e7\u00e3o podes tornar-te num sabich\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 preciso muita informa\u00e7\u00e3o para saber aprender a ser s\u00e1bio. Basta a \u201cgota de \u00e1gua\u201d de uma simples e sincera palavra de amor comunicada genuinamente. Pois, quem \u201cinforma\u201d por amor comunica-se e inspira o outro a comunicar-se, e da comunica\u00e7\u00e3o rec\u00edproca nasce a sabedoria que o mundo tanto precisa neste momento.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-205710","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205710","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=205710"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205710\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=205710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=205710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=205710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}