{"id":20531,"date":"2006-10-07T12:34:05","date_gmt":"2006-10-07T12:34:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/10\/07\/as-feridas-do-homem-de-hoje\/"},"modified":"2006-10-07T12:34:05","modified_gmt":"2006-10-07T12:34:05","slug":"as-feridas-do-homem-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-feridas-do-homem-de-hoje\/","title":{"rendered":"As Feridas do homem de hoje"},"content":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o do Bispo de Santar\u00e9m \u2013 5 de Outubro &#8211; na apresenta\u00e7\u00e3o da Carta Pastoral \u00abBendigamos o Senhor que cura as nossas feridas\u00bb \u00e0 Assembleia Diocesana. <!--more--> As doen\u00e7as com o seu cortejo de sofrimento t\u00eam acompanhado a hist\u00f3ria da humanidade. Com o avan\u00e7o da medicina muitas foram vencidas. Mas surgem sempre novos flagelos que amea\u00e7am a vida humana: Cancro, mutila\u00e7\u00f5es causadas por acidentes rodovi\u00e1rios, sida, terrorismo, conflitos, infidelidades e rupturas familiares, trai\u00e7\u00f5es, injusti\u00e7as, desemprego, toxicodepend\u00eancia, doen\u00e7as ps\u00edquicas, etc. S\u00e3o inerentes \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Parecem um mal sem rem\u00e9dio. O pior mal que nos pode atingir e que, por isso, a todos mete medo. As doen\u00e7as e as feridas parecem contradizer as grandes expectativas criadas pelo progresso cient\u00edfico e pelo controle da natureza do s\u00e9culo XX. Acreditou-se que a ci\u00eancia resolveria todos os problemas da humanidade, incluindo a doen\u00e7a. No entanto, apesar do avan\u00e7o da medicina, o homem continua uma presa f\u00e1cil de muitas feridas que constantemente nos espreitam e n\u00e3o nos deixam esquecer o dom\u00ednio da morte. Numa sociedade de bem estar e de gozo da vida sem limites, as pessoas parecem n\u00e3o estar preparadas para as doen\u00e7as, para o sofrimento ou para a morte, sobretudo quando acontecem em idades activas. Abrem feridas dolorosas e causam dramas profundos que atingem muitas fam\u00edlias. Se Deus \u00e9 o autor e o Senhor da vida humana, qual a resposta que a religi\u00e3o d\u00e1 \u00e0 doen\u00e7a, qual o rem\u00e9dio que apresenta \u00e0s feridas da humanidade? Os doentes procuram, por todos os meios e caminhos, a cura. Que respostas oferece a Igreja cat\u00f3lica aos crentes? A doen\u00e7a questiona sempre a f\u00e9. Presta-se actualmente muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0s feridas psicol\u00f3gicas, possivelmente porque grandes mestres e autores de vida espiritual associaram, na an\u00e1lise do sofrimento das pessoas de hoje, os princ\u00edpios da psicologia com a perspectiva da f\u00e9 (Por exemplo Henri Nouwen e Anselm Gr\u00fcn). De facto, detectamos actualmente muitas fragilidades psicol\u00f3gicas e uma necessidade maior de recorrer aos psic\u00f3logos para alcan\u00e7ar a cura. Feridas como a aliena\u00e7\u00e3o, a depress\u00e3o, o isolamento e a solid\u00e3o parecem alastrar e atingir todas as idades e condi\u00e7\u00f5es. O \u00eaxito de um livro de H. Nouwen, em que ele pr\u00f3prio se apresenta como um \u201cCurador ferido\u201d, mostra como muitos leitores se identificam coma a experi\u00eancia do autor. A solid\u00e3o \u00e9 uma das feridas mais comuns: \u201cVivemos numa sociedade em que a solid\u00e3o se tornou numa das feridas humanas mais dolorosas. A competi\u00e7\u00e3o e a rivalidade que impregnam as nossas vidas criaram em n\u00f3s uma percep\u00e7\u00e3o muito acentuada do nosso isolamento. Esta percep\u00e7\u00e3o deixou, por sua vez, muitas pessoas com uma ansiedade exacerbada e um desejo imenso de experimentar a unidade e a comunh\u00e3o (\u2026) e cria expectativas devastadoras, [uma vez que] nada nem ningu\u00e9m \u00e9 capaz de satisfazer inteiramente as nossas expectativas absolutistas (\u2026). Muitos casamentos s\u00e3o destru\u00eddos porque nenhum dos c\u00f4njuges foi capaz de preencher a esperan\u00e7a, muitas vezes escondida e inconfessada, de que o outro afastasse definitivamente a solid\u00e3o\u201d(H. Nouwen,\u201dO Curador ferido, Paulinas 2001, pg.113-115). V\u00e1rias doen\u00e7as t\u00eam a ver com a \u201cpatologia do desejo\u201d (desejo pervertido, incontrolado, de alcan\u00e7ar poder, \u00eaxito ou protagonismo). Muitas pessoas sofrem porque criaram expectativas acima das suas possibilidades. Quando se vive em fun\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia ou da posi\u00e7\u00e3o pessoal, quando se cria uma hipertrofia do ego, facilmente se gera um vazio interior que conduz a aliena\u00e7\u00f5es (em rela\u00e7\u00e3o ao poder econ\u00f3mico, ao \u00eaxito social, ao vedetismo). Na mesma patologia se pode considerar a sexualidade alienante, orientada pelo desejo pervertido que escraviza. Estas feridas s\u00e3o de todos os tempos, v\u00eam referidas j\u00e1 no Novo Testamento. Por exemplo por S\u00e3o Tiago: \u201cOnde h\u00e1 inveja e ambi\u00e7\u00e3o, a\u00ed reina a desordem e toda a esp\u00e9cie de maldade\u2026de onde procedem os conflitos e as lutas que se d\u00e3o entre v\u00f3s? N\u00e3o \u00e9 precisamente dessas paix\u00f5es? (Tg 3, 16; 4,1)\u201d. Assim chegamos \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre as feridas e o pecado. Bastantes feridas t\u00eam a ver com o pecado, com a fragilidade humana. Descobrindo as ra\u00edzes do pecado e combatendo-as poderemos alcan\u00e7ar a cura das feridas? A f\u00e9 vence o pecado e contribui a alcan\u00e7ar a sa\u00fade. <b>Minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o e da cura na Igreja.<\/b> Muitas pessoas podem testemunhar que a f\u00e9 cura as doen\u00e7as. O dom da cura, um carisma atribu\u00eddo ao Esp\u00edrito Santo, manifesta-se ainda hoje na Igreja. Para al\u00e9m das curas miraculosas, raras mas reais, reconhecidas por equipas de m\u00e9dicos, para al\u00e9m das promessas ilus\u00f3rias de curas nos novos movimentos religiosos, cresce igualmente a convic\u00e7\u00e3o e a experi\u00eancia de que a f\u00e9, a ora\u00e7\u00e3o, o acompanhamento humano e espiritual dos que sofrem e, como coroa, os sacramentos da cura contribuem ao restabelecimento da sa\u00fade. A Igreja n\u00e3o oferece exclusivamente a salva\u00e7\u00e3o da alma para o outro mundo mas contribui igualmente para a harmonia da pessoa no seu todo e no seu mundo, para a vida plena com qualidade humana e espiritual. A ac\u00e7\u00e3o curativa da Igreja, portanto, n\u00e3o se dirige s\u00f3 aos doentes e idosos mas tamb\u00e9m a todos os que sofrem no corpo ou no esp\u00edrito. O Evangelho de Jesus converte do ego\u00edsmo ao amor, ajuda a aceitar com humildade e confian\u00e7a os limites da natureza humana, oferece consola\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a, proporciona integra\u00e7\u00e3o na comunidade crist\u00e3. Estes rem\u00e9dios espirituais da f\u00e9 crist\u00e3 t\u00eam, naturalmente, uma dimens\u00e3o humana terap\u00eautica. Deste modo, a Igreja \u00e9 enviada \u00e0s pessoas feridas para lhes comunicar o b\u00e1lsamo da f\u00e9 que cura. Antes de mais, enquanto ajuda a compreender e a aceitar as feridas como uma express\u00e3o inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Lembra ao homem a sua condi\u00e7\u00e3o mortal e vulner\u00e1vel, orientando no reconhecimento desta condi\u00e7\u00e3o e vencendo as ilus\u00f5es da imortalidade e invulnerabilidade. A aceita\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo sobre os sofrimentos e as feridas e a sua compreens\u00e3o numa perspectiva de f\u00e9, s\u00e3o o primeiro passo para a liberta\u00e7\u00e3o. Como escreve Nouwen:\u201d Uma comunidade crist\u00e3 \u00e9 uma comunidade curativa n\u00e3o apenas porque as feridas s\u00e3o saradas e os sofrimentos aliviados, mas porque as feridas e os sofrimentos se tornam em janelas ou ocasi\u00f5es para ver com novos olhos\u201d (o.c., pg 127). Assim, os que em nome da comunidade se colocam ao servi\u00e7o dos que sofrem precisam de conhecer a aceitar as suas pr\u00f3prias feridas. Pelas feridas de Cristo fomos curados, afirma S\u00e3o Pedro na sua primeira carta (Cf 1 Ped 2,24). Tamb\u00e9m os curadores que t\u00eam consci\u00eancia das pr\u00f3prias feridas e experimentam a fragilidade humana, podem, com maior profundidade, compreender e solidarizar-se com os que sofrem. As feridas pessoais podem tornar-se uma fonte de cura na medida em que permitem conhecer e aceitar a condi\u00e7\u00e3o humana, numa atitude de humildade e de simplicidade, sem perder a esperan\u00e7a e a fortaleza que v\u00eam da f\u00e9 e da for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo. Nesta \u00f3ptica compreendemos o conselho de S\u00e3o Francisco da Assis na carta que escreveu a todos os fi\u00e9is: \u201cProcuremos ser simples, humildes e puros. Nunca devemos desejar estar acima dos outros, mas devemos antes ser servos e s\u00fabditos de todas a criatura humana por amor de Deus. Sobre todos aqueles que assim procederem e perseverarem at\u00e9 ao fim repousar\u00e1 o Esp\u00edrito do Senhor, que neles far\u00e1 a sua habita\u00e7\u00e3o e morada\u201d. A virtude da humildade permite que o curador adopte uma atitude de miseric\u00f3rdia para com os que sofrem. N\u00e3o precisa de exibir as feridas pessoais mas sim apresentar-se humilde, pr\u00f3ximo, dispon\u00edvel e atento. Este patrim\u00f3nio espiritual da f\u00e9 crist\u00e3 com dimens\u00e3o terap\u00eautica precisa de ser oferecido aos que sofrem atrav\u00e9s da pedagogia evang\u00e9lica da miseric\u00f3rdia que se mostra na proximidade, na solidariedade, no perd\u00e3o e na compaix\u00e3o. O curador aproxima-se e debru\u00e7a-se sobre os feridos como o bom samaritano, presta-lhes aten\u00e7\u00e3o, dedica-se ao seu servi\u00e7o, sem se deixar por\u00e9m envolver pela mesma doen\u00e7a. Nouwen caracteriza esta atitude do curador e da comunidade com o conceito b\u00edblico da \u201chospitalidade\u201d que consiste em abrir as portas do cora\u00e7\u00e3o e da vida aos estranhos prestando-lhes aten\u00e7\u00e3o e oferecendo-lhes um espa\u00e7o livre onde possam encontrar-se com eles mesmos: \u201cA hospitalidade \u00e9 a virtude que nos permite superar a estreiteza dos nossos pr\u00f3prios medos e abrir as nossa casas ao desconhecido&#8230; \u00c0 semelhan\u00e7a dos n\u00f3madas semitas vivemos num deserto com muitos viajantes solit\u00e1rios que buscam um momento de paz, uma bebida fresca e um sinal de est\u00edmulo, de modo a poderem continuar a sua busca misteriosa de liberdade\u201d (o.c. pg 121). Em certa medida, todos os fi\u00e9is recebem a miss\u00e3o de colaborar na cura, de participar no minist\u00e9rio da cura confiado \u00e0 Igreja. Uns ajudam a curar pelo sentido de humor, outros pela compreens\u00e3o, outros pela dedica\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o, todos atrav\u00e9s da humildade, da simplicidade e da \u201chospitalidade\u201d. Todos podem irradiar \u00e0 sua volta a paz, a serenidade, a harmonia e exercer assim uma influ\u00eancia positiva, se reconhecerem as suas ferias e vencerem as suas aliena\u00e7\u00f5es. Nesta perspectiva, o minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o e da cura tem um campo de aplica\u00e7\u00e3o mais amplo e mais vasto do que os respectivos sacramentos. A comunidade crist\u00e3, atrav\u00e9s dos seus membros mais respons\u00e1veis, ordenados, consagrados ou leigos, \u00e9 chamada a colaborar na reconcilia\u00e7\u00e3o e na cura das feridas da humanidade. <i>D. Manuel Pelino Bispo de Santar\u00e9m<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o do Bispo de Santar\u00e9m \u2013 5 de Outubro &#8211; na apresenta\u00e7\u00e3o da Carta Pastoral \u00abBendigamos o Senhor que cura as nossas feridas\u00bb \u00e0 Assembleia Diocesana.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[180,206,285,294,314],"class_list":["post-20531","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-santarem","tag-familia","tag-patrimonio","tag-sacramentos","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20531","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20531"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20531\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20531"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20531"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20531"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}