{"id":2049,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/quando-a-pedra-rejeitada-e-aproveitada\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"quando-a-pedra-rejeitada-e-aproveitada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/quando-a-pedra-rejeitada-e-aproveitada\/","title":{"rendered":"Quando a pedra rejeitada&#8230; \u00e9 aproveitada"},"content":{"rendered":"<p>Quando a pedra rejeitada&#8230; \u00e9 aproveitada  Decorria, se n\u00e3o me engano, o ano lectivo de 1988\/89, quando numa reuni\u00e3o final de avalia\u00e7\u00e3o de uma turma do s\u00e9timo da escolaridade, numa escola de ensino particular com regime de cobertura na zona em que se inseria, foram debitadas as notas de um determinado aluno. Tinha quatro negativas. Ouviu-se, ent\u00e3o, esta refer\u00eancia: \u2018quer ser padre!\u2019&#8230; e reprovou!   Nessa \u00e9poca \u2013 e por breves quatro anos \u2013 fui professor de educa\u00e7\u00e3o moral e religiosa cat\u00f3licas, numa experi\u00eancia um tanto interessante, mas sem resultados significativos. O epis\u00f3dio em apre\u00e7o foi das poucas coisas que guardo&#8230; com tristeza! O aluno em causa era t\u00edmido, com boa vontade, mas nem sempre capaz de revelar as capacidades que possu\u00eda. Isso mesmo se verificou passado pouco tempo ao ter quase suspendido os estudos. Perdi-o de vista, tendo-o reconhecido \u2013 j\u00e1 seminarista maior \u2013 numa par\u00f3quia onde me referiram o nome, vindo-me \u00e0 lembran\u00e7a a situa\u00e7\u00e3o relatada. Por estes dias celebra a sua \u2018missa nova\u2019 e est\u00e1 prestes a assumir a responsabilidade de tr\u00eas par\u00f3quias na zona rural\/montanhosa da arquidiocese de Braga. Diante do percurso deste jovem sacerdote senti um apelo a reflectir sobre pequenos aspectos da prepara\u00e7\u00e3o, minist\u00e9rio e fun\u00e7\u00e3o (sobretudo) dos jovens sacerdotes. Duas outras condicionantes da vida recente me levaram a sentir alguma \u2018urg\u00eancia\u2019 nesta partilha. A primeira tem a ver com dois momentos vivenciados num s\u00f3 domingo: o baptismo, pela manh\u00e3, de um filho de um jovem ex-padre e o funeral, \u00e0 tarde, da mulher de um septuagen\u00e1rio ex-padre. Outro aspecto que proporcionou ainda esta preocupa\u00e7\u00e3o foi o contacto, em forma de visita, com sacerdotes mais novos e mais velhos \u2013 de v\u00e1rias dioceses e com experi\u00eancias pastorais distintas \u2013 que, em jeito de reflex\u00e3o, fomos fazendo sobre situa\u00e7\u00f5es eclesiais e\/ou eclesi\u00e1sticas mais ou menos preocupantes, ao menos da nossa parte: * Recrutamento dos novos padres \u2013 quantas vezes, olhando para tr\u00e1s, vemos que a entrada ainda crian\u00e7a para o semin\u00e1rio foi abandonada por um outro trabalho \u2018mais natural\u2019, isto \u00e9, vivendo cada um dos (poss\u00edveis) candidatos no seu contexto familiar, escolar, paroquial e social. Apesar das boas inten\u00e7\u00f5es parece-nos que \u2013 como partilhava um dos padres com quem me encontrei neste tempo de ver\u00e3o \u2013 esta op\u00e7\u00e3o teve um intuito um tanto economicista e talvez (at\u00e9) pouco salvaguardadora da semente de voca\u00e7\u00e3o por entre as sedu\u00e7\u00f5es \u2013 afectivas, morais, de honrarias \u2013 do mundo. Explicando: n\u00e3o \u00e9 porque muitos dos seminaristas sa\u00edram \u2013 mas hoje at\u00e9 est\u00e3o em lugares chaves da sociedade! \u2013 e n\u00e3o vingar a aposta, que se deveria ter acabado com a escola do semin\u00e1rio, onde se ia aprendendo de forma paulatina a discernir o chamamento de Deus, acrisolando-o pela ora\u00e7\u00e3o e pela vida em comum com outros em id\u00eantica situa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, espiritual e mesmo intelectual. Aquelas casas pululantes de vida e energias juvenis est\u00e3o hoje mortas, quais cemit\u00e9rios de Igreja abandonada!&#8230; Com todos os defeitos poss\u00edveis, vis\u00edveis e corrig\u00edveis, os semin\u00e1rios foram escola de vida humana, eclesial e social para muitos crist\u00e3os de ontem e de hoje&#8230; e s\u00ea-lo-\u00e3o do amanh\u00e3! * Prepara\u00e7\u00e3o dos candidatos \u2013 esta tarefa t\u00e3o dif\u00edcil est\u00e1, muitas vezes, sob os olhares c\u00e9pticos de muitos crist\u00e3os e, sobretudo, de outros eclesi\u00e1sticos: todos t\u00eam opini\u00e3o, mas poucos se empenhariam em dar-lhe cumprimento. Hoje \u2013 mesmo com a dita prepara\u00e7\u00e3o de pr\u00e9-semin\u00e1rio \u2013 chegam pessoas com experi\u00eancias, motiva\u00e7\u00f5es e influ\u00eancias muitos distintas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria dos semin\u00e1rios, dizemo-lo especialmente dos diocesanos. Hoje \u2013 mais do que no passado distante \u2013 os estudos dos semin\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o baratos e supletivos de outros tempos. Hoje \u2013 de forma abrangente, exigente e cordata \u2013 \u00e9 preciso constituir equipas de forma\u00e7\u00e3o de homens (de facto muitos j\u00e1 v\u00eam de outras tarefas humanas e profissionais) que \u2018descobriram\u2019 que Deus os chamava a serem seus ministros. Como isto \u00e9 tarefa t\u00e3o incompreens\u00edvel! * Acompanhamento na vida pastoral \u2013 feito o percurso escolar, de vida em comum e matura\u00e7\u00e3o espiritual, os rec\u00e9m-ordenados \u2013 mesmo que sejam mais velhos do que aqueles que saiam em tempos recuados \u2013 far\u00e3o uma caminhada de amadurecimento \u2013 nunca plenamente acabado! \u2013 no minist\u00e9rio, pelo contacto com as pessoas, as dificuldades pr\u00f3prias da vida em conformidade com os dons\/qualidades\/carismas e situa\u00e7\u00f5es de cada pessoa e\/ou lugar. Neste como noutro sector de vida nada est\u00e1 completamente feito: h\u00e1 um crescimento a fazer, aprendendo de forma verdadeira, simples e humilde. Estas pinceladas nada t\u00eam de li\u00e7\u00f5es nem t\u00e3o pouco de interfer\u00eancia com quem faz este trabalho de Igreja, mas antes pretende-se deixar inquieta\u00e7\u00f5es, acrisoladas por alguma esperan\u00e7a e responsabiliza\u00e7\u00e3o por este sector tantas vezes incompreendido dentro e fora da nossa Igreja Cat\u00f3lica.  A. S\u00edlvio Couto <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a pedra rejeitada&#8230; \u00e9 aproveitada Decorria, se n\u00e3o me engano, o ano lectivo de 1988\/89, quando numa reuni\u00e3o final de avalia\u00e7\u00e3o de uma turma do s\u00e9timo da escolaridade, numa escola de ensino particular com regime de cobertura na zona em que se inseria, foram debitadas as notas de um determinado aluno. Tinha quatro negativas. 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