{"id":20442,"date":"2006-10-02T12:36:40","date_gmt":"2006-10-02T12:36:40","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/10\/02\/universalidade-e-inclusao-dois-principios-indispensaveis-em-educacao\/"},"modified":"2006-10-02T12:36:40","modified_gmt":"2006-10-02T12:36:40","slug":"universalidade-e-inclusao-dois-principios-indispensaveis-em-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/universalidade-e-inclusao-dois-principios-indispensaveis-em-educacao\/","title":{"rendered":"\u00abUniversalidade e Inclus\u00e3o: dois princ\u00edpios indispens\u00e1veis em Educa\u00e7\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Tomaz Silva Nunes no in\u00edcio da Semana Nacional da Educa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 <!--more--> 1. As passagens b\u00edblicas do Livro dos N\u00fameros e do Evangelho de      S. Marcos que a liturgia de hoje nos prop\u00f5e revelam, apesar da dist\u00e2ncia hist\u00f3rica que as separa, um claro paralelismo.  Na primeira leitura, Mois\u00e9s, deprimido com a insatisfa\u00e7\u00e3o e as reclama\u00e7\u00f5es do povo que o responsabilizava pelas agruras da travessia do deserto e o confrontava, com saudosismo, com as seguran\u00e7as que apesar de tudo a situa\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o do Egipto garantia, escolheu, por mandato de Deus, setenta anci\u00e3os para o ajudarem. Eram homens prudentes, virtuosos e de reconhecida autoridade.  Deus prometeu estender o esp\u00edrito que estava sobre Mois\u00e9s, dom que lhe concedera, aos anci\u00e3os reunidos na tenda da reuni\u00e3o. Dois deles, por\u00e9m, n\u00e3o compareceram \u00e0 chamada, mas o esp\u00edrito chegou tamb\u00e9m a eles e, sob a sua ac\u00e7\u00e3o, foram encontrados a profetizar. Josu\u00e9, companheiro de Mois\u00e9s, pediu-lhe que n\u00e3o permitisse tal facto, mas este surpreendeu-o confidenciando o gosto de que, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0queles dois homens mas a todos, Deus concedesse que actuassem segundo o mesmo esp\u00edrito: \u201cQuem dera que todo o povo do Senhor profetizasse, que o Senhor enviasse o seu esp\u00edrito sobre ele!\u201d (Num 11, 29). Na passagem do Evangelho que escut\u00e1mos, Jo\u00e3o dirigiu-se a Jesus, em nome dos disc\u00edpulos, para lhe comunicar a sua recusa em aceitar que algu\u00e9m que n\u00e3o pertencia ao seu grupo expulsasse dem\u00f3nios em nome de Jesus. Essa liberta\u00e7\u00e3o era realmente algo surpreendente tanto mais que pouco antes, como refere o mesmo evangelista, os disc\u00edpulos n\u00e3o tinham conseguido exorcizar um jovem (cf. Mc 9, 18). Jesus contrariou tal atitude de resist\u00eancia de Jo\u00e3o: \u201cN\u00e3o o impe\u00e7ais (\u2026) Quem n\u00e3o \u00e9 contra n\u00f3s \u00e9 por n\u00f3s\u201d (Mc 9, 39-40).   2. Em ambas as passagens b\u00edblicas Deus n\u00e3o restringe o seu amor e a comunica\u00e7\u00e3o dos seus dons \u00e0queles que o reconhecem ou respondem com prontid\u00e3o \u00e0 sua chamada. O amor de Deus n\u00e3o tem fronteiras nem limites, inclui os que n\u00e3o pertencem objectivamente \u00e0 comunidade crente. O exclusivismo \u00e9, pois, contr\u00e1rio \u00e0 magnanimidade de Deus e \u00e0 universalidade do seu amor. O Conc\u00edlio Vaticano II sublinhou-o ao afirmar que o Senhor \u201cnem sequer est\u00e1 longe daqueles que buscam, na sombra e em imagens, o Deus que desconhecem; j\u00e1 que \u00e9 Ele que a todos d\u00e1 vida, respira\u00e7\u00e3o e tudo o mais (cf. Ac 17, 25-28) e, como Salvador, quer que todos os homens se salvem (cf. 1Tim 2, 4)\u201d (LG 16), atrav\u00e9s de Cristo, \u00fanico Salvador e Mediador entre Deus e os homens (cf. 1Tim 2, 5; LG 8).  Tudo o que \u00e9 humano \u2013 o bem que se pratica, a justi\u00e7a e a dignidade por que se luta, a vida que se respeita e protege \u2013 vem de Deus e para Ele se orienta porque s\u00f3 n\u2019Ele ganha nova densidade e atinge plenitude.  3. Estas duas perspectivas que a Palavra de Deus nos aponta, a necessidade de olhar globalmente a realidade e de reconhecer e apoiar as realiza\u00e7\u00f5es humanas que se orientam para o bem, t\u00eam a maior actualidade e aplica\u00e7\u00e3o no campo da educa\u00e7\u00e3o. De facto, a universalidade e a inclus\u00e3o s\u00e3o dois princ\u00edpios indispens\u00e1veis em educa\u00e7\u00e3o, os quais devem ser entendidos em fun\u00e7\u00e3o tanto dos educandos como das inst\u00e2ncias educativas. Consideremo-los nesta medita\u00e7\u00e3o no in\u00edcio da Semana Nacional da Educa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 e tiremos algumas ila\u00e7\u00f5es.  4. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo que tem em vista o desenvolvimento integral e harmonioso da pessoa humana. Conta, primeiro que tudo, com o protagonismo do pr\u00f3prio educando, mas \u00e9 tamb\u00e9m indispens\u00e1vel o contributo de diversas pessoas e organismos, com destaque especial para a fam\u00edlia, como institui\u00e7\u00e3o educativa primordial e insubstitu\u00edvel (cf. Nota da Comiss\u00e3o Episcopal da Educa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3, A Fam\u00edlia, um bem necess\u00e1rio e insubstitu\u00edvel, 4).  A prioridade dada \u00e0 fam\u00edlia no seio da universalidade dos agentes educativos justifica-se pela sua pr\u00f3pria natureza: ela \u00e9 o \u201cn\u00facleo b\u00e1sico e estruturante da sociedade\u201d (Ibid.) e os pais s\u00e3o os primeiros educadores, responsabilidade irrenunci\u00e1vel e inalien\u00e1vel que lhes adv\u00e9m de serem geradores de novas vidas.  5. \u201cEntre os meios educativos subsidi\u00e1rios da fam\u00edlia, sobressai, pela sua import\u00e2ncia, a escola\u201d (Ibid., 5). A inclus\u00e3o da fam\u00edlia como \u201cparceiro educativo\u201d da escola e a consequente coopera\u00e7\u00e3o entre ambas, no respeito pela especificidade e autonomia de cada uma, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para o \u00eaxito escolar e educativo das crian\u00e7as e dos jovens, e um princ\u00edpio e uma express\u00e3o de cidadania. H\u00e1 que ultrapassar preconceitos, resist\u00eancias e medos, e valorizar as boas pr\u00e1ticas como est\u00edmulo e alicerce de esperan\u00e7a.    6. No processo educativo, \u00e9 indispens\u00e1vel considerar a dimens\u00e3o espiritual-religiosa constitutiva da pessoa. Sem ela n\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o integral. Neste dom\u00ednio, a Igreja presta um servi\u00e7o \u00e0s fam\u00edlias, aos alunos e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es escolares, atrav\u00e9s da disciplina de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica. A sua integra\u00e7\u00e3o no curr\u00edculo dos ensinos b\u00e1sico e secund\u00e1rio \u00e9 outra das concretiza\u00e7\u00f5es dos princ\u00edpios da universalidade e da inclus\u00e3o, porque a Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica assegura a considera\u00e7\u00e3o da pessoa do aluno no seu todo e integra o contributo educativo da Igreja no espa\u00e7o p\u00fablico, correspondendo \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o dos pais ou dos pr\u00f3prios alunos.  A crescente resist\u00eancia por parte de certas inst\u00e2ncias educativas da rede estatal \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica no curr\u00edculo escolar, traduzida quer num clima de progressivo afrouxamento da responsabilidade das escolas na oferta da lecciona\u00e7\u00e3o da disciplina quer num s\u00fabito aumento da carga hor\u00e1ria dos alunos que impede a lecciona\u00e7\u00e3o desta disciplina em condi\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas dignas e aceit\u00e1veis, revela um assinal\u00e1vel d\u00e9fice cultural da sociedade actual e desrespeita o direito \u00e0 liberdade religiosa. A esta resist\u00eancia, devemos responder n\u00e3o apenas com a justa reclama\u00e7\u00e3o pela satisfa\u00e7\u00e3o de direitos, mas tamb\u00e9m com a mobiliza\u00e7\u00e3o e empenho dos pais e o preenchimento dos espa\u00e7os que nos s\u00e3o dados com um ensino que se imponha pela qualidade.   7. Aos pais crist\u00e3os, lembramos que a eles, \u201cem primeiro lugar, incumbe a educa\u00e7\u00e3o dos filhos na f\u00e9\u201d (Ibid., 6), tarefa que devem desempenhar contando com a indispens\u00e1vel ajuda da Igreja: \u201cA edifica\u00e7\u00e3o de cada fam\u00edlia crist\u00e3 individualmente, coloca-se no contexto da fam\u00edlia mais ampla da Igreja, que a ampara e leva consigo, e garante que existe o sentido e que haver\u00e1 tamb\u00e9m no seu futuro o \u00absim\u00bb do Criador\u201d (Bento XVI, Discurso na abertura do Congresso Eclesial Diocesano de Roma, 2005). Tamb\u00e9m aqui h\u00e1 que ter uma vis\u00e3o universal e inclusiva, pelo estabelecimento da harmonia entre a ac\u00e7\u00e3o e o testemunho da fam\u00edlia, o empenho generoso e qualificado dos catequistas e a progressiva integra\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia das crian\u00e7as e dos jovens na comunidade crist\u00e3, contando com o papel insubstitu\u00edvel dos sacerdotes, designadamente os p\u00e1rocos, como congregadores e formadores.    8. Na segunda leitura, S. Tiago chamava a nossa aten\u00e7\u00e3o para o modo como devemos utilizar os bens que Deus p\u00f5e ao nosso dispor. Os bens materiais s\u00e3o bons em si mesmos, mas os benef\u00edcios ou malef\u00edcios que deles tiramos dependem do modo como os usamos. A justi\u00e7a, a partilha e o servi\u00e7o do bem comum s\u00e3o os crit\u00e9rios apontados por S. Tiago para a recta utiliza\u00e7\u00e3o dos bens. Apliquemo-los na viv\u00eancia das fam\u00edlias e das comunidades crist\u00e3s. Tenhamo-los na devida conta no uso e na gest\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es educativas, p\u00fablicas, particulares ou cooperativas, trabalhando com exig\u00eancia, dando especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de risco e de pobreza, partilhando experi\u00eancias e recursos, ultrapassando preconceitos ideol\u00f3gicos e religiosos e promovendo o pluralismo, pela valoriza\u00e7\u00e3o e apoio \u00e0 qualidade das institui\u00e7\u00f5es independentemente das entidades a que pertencem.    9. Nesta Semana Nacional da Educa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 dedicada particularmente a valorizar a fam\u00edlia como \u201cbem necess\u00e1rio e insubstitu\u00edvel\u201d para os povos e as sociedades, para os pr\u00f3prios esposos e os seus filhos, quero saudar especialmente as fam\u00edlias presentes nesta assembleia e todas as que neste momento nos seguem nas dioceses de Portugal, retomando dois sentimentos referidos na Nota Pastoral que, a este prop\u00f3sito, a Comiss\u00e3o Episcopal da Educa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 publicou: Congratulamo-nos com o testemunho de tantos crist\u00e3os que procuram ser fi\u00e9is \u00e0 doutrina da Igreja sobre a fam\u00edlia: \u201ccrist\u00e3os que, em ambientes sociais nem sempre favor\u00e1veis, cultivam o sentido da fam\u00edlia, na fidelidade aos ideais e \u00e0s responsabilidades do matrim\u00f3nio, assumindo as alegrias, as dificuldades e as surpresas da vida como caminhos de santidade que percorrem confiantes, deixando-se permear pela ac\u00e7\u00e3o libertadora da gra\u00e7a de Deus. (\u2026) Real\u00e7amos, tamb\u00e9m, o esfor\u00e7o e a coragem de quantos, depois da experi\u00eancia dolorosa de matrim\u00f3nios fracassados, se preocupam, na medida do poss\u00edvel, por se manterem fi\u00e9is aos valores da fam\u00edlia e, no campo da educa\u00e7\u00e3o, procuram os meios de melhor qualidade para os seus filhos, no esfor\u00e7o por superar os riscos da dispers\u00e3o afectiva e do confronto com a multiplicidade de valores e crit\u00e9rios a que os mesmos ficam tantas vezes sujeitos, nos novos agregados que os pais e as m\u00e3es muitas vezes constituem\u201d (n. 3).   Sa\u00fado, tamb\u00e9m, os professores, os dirigentes de escolas, os estudantes, os catequistas, os sacerdotes e os p\u00e1rocos, e tantos outros que, com coragem, dedica\u00e7\u00e3o e afecto, se dedicam \u00e0 nobre tarefa de educar.     Que o Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, s\u00edmbolo do amor radical de Deus pela humanidade, a todos inspire e conduza pelos caminhos que tornem a educa\u00e7\u00e3o fermento da constru\u00e7\u00e3o da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d.     Lisboa, Bas\u00edlica da Estrela, 01 de Outubro de 2006  <i>Tomaz Pedro Barbosa Silva Nunes Bispo Auxiliar de Lisboa Presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Educa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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