{"id":204306,"date":"2021-04-04T02:05:57","date_gmt":"2021-04-04T01:05:57","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=204306"},"modified":"2021-04-04T02:05:57","modified_gmt":"2021-04-04T01:05:57","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-vigilia-pascal-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-vigilia-pascal-2\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa na Vig\u00edlia Pascal"},"content":{"rendered":"<div><em>Melhores e diferentes, para o futuro que h\u00e1 de ser<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-204294 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Lisboa_Vigilia-2021.jpg 1800w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Ouvimos nesta vig\u00edlia muitas passagens b\u00edblicas, quase do princ\u00edpio ao fim da hist\u00f3ria que nos revela Deus e nos revela a n\u00f3s, no sentido primeiro e \u00faltimo do que havemos de ser a partir d\u2019Ele.<br \/>\nOuvimo-las certamente \u201cde cora\u00e7\u00e3o tranquilo\u201d, como pediu a admoni\u00e7\u00e3o. Digamos mesmo de cora\u00e7\u00e3o convertido \u00e0 Palavra que nos salva. Fixo-me nas primeiras e \u00faltimas passagens. A do Livro do G\u00e9nesis, logo a abrir: \u00abNo princ\u00edpio, Deus criou o c\u00e9u e a terra. A terra estava deserta e vazia\u2026\u00bb. E a do Evangelho de Marcos, agora mesmo, nas palavras daquele jovem vestido de branco, dirigidas a Maria Madalena, Maria, m\u00e3e de Tiago, e Salom\u00e9: \u00abProcurais Jesus de Nazar\u00e9, o Crucificado? Ressuscitou: n\u00e3o est\u00e1 aqui. Vede o lugar onde O tinham depositado\u00bb &#8211; o lugar era o t\u00famulo vazio.<br \/>\nTerra vazia no princ\u00edpio da cria\u00e7\u00e3o e t\u00famulo vazio no princ\u00edpio da nova cria\u00e7\u00e3o. Dois lugares iniciais e imprescind\u00edveis para que uma e outra continuem a acontecer, na absoluta disponibilidade ao que que Deus quiser e como Deus quiser.<br \/>\nAssim como a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 obra divina, mas conta com a nossa colabora\u00e7\u00e3o para a guardar e cultivar, a ressurrei\u00e7\u00e3o de tudo em Cristo \u00e9 obra de Deus, que se repercutir\u00e1 em n\u00f3s e por n\u00f3s no mundo, se nos mantivermos exclusivamente seus.<br \/>\nO percurso humano de Jesus recapitula e recria, pela inteira obedi\u00eancia a Deus Pai, o que foi a hist\u00f3ria do seu Povo, padr\u00e3o da hist\u00f3ria da humanidade em geral &#8211; passada, presente ou futura que seja. Foi assim, pela sua obedi\u00eancia inteira, que \u201cat\u00e9 o vento e o mar lhe obedeceram\u201d, os destruidores da cria\u00e7\u00e3o foram vencidos e a pr\u00f3pria morte deu lugar \u00e0 vida.<br \/>\n\u00c9 assim que nos ressuscita tamb\u00e9m, pelo mesmo Esp\u00edrito que O moveu a Ele e, com o Batismo, nos mover\u00e1 a n\u00f3s. N\u00e3o \u00e9 algo que se acrescente, \u00e9 o tudo de Deus que nos recria. No enunciado das bem-aventuran\u00e7as, a primeira \u00e9 precisamente a dos \u201cpobres em esp\u00edrito\u201d, ou seja, dos que, esvaziados de si, Deus pode finalmente tomar e refazer.<br \/>\nN\u00e3o se trata duma concorr\u00eancia mal compreendida, entre n\u00f3s e Deus. Trata-se da verdade das coisas, entre o absoluto divino e a relatividade humana, que h\u00e1 de ser entendida como \u00fanica possibilidade de existirmos, distintos de Deus. Mas sobretudo princ\u00edpio para o que havemos de ser, quando formos inteiramente seus, alargando em n\u00f3s a humanidade que Jesus assumiu. F\u00ea-lo para a ressuscitar, pelas \u201cm\u00e3os do Pai\u201d a que inteiramente se entregou. Compreendendo a liberdade como possibilidade de ser, n\u00e3o h\u00e1 liberdade maior do que a de sermos com Deus, em Deus e a partir de Deus.<br \/>\nNa s\u00e9rie de leituras que ouvimos esta noite, n\u00e3o se tratou doutro assunto sen\u00e3o este: da cria\u00e7\u00e3o divina \u00e0 recria\u00e7\u00e3o em Cristo, passando pelas resist\u00eancias nossas e a vontade persistente de Deus em nos retomar, como os profetas lembraram, Cristo realizou e Paulo explicou: \u00abFomos sepultados com Ele pelo Batismo, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela gl\u00f3ria do Pai, tamb\u00e9m n\u00f3s vivamos uma vida nova\u00bb. Do sepulcro vazio que as mulheres encontraram ressurgiu Cristo, como ressurgimos n\u00f3s, quando no Batismo se sepulta o que nos definha sem Deus.<\/p>\n<p>Mais lhes disse aquele jovem vestido de branco, \u00e0s mulheres que procuravam o cad\u00e1ver de Jesus: \u00abRessuscitou: n\u00e3o est\u00e1 aqui\u00bb. N\u00e3o estava ali, s\u00f3 ali, como o tinham sepultado, porque passara a estar absolutamente e doutro modo, em todo o espa\u00e7o e tempo, como o experimentamos e repetimos tantas vezes: \u201cEle est\u00e1 no meio de n\u00f3s\u201d, aqui e agora, em todo o lado e sempre.<br \/>\nCorpo \u00e9 rela\u00e7\u00e3o e o corpo ressuscitado de Cristo permite-lhe a liga\u00e7\u00e3o a todos, para nos ressuscitar tamb\u00e9m. Aqui e agora, na grande Galileia do mundo de toda a gente, em que se adianta, para nos esperar mais al\u00e9m.<br \/>\nUm al\u00e9m que nos desapega do que tenhamos j\u00e1, para irmos ao seu encontro, na interpela\u00e7\u00e3o de cada instante. Durante a pandemia que nos chegou t\u00e3o duramente, recolhi muitos testemunhos de abnega\u00e7\u00e3o, de pessoas que nos mais diversos setores serviram realmente os outros, no que \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 companhia, ao trabalho e \u00e0 sobreviv\u00eancia diz respeito. Os que mais me impressionaram, tamb\u00e9m em linguagem crente, foram os que persistiram em faz\u00ea-lo, mesmo sem nada ou quase nada de seu, quanto a possibilidades e meios, t\u00e9cnicos ou outros. Foram pelo cora\u00e7\u00e3o e a vida reapareceu.<br \/>\nIsto mesmo sucedeu nas comunidades crist\u00e3s, quer pelo esfor\u00e7o e criatividade dos seus ministros, quer por m\u00faltiplas iniciativas dos crentes, por si ou associados com outros, nas organiza\u00e7\u00f5es sociocaritativas ou criadas ad hoc e com especial protagonismo juvenil. Partiram realmente para a Galileia dos outros, assim mesmo \u201cvendo\u201d o Ressuscitado nos surpreendentes sinais da sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi com par\u00e1bolas que Jesus nos falou do que mais importa saber, de si pr\u00f3prio e do Pai, de n\u00f3s e dos outros. Tudo t\u00e3o concreto como expressivo de realidades absolutas. Assim se sucedem na vida de todos os dias os sinais de ressurrei\u00e7\u00e3o, interpret\u00e1veis \u00e0 luz da P\u00e1scoa de Cristo.<br \/>\nDos muitos testemunhos orais ou escritos que recebi, transcrevo apenas um, por ilustrar com factos o que acima indiquei. Trata-se duma profissional de sa\u00fade, a trabalhar num hospital em sobrecarga e no pico da pandemia. Mais uma vez partiu de casa, pouco fiada nas suas for\u00e7as para t\u00e3o grande desafio. Relatando o que aconteceu nesse dia, transmite-nos tr\u00eas surpresas, quase par\u00e1bolas do Ressuscitado, que assim mesmo encontrou em quem serviu: \u00abContinuei a atender doentes e eis que um deles, um jovem com uma m\u00e1scara na cara, ao despedir-se de mim, diz: \u201cNos tempos que correm, n\u00e3o posso deixar de agradecer a sua amabilidade, a total disponibilidade com que me atendeu. Sabe, n\u00e3o est\u00e1 a ver, mas estou a sorrir para si\u201d [\u2026] Logo a seguir, atendo uma senhora com oitenta anos. Tinha vindo sozinha porque n\u00e3o tinha ningu\u00e9m com ela. Ao sair, vira-se para mim e diz: \u201cVou rezar por si. Deus a proteja e guarde. Rezo por todos, mas agora especialmente por si, para que mantenha essa calma que consegue transmitir.\u201d Passado pouco tempo, surge uma jovem com uma m\u00e1scara amarela onde estava desenhado um enorme sorriso vermelho. Ao dar de caras com ela, assustei-me. Ela reparou e disse: \u201cN\u00e3o se assuste. Este sorriso \u00e9 para si\u201d\u00bb.<br \/>\nN\u00e3o nos pare\u00e7am coisas pequenas, indistintas quase. S\u00e3o, isso sim, manifesta\u00e7\u00e3o segura da realidade pascal. Estou certo de que este ano dif\u00edcil evidenciou muitas \u201cvis\u00f5es\u201d do Ressuscitado, a quem esteve atento aos outros e atrav\u00e9s deles experimentou a sua presen\u00e7a viva e vivificante. Para n\u00f3s crentes, \u00e9 confirma\u00e7\u00e3o da Palavra ouvida e acolhida. Sabemo-lo com outros, para testemunharmos a todos a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo nos dramas do mundo.<br \/>\nAssim mesmo a esperan\u00e7a se preenche e tudo se recria. Isto mesmo nos refar\u00e1 melhores e diferentes, para o futuro que h\u00e1 de ser.<\/p>\n<p>S\u00e9 de Lisboa, 3-4 de abril de 2021<br \/>\nD. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Melhores e diferentes, para o futuro que h\u00e1 de ser<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":204294,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[343],"class_list":["post-204306","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lisboa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/204306","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=204306"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/204306\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/204294"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=204306"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=204306"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=204306"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}