{"id":204254,"date":"2021-04-03T23:00:19","date_gmt":"2021-04-03T22:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=204254"},"modified":"2021-04-03T22:40:33","modified_gmt":"2021-04-03T21:40:33","slug":"para-os-cristaos-cada-fim-e-um-comeco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/para-os-cristaos-cada-fim-e-um-comeco\/","title":{"rendered":"\u00abPara os crist\u00e3os, cada fim \u00e9 um come\u00e7o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Homilia da Vig\u00edlia Pascal de D. Rui Val\u00e9<\/em>rio<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Irm\u00e3s e irm\u00e3os<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-157984 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/69518727_1407270029397494_2496414277255036928_o-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/69518727_1407270029397494_2496414277255036928_o-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/69518727_1407270029397494_2496414277255036928_o-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/69518727_1407270029397494_2496414277255036928_o-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/69518727_1407270029397494_2496414277255036928_o-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/69518727_1407270029397494_2496414277255036928_o-1280x854.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/69518727_1407270029397494_2496414277255036928_o-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/69518727_1407270029397494_2496414277255036928_o-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/69518727_1407270029397494_2496414277255036928_o.jpg 1426w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>1 &#8211; Imersos que estamos no mist\u00e9rio da exist\u00eancia, celebramos a sua orienta\u00e7\u00e3o e for\u00e7a, e at\u00e9 o que lhe d\u00e1 raz\u00e3o de ser, que \u00e9 Cristo Ressuscitado. A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 um evento que determina o sentido da pr\u00f3pria exist\u00eancia, revelando que a nossa identidade est\u00e1 sempre e em qualquer circunst\u00e2ncia orientada para a vida e que a vida ser\u00e1 sempre e, em toda a parte e para todo o ser humano, a alma e o conte\u00fado da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>2 &#8211; A celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa decorre no cora\u00e7\u00e3o da noite, n\u00e3o para contrastar com o dia, mas porque se situa al\u00e9m do dia, para al\u00e9m da nossa capacidade de compreender e do nosso entendimento. De facto, n\u00e3o obstante os sinais da Ressurrei\u00e7\u00e3o, como a pedra revolvida e o sepulcro vazio, \u00e9 uma verdade que est\u00e1 para al\u00e9m da pr\u00f3pria hist\u00f3ria e transcende os crit\u00e9rios humanos. Por isso, \u00e9 um evento que continua a questionar a l\u00f3gica das nossas certezas e os mecanismos das convic\u00e7\u00f5es humanas, minimizando as barreiras dos nossos horizontes. Torna-nos h\u00f3spedes duma perspetiva escancarada \u00e0 for\u00e7a da vida e aberta \u00e0 novidade de Deus.<\/p>\n<p>Neste mist\u00e9rio sem tempo nem espa\u00e7o, o pr\u00f3prio Deus irrompe na hist\u00f3ria, n\u00e3o simplesmente com a promessa da eternidade, mas com a pr\u00f3pria realidade eterna. Ele atinge o cora\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil da cria\u00e7\u00e3o com a grandeza da sua divindade para lhe dar plenitude e oferecer-lhe o alento fascinante da superabund\u00e2ncia. Cristo Ressuscitado \u00e9, na verdade, o sacramento do Pai, aquele onde Deus se faz presen\u00e7a para o ser humano para que o ser humano possa encontrar abrigo no cora\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>3 &#8211; A Ressurrei\u00e7\u00e3o constitui uma novidade radical no tempo e na hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 o fruto de nenhuma for\u00e7a f\u00edsica, nem sequer de nenhuma evolu\u00e7\u00e3o natural e, muito menos, duma vontade coletiva da humanidade. Nada gera a Ressurrei\u00e7\u00e3o, nenhuma for\u00e7a \u00e9 suficientemente forte para a ativar, apenas a omnipot\u00eancia de Deus, ou seja, a pot\u00eancia do Seu amor. E esta \u00e9, na verdade, a for\u00e7a que vence a morte, a pot\u00eancia que desmorona os limites da vida, ou seja, a omnipot\u00eancia do amor. S\u00f3 o amor confere \u00e0 vida horizontes de plenitude, s\u00f3 o amor coloca a vida na rota da eternidade. Celebramos esta noite, no cora\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio, o emergir da nova cria\u00e7\u00e3o. E iluminados pela luz resplandecente da Palavra, assumimos a consci\u00eancia de estar perante um Mist\u00e9rio que envolve, em primeiro lugar, Jesus Cristo e, por isso, tamb\u00e9m o Pai, a humanidade e cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>4.1. Envolve Cristo \u2013 que Ressuscita. \u00c0 d\u00e1diva total da vida e do esp\u00edrito de Jesus ao Pai, por amor e para a salva\u00e7\u00e3o da humanidade, o Pai responde derramando a sua pr\u00f3pria vida no crucificado e sepultado, infundindo n\u2019Ele o Seu Esp\u00edrito. Uma d\u00e1diva de amor que n\u00e3o adv\u00e9m para restabelecer ou corrigir o que estava desfigurado e morto, mas para ressuscitar, para gerar uma nova realidade, um novo corpo que, como diz S\u00e3o Paulo, \u201cuma vez ressuscitado dos mortos, Cristo j\u00e1 n\u00e3o pode morrer\u201d (Rm 6, 10). Foi a pot\u00eancia do amor que agiu em Jesus dando-lhe, pois, uma nova vida, uma nova condi\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o biol\u00f3gica, nem voltada para a morte, mas uma vida est\u00e1vel e definitiva. Jesus \u00e9 transformado. N\u00e3o se trata de mera reanima\u00e7\u00e3o, nem t\u00e3o-pouco s\u00f3 revivifica\u00e7\u00e3o, mas plenitude sem confins, com a consist\u00eancia da pr\u00f3pria eternidade. Esta \u00e9 a forma suprema de o Filho participar da vida do Pai.<\/p>\n<p>4.2. Este mist\u00e9rio envolve o Pai. O mist\u00e9rio Pascal revela-nos Deus como o Horizonte dos acontecimentos e como a refer\u00eancia \u00faltima da hist\u00f3ria. O Pai responde com o dom da vida divina \u00e0 entrega que Lhe fizera Jesus, o Filho predileto, da sua vida na cruz. E \u00e0 oferta do seu esp\u00edrito, responde com a efus\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. Em tudo, Deus Pai marca o ritmo, ilumina com a luz do seu amor cada momento e a\u00e7\u00e3o, mesmo os mais enigm\u00e1ticos. E, a exemplo do que sucedera na Cria\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m agora, na ressurrei\u00e7\u00e3o, o Pai coloca toda a efic\u00e1cia da sua for\u00e7a e pot\u00eancia ao servi\u00e7o da vida. Por isso, nesta hora t\u00e3o decisiva para o mundo e para Portugal, n\u00e3o nos podemos alhear de haver for\u00e7as perniciosas na sociedade que, em vez de estarem orientadas no sentido da promo\u00e7\u00e3o da vida, em todas as fases do seu desenvolvimento, e dessa forma serem for\u00e7as pascais de ressurrei\u00e7\u00e3o, apresentam apenas a morte como crit\u00e9rio e caminho\u2026 Do sepulcro vazio, ergamos a voz e gritemos: a morte \u00e9 fim, n\u00e3o caminho; \u00e9 estagna\u00e7\u00e3o, n\u00e3o progresso. \u00c9 por isso que, no evangelho escutado, o jovem vestido de branco diz \u00e0s mulheres, de dentro do sepulcro aberto: \u201cIde dizer aos seus disc\u00edpulos\u2026\u201d (Mc 16, 8). Enquanto a l\u00f3gica da morte funciona sempre como for\u00e7a de bloqueio e estorvo paralisante, do cora\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da ressurrei\u00e7\u00e3o irrompe, linear, a abertura do caminho, a possibilidade de progredir e do desenvolvimento. A P\u00e1scoa constitui uma proposta de Deus \u00e0 humanidade, \u00abide\u00bb, que significa progredir, desenvolvimento. Ao passo que a cultura da morte, a \u00fanica proposta que apresenta \u00e9 a paralisa\u00e7\u00e3o e a estagna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus revela-nos como Deus n\u00e3o est\u00e1 prisioneiro das leis da natureza, as quais ditam a obrigatoriedade da morte como voca\u00e7\u00e3o de toda a criatura. Deus inaugura, na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, uma nova cria\u00e7\u00e3o, em que a vida j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 aprisionada no espa\u00e7o ex\u00edguo que se move entre nascimento e morte, mas est\u00e1 liberta dos condicionamentos esp\u00e1cio-temporais, entre o nascimento para o tempo, para a hist\u00f3ria, e o nascimento para a eternidade, para Deus. Esta vida \u00e9 j\u00e1 experimentada ritualmente no momento do pr\u00f3prio batismo. Com a ressurrei\u00e7\u00e3o, Deus imprime no tempo o cunho da eternidade, no espa\u00e7o da cria\u00e7\u00e3o, o cunho do divino, no mundo mortal, o cunho da imortalidade, na morte, o cunho da vida.<\/p>\n<p>4.3. A ressurrei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nos envolve a n\u00f3s. Dom H\u00e9lder da C\u00e2mara dizia: \u201cDepois que Cristo ressuscitou, ningu\u00e9m tem o direito de andar triste\u201d. Esta alegria \u00e9 bem expressa na palavra que ouvimos.<\/p>\n<p>Antes de tudo, na certeza de que o encontro com Cristo Ressuscitado \u00e9 transformador. E a primeira grande transforma\u00e7\u00e3o acontece na vida. \u201cIrm\u00e3os, todos n\u00f3s que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo Batismo\u201d (Rm 6, 3). E \u00abDepois de passar o s\u00e1bado, Maria Madalena, Maria, m\u00e3e de Tiago, e Salom\u00e9 compraram aromas para irem embalsamar Jesus\u201d (Mc 16, 1).<\/p>\n<p>Tanto na leitura aos Romanos de S. Paulo como no evangelho, h\u00e1 refer\u00eancia a realidades que est\u00e3o terminando, que indicam o fim, o tempo conclusivo, ou seja, a morte, qual \u00faltimo dia, no qual Deus descansou ap\u00f3s a laboriosidade dos dias da cria\u00e7\u00e3o. Ora \u00e9 precisamente a partir destas realidades que assinalam, marcam e representam um fim que se inaugura algo de novo, uma nova etapa. O batismo marca o in\u00edcio, o come\u00e7o da vida crist\u00e3, porque \u00e9 pelo batismo que a vida divina vem comunicada ao batizando e o Esp\u00edrito derramado nele. Mas este que \u00e9 um in\u00edcio, um come\u00e7o, consiste, em primeiro lugar, na participa\u00e7\u00e3o na morte de Cristo, ou seja, na participa\u00e7\u00e3o num fim. S\u00e3o Paulo, ali\u00e1s, at\u00e9 esclarece que \u201cse estamos totalmente unidos a Cristo pela semelhan\u00e7a da sua morte, tamb\u00e9m o estaremos pela semelhan\u00e7a da sua ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d (Rm 6, 5). A nova vida da ressurrei\u00e7\u00e3o acontece mediante a passagem pela morte, assim como o novo dia floresce a partir do crep\u00fasculo do dia \u00faltimo, ou seja, o fim \u00e9 sempre o come\u00e7o de uma nova etapa, de um inaudito e imprevis\u00edvel in\u00edcio.<\/p>\n<p>Eis uma vis\u00e3o importante e cheia de esperan\u00e7a para a vida: para os crist\u00e3os, cada fim constitui um novo come\u00e7o.<\/p>\n<p>Outra grande p\u00e9rola do evangelho \u00e9 constitu\u00edda pela pedra revolvida do sepulcro: eis o rosto da ressurrei\u00e7\u00e3o. Quando as pedras do medo, do pessimismo, da indiferen\u00e7a, da dureza de cora\u00e7\u00e3o forem revolvidas de n\u00f3s e da nossa vida, ent\u00e3o tamb\u00e9m em n\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o faz hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m a n\u00f3s, hoje, quando procuramos a felicidade nas sepulturas da vida, acabamos por chorar as nossas perdas, os nossos fracassos e desilus\u00f5es: \u00abN\u00e3o est\u00e1 aqui, ressuscitou\u2026 Ide\u2026 L\u00e1 o vereis\u00bb (Mc 16, 8): l\u00e1, n\u00e3o aqui.<\/p>\n<p>+ Rui Val\u00e9rio, Bispo das For\u00e7as Armadas e For\u00e7as de seguran\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia da Vig\u00edlia Pascal de D. 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