{"id":203767,"date":"2021-04-01T17:17:21","date_gmt":"2021-04-01T16:17:21","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=203767"},"modified":"2021-04-01T16:26:06","modified_gmt":"2021-04-01T15:26:06","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-da-ceia-do-senhor-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-da-ceia-do-senhor-3\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Funchal na Missa da Ceia do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cSabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai\u201d (Jo 13,1)<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Com a presente celebra\u00e7\u00e3o, damos in\u00edcio ao Tr\u00edduo Pascal da morte, sepultura e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. Celebramos a P\u00e1scoa de Jesus (quer dizer: o acontecimento da P\u00e1scoa que vem at\u00e9 n\u00f3s para nos envolver, e iluminar a nossa exist\u00eancia); e celebramos a nossa P\u00e1scoa, e queremos faz\u00ea-lo com Jesus (quer dizer: na passagem deste mundo para o Pai que \u00e9 a nossa vida, queremos que Jesus habite nela e caminhe connosco, para lhe dar o seu pleno sentido).<\/p>\n<p>O significado da palavra \u201cP\u00e1scoa\u201d (que quer dizer \u201cpassagem\u201d) \u00e9-nos oferecido pela I\u00aa leitura que escut\u00e1mos: \u201cComereis a toda a pressa: \u00e9 a P\u00e1scoa do Senhor. Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egipto e hei de ferir de morte, na terra do Egipto, todos os primog\u00e9nitos, desde os homens at\u00e9 aos animais\u201d (Ex 12,11-12). Deus, descrito como um guerreiro, passa e liberta o seu povo, n\u00e3o sem antes ferir de morte o Egipto, quer dizer: os deuses da morte e da opress\u00e3o \u2014 tudo quanto pretende ser Deus e colocar-se no seu lugar, para oprimir e reduzir o povo \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 em ambiente de celebra\u00e7\u00e3o pascal (S. Jo\u00e3o di-lo expressamente, como escut\u00e1mos: \u201cAntes da festa da P\u00e1scoa\u201d \u2014 Jo 13,1) que Jesus quer estar com \u201cos seus\u201d, antecipando de uma forma sacramental a sua passagem deste mundo para o Pai. Esta \u00e9 a nova e definitiva P\u00e1scoa, de que a P\u00e1scoa do Antigo Testamento era imagem: em Jesus, Deus passa pela hist\u00f3ria humana, fazendo-a sua e assumindo-a at\u00e9 ao fim, derrubando as cadeias da morte e do inferno \u2014 destruindo o muro que nos separava dele \u2014 e deixando aberto, de um modo definitivo, o caminho que nos permite partilhar a sua vida divina.<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o que acab\u00e1mos de escutar, em que o evangelista S. Jo\u00e3o narra essa \u00faltima refei\u00e7\u00e3o de Jesus com os seus, \u00e9 dominada pelo gesto do lava-p\u00e9s que, devido \u00e0 presente situa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria, nos vemos obrigados a n\u00e3o realizar. Por isso, convido todos a que, ao menos, meditemos nele, ainda que tomando apenas alguns dos seus aspectos. Este gesto quase sacramental do lava-p\u00e9s, verdadeiro ensinamento de Jesus feito sem palavras, mas que permaneceu gravado na mem\u00f3ria e no cora\u00e7\u00e3o da Igreja, como que interpreta a Institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia, narrada pelos tr\u00eas evangelistas sin\u00f3pticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A P\u00e1scoa, j\u00e1 o dissemos, \u00e9 passagem libertadora de Deus pela hist\u00f3ria. Mas \u00e9, por isso, aniquila\u00e7\u00e3o de tudo quanto se op\u00f5e \u00e0 Sua obra salvadora: no Antigo Testamento, aniquila\u00e7\u00e3o do Egipto; no Novo Testamento, derrota do mal que procura impor-se na vida dos homens. Quando Deus entra na hist\u00f3ria (na hist\u00f3ria da humanidade, na hist\u00f3ria de um qualquer grupo humano ou na hist\u00f3ria pessoal de algu\u00e9m) nunca nos deixa como anteriormente. Mas aqui, porque nos encontramos no \u201cv\u00e9rtice da hist\u00f3ria\u201d, trata-se de algo ainda mais radical e profundo: \u00e9 a P\u00e1scoa nova e definitiva, destinada a ser vivida e revivida para sempre (celebrada) como lugar de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Encontramo-nos no seio daquele conflito anunciado praticamente desde o in\u00edcio: \u201cDurante a ceia, quando o diabo j\u00e1 pusera no cora\u00e7\u00e3o de Judas, filho de Sim\u00e3o Iscariotes, o projeto de O entregar\u201d \u2014 diz a narra\u00e7\u00e3o de S. Jo\u00e3o (Jo 13,2). Trata-se do verdadeiro \u201cconflito final\u201d que agora tem lugar; a luta entre Deus e tudo quanto a Ele se op\u00f5e; a \u201c\u00faltima tenta\u00e7\u00e3o\u201d do pr\u00f3prio Jesus, diria S. Marcos. No \u00caxodo, era o Fara\u00f3 de cora\u00e7\u00e3o endurecido; ao longo da hist\u00f3ria de Israel, eram os deuses estrangeiros que o povo insistia em adorar, esquecendo o \u00fanico Deus vivo e verdadeiro e a confian\u00e7a que deveria colocar nele; agora \u00e9 mesmo um dos Doze (um dos seus), que recusa o plano de Deus, em favor de um projeto pr\u00f3prio: o mal adensa-se \u00e0 volta de Jesus, procurando contrariar o des\u00edgnio salvador do Pai. Ali, naquela P\u00e1scoa, como que se concentra todo o mal da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O evangelista d\u00e1-nos ainda conta do modo como Jesus vive este momento: \u201cSabendo Jesus que o Pai tudo pusera nas suas m\u00e3os; sabendo que sa\u00edra de Deus e para Deus voltava\u201d, diz-nos S. Jo\u00e3o (Jo 13,3): Jesus est\u00e1 consciente da situa\u00e7\u00e3o. Vive-a n\u00e3o como algu\u00e9m a quem as circunst\u00e2ncias surpreenderam; ou \u2014 muito menos \u2014 como algu\u00e9m resignado a um destino de sofrimento, condenado sem qualquer outra possibilidade. Ao contr\u00e1rio: Jesus mostra-se plenamente livre e consciente neste confronto com o mal \u2014 sobretudo, consciente do des\u00edgnio do Pai, que tudo colocou nas suas m\u00e3os, tal como est\u00e1 consciente de esta ser a sua P\u00e1scoa, a P\u00e1scoa por antonom\u00e1sia: Ele que sa\u00edra de Deus para, na hist\u00f3ria, viver como \u201cVerbo feito carne\u201d, agora para Deus voltava, como Filho glorificado, mediador da Nova Alian\u00e7a, ponte entre Deus e o homem.<\/p>\n<p>\u00c9 este Jesus que aceita a luta da P\u00e1scoa. A batalha desenrola-se definitivamente no momento da morte de Jesus na cruz: \u00e9 o momento decisivo. Mas o servi\u00e7o at\u00e9 ao fim, a entrega de si mesmo at\u00e9 ao limite, encontram-se j\u00e1 prefigurados na \u00faltima Ceia: prefigurados n\u00e3o apenas na Eucaristia institu\u00edda (Jesus que se entrega como alimento at\u00e9 ao fim dos tempos \u2014 que se apresenta como solu\u00e7\u00e3o na luta que h\u00e1 de ser continuada e travada pelos seus disc\u00edpulos), como tamb\u00e9m prefigurados neste gesto singular do lava-p\u00e9s, realizado n\u00e3o pelos servos mas por aquele que \u00e9 \u201cMestre e Senhor\u201d; e n\u00e3o no in\u00edcio da refei\u00e7\u00e3o como era habitual, mas no meio da mesma, de modo que, saindo fora de todos os h\u00e1bitos, permane\u00e7a gravado na mem\u00f3ria dos disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o campo da batalha? O campo desta batalha decisiva \u00e9 a vida: a vida de Jesus, a vida do homem. E quais s\u00e3o as suas armas? Para Judas, a arma \u00e9 a trai\u00e7\u00e3o: a entrega do amigo nas m\u00e3os daqueles que O querem amorda\u00e7ar e colocar um fim \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o e \u00e0 sua pessoa. Para Jesus, a arma \u00e9 o servi\u00e7o at\u00e9 ao fim \u2014 porque at\u00e9 ao fim \u00e9 tamb\u00e9m o seu amor: \u201cEle que amara os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao fim\u201d (Jo 13,1b). Se aqueles O querem derrubar com armas que destroem, ex\u00e9rcitos e poderes que se procuram impor, Jesus escolhe lavar os p\u00e9s aos disc\u00edpulos e ao mundo inteiro, mesmo a Judas.<\/p>\n<p>E, no entanto, n\u00e3o \u00e9 em Judas que a luta se faz ouvir e ver mais claramente. \u00c9 em Pedro, no seu cora\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulo. O cora\u00e7\u00e3o de Pedro (tal como o nosso cora\u00e7\u00e3o) tem tanto do cora\u00e7\u00e3o de Judas! Tamb\u00e9m em Pedro \u2014 como em Judas \u2014 o que se faz ouvir, disfar\u00e7ado de humildade, n\u00e3o \u00e9 o des\u00edgnio de Deus, mas os seus pr\u00f3prios planos. Em Judas, \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o de um projeto revolucion\u00e1rio, de insurrei\u00e7\u00e3o popular. Em Pedro, \u00e9 a recusa de ser lavado, perdoado, purificado, por Jesus \u2014 mas, como quer que seja, um projeto pr\u00f3prio, longe do que \u00e9 proposto pelo Senhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Irm\u00e3os, n\u00e3o tenhamos d\u00favidas. A P\u00e1scoa de Jesus estende-se at\u00e9 aos nossos dias. E os nossos dias s\u00f3 ser\u00e3o de verdadeira liberta\u00e7\u00e3o, de verdadeira salva\u00e7\u00e3o, se forem vividos na P\u00e1scoa de Jesus. Deus passa hoje por n\u00f3s. Passa pela nossa vida. Faz P\u00e1scoa connosco. F\u00e1-lo como um guerreiro, para destruir o que em n\u00f3s \u00e9 morte e pecado, e nos conduzir \u00e0 vida, \u00e0 Terra Prometida. Nesta batalha, o Senhor Jesus continua a usar a sua \u00fanica arma, aquela do amor. Quer lavar-nos os p\u00e9s: \u201cSe n\u00e3o te lavar, n\u00e3o ter\u00e1s parte comigo\u201d, continua Ele a dizer-nos, a n\u00f3s que, como Judas e como Pedro, persistimos tantas vezes na vontade de seguir os nossos planos em vez de acolhermos o seu projeto salvador. \u201cCompreendeis o que vos fiz? V\u00f3s chamais-me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se, portanto, Eu, que sou Mestre e Senhor vos lavei os p\u00e9s, tamb\u00e9m deveis lavar-vos os p\u00e9s uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, tamb\u00e9m v\u00f3s o fa\u00e7ais\u201d (Jo 13,12-15).<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que cada um de n\u00f3s que aqui se encontra, e toda a nossa Diocese, n\u00e3o pode deixar de continuar a interrogar-se: de que modo concreto podemos (devemos) lavar os p\u00e9s uns aos outros? Quer dizer: como podemos hoje continuar aquele servi\u00e7o \u2014 que \u00e9 amor at\u00e9 fim \u2014 com Jesus amou? De que modo concreto podemos e devemos lutar esta batalha da vida, que \u00e9 batalha da salva\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ao celebrarmos a Institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia e do sacerd\u00f3cio, bem como o mandamento novo do amor, disponhamo-nos \u00e0 atitude quotidiana de quem procura \u201clavar os p\u00e9s\u201d daqueles que, hoje, como n\u00f3s, necessitam da P\u00e1scoa \u2014 que o mesmo \u00e9 dizer: necessitam que Deus passe pela sua vida e, com bra\u00e7o poderoso, os retire do Egito do pecado, e os salve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e9 do Funchal, 1 de abril de 2021<\/p>\n<p><em>D. Nuno Br\u00e1s<\/em><\/p>\n<p><em>Bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai\u201d (Jo 13,1)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":203769,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186],"class_list":["post-203767","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203767","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203767"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203767\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/203769"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}