{"id":203608,"date":"2021-04-04T09:30:46","date_gmt":"2021-04-04T08:30:46","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=203608"},"modified":"2021-04-04T09:26:15","modified_gmt":"2021-04-04T08:26:15","slug":"o-grande-ausente-deste-mundo-no-meio-desta-pandemia-e-deus-d-antonio-couto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-grande-ausente-deste-mundo-no-meio-desta-pandemia-e-deus-d-antonio-couto\/","title":{"rendered":"\u00abO grande ausente deste mundo, no meio da pandemia, \u00e9 Deus\u00bb &#8211; D. Ant\u00f3nio Couto"},"content":{"rendered":"<p><em>A ECCLESIA e a Renascen\u00e7a conversam com o bispo de Lamego a prop\u00f3sito do livro &#8216;Do lado de c\u00e1 da meia-noite &#8211; atravessar a crise&#8217;, recentemente publicado pela Paulus Editora. A obra re\u00fane seis ensaios para &#8220;ajudar a viver com esperan\u00e7a, e com esperan\u00e7a superar a crise pand\u00e9mica que atravessamos e nos aperta o peito e a garganta\u201d<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_186601\" aria-describedby=\"caption-attachment-186601\" style=\"width: 1152px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/antonio_couto2020.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-186601 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/antonio_couto2020.jpg\" alt=\"D. Ant\u00f3nio Couto\" width=\"1152\" height=\"767\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/antonio_couto2020.jpg 1152w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/antonio_couto2020-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/antonio_couto2020-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/antonio_couto2020-768x511.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/antonio_couto2020-1080x719.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/antonio_couto2020-980x652.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/antonio_couto2020-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1152px) 100vw, 1152px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-186601\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Diocese de Lamego<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u00c9 urgente devolver a esperan\u00e7a \u00e0s pessoas? De que forma?<\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o que vem nas p\u00e1ginas iniciais desse pequeno livro, que j\u00e1 foi terminado no decurso dos \u00faltimos meses do ano passado, j\u00e1 em plena pandemia e crise. Era um livro que eu gostaria que sa\u00edsse por altura do Natal e que, tamb\u00e9m devido \u00e0 pandemia e a todas as circunst\u00e2ncias que retardam estas coisas, acabou por sair j\u00e1 nos primeiros meses de 2021.<\/p>\n<p>\u00c9 uma tentativa, uma maneira de ajudar as pessoas, e a mim pr\u00f3prio, a sentir que no meio desta pandemia e desta crise n\u00f3s n\u00e3o estamos sozinhos. Quase sempre pensamos que estamos sozinhos, abandonados, quando muito temos do nosso lado as vacinas que nos poder\u00e3o ajudar, mas que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m a quem possamos dar a m\u00e3o, ou que possa pegar na nossa m\u00e3o. O que pretendo dizer em todos estes ensaios \u00e9 que h\u00e1 algu\u00e9m que pega na minha m\u00e3o e esse algu\u00e9m \u00e9 Deus.<\/p>\n<p>O grande ausente deste mundo, no meio desta pandemia, \u00e9 Deus. E foi isso que me fez avan\u00e7ar um bocadinho. \u00c9 tudo poss\u00edvel, mesmo na nossa linguagem mais habitual, da Igreja, quando h\u00e1 pessoas enlutadas n\u00f3s pr\u00f3prios enviamos psic\u00f3logos, parece que n\u00e3o temos nada de substancial a dizer \u00e0s pessoas, e temos. E esse \u00e9 o meu problema, e foi tamb\u00e9m por isso que quis mostrar que as figuras b\u00edblicas e o povo b\u00edblico que atravessa dramas imensos, nunca se sentiu abandonado, e sentiu sempre a m\u00e3o de Deus por perto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quer transmitir \u00e0s pessoas que h\u00e1 esperan\u00e7a. O que o levou a escrever este livro foi observar que h\u00e1, de facto, falta de esperan\u00e7a nas pessoas neste momento, no contexto em que vivemos?<\/em><\/p>\n<p>Penso que \u00e9 not\u00f3rio. Basta ver \u00e0 nossa volta e vemos sempre que sobretudo quando a dor e o sofrimento chega \u00e0 nossa casa &#8211; o que \u00e0s vezes tamb\u00e9m acontece, n\u00e3o chega s\u00f3 \u00e0 casa dos outros -, a\u00ed \u00e9 not\u00f3rio que as pessoas se sentem abandonadas. E a\u00ed \u00e9 que n\u00f3s temos de aparecer, n\u00e3o apenas para estarmos pr\u00f3ximos das pessoas e para lhes dizer duas palavras de circunst\u00e2ncia, que s\u00e3o as habituais, mas para lhes dizermos que h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para essas l\u00e1grimas e para essa dor, para essas circunst\u00e2ncias tr\u00e1gicas em que \u00e0s vezes as pessoas caem, como seja a morte. H\u00e1 solu\u00e7\u00e3o, biblicamente falando, \u00e9 isso que pretendo dizer ao longo destes ensaios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O pensamento b\u00edblico, ali\u00e1s, n\u00e3o foge do tempo das trag\u00e9dias, das crises. O D. Ant\u00f3nio fala num &#8220;pensamento traum\u00e1tico&#8221; para falar da linguagem b\u00edblica. \u00c9 poss\u00edvel vislumbrar neste tempo de trag\u00e9dias, como o que vivemos, as sementes de um novo princ\u00edpio?<\/em><\/p>\n<p>Sim, penso que \u00e9 poss\u00edvel. De facto o pensamento b\u00edblico n\u00e3o \u00e9 teor\u00e9tico, isto \u00e9, quem pensa na B\u00edblia n\u00e3o funciona na busca do conceito. O nosso pensamento deriva do pensamento grego, \u00e9 esse que temos e que anda por a\u00ed, mas, de facto, \u00e9 um pensamento que vive das trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>O povo b\u00edblico aprendeu a superar as trag\u00e9dias, n\u00e3o tanto pela sua for\u00e7a. \u00c9 curioso vermos que todas as grandes trag\u00e9dias que atravessam a Escritura, nomeadamente o \u00caxodo, o Ex\u00edlio, o tempo de Ant\u00edoco IV Epif\u00e2nio, em pleno s\u00e9culo II a.C. &#8211; em que se d\u00e1 tamb\u00e9m a primeira persegui\u00e7\u00e3o religiosa da Hist\u00f3ria &#8211; o povo sai dessas trag\u00e9dias, n\u00e3o pela sua for\u00e7a e organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pela pol\u00edtica e pela estrat\u00e9gia urbanizada, mas sai pela m\u00e3o de Deus. Sempre aprendeu isso e sempre foi isso. E citaria aqui o pensamento de Blaise Pascal que diz que os rios, as montanhas, as coisas que existem n\u00e3o provam a exist\u00eancia de Deus, nem n\u00f3s provamos a exist\u00eancia de Deus, mas rezamos, escutamos, obedecemos, cantamos Deus. Ent\u00e3o, para al\u00e9m de Blaise Pascal e do seu pensamento, se n\u00f3s cantamos Deus e se rezamos a Deus, temos de pensar e ver melhor, que por tr\u00e1s disto tudo tamb\u00e9m andar\u00e1 Deus, seguramente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O &#8220;lado de c\u00e1 da meia-noite&#8221;, que d\u00e1 nome ao livro, \u00e9 o lado de quem j\u00e1 caminha para a aurora, para a terra prometida, como diz Jeremias &#8211; que ali\u00e1s \u00e9 quem o inspira nesse t\u00edtulo -, sem deixar ningu\u00e9m para tr\u00e1s. \u00c9 a mensagem de que o mundo precisa, uma vis\u00e3o prof\u00e9tica sobre esta crise?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma vis\u00e3o prof\u00e9tica. De facto, o lado de c\u00e1 da meia-noite \u00e9 o lado da aurora, j\u00e1 \u00e9 de quem desce desde a meia-noite a caminho da aurora, e n\u00e3o \u00e9 o lado de quem ainda est\u00e1 a subir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 meia-noite. Essa autora que j\u00e1 se pode vislumbrar \u00e9 sempre aquilo que Jeremias v\u00ea ao longo de toda a sua exist\u00eancia. E n\u00e3o \u00e9 que essa aurora seja por n\u00f3s incendiada ou erguida, essa aurora \u00e9 sempre trazida do lado de Deus. E essa narrativa de Jeremias, capitulo 31, diz que as pessoas v\u00e3o a caminho do Ex\u00edlio e que \u00e9 uma trag\u00e9dia, mas Jeremias sobrep\u00f4e a ida para o Ex\u00edlio ao regresso do Ex\u00edlio, de tal maneira que as l\u00e1grimas com que a gente parte s\u00e3o as l\u00e1grimas com que a gente regressa. Mas \u00e9 Deus que nos diz &#8220;deixa essas l\u00e1grimas, porque h\u00e1 futuro, h\u00e1 consola\u00e7\u00e3o para ti&#8221; &#8211; est\u00e1 a falar para Raquel, a m\u00e3e que chora os seus filhos, como todas as m\u00e3es do nosso tempo que choram a perda dos seus filhos ou dos familiares. H\u00e1 consola\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 Deus que fala, n\u00e3o somos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Num livro anterior, que escrevi h\u00e1 um ano, chamado &#8216;Leitura do tempo em que vamos&#8217;, h\u00e1 um cap\u00edtulo que diz &#8220;Pai, a narrativa est\u00e1 vazia&#8221;. As nossas narrativas \u00e0s vezes s\u00e3o formas, palavras, frases, par\u00e1grafos, mas s\u00e3o subjetivas, \u00e9 aquilo que eu penso e que ponho no texto. \u00c9 preciso encontrar o sentido objetivo, que \u00e9 o sentido de quem p\u00f5e as coisas em andamento. Esse \u00e9 o sentido de Deus, esse \u00e9 o sentido que Jeremias v\u00ea, o sentido que vem de Deus. Jeremias n\u00e3o p\u00f5e na p\u00e1gina o seu pr\u00f3prio sentido, subjetivo ou transubjetivo, que seria o sentido cultural. \u00c9 o sentido objetivo, que vem de Deus, ele n\u00e3o consegue pensar a sua vida sem Deus.<\/p>\n<p>Se calhar Jeremias n\u00e3o prova Deus, mas se Jeremias escuta Deus, se v\u00ea Deus, se fala de Deus e se fala com Deus nos seus di\u00e1logos, ent\u00e3o temos de saber ir mais longe e mostrar a este mundo n\u00e3o apenas que s\u00e3o necess\u00e1rios psic\u00f3logos e fot\u00f3grafos para verem as situa\u00e7\u00f5es, mas que \u00e9 preciso quem fale de Deus hoje, quem fale com Deus hoje, neste mundo e nestas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A pandemia abriu a porta a muitas crises. Falou do recurso a psic\u00f3logos, t\u00e3o necess\u00e1rios. A crise de alma pode ser das mais graves que estamos a atravessar?<\/em><\/p>\n<p>Tudo somado, as crises exteriores, das coisas, dos dinheiros, as crises econ\u00f3micas, enfim&#8230; eu costumo dizer que em pol\u00edtica o pensamento chama-se contabilidade &#8211; infelizmente \u00e9 quase sempre assim -, e passa por a\u00ed aquilo que vemos \u00e0 primeira vista, passa por essas realidades palp\u00e1veis. Mas, no fundo, no fundo, vamos sempre l\u00e1 ter e n\u00e3o temos, infelizmente, no nosso mundo gente que escreva e que pense ao n\u00edvel, por exemplo, dos grandes pensadores russos antigos, como Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, Leon Tolstoi, ou como, no s\u00e9culo passado ainda, Wassili Grossman, que s\u00e3o not\u00e1veis escritores e pensadores, e colocam sentido nas p\u00e1ginas que escrevem. N\u00f3s apenas descrevemos os factos e os epis\u00f3dios.<\/p>\n<p>Penso que ser\u00e1 necess\u00e1rio ir mais longe e n\u00e3o deixar isto apenas na m\u00e3o dos soci\u00f3logos e dos psic\u00f3logos, como vamos vendo. D\u00e1 a impress\u00e3o de que, de facto, como dizem alguns pensadores judeus atuais, Deus est\u00e1 exilado. N\u00f3s exil\u00e1mos Deus deste mundo, e vivemos como S\u00e3o Paulo diz aos Ef\u00e9sios, no cap\u00edtulo 2: &#8220;antes de Jesus Cristo vir ao vosso encontro, v\u00f3s viv\u00edeis sem esperan\u00e7a e sem Deus no mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Sem Jesus vivemos sem esperan\u00e7a, porque sem Deus no mundo. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sem Deus, \u00e9 sem Deus no mundo. \u00c9 importante trazer Deus de volta a este mundo, ao nosso mundo, ao nosso quotidiano, ao nosso viver, de tal modo que eu, com a minha maneira de dizer, de fazer e de ser, seja uma testemunha que aponte para Deus. N\u00e3o que eu possa provar ou demonstrar Deus, mas posso mostrar Deus. \u00c9 isso que cada um de n\u00f3s tem de fazer, e que a Igreja tem de fazer neste tempo, neste mundo e neste modo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma das quest\u00f5es que aborda \u00e9 a \u201cfalta que um rosto faz\u201d. O rosto, como princ\u00edpio \u00e9tico fundamental, \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o neste tempo de m\u00e1scaras<\/em>?<\/p>\n<p>Sim, a \u00e9tica de Levinas \u00e9 sobretudo para opor \u00e0 chamada ontologia, a ci\u00eancia filos\u00f3fica que tem controlado todo o pensamento. E a ontologia \u00e9 sobretudo aquilo que separa, isto \u00e9, eu sou eu, tu \u00e9s tu, eu tenho o meu mundo, as minhas coisas, tu tens as tuas. N\u00f3s podemos olhar uns para os outros, mas n\u00e3o nos tocamos.<\/p>\n<p>Isso depois passa para a frase \u201ca minha liberdade acaba onde come\u00e7a a liberdade do outro\u201d, \u00e9 um mundo aos quadradinhos, a vida aos quadradinhos, mas eles n\u00e3o se tocam. Ora, n\u00f3s hoje estamos num mundo interativo, em que o fraseado deveria ser \u201ca minha liberdade come\u00e7a onde come\u00e7a a liberdade do outro\u201d. N\u00f3s devemos ser interativos, implicar-nos um com os outros, isso \u00e9 que \u00e9 a \u00e9tica. Mais do que isso ainda: o mundo n\u00e3o come\u00e7a com este \u201ceu penso, eu decido, eu escolho\u201d, que \u00e9 a base da vida que vemos por a\u00ed, no mundo moderno e p\u00f3s-moderno, em que tudo \u00e9 absolutamente relativo.<\/p>\n<p>O que passa \u00e9 o rosto, o rosto do outro que me visita e me diz \u201cbom dia\u201d. O \u201cbom dia\u201d, hoje, precede o \u201ccogito\u201d: quem me diz bom dia n\u00e3o me est\u00e1 a pedir para decidir nada, nem para escolher, est\u00e1 a pedir-me para responder.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>No in\u00edcio pensou-se que a pandemia pudesse transformar o homem num ser mais solid\u00e1rio. Um ano depois, qual \u00e9 o balan\u00e7o que faz<\/em>?<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 cedo para se fazer um balan\u00e7o desta pandemia, ainda estamos nela, v\u00e3o ser necess\u00e1rio anos, d\u00e9cadas, para vermos melhor o resultado. Eu sinto que quando estamos com problemas, procuramos fugir deles, de todas as maneiras e feitios. Passados os problemas, regressamos facilmente \u00e0 estaca anterior\u2026<\/p>\n<p>Espero bem que este tempo \u2013 que nos for\u00e7a a estar mais tempo em casa, porventura, sozinhos \u2013 nos obrigue, nos force a refletir e a ver as coisas de forma diferente. N\u00e3o asseguro que, terminada a pandemia, o mundo seja um para\u00edso. E seguramente n\u00e3o o ser\u00e1, mas se for um mundo em que o rosto do outro me apare\u00e7a sem que eu o tematize, o englobe no meu mundo, mas que o veja como outro rosto que me interpela, que me diz \u201cbom dia\u201d \u2013 uma enxurrada de bondade que vem ao meu encontro, para cruzarmos estes mundos e percebermos que n\u00f3s os dois, tr\u00eas, cem, mil, podemos construi um mundo melhor, de forma interativa, que nos implique, em que a bondade esteja presente. \u00c9 isso que eu gostaria de ver mais presente no meio de n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso leva-me a uma quest\u00e3o, um pouco diferente, que \u00e9 a da solid\u00e3o. Falamos com o bispo de Lamego, uma diocese do Interior e envelhecida. A pandemia trouxe dificuldades acrescidas a quem a\u00ed vive?<\/em><\/p>\n<p>A pandemia trouxe mais algumas dificuldades do que aquelas que j\u00e1 havia. Por exemplo, estou dentro das paredes do Pa\u00e7o Episcopal de Lamego h\u00e1 mais de um ano, tenho tido muito poucas sa\u00eddas, n\u00e3o posso ir ao encontro das pessoas, porque este estado de coisas n\u00e3o o permite. E recordo a alegria com que as pessoas nos veem chegar, com que me veem chegar, com que n\u00f3s nos abra\u00e7\u00e1vamos, com que convers\u00e1vamos, sent\u00edamos as coisas do dia a dia e fal\u00e1vamos disso. E fal\u00e1vamos de Deus, era uma alegria imensa. Hoje sinto que as pessoas n\u00e3o chegam t\u00e3o facilmente a essa alegria.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a pandemia veio isolar ainda mais este Interior, que j\u00e1 est\u00e1 bastante despovoado \u2013 muito despovoado, muito envelhecido \u2013 e em que as pessoas est\u00e3o muito sozinhas. Qualquer rosto que apare\u00e7a junto delas \u00e9 uma riqueza e uma surpresa imensa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Foi dif\u00edcil, para a Igreja em Lamego, conseguiu acompanhar a dor e as necessidades das pessoas<\/em>?<\/p>\n<p>Fez-se tudo o que era poss\u00edvel fazer, penso, houve movimenta\u00e7\u00f5es, houve contactos, mas tamb\u00e9m houve muitas barreiras, como \u00e9 \u00f3bvio, para n\u00e3o criar ainda mais problemas.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m mortes, continua a haver isolamentos for\u00e7ados, mas teremos de levar luzes, que possam mostrar \u00e0s pessoas que, mesmo quando est\u00e3o s\u00f3s, n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3s, est\u00e3o acompanhadas de muitas maneiras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os meios digitais foram uma boa ajuda?<\/em><\/p>\n<p>Foram importantes e a\u00ed est\u00e1 uma descoberta: sem a pandemia n\u00e3o chegar\u00edamos l\u00e1, pelo menos t\u00e3o rapidamente. Descobrimos que havia alguma maneira de, afinal, podermos contactar, de nos podermos ver, de podermos sorrir, dizer bom dia \u00e0 pessoa que est\u00e1 do outro lado, online, em qualquer parte. Ainda que eu note que no nosso Interior n\u00e3o foi t\u00e3o cultivado esse aspeto como noutras regi\u00f5es onde tenho participado, mas alguma coisa se fez nesse sentido, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste domingo de P\u00e1scoa, que mensagem \u00e9 poss\u00edvel deixar a quem anseia por viver uma \u201cgrande passagem\u201d para o p\u00f3s-pandemia<\/em>?<\/p>\n<p>A P\u00e1scoa \u00e9 um tempo grande, um tempo belo, um tempo da not\u00edcia que vem de Deus. Se repararmos bem, a Paix\u00e3o de Jesus e a nossa paix\u00e3o \u2013 na mensagem de Quaresma do Papa, ele colocou, como ep\u00edgrafe, o texto de Mateus, \u2018Vamos para Jerusal\u00e9m\u2019, isto \u00e9, estamos envolvidos, estamos implicados \u2013 \u00e9 uma luta, entre a vida e a morte. \u00c9 um relato. E toda a B\u00edblia \u00e9 quase um relato dessa luta entre a vida e a morte. A Ressurrei\u00e7\u00e3o, a P\u00e1scoa, \u00e9 uma not\u00edcia, \u00e9 a not\u00edcia de quem vence esta luta: quem vence \u00e9 a vida.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 o ressuscitado com uma vida nova, que o Novo Testamento \u2013 e o Antigo, por algumas vezes \u2013 chama \u201czoe\u201d, que n\u00e3o \u00e9 a \u201cbios\u201d \u2013 a nossa vida biol\u00f3gica, que j\u00e1 sabemos que come\u00e7a e acaba. \u00c9 a vida de Deus, o modo de viver de Deus, que chega ao meu mundo e que transforma a minha vida. Isso tem de ser dito e n\u00f3s apenas nos limitamos a bater nas costas das pessoas e a darmos as nossas condol\u00eancias. \u00c9 preciso dizer que vivemos j\u00e1 na vida de Deus que n\u00e3o termina: a Palavra de Deus \u00e9 Esp\u00edrito e Vida, n\u00f3s comungamos o P\u00e3o da Vida, Jesus Cristo, que \u00e9 essa vida nova, a vida eterna, a vida de Deus, a vida que h\u00e1 em Deus e que j\u00e1 explodiu no nosso mundo. Isso temos de ensinar, voltar a dizer: a\u00ed est\u00e1 a P\u00e1scoa, a\u00ed est\u00e1 a alegria, a palavra nova, a vida nova, explosiva, que deve transformar a nossa \u201cbios\u201d, a nossa vida habitual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ECCLESIA e a Renascen\u00e7a conversam com o bispo de Lamego a prop\u00f3sito do livro &#8216;Do lado de c\u00e1 da meia-noite &#8211; atravessar a crise&#8217;, recentemente publicado pela Paulus Editora. 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