{"id":203541,"date":"2021-03-31T14:29:24","date_gmt":"2021-03-31T13:29:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=203541"},"modified":"2021-03-31T16:33:53","modified_gmt":"2021-03-31T15:33:53","slug":"saber-aprender-a-parar-para-pensar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-parar-para-pensar\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A parar para pensar"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O problema da desinforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece querer dissipar-se por maiores que sejam os esfor\u00e7os das empresas de redes sociais. O exemplo mais premente \u00e9 o da desinforma\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vacina para a Covid-19 que continua a influenciar a percep\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam da mesma. \u00c9 tentador pensar que nos encontramos num mundo da \u201cp\u00f3s-verdade\u201d onde deixou de ser poss\u00edvel distinguir facto de fic\u00e7\u00e3o, e que o melhor \u00e9 mesmo permanecer ignorante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 veracidade daquilo que partilhamos. Mas saiu um trabalho recente na prestigiada revista <em>Nature<\/em> que nos mostra como o desafio pode ter solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-203542\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar-1080x810.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar-980x735.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Barco_Ar-480x360.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-021-03344-2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estudo<\/a> questiona duas coisas: 1) por que raz\u00e3o as pessoas partilham a desinforma\u00e7\u00e3o e; 2) como reduzir essa partilha. Uma das conclus\u00f5es \u00e9 a de que a veracidade dos t\u00edtulos das not\u00edcias partilhadas produz um efeito marginal nas inten\u00e7\u00f5es de partilha, apesar de terem um grande efeito no ju\u00edzo que fazemos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua veracidade. Em suma, h\u00e1 que distinguir inten\u00e7\u00e3o de ju\u00edzo em rela\u00e7\u00e3o ao que as pessoas partilham nas suas redes de contactos.<\/p>\n<p>Por este motivo, o facto das pessoas partilharem algo que outros verificam n\u00e3o ser verdade n\u00e3o quer dizer que as pessoas que partilharam acreditavam nisso. Isto indica que se partilha muito sem pensar naquilo que se partilha, embora as pessoas estejam sens\u00edveis \u00e0 import\u00e2ncia de partilhar informa\u00e7\u00e3o verdadeira. Por que raz\u00e3o pensamos menos antes de partilhar?<\/p>\n<p>Das experi\u00eancias que este grupo de investigadores fez, usando o Twitter, os resultados mostraram que desviando, subtilmente, a aten\u00e7\u00e3o na direc\u00e7\u00e3o da precis\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o a partilhar, aumenta a qualidade das partilhas realizadas. As pessoas partilham muitas vezes informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 verdadeira porque a sua aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 centrada em outras coisas que n\u00e3o na precis\u00e3o daquilo que partilham. Este resultados desafiam a ideia de que as pessoas valorizam mais as causas que as levam a fazer partilhas de desinforma\u00e7\u00e3o do que a precis\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o partilhada. Penso que seja um not\u00edcia positiva que aponta para o sentido humano de permanecer sempre na verdade. A quest\u00e3o est\u00e1 em saber aprender a orientar a aten\u00e7\u00e3o na direc\u00e7\u00e3o da precis\u00e3o, e, curiosamente, a pensar antes de agir. Uma atitude recomendada sempre pelos nossos av\u00f3s. Mas como actualiz\u00e1-la neste novo contexto da cultura digital?<\/p>\n<p>O f\u00e1cil deslizar do rol de not\u00edcias, v\u00eddeos de gatinhos, e fotos a que temos acesso, facilita o consumo superficial dos conte\u00fados, levando-nos a parar, e reagir, somente naqueles que despertam alguma emo\u00e7\u00e3o em n\u00f3s. O consumo de informa\u00e7\u00e3o de hoje \u00e9, essencialmente, distractivo. O significado desta onda na sociedade da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que as <em>atitudes<\/em> das pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade n\u00e3o est\u00e1 por detr\u00e1s das raz\u00f5es de desinforma\u00e7\u00e3o que partilham, mas antes do tal subtil desvio da <em>aten\u00e7\u00e3o<\/em> em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 verdadeiro. De vez em quando, ao receber novamente um texto de Augusto Cury como sendo uma homilia recente do Papa Francisco, chamando a aten\u00e7\u00e3o da pessoa pela falta de precis\u00e3o naquilo que partilhou, a reac\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre a de algu\u00e9m que preza a verdade, pedindo desculpa pela distrac\u00e7\u00e3o. Mas a culpa n\u00e3o \u00e9 destas pessoas.<\/p>\n<p>O algoritmos das redes sociais est\u00e3o optimizados para prender a aten\u00e7\u00e3o das pessoas, de modo a estarem mais tempo a interagir nas redes. Os algoritmos preocupam-se mais com o grau de envolvimento das pessoas nas redes do que com a verdade. Por isso, se a g\u00e9nese do espalhamento de desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 um subtil desvio de aten\u00e7\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o passa por um subtil desvio, tamb\u00e9m, da aten\u00e7\u00e3o no sentido da procura da verdade. Esse desvio faz-se com momentos de pausa e paragem para pensar antes de partilhar. Como as homilias.<\/p>\n<p>Para mim, o momento da homilia \u00e9 uma oportunidade que Deus me d\u00e1 de parar para pensar. Muitas vezes, atrav\u00e9s de uma ou outra palavra, ou ideia que o sacerdote inclui na sua medita\u00e7\u00e3o, surgem-me respostas para quest\u00f5es que me colocava h\u00e1 algum tempo. \u00c9 claro que isso pode colocar um peso de responsabilidade sobre os sacerdotes que n\u00e3o podem delinear a sua reflex\u00e3o com base naquilo que algu\u00e9m disse que o outro disse, mas na verdade, o que seria o mais normal. Pois, estar na verdade \u00e9 estar em Deus que \u00e9 a Verdade.<\/p>\n<p>Quando somos chamados \u00e0 aten\u00e7\u00e3o por termos partilhado algo que n\u00e3o \u00e9 verdadeiro, sentimo-nos culpados e com um certo mal-estar. Pode ser natural come\u00e7armos a partilhar menos o que nos interessa aos outros, comunicando menos e com maior pondera\u00e7\u00e3o. E ser\u00e1 dif\u00edcil entender o real alcance que tem o pequeno acto de deixar cair o nosso orgulho por termos contribu\u00eddo para a propaga\u00e7\u00e3o da desinforma\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 um cair de orgulho necess\u00e1rio. Pois, o alcance em que estou a pensar \u00e9 o da profundidade do tempo que vivemos, prestes a celebrar o momento da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o entre facto e fic\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos maiores dramas humanos relacionado com a cren\u00e7a na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. O evento \u00e9 \u00fanico e irrepet\u00edvel, logo, \u00e9 leg\u00edtima a preocupa\u00e7\u00e3o de perceber o grau de veracidade deste facto. Mas a precis\u00e3o com que \u00e9 relatado ao fim de 20 s\u00e9culos de hist\u00f3ria, sobretudo atrav\u00e9s das experi\u00eancias dos ap\u00f3stolos nos dias ap\u00f3s a abertura da pedra do t\u00famulo, tem perdurado no tempo, sem altera\u00e7\u00e3o e com amplo espa\u00e7o ao aprofundamento.<\/p>\n<p>A decren\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o tem mais a ver com a sensibilidade espiritual de cada pessoa do que remeter a cren\u00e7a para uma desaten\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade, em vez de pensar nessa como uma atitude diante da verdade. Por isso, quem n\u00e3o acredita na ressurrei\u00e7\u00e3o devia duvidar tanto daquilo que cr\u00ea, como quando pede a quem acredita para duvidar desse evento. Na pr\u00e1tica, crentes e n\u00e3o crentes com uma atitude sincera em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade deveriam aceitar a experi\u00eancia (maior ou menor) espiritual do outro como parte do desejo que todos temos de viver sempre para a verdade.<\/p>\n<p>A atitude perante a verdade num mundo permeado de distrac\u00e7\u00f5es, e subtis desvios de aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 fundamental para diminuir, o mais poss\u00edvel, o impacte da desinforma\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias. Ali\u00e1s, estou cada vez mais convicto de que ultrapassar o desafio da desinforma\u00e7\u00e3o pode ser uma das maiores frentes que a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o enfrentar\u00e1 no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-203541","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203541","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203541"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203541\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203541"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203541"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203541"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}