{"id":203304,"date":"2021-03-29T12:09:53","date_gmt":"2021-03-29T11:09:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=203304"},"modified":"2021-03-29T12:09:53","modified_gmt":"2021-03-29T11:09:53","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-no-domingo-de-ramos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-no-domingo-de-ramos-2\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo do Funchal no Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cNa verdade, este homem era Filho de Deus\u201d (Mc 15,39)<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Como tantas outras crucifix\u00f5es (cf. Lc 13,1), tamb\u00e9m a de Jesus\u00a0 despertou nos habitantes de Jerusal\u00e9m a curiosidade, o gosto s\u00f3rdido de ver outros a morrer. Naquela tarde, foram muitos os personagens que desfilaram por perto da cruz do Senhor. S. Marcos faz refer\u00eancia a v\u00e1rios deles, com rosto mais ou menos definido. Neles nos podemos, tamb\u00e9m n\u00f3s, encontrar. Sobretudo, esses rostos, essas atitudes perante Jesus s\u00e3o oportunidade para nos questionarmos sobre a nossa pr\u00f3pria atitude diante do Senhor Crucificado.<\/p>\n<p>Pilatos, o governador decidido a disciplinar aquela regi\u00e3o atrav\u00e9s do medo, crucifica Jesus cedendo \u00e0s press\u00f5es dos respons\u00e1veis judeus: afinal, que valor tinha um pobre carpinteiro de Nazar\u00e9, diante da possibilidade de mais uns momentos de \u201cpaz armada\u201d, ainda para mais, se essa condena\u00e7\u00e3o era vontade do Sin\u00e9drio, dos respons\u00e1veis judaicos? Pilatos, o governador incapaz de reconhecer e acolher a verdade; o pol\u00edtico que cede \u00e0s press\u00f5es, que n\u00e3o hesita em tomar as decis\u00f5es mais populares.<\/p>\n<p>S\u00e3o Marcos faz tamb\u00e9m refer\u00eancia aos soldados, mercen\u00e1rios a soldo do Imp\u00e9rio, profissionais da guerra, que n\u00e3o perderam a oportunidade de uns momentos de divers\u00e3o \u00e0 custa daquele homem que lhes tinha sido entregue para ser crucificado, tratando-o como um \u201cningu\u00e9m\u201d, um objecto sem dignidade. A ironia \u00e9 evidente: como \u00e9 que um pobre galileu se atrevia a dizer-se rei? Eles sim, serviam o Imperador romano, verdadeiro Senhor de toda a terra!\u2026 de tal modo que n\u00e3o hesitaram em encenar uma coroa\u00e7\u00e3o e mesmo uma adora\u00e7\u00e3o daquele condenado \u2014 um manto de p\u00farpura, uma coroa de espinhos, a sauda\u00e7\u00e3o ao rei falhado, o cuspo na face e a adora\u00e7\u00e3o fingida\u2026 Um joguete nas suas m\u00e3os. Mas S. Marcos n\u00e3o deixa de evidenciar a ignor\u00e2ncia dos homens diante da Sabedoria de Deus: sem o saberem, diante deles, encontrava-se, de facto, o Rei e Senhor de toda a terra.<\/p>\n<p>No caminho para o Calv\u00e1rio, os soldados requisitam um homem para ajudar a carregar a cruz. \u201cPassava por ali, vindo do campo\u201d, diz S. Marcos (15,21). Sabemos que, depois, este homem se tornou crist\u00e3o \u2014 Marcos diz que era \u201cpai de Alexandre e de Rufo\u201d, personagens suficientemente conhecidos dos crist\u00e3os de Roma para dispensarem outras refer\u00eancias. Sabemos que este Sim\u00e3o era origin\u00e1rio de Cirene (Cireneu), uma cidade situada na actual L\u00edbia: era, portanto, um imigrante agricultor. Foi requisitado: foi for\u00e7ado a partilhar o peso da cruz no caminho para o Calv\u00e1rio. Uma tarefa que, hoje, qualquer um de n\u00f3s gostaria de realizar, mas que aquele homem fez porque foi obrigado.<\/p>\n<p>Encontramos ainda os dois ladr\u00f5es, crucificados na mesma ocasi\u00e3o. S. Marcos diz-nos, apenas, que \u201clan\u00e7avam ultrajes\u201d, fazendo coro com a maioria dos que passavam. S. Lucas recorda o arrependimento de um deles (a tradi\u00e7\u00e3o d\u00e1-lhe o nome de \u201cDimas\u201d), no \u00faltimo momento, e a promessa do Para\u00edso que Jesus lhe fez (cf. Lc 23,39-43; Mt 27,44) \u2014 o ladr\u00e3o que, partilhando o sofrimento de Jesus e entregando-se nas suas m\u00e3os, recebeu a promessa da vida.<\/p>\n<p>Junto da cruz est\u00e3o tamb\u00e9m \u201cos que passavam\u201d. Muitos deles teriam estado, como n\u00f3s hoje, aclamando o Senhor ao entrar na Cidade, com Hossanas e ramos de oliveira. Agora, insultam-no: \u201cSalva-te a ti mesmo!\u201d (Mc 15,30). Para estes homens e mulheres, a credibilidade de Jesus \u00e9 dada pela capacidade de se salvar a si mesmo antes de pensar na salva\u00e7\u00e3o dos demais: \u201cdizias que eras capaz de destruir o Templo e de o reedificar em tr\u00eas dias, e n\u00e3o \u00e9s sequer capaz de te salvar a ti mesmo!\u201d. Pensam como, ainda hoje, a grande maioria: \u201cquem n\u00e3o olha primeiro para si, n\u00e3o \u00e9 capaz de, depois, salvar os outros\u201d. S\u00e3o homens e mulheres que n\u00e3o se apercebem do momento \u00fanico que est\u00e3o a viver, nem concebem que algu\u00e9m se possa esquecer de si para se entregar totalmente ao servi\u00e7o do pr\u00f3ximo. S\u00e3o transeuntes que passam, indiferentes, pela cruz do Salvador, sem se deixarem interrogar por ela, distra\u00eddos pelo quotidiano das suas vidas \u2014 ego\u00edstas que procuram construir a sua vida sobre o ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>Diante da cruz de Jesus encontramos ainda os partid\u00e1rios dos Sumo-sacerdotes e dos escribas. Eles, os conhecedores das Escrituras, que, ironicamente, s\u00e3o incapazes de reconhecer o momento em que Palavra de Deus se realiza. S\u00e3o incapazes de reconhecer o Messias esperado, que est\u00e1 ali, diante deles; incapazes de acolher o rei de Israel que se encontra de bra\u00e7os abertos, no trono real da cruz. E clamam: \u201cO Messias, o rei de Israel, des\u00e7a agora da cruz, para vermos e acreditarmos nele!\u201d (Mc 15,32). O conhecimento das palavras fechou-os ao encontro com a Palavra!<\/p>\n<p>Ali est\u00e3o, ainda, algumas mulheres. S\u00e3o o que resta dos disc\u00edpulos. Os homens fugiram, cheios de medo. Elas permanecem, ainda que \u00e0 dist\u00e2ncia. Conhecemos o nome de algumas: Maria de Magdala; Maria, m\u00e3e de S. Tiago Menor; Salom\u00e9\u2026 \u201cE muitas outras\u201d, diz S. Marcos. Durante a vida p\u00fablica do Senhor, seguiam Jesus, serviam-no, e com Ele subiram a Jerusal\u00e9m. Acompanham-no at\u00e9 ao fim, e ir\u00e3o, depois, ser as primeiras testemunhas da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jesus, abandonado por todos nos momentos finais \u2014 no momento da luta decisiva, da \u201c\u00faltima tenta\u00e7\u00e3o\u201d!<\/p>\n<p>Mas eis que um homem, um soldado romano, comandante de um grupo de 100 homens, um \u201ccenturi\u00e3o\u201d, no meio de toda esta terr\u00edvel cena, se deixa interpelar por aquilo que est\u00e1 a acontecer. Ele est\u00e1 \u201cfrente\u201d a Jesus. Possivelmente, deixou que o seu olhar se cruzasse com o Crucificado. \u00c9 ele \u2014 este homem que faz parte da multid\u00e3o e do mundo dos pag\u00e3os \u2014 que se deixa conquistar e transformar por aquele condenado. \u00c9 ele que percebe que na humilha\u00e7\u00e3o, no abaixamento daquele Crucificado, naquele momento e naquele lugar de sofrimento e ignom\u00ednia, tinha lugar a revela\u00e7\u00e3o maior do amor de Deus, a salva\u00e7\u00e3o do mundo e da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 ele que, mesmo que sem perceber totalmente o alcance das suas palavras, \u00e9 capaz de realizar a profiss\u00e3o de f\u00e9 perfeita e plena: \u201cVerdadeiramente, este homem era o Filho de Deus\u201d (Mc 15,39). \u00c9 ele, este centuri\u00e3o, que se tornar\u00e1 doravante o modelo de f\u00e9 para quantos se deixam interpelar pelo Crucificado.<\/p>\n<p>\u201cVerdadeiramente, este crucificado \u00e9 o Filho de Deus!\u201d. A cruz deixou de ser sinal de morte, de vergonha, de maldi\u00e7\u00e3o. Transformou-se na cruz gloriosa porque nela se manifestou plenamente o amor de Deus por n\u00f3s e por toda a humanidade, de todos os tempos e lugares.<\/p>\n<p>Se n\u00f3s estiv\u00e9ssemos presentes em Jerusal\u00e9m, naquele dia!\u2026 Que atitude \u00e9, de verdade, a nossa diante de Jesus crucificado? Como nos deixamos interpelar por este amor de Deus, assim manifestado? Pe\u00e7amos ao Senhor que, hoje, e ao longo de toda esta Semana Santa,\u00a0 toda a verdade do nosso ser acompanhe as palavras daquele centuri\u00e3o romano: \u201cVerdadeiramente este homem era o Filho de Deus\u201d!<\/p>\n<p>S\u00e9 do Funchal, 28 de mar\u00e7o de 2021<\/p>\n<p><em>D. Nuno Br\u00e1s<\/em><\/p>\n<p><em>Bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNa verdade, este homem era Filho de Deus\u201d (Mc 15,39)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":203318,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186],"class_list":["post-203304","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203304","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203304"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203304\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/203318"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203304"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203304"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203304"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}