{"id":203281,"date":"2021-03-28T20:44:27","date_gmt":"2021-03-28T19:44:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=203281"},"modified":"2021-03-28T20:58:21","modified_gmt":"2021-03-28T19:58:21","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-domingo-de-ramos-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-domingo-de-ramos-3\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa no Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p><em>A vit\u00f3ria de Deus<\/em><!--more--><\/p>\n<p>A entrada de Jesus em Jerusal\u00e9m, naquele dia de hoje, correspondeu imediatamente \u00e0s antigas expetativas de muitos, alvoro\u00e7ados pelo que ouviam dizer dele e do que fizera. Na verdade, tanto se contava, h\u00e1 dois ou tr\u00eas anos j\u00e1, da Galileia \u00e0 Judeia, t\u00e3o ao encontro de antigas profecias\u2026 E o que Ele mesmo dissera, ecoando palavras e promessas que a tradi\u00e7\u00e3o guardava, dos antigos reis aos profetas, deixando entender que nele se cumpriam\u2026<\/p>\n<p>Por isso irrompiam as exclama\u00e7\u00f5es. Ali vinha Ele, montado num jumentinho, como se profetizara do Messias Rei que chegaria: \u201cHossana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o Reino do nosso pai David que est\u00e1 a chegar. Hossana nas alturas!\u201d (Mc 11, 9-10).<\/p>\n<p>Compreende-se e aceita-se que assim fosse, sobretudo quando a situa\u00e7\u00e3o daquele povo era exatamente o contr\u00e1rio. Sob um imp\u00e9rio pag\u00e3o que o oprimia, \u00e0 merc\u00ea de governadores cru\u00e9is como Pilatos, tudo contradizia o que fora s\u00e9culos atr\u00e1s, jamais esquecidos. Isso mesmo acicatava a esperan\u00e7a de muitos e at\u00e9 provocava a revolta de alguns, que de tempos a tempos se insurgiam contra o dom\u00ednio romano.<\/p>\n<p>Facilmente encontravam seguidores. Faziam-no mesmo em revolta armada, duramente reprimida depois. Anos mais tarde, foi uma dessas revoltas que levou os romanos a arrasarem o templo, como Jesus avisara. E n\u00e3o foi a \u00faltima, at\u00e9 \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da cidade inteira, no s\u00e9culo seguinte\u2026 Talvez haja uma refer\u00eancia a tais despistes messi\u00e2nicos na conhecida frase de Jesus: \u00ab\u2026 o Reino do C\u00e9u tem sido objeto de viol\u00eancia e os violentos apoderam-se dele \u00e0 for\u00e7a\u00bb (Mt 11, 12).<\/p>\n<p>A confus\u00e3o existia, mesmo no c\u00edrculo dos disc\u00edpulos. Dias depois, no Gets\u00e9mani, ainda aconteceria assim, aquando da pris\u00e3o de Jesus: \u00abUm dos que estavam com Jesus levou a m\u00e3o \u00e0 espada, desembainhou-a e feriu um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe uma orelha. Jesus disse-lhe: \u201cMete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrer\u00e3o \u00e0 espada\u201d\u00bb (Mt 26, 51-52). Li\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de aprender\u2026<\/p>\n<p>Como igualmente sabemos, os pr\u00f3prios romanos suspeitavam das inten\u00e7\u00f5es de Jesus e Pilatos condenou-o por isso, como atesta o t\u00edtulo que lhe mandou p\u00f4r na cruz; e mesmo que Jesus rejeitasse qualquer conota\u00e7\u00e3o b\u00e9lica ou pol\u00edtica da sua realeza.<\/p>\n<p>Mas era assim a expetativa vulgar. N\u00e3o a inten\u00e7\u00e3o de Jesus, como nunca o fora, ali\u00e1s. Lembramos o que sucedera tempos antes, quando o quiseram fazer rei, depois da multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es: \u00abJesus, sabendo que viriam arrebat\u00e1-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte\u00bb (Jo 6, 15).<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o sendo essa a inten\u00e7\u00e3o de Jesus, era bem a expetativa de muitos. Ter\u00e1 sido at\u00e9 o motivo da dece\u00e7\u00e3o do Iscariotes, que passou de disc\u00edpulo a traidor. &#8211; E tamb\u00e9m doutros, que o aclamaram com ramos e da\u00ed a dias lhe pediram a morte no pret\u00f3rio de Pilatos? Fica a pergunta, certamente para eles, mas n\u00e3o s\u00f3 para eles\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o foi apenas naquela altura que aconteceram despistes e dece\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a Jesus e ao que esperavam dele. Dois mil anos de Cristo no mundo, como a ressurrei\u00e7\u00e3o lhe alargou a presen\u00e7a, acrescentam numerosos exemplos \u00e0queles primeiros dias \u2013 outros tantos alertas para n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltaram nem faltam situa\u00e7\u00f5es de persegui\u00e7\u00e3o, em que os m\u00e1rtires testemunham o modo vitorioso de Cristo, ganhando a vida que com ele entregam. Mas noutros sobrev\u00e9m a dece\u00e7\u00e3o duma vit\u00f3ria meramente humana e pouco duradora. Como n\u00e3o faltam situa\u00e7\u00f5es de torpor espiritual; ou de revestimento, assim dito, \u201ccrist\u00e3o\u201d de sociedades e \u00e9pocas, em que o contraste evang\u00e9lico se dilui e ofusca. \u2013 Como se o fim dos tempos viesse cedo demais, sendo tanto o que falta ultimar em Cristo! Este engano, t\u00e3o repetido, ontem e ainda hoje, deu sempre azo a frustra\u00e7\u00f5es e abandonos. \u00c0s vezes com boa vontade, mas n\u00e3o com vontade convertida.<\/p>\n<p>Primeiro, o Evangelho h\u00e1 de chegar a toda a terra \u2013 alargada aos confins do mundo inteiro. Mundo que espiritualmente ultrapassa qualquer geografia, para tocar o mais profundo e decisivo da alma de cada um. E falta tanto, sobretudo porque muitos que o escutaram n\u00e3o tiveram \u201couvidos para ouvir\u201d. Lembremos o aviso de Jesus: \u00abEste Evangelho do Reino ser\u00e1 proclamado em todo o mundo, para se dar testemunho diante de todos os povos. E ent\u00e3o vir\u00e1 o fim\u00bb (Mt 24, 14). Uma meta que havemos de alcan\u00e7ar, se convertermos o desejo em miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Expetativas mundanas e expetativas divinas, realmente t\u00e3o diferentes. De Deus h\u00e1, isso sim, a vontade permanente de nos reaver como filhos. Para tal, teve de fazer da sua pr\u00f3pria Palavra criadora uma Palavra redentora, que superasse na humanidade e por dentro dela, toda a dist\u00e2ncia que along\u00e1mos d\u2019Ele. Assim aconteceu em Cristo, que se fez um de n\u00f3s para nos fazer de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Caminho t\u00e3o dif\u00edcil, que passou pela morte, para a preencher de vida, sendo essa a vit\u00f3ria de Deus. Essa sim era o \u00faltimo inimigo a vencer \u2013 n\u00e3o os romanos ou outro que fosse, para um messianismo demasiado f\u00e1cil, como tantos esperavam com aquelas aclama\u00e7\u00f5es d\u00fabias e inconstantes.<\/p>\n<p>Nos dias que se seguem, meditaremos de novo e ainda mais nos derradeiros que Jesus passou na terra, para que tudo se ultimasse nele, finalmente nele e ao seu \u00fanico modo. Em tempos t\u00e3o dif\u00edceis como estes, entre tanto sofrimento passado e tanta interroga\u00e7\u00e3o para o futuro, fixemo-nos na cruz onde expirou, para que o seu Esp\u00edrito se espalhasse em toda a terra, como v\u00e1rios sinais hoje o confirmam. Assim os oferece a abnega\u00e7\u00e3o de muitos e assim os reconhecemos gratamente n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00e3o os procuremos por de fora, mas a\u00ed mesmo onde se somam diariamente gestos solid\u00e1rios, sa\u00fades cuidadas, solid\u00f5es acompanhadas e trabalhos mantidos. Em tudo o que houver de vida entregue, a\u00ed mesmo a cruz triunfa agora. A cruz de Cristo, que salva a cruz do mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Era a \u00fanica vit\u00f3ria que Deus queria, como Jesus a conseguiu e o Esp\u00edrito a difunde. S\u00f3 esta perpetuar\u00e1 os ramos e os hossanas deste dia!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e9 de Lisboa, 28 de mar\u00e7o de 2021<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente<\/em><\/p>\n<p><em>Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vit\u00f3ria de Deus<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":203273,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[343],"class_list":["post-203281","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-lisboa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203281","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203281"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203281\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/203273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}