{"id":203278,"date":"2021-03-28T20:55:30","date_gmt":"2021-03-28T19:55:30","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=203278"},"modified":"2021-03-28T20:55:30","modified_gmt":"2021-03-28T19:55:30","slug":"homilia-do-bispo-de-angra-no-domingo-de-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-angra-no-domingo-de-ramos\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Angra no Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->\u00a0\u00abO Senhor deu-me gra\u00e7a e falar como um disc\u00edpulo\u00bb e ainda \u00abtodas as manh\u00e3s, Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar como escutam os disc\u00edpulos\u00bb. Estas express\u00f5es do profeta Isa\u00edas que escut\u00e1mos na primeira leitura preparam-nos para entrarmos em profundidade na riqueza de vida divina que nos \u00e9 oferecida na celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio pascal do Senhor, na Sua entrega, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fazemo-lo na condi\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulos, isto \u00e9, de quem quer aprender com o Mestre de modo que, na intimidade com Ele, saboreando o alcance dos seus gestos e palavras, nos configuremos a Ele para, uma vez banhados na Sua Paix\u00e3o, numa convers\u00e3o total do nosso ser, nos abramos \u00e0 miss\u00e3o pr\u00f3pria do disc\u00edpulo que \u00e9 de testemunhar a vida d\u2019Aquele que nos envia.<\/p>\n<p>Refere o profeta que falamos como disc\u00edpulos para que saibamos amparar pela palavra os que andam extenuados. Esta \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o do profeta Isa\u00edas ao confrontar-se com o Povo de Deus esgotado pelo sofrimento, pela marginaliza\u00e7\u00e3o, pela deporta\u00e7\u00e3o, sem p\u00e1tria e sem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Reconhece igualmente que a sua condi\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulo exige a escuta que vem de Deus para aceitar o caminho de solidariedade pessoal com os que sofrem, para carregar em si mesmo a ignominia do seu povo, para assumir as dores e as chagas de todos os exclu\u00eddos, sem rosto, sem voz, sem p\u00e1tria, sem dignidade e sem rosto humano.<\/p>\n<p>Se o profeta sente que este projeto come\u00e7a a desenhar-se na sua pr\u00f3pria pessoa, sabe que o des\u00edgnio de Deus no Seu amor pelo Seu Povo vai muito al\u00e9m do profeta e por isso descreve os tra\u00e7os do Servo de Jav\u00e9, Aquele enviado por Deus que salvar\u00e1 o Seu Povo de toda a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Deste modo, colocamo-nos perante, ou melhor ainda, no caminho que nos \u00e9 descrito no Evangelho. Este \u00e9 o caminho de Jesus mas \u00e9 igualmente o caminho de todo aquele que se sente chamado a ser Seu disc\u00edpulo.<\/p>\n<p>Estamos perante uma narra\u00e7\u00e3o longa do trajeto que leva Jesus de Nazar\u00e9 desde a Sua entrega at\u00e9 \u00e0 sua morte, passando pelo atroz sofrimento e abrindo-nos na esperan\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este caminho que \u00e9 incompreens\u00edvel \u00e0 intelig\u00eancia humana reduzida ao simples racioc\u00ednio sobre o sentido da vida \u00e9 verdadeiramente eloquente quando nos situamos na l\u00f3gica do amor. Na verdade, estamos no profundo itiner\u00e1rio de encontro de Deus com os homens, manifestando toda a Sua ternura, a Sua miseric\u00f3rdia e compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos perante um percurso hist\u00f3rico, localizado, com intervenientes humanos muito pr\u00f3prios, como toda a revela\u00e7\u00e3o feita pelo pr\u00f3prio Filho de Deus, Jesus de Nazar\u00e9. \u00c9 este o modo que conv\u00e9m ao ser humano para que lhe seja possibilitada a linguagem, os sinais e a compreens\u00e3o para decifrar como Deus se encontra com cada pessoa na sua hist\u00f3ria, na sua localidade e atrav\u00e9s das pessoas que fazem parte da sua sociedade.<\/p>\n<p>Este mist\u00e9rio de revela\u00e7\u00e3o profunda de Deus exige de n\u00f3s entrarmos neste itiner\u00e1rio, esvaziarmo-nos dos nossos preconceitos e ideias j\u00e1 feitas, encetarmos um caminho de despojamento para humildemente aprendermos o \u00fanico caminho verdadeiramente humano que \u00e9 este que Jesus de Nazar\u00e9 nos oferece.<\/p>\n<p>S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, na Carta Enc\u00edclica \u00abno come\u00e7o do Novo Mil\u00e9nio\u00bb exortando \u00e0 descoberta de Jesus Cristo tal como nos \u00e9 revelado nos Evangelhos, diz num dado passo: \u00abjamais acabaremos de sondar o abismo deste mist\u00e9rio\u00bb. Ali\u00e1s, \u00abeste paradoxo surge, em toda a sua rudeza, no grito de dor aparentemente desesperado que Jesus eleva na cruz: \u201cElo\u00ed, Elo\u00ed, lam\u00e1 sabachthani, que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?\u201d (Mc 15,34)\u00bb(n\u00ba 25).<\/p>\n<p>Contudo, \u00abapesar de conservar todo o realismo dum sofrimento inexprim\u00edvel, \u00e9 esclarecido pelo sentido geral da ora\u00e7\u00e3o: o Salmista, num misto impressionante de sentimentos, une lado a lado o sofrimento e a confian\u00e7a\u00bb. Com efeito, o Salmo prossegue dizendo: \u00abEm V\u00f3s confiaram os nossos pais; confiaram e V\u00f3s os livrastes. [&#8230;] N\u00e3o Vos afasteis para longe de mim, porque estou atribulado; n\u00e3o h\u00e1 quem me ajude\u00bb(n\u00ba 25).<\/p>\n<p>O grito de Jesus na cruz n\u00e3o traduz a ang\u00fastia dum desesperado, mas a ora\u00e7\u00e3o do Filho que, por amor, oferece a sua vida ao Pai pela salva\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>\u00c9 este mist\u00e9rio de amor profundo e comunicado, redentor e que quer abra\u00e7ar toda a humanidade que nos \u00e9 exposto por S. Paulo na sua carta aos Filipenses para nos convidar n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, mas sobretudo \u00e0 renova\u00e7\u00e3o do nosso ser pessoal e comunit\u00e1rio, a aprender na qualidade de disc\u00edpulos qual o trajeto de convers\u00e3o necess\u00e1rio para vivermos em comunh\u00e3o com Deus e com os irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o tempo a escutar a palavra, ao sil\u00eancio, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, ao reconhecimento de todos aqueles que hoje carregam a cruz do sofrimento, da exclus\u00e3o e do desespero para aprendermos de Jesus de Nazar\u00e9 o aut\u00eantico caminho do encontro, da proximidade, numa palavra, do amor.<\/p>\n<p>Imploro de Nossa Senhora, M\u00e3e da Dores, M\u00e3e e Rainha dos A\u00e7ores, que nos acompanhe nos caminhos da nossa vida e nos fa\u00e7a integrar o itiner\u00e1rio de sofrimento do Seu Filho na Esperan\u00e7a da alegria da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c1men.<\/p>\n<p>S\u00e9 (Angra), 28 mar\u00e7o 2021<\/p>\n<p><em>D. Jo\u00e3o Lavrador<\/em><\/p>\n<p><em>Bispo de Angra e Ilhas dos A\u00e7ores <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":203279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[169],"class_list":["post-203278","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-angra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203278","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203278"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203278\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/203279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}