{"id":203265,"date":"2021-03-28T20:35:00","date_gmt":"2021-03-28T19:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=203265"},"modified":"2021-03-29T09:47:31","modified_gmt":"2021-03-29T08:47:31","slug":"homilia-do-arcebispo-de-evora-no-domingo-de-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-evora-no-domingo-de-ramos\/","title":{"rendered":"Homilia do arcebispo de \u00c9vora no Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>O Domingo de Ramos \u00e9 a porta de entrada da Semana Santa e coloca-nos, desde logo, num clima paradoxal: ao mesmo tempo que recordamos a entrada triunfal de Jesus em Jerusal\u00e9m, sede do poder legislativo e religioso, a Liturgia coloca-nos j\u00e1 perante o relato da Paix\u00e3o de Jesus, deixando antever que, apesar de ter entrado festivamente em Jerusal\u00e9m, Jesus n\u00e3o \u00e9, de facto, \u00a0acolhido sobretudo pelos poderosos do tempo: o poder religioso representado por An\u00e1s e Caif\u00e1s; o poder tradicional concentrado em Herodes; o poder pol\u00edtico, judicial, econ\u00f3mico e militar dominado por Roma, representado\u00a0 em Jerusal\u00e9m pelo Governador P\u00f4ncio Pilatos.<\/p>\n<p>Deste modo, Jesus revela-nos uma outra forma de realeza, outro tipo de Reino. A sua entrada em Jerusal\u00e9m p\u00f5e a nu a ambiguidade das expetativas messi\u00e2nicas. O que esperar de um Rei humilde e como as pobres montadas num jumentinho? Por isso os ramos deste Domingo n\u00e3o s\u00e3o apenas ramos, s\u00e3o rebentos de esperan\u00e7a de um povo que anseia por uma primavera sem fim. S\u00e3o melodias que se insinuam inesperadamente num mundo ruidoso e de ritmos apressados. S\u00e3o s\u00edmbolos de unidade numa sociedade fragmentada.\u00a0 S\u00e3o sinais do desejo de um poder assumido como miss\u00e3o e servi\u00e7o ao amor, \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 paz.<\/p>\n<p>Eis o quadro, decisivo e dram\u00e1tico, da liturgia deste Domingo de Ramos. A aclama\u00e7\u00e3o dirigida a Jesus Cristo ecoa em todo o mist\u00e9rio pascal. A palavra \u201c<em>Hossana<\/em>\u201d \u00e9 o grito de louvor ou adora\u00e7\u00e3o feito em reconhecimento ao messianismo de Jesus em sua entrada em Jerusal\u00e9m, e desde ent\u00e3o usado na Igreja crist\u00e3. \u00c9 tamb\u00e9m um termo lit\u00fargico judaico e foi aplicado especificamente aos ramos de hossana levados em prociss\u00e3o na Festa dos Tabern\u00e1culos, o s\u00e9timo dia que foi chamado o dia de Hossana. No cumprimento desta tradi\u00e7\u00e3o, Jesus vai sofrer a Paix\u00e3o e dar a vida por n\u00f3s, at\u00e9 \u00e0 Cruz, e por isso a Liturgia proclama hoje: \u201c<em>Hossana \u00f3 Filho de David<\/em>\u201d! Tu Reinar\u00e1s, na Cruz Tu nos salvar\u00e1s! Hossana, bendito o que vem em nome do Senhor!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje, o Evangelho responde \u00e0 quest\u00e3o central do cristianismo: Quem \u00e9 Jesus Cristo?<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m a pergunta que percorre o Evangelho segundo S. Marcos. \u00c9 o pr\u00f3prio Jesus quem toma a iniciativa de colocar a quest\u00e3o: <em>\u201cQuem dizeis que eu sou?\u201d<\/em> (Mc 8, 29). Agora, no relato da Paix\u00e3o, volta a aparecer na expetativa da resposta, pergunta semelhante: <em>\u201c\u00c9s Tu o Messias, o Filho de Deus?\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Com aten\u00e7\u00e3o, percebemos que os detalhes dos relatos da Paix\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o aos restantes epis\u00f3dios, assumem uma despropor\u00e7\u00e3o intencional: os \u00faltimos dias da exist\u00eancia terrena de Jesus Cristo s\u00e3o a chave para desvendar a sua identidade.<\/p>\n<p>A resposta inequ\u00edvoca est\u00e1 latente do princ\u00edpio ao fim. As primeiras palavras do evangelista, <em>\u201cPrincipio do Evangelho de Jesus, Cristo, Filho de Deus\u201d, <\/em>refletem-se na afirma\u00e7\u00e3o final colocada na boca do centuri\u00e3o: <em>\u201cNa verdade, este homem era Filho de Deus\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O verdadeiro significado de <em>\u2018Filho de Deus\u2019<\/em> n\u00e3o pode ser compreendido sem o conte\u00fado da Paix\u00e3o. O Filho de Deus \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o plena do Pai, o Servo sofredor, o Messias crucificado, o Salvador ferido, a entrega gratuita at\u00e9 \u00e0 morte na cruz. Pedro, como o resto dos discipulos, n\u00e3o suspeitava de algo semelhante. Era amigo dele, jurava permanecer sempre ao seu lado, mas tinha em mente outro tipo de Messias. Quando se apercebe da sua incredulidade, Pedro chorou amarga e arrependidamente, e fez a descoberta do Rosto Amoroso de Deus em Jesus de Nazar\u00e9, o Filho de Deus e Salvador.<\/p>\n<p>Caros irm\u00e3os, s\u00f3 compreendemos Jesus Cristo, depois de fazermos semelhante experi\u00eancia vital, como Pedro, tamb\u00e9m n\u00f3s algumas vezes juramos amor incondicional, mas seguimos outras op\u00e7\u00f5es e \u00eddolos, que diz\u00edamos n\u00e3o aceitar. Queremos amar, por\u00e9m, negamos e tra\u00edmos.<\/p>\n<p>As viv\u00eancias relatadas fazem perceber que o acto de amor oblativo e Ag\u00e1pio, d\u2019Aquele que d\u00e1 a vida, \u00e9 o mais belo sinal da presen\u00e7a de Deus no mundo, a plenitude da revela\u00e7\u00e3o do rosto misericordioso do PaI.<\/p>\n<p>\u00c0 maneira do C\u00e2ntico do Servo do Servo do Senhor, apresentado pelo Profeta Isa\u00edas na Primeira Leitura (Is 50, 4-7), Jesus escuta a Palavra do Pai e responde-lhe confiadamente, em obedi\u00eancia total, atrav\u00e9s da oferta da Sua vida pela salva\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p>\n<p>Aqui, \u00e9 o acto de amor levado ao extremo, por Nosso Senhor Jesus Cristo. N\u00e3o \u00e9 um acto isolado, mas o culminar de toda a vida oferecida aos outros. Jesus Cristo pode dizer: <em>Prova de amor maior n\u00e3o h\u00e1 do que dar a vida pelos Irm\u00e3os\u201d. <\/em>Por isso, a express\u00e3o proferida naquela \u00daltima Ceia \u00e9 um perfeito resumo do seu viver: <em>\u201cTomai, isto \u00e9 o meu Corpo\u201d; \u00a0\u201cBebei isto \u00e9 o meu Sangue. A Nova e Eterna Alian\u00e7a\u201d <\/em><\/p>\n<p>Como nos apresenta a Segunda Leitura, retirada da Ep\u00edstola de S. Paulo aos Filipenses, provavelmente um c\u00e2ntico das primitivas comunidades neotestamentais, Cristo fez-se um de n\u00f3s, obedeceu aos des\u00edgnios do Pai e humilhou-Se at\u00e9 \u00e0 morte, e foi, por isso, at\u00e9 \u00e0 gl\u00f3ria de \u201cSenhor\u201d, que \u00e9 a pr\u00f3pria gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p>Foi o encontro com a beleza deste Amor, que mudou para sempre a vida de Pedro. Conhecer Jesus Cristo implica fazer o caminho que fizeram aqueles homens e mulheres, assumindo-nos como um novo disc\u00edpulo. Podemos fazer o caminho de Pedro ou como outro qualquer disc\u00edpulo. Este \u00e9 o ponto central: colocarmo-nos no caminho do discipulado, dispostos a aprender com Ele e a seguir com Ele, deixar de lado todas as resist\u00eancias e entrarmos na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o<em> \u201ccom tudo, com a nossa intelig\u00eancia e emo\u00e7\u00f5es, imagina\u00e7\u00e3o e busca criativa, com a mente e cora\u00e7\u00e3o abertos, com o nosso desejo de entender e com a nossa sede espiritual: pois tudo isto s\u00e3o as componentes escondidas na palavra acreditar\u201d, <\/em>como afirma o Te\u00f3logo contempor\u00e2neo Tom\u00e1s Halik.<\/p>\n<p>Hoje, que a contempla\u00e7\u00e3o do relato da Paix\u00e3o nos conven\u00e7a que Cristo \u00e9 Caminho, Verdade e Vida; e nos guie at\u00e9 \u00e0 P\u00e1scoa. Com Maria permane\u00e7amos de p\u00e9 junto \u00e0 Cruz e perseveremos na F\u00e9 at\u00e9 ao fim da nossa vida. Que cada um de n\u00f3s perten\u00e7a ao grupo que permaneceu com Jesus at\u00e9 ao fim, afinal o princ\u00edpio de tudo, a Vida Nova.<\/p>\n<p><em>D. Francisco Jos\u00e9 Senra Coelho<\/em><\/p>\n<p><em>Arcebispo de \u00c9vora<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":191243,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[175],"class_list":["post-203265","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-evora"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203265"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203265\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/191243"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}