{"id":20307,"date":"2006-09-25T11:26:12","date_gmt":"2006-09-25T11:26:12","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/09\/25\/fe-razao-e-universidade-memorias-e-reflexoes-2\/"},"modified":"2006-09-25T11:26:12","modified_gmt":"2006-09-25T11:26:12","slug":"fe-razao-e-universidade-memorias-e-reflexoes-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fe-razao-e-universidade-memorias-e-reflexoes-2\/","title":{"rendered":"F\u00e9, Raz\u00e3o e Universidade. Mem\u00f3rias e Reflex\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Li\u00e7\u00e3o de Bento XVI na Universidade de Regensburg <!--more--> Emin\u00eancias, Magn\u00edficos Reitores, Excel\u00eancias, Prezadas Senhoras e Senhores, \u00c9 uma experi\u00eancia comovente para mim estar de volta \u00e0 universidade e ser-me permitido, mais uma vez, dar uma li\u00e7\u00e3o.  Penso naqueles anos em que, depois de um per\u00edodo agrad\u00e1vel na Escola Superior de Freising, comecei a ensinar na Universidade de Bona. Est\u00e1vamos em 1959, ainda no tempo em que a universidade era constitu\u00edda por professores catedr\u00e1ticos. As v\u00e1rias c\u00e1tedras n\u00e3o tinham nem assistentes nem secret\u00e1rias, mas em compensa\u00e7\u00e3o havia muito mais contacto directo com os estudantes e sobretudo entre os professores. Encontr\u00e1vamo-nos com frequ\u00eancia nos espa\u00e7os reservados aos docentes antes e depois das li\u00e7\u00f5es. Havia um interc\u00e2mbio vivo com historiadores, fil\u00f3sofos, fil\u00f3logos e, naturalmente, tamb\u00e9m entre as duas faculdades de teologia. Uma vez por semestre havia o chamado dies academicus, em que professores de todas as faculdades se apresentavam aos estudantes de toda a universidade, tornando poss\u00edvel uma experi\u00eancia da universitas \u2013 algo que tamb\u00e9m V. Ex.cia, Magn\u00edfico Reitor, acabou de mencionar. Tratava-se da experi\u00eancia de que n\u00f3s, apesar das nossas especializa\u00e7\u00f5es que, por vezes, tornam dif\u00edcil comunicarmos uns com os outros, formamos um todo, e trabalhamos no \u00e2mbito de uma \u00fanica racionalidade em todas as suas dimens\u00f5es, partilhando assim uma responsabilidade comum no uso adequado da raz\u00e3o \u2013 tal realidade tornava-se experi\u00eancia vivida.  A universidade tinha tamb\u00e9m muito orgulho nas suas duas faculdades de teologia. Era claro que, ao inquirirem sobre a razoabilidade da f\u00e9, tamb\u00e9m levavam a cabo um trabalho que era necessariamente parte do \u201ctodo\u201d da universitas scientiarum, mesmo que nem todos partilhassem da f\u00e9 que os te\u00f3logos procuravam relacionar com a raz\u00e3o comum. Este profundo sentimento da coer\u00eancia da raz\u00e3o dentro da universidade n\u00e3o foi sequer perturbado quando, certa vez, foi divulgado que um colega nosso fizera um estranho coment\u00e1rio acerca da universidade: que tinha duas faculdades dedicadas a algo que n\u00e3o existia \u2013 Deus. Mesmo perante t\u00e3o radical cepticismo era ainda necess\u00e1rio e razo\u00e1vel colocar a quest\u00e3o de Deus pelo uso da raz\u00e3o, e faz\u00ea-lo no contexto da tradi\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3: o que, na universidade considerada na sua totalidade, era aceite sem discuss\u00e3o. Recordei-me disto quando recentemente li, publicado pelo Professor Theodore Khoury (M\u00fcnster), parte do di\u00e1logo levado a cabo \u2013 porventura em 1391, no acampamento de Inverno perto de Ancara \u2013 entre o erudito imperador bizantino Manuel II Pale\u00f3logo e um letrado persa, que versava sobre o Cristianismo e o Isl\u00e3o, e a verdade de ambos. Presumivelmente foi o imperador que anotou este di\u00e1logo, durante o cerco de Constantinopla entre 1394 e 1402; e isso explicaria porque \u00e9 que as suas explana\u00e7\u00f5es s\u00e3o reproduzidas com maior desenvolvimento do que as do seu interlocutor persa. O di\u00e1logo alarga-se a todo o dom\u00ednio da configura\u00e7\u00e3o da f\u00e9 na B\u00edblia e no Cor\u00e3o, e trata especialmente da imagem de Deus e do homem, ao mesmo tempo que retorna necessariamente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre as ent\u00e3o chamadas \u201ctr\u00eas Leis\u201d ou \u201ctr\u00eas regras de vida\u201d: Antigo Testamento, Novo Testamento e Cor\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o discutir este ponto nesta li\u00e7\u00e3o; gostaria apenas de tocar aqui um aspecto \u2013  bastante marginal na totalidade do di\u00e1logo \u2013 que, no contexto do tema \u201cf\u00e9 e raz\u00e3o\u201d, me fascinou e serve como ponto de partida para a minha reflex\u00e3o sobre este tema. No s\u00e9timo col\u00f3quio (di\u00e1leksis \u2013 controv\u00e9rsia) publicado pelo Professor Khoury, o imperador toca no tema da djihad, da guerra santa. O imperador sabia seguramente que na sura 2,256 se diz: N\u00e3o deve haver coac\u00e7\u00e3o nas coisas da f\u00e9. Esta \u00e9 uma das suras do per\u00edodo inicial em que, de acordo com os peritos, Maom\u00e9 n\u00e3o tinha ainda qualquer poder e era amea\u00e7ado. Mas o imperador conhecia naturalmente tamb\u00e9m as determina\u00e7\u00f5es sobre a guerra santa inscritas no Cor\u00e3o, e que surgiram mais tarde. Sem descer a pormenores, tais como as diferen\u00e7as de tratamento relativas aos que \u201cpossu\u00edam o Livro\u201d e aos \u201cinfi\u00e9is\u201d, ele dirige-se de forma brusca, com uma espantosa brusquid\u00e3o que nos surpreende, ao seu interlocutor directamente com a quest\u00e3o central da rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e viol\u00eancia: \u201cMostra-me o que \u00e9 que Maom\u00e9 trouxe de novo e a\u00ed apenas encontrar\u00e1s coisas m\u00e1s e desumanas tais como a sua directiva de espalhar com a espada a f\u00e9 que pregava.\u201d O imperador, depois de ter atacado desta maneira, passa a fundamentar pormenorizadamente porque \u00e9 contra a raz\u00e3o difundir a f\u00e9 atrav\u00e9s da viol\u00eancia. Esta est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com a natureza de Deus e com a natureza da alma. \u201cDeus\u201d, diz ele, \u201cn\u00e3o se compraz com o sangue \u2013 uma ac\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja conforme \u00e0 raz\u00e3o (synlogo) \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 natureza de Deus. A f\u00e9 \u00e9 fruto da alma, n\u00e3o do corpo. Quem quiser conduzir algu\u00e9m \u00e0 f\u00e9 precisa de ter a capacidade da boa palavra e do pensamento recto, sem viol\u00eancia e amea\u00e7as&#8230; Para algu\u00e9m convencer uma alma racional, n\u00e3o precisa do seu bra\u00e7o, de uma arma ou de um qualquer outro meio com que ameace algu\u00e9m de morte&#8230;\u201d A frase decisiva nesta argumenta\u00e7\u00e3o contra a convers\u00e3o atrav\u00e9s da viol\u00eancia \u00e9: n\u00e3o agir de acordo com a raz\u00e3o \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 natureza de Deus. O editor, Theodore Khoury, comenta: Para o imperador, um bizantino formado na filosofia grega, esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente. Ao inv\u00e9s, para a doutrina mu\u00e7ulmana Deus \u00e9 absolutamente transcendente. A Sua vontade n\u00e3o est\u00e1 vinculada a qualquer das nossas categorias, nem mesmo \u00e0 da racionalidade.  A este prop\u00f3sito, Khoury cita um trabalho do conhecido islam\u00f3logo franc\u00eas R. Arnaldez. Este refere que Ibn Hazn foi t\u00e3o longe a ponto de declarar que Deus n\u00e3o est\u00e1 vinculado mesmo pela Sua pr\u00f3pria palavra e que nada O obriga a revelar-nos a verdade. O homem teria mesmo de praticar a idolatria se Ele o quisesse.Neste ponto deparamo-nos com um dilema no entendimento de Deus e, assim, tamb\u00e9m na realiza\u00e7\u00e3o concreta da religi\u00e3o, dilema que hoje nos desafia de um modo muito directo. Ser\u00e1 que \u00e9 apenas uma ideia grega a convic\u00e7\u00e3o de que agir contra a raz\u00e3o \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 natureza de Deus, ou ser\u00e1 isto em si mesmo sempre v\u00e1lido? Penso que se torna aqui vis\u00edvel o profundo acordo entre o que \u00e9 grego, no melhor sentido da palavra, e a compreens\u00e3o b\u00edblica da f\u00e9 em Deus.  Modificando o primeiro vers\u00edculo do Livro do G\u00e9nesis, o primeiro vers\u00edculo de toda a B\u00edblia, S. Jo\u00e3o abriu o pr\u00f3logo do seu Evangelho com as palavras: No princ\u00edpio era o Logos. Esta \u00e9 a exacta palavra usada pelo imperador: Deus age synlogo, com logos. Logos significa simultaneamente raz\u00e3o e palavra \u2013 uma raz\u00e3o que \u00e9 criadora, e se pode comunicar precisamente como raz\u00e3o. Jo\u00e3o ofereceu-nos assim a \u00faltima palavra sobre o conceito b\u00edblico de Deus, na qual todos os caminhos esfor\u00e7ados e entrela\u00e7ados da f\u00e9 b\u00edblica encontram a sua meta e a sua s\u00edntese. No princ\u00edpio era o Logos, e o Logos \u00e9 Deus, diz o evangelista. O encontro entre a mensagem b\u00edblica e o pensamento grego n\u00e3o foi nenhum acaso.  A vis\u00e3o em que S. Paulo, depois de se lhe fecharem os caminhos para a \u00c1sia, v\u00ea, de noite, um maced\u00f3nio pedindo-lhe: Passa \u00e0 Maced\u00f3nia e vem ajudar-nos (Act 16,6-10), pode ser interpretada como uma condensa\u00e7\u00e3o da intrinsecamente necess\u00e1ria converg\u00eancia entre a f\u00e9 b\u00edblica e a questiona\u00e7\u00e3o grega.De facto, esta converg\u00eancia j\u00e1 ocorria h\u00e1 muito tempo. J\u00e1 o misterioso nome de Deus, revelado na sar\u00e7a ardente \u2013 um nome que separa este Deus das divindades com muitos nomes, e acerca d\u2019Ele declara simplesmente o \u201cEu sou\u201d, a exist\u00eancia \u2013, representa uma contesta\u00e7\u00e3o do mito, em \u00edntima analogia com a tentativa de S\u00f3crates de superar e transcender o mito. O processo iniciado na sar\u00e7a ardente atingiu, no interior do Antigo Testamento, uma nova maturidade no tempo do Ex\u00edlio. O Deus de Israel, agora sem terra e sem culto, proclama-se o Deus do c\u00e9u e da terra e apresenta-se na simplicidade de uma f\u00f3rmula na sequ\u00eancia da palavra da sar\u00e7a ardente: \u201cEu o sou\u201d. Este novo conhecimento de Deus \u00e9 acompanhado por uma esp\u00e9cie de esclarecimento (Aufkl\u00e4rung) que se exprime drasticamente no esc\u00e1rnio perante os deuses que s\u00e3o apenas produto dos homens (cf. Sl 115). Assim, apesar da ac\u00e9rrima oposi\u00e7\u00e3o aos dominadores hel\u00e9nicos que pretendiam impor a assimila\u00e7\u00e3o ao modo grego de viver e ao seu culto idol\u00e1trico, a f\u00e9 b\u00edblica, no per\u00edodo helen\u00edstico, fez o \u00edntimo encontro com o melhor do pensamento grego, no sentido de uma m\u00fatua influ\u00eancia, tal como especialmente se realizou na tardia literatura sapiencial.  Sabemos hoje que a tradu\u00e7\u00e3o grega do Antigo Testamento feita em Alexandria \u2013 a tradu\u00e7\u00e3o dos Setenta \u2013 \u00e9 mais do que mera tradu\u00e7\u00e3o do texto hebraico (porventura pouco merecedora at\u00e9 de uma aprecia\u00e7\u00e3o positiva); \u00e9 um testemunho textual aut\u00f3nomo e um importante passo na hist\u00f3ria da revela\u00e7\u00e3o, em sentido pr\u00f3prio, um passo em que se realizou este encontro entre f\u00e9 e esclarecimento racional feito de tal modo que teve import\u00e2ncia decisiva para o nascimento do Cristianismo e sua expans\u00e3o. Um profundo encontro entre f\u00e9 e raz\u00e3o, entre aut\u00eantico esclarecimento e religi\u00e3o.  A partir da pr\u00f3pria ess\u00eancia da f\u00e9 crist\u00e3 e, ao mesmo tempo, da ess\u00eancia do pensamento grego que se havia fundido com a f\u00e9, Manuel II podia dizer: N\u00e3o agir \u201ccom o logos \u201d \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 natureza de Deus.Manda a honestidade observar que se desenvolveram, na Idade M\u00e9dia tardia, tend\u00eancias teol\u00f3gicas que romperam com esta s\u00edntese entre o esp\u00edrito grego e o esp\u00edrito crist\u00e3o.  Em contraste com o chamado intelectualismo agostinista e tomista, surgiu com Duns Escoto um voluntarismo que, nos seus desenvolvimentos mais tardios, levou a proclamar que de Deus s\u00f3 podemos conhecer a voluntas ordinata. Para al\u00e9m dela, h\u00e1 a liberdade de Deus, em virtude da qual Ele poderia ter feito o oposto de tudo o que realmente fez. Desenham-se aqui posi\u00e7\u00f5es que se aproximam claramente das de Ibn Hazn e podem mesmo conduzir \u00e0 imagem de um Deus-arbitrariedade, n\u00e3o vinculado \u00e0 verdade e ao bem. \u00c9 t\u00e3o exaltada a transcend\u00eancia e alteridade de Deus que a nossa raz\u00e3o, o nosso sentido de verdade e de bem, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 aut\u00eantico espelho de Deus, cujas possibilidades mais profundas permaneceriam eternamente inating\u00edveis e escondidas por detr\u00e1s das suas decis\u00f5es reais. Opostamente, a f\u00e9 da Igreja insistiu sempre que entre Deus e n\u00f3s, entre o Seu eterno Esp\u00edrito Criador e a nossa raz\u00e3o criada existe uma analogia real, em que \u2013 como afirmou o IV Conc\u00edlio de Latr\u00e3o, em 1215 \u2013 a dissemelhan\u00e7a permanece infinitamente maior do que a semelhan\u00e7a, mas n\u00e3o ao ponto de abolir a analogia e a sua linguagem. Deus n\u00e3o se torna mais divino quando n\u00f3s o afastamos para um puro e opaco voluntarismo; o Deus verdadeiramente divino \u00e9 o Deus que se revelou como Logos, e como Logos actuou amorosamente por n\u00f3s. Certamente, como diz S. Paulo, o amor \u201cultrapassa\u201d o conhecimento e, por isso, \u00e9 capaz de perceber mais do que o simples pensamento (cf. Ef 3,19); ele permanece, contudo, amor do Deus-Logos.  Por isso, o culto crist\u00e3o, como mais uma vez diz S. Paulo, \u00e9 logike latre\u00eda, culto em harmonia com a Palavra eterna e com a nossa raz\u00e3o (cf. Rm 12,1).Esta \u00edntima converg\u00eancia, aqui esbo\u00e7ada, que se realizou entre a f\u00e9 b\u00edblica e o questionamento filos\u00f3fico grego, \u00e9 um processo de import\u00e2ncia decisiva n\u00e3o apenas para a hist\u00f3ria das religi\u00f5es, mas tamb\u00e9m para a hist\u00f3ria universal \u2013 \u00e9 acontecimento que ainda hoje nos responsabiliza. Dada esta converg\u00eancia n\u00e3o \u00e9 surpreendente que o Cristianismo, apesar da sua origem e de alguns desenvolvimentos significativos no Oriente, tenha adquirido finalmente o seu car\u00e1cter hist\u00f3rico decisivo na Europa.  Podemos tamb\u00e9m dizer, em perspectiva inversa: este encontro, a que se juntou tamb\u00e9m a heran\u00e7a de Roma, criou a Europa, e permanece o fundamento daquilo a que, com justeza, podemos chamar Europa.A tese de que a heran\u00e7a grega, criticamente purificada, pertence essencialmente \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 tem sido confrontada com a exig\u00eancia da des-heleniza\u00e7\u00e3o do Cristianismo, a qual, desde o in\u00edcio dos Tempos Modernos, tem dominado de modo crescente a discuss\u00e3o teol\u00f3gica. Olhando de mais perto, podemos observar tr\u00eas vagas de fundo no programa de des-heleniza\u00e7\u00e3o que, apesar de inter-relacionadas, s\u00e3o claramente distintas em suas fundamenta\u00e7\u00f5es e objectivos.Em primeiro lugar, a des-heliniza\u00e7\u00e3o surge ligada aos objectivos da Reforma no sec. XVI.  Os Reformadores viam na tradi\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica da teologia uma sistematiza\u00e7\u00e3o da f\u00e9 determinada pela filosofia; uma determina\u00e7\u00e3o, por assim dizer, alheia \u00e0 f\u00e9, feita atrav\u00e9s de um pensamento que n\u00e3o provinha da pr\u00f3pria f\u00e9. A f\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o aparece aqui como palavra hist\u00f3rica viva, mas enclausurada num sistema filos\u00f3fico. Em contraposi\u00e7\u00e3o, o princ\u00edpio da sola scriptura procura a pura figura origin\u00e1ria da f\u00e9, tal como originariamente ela se encontra na palavra b\u00edblica. A metaf\u00edsica \u00e9 vista como uma premissa estranha de que se tem de libertar a f\u00e9, de modo a que esta se possa tornar de novo ela pr\u00f3pria. Quando Kant, com um radicalismo que os Reformadores n\u00e3o haviam previsto, afirmou que era necess\u00e1rio p\u00f4r de lado o pensamento para dar espa\u00e7o \u00e0 f\u00e9, agiu ainda segundo este programa. F\u00ea-lo, ancorando exclusivamente a f\u00e9 na raz\u00e3o pr\u00e1tica e negando-lhe assim o acesso ao todo da realidade. A teologia liberal dos s\u00e9culos XIX e XX trouxe uma segunda vaga no programa de des-heleniza\u00e7\u00e3o, sendo Adolf von Harnack o seu representante mais significativo. No meu tempo de estudante e nos primeiros anos da minha doc\u00eancia universit\u00e1ria, este programa era muito influente tamb\u00e9m na teologia cat\u00f3lica. Tomava-se como ponto de partida, a distin\u00e7\u00e3o feita por Pascal entre o Deus dos fil\u00f3sofos e o Deus de Abra\u00e3o, Isaac e Jacob. Na minha li\u00e7\u00e3o inaugural em Bona, em 1959, tentei discutir este tema e n\u00e3o tenciono repetir aqui o que disse nessa ocasi\u00e3o. Pretendo simplesmente descrever, ainda que muito brevemente, o que ent\u00e3o surgia como novo nesta segunda vaga de des-heleniza\u00e7\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira. A ideia central de Harnack era voltar simplesmente ao simples homem Jesus e \u00e0 sua simples mensagem que, antecedendo todos os esfor\u00e7os de reflex\u00e3o teol\u00f3gica, antecedeu assim, justamente, a heleniza\u00e7\u00e3o. Tal mensagem simples representava o culminar do desenvolvimento religioso da humanidade. Jesus teria eliminado o culto em favor da moral. Era apresentado, afinal, como o pai de uma mensagem moral humanit\u00e1ria. Fundamentalmente, era objectivo de Harnack harmonizar de novo o Cristianismo com a raz\u00e3o moderna, libertando-o para isso de elementos filos\u00f3ficos e teol\u00f3gicos tais como a f\u00e9 na divindade de Cristo e no Deus trinit\u00e1rio. Neste sentido, a exegese hist\u00f3rico-cr\u00edtica do Novo Testamento, tal como ele a via, restitu\u00eda a teologia ao seu lugar no cosmos da universidade: para Harnack, a teologia \u00e9 essencialmente hist\u00f3rica e s\u00f3 assim \u00e9 estritamente cient\u00edfica. O que ela pode conhecer acerca de Jesus mediante a cr\u00edtica hist\u00f3rica \u00e9, por assim dizer, express\u00e3o da raz\u00e3o pr\u00e1tica e s\u00f3 deste modo pode tomar o seu lugar no todo da universidade.  Por detr\u00e1s deste pensamento, est\u00e1 a moderna autolimita\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o expressa classicamente por Kant nas suas Cr\u00edticas, entretanto mais radicalizada pelo pensamento das ci\u00eancias da natureza. Este conceito moderno de raz\u00e3o \u00e9 baseado, para o dizer brevemente, numa s\u00edntese entre platonismo (cartesianismo) e empirismo, s\u00edntese confirmada pelo sucesso da tecnologia. Por um lado, pressup\u00f5e-se a estrutura matem\u00e1tica da mat\u00e9ria, a sua racionalidade intr\u00ednseca, por assim dizer, que torna poss\u00edvel compreender como a mat\u00e9ria funciona e como pode ser usada eficientemente: este pressuposto fundamental \u00e9, digamos, o elemento plat\u00f3nico na compreens\u00e3o moderna da natureza. Por outro lado, h\u00e1 a possibilidade inerente \u00e0 natureza de ser funcionalizada para os nossos fins, e, aqui, s\u00f3 a possibilidade de verifica\u00e7\u00e3o ou falsifica\u00e7\u00e3o pela experi\u00eancia pode conduzir a uma decisiva certeza. O peso destes dois p\u00f3los pode pender para um ou outro lado conforme os casos.  Um pensador t\u00e3o rigorosamente positivista como J. Monod designou-se a si mesmo como um convicto plat\u00f3nico.Isto sugere duas orienta\u00e7\u00f5es fundamentais decisivas para a quest\u00e3o que nos ocupa. Em primeiro lugar, s\u00f3 a forma de certeza que resulta da interac\u00e7\u00e3o entre elementos matem\u00e1ticos e emp\u00edricos pode ser considerada cient\u00edfica. O que pretende ser cient\u00edfico tem de se submeter a este crit\u00e9rio. Deste modo, as ci\u00eancias relacionadas com realidades humanas, como a hist\u00f3ria, a psicologia, a sociologia e a filosofia, tentam conformar-se com este c\u00e2none de cientificidade. Um segundo ponto, importante para as nossas reflex\u00f5es, \u00e9 que pela sua pr\u00f3pria natureza este m\u00e9todo exclui a quest\u00e3o de Deus, fazendo-a aparecer como n\u00e3o cient\u00edfica ou como pr\u00e9-cient\u00edfica.  Deparamo-nos com uma redu\u00e7\u00e3o do alcance da ci\u00eancia e da raz\u00e3o que necessita de ser questionada.Voltarei mais adiante a este aspecto. Entretanto, deve observar-se que com a tentativa de garantir, a partir de uma tal maneira de ver, a pretens\u00e3o \u201ccient\u00edfica\u201d da teologia, apenas resta do Cristianismo um pobre fragmento. Mas h\u00e1 mais. Se a ci\u00eancia como um todo for s\u00f3 isto, ent\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio homem que se encontra reduzido. As quest\u00f5es especificamente humanas acerca da sua origem e do seu destino, as quest\u00f5es pr\u00f3prias da religi\u00e3o e da \u00e9tica, j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam lugar no espa\u00e7o da raz\u00e3o comum definida como \u201cci\u00eancia\u201d, e t\u00eam de ser, por conseguinte, relegadas para o dom\u00ednio do subjectivo. O sujeito decide, na base das suas experi\u00eancias, aquilo que considera adequado em mat\u00e9ria de religi\u00e3o, e a \u201cconsci\u00eancia\u201d subjectiva torna-se a \u00fanica inst\u00e2ncia que decide o que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 \u00e9tico. Mas, deste modo, a \u00e9tica e a religi\u00e3o perdem o seu poder de criar uma comunidade e so\u00e7obram na arbitrariedade. Esta situa\u00e7\u00e3o representa um perigo para a humanidade. Vemo-lo nas amea\u00e7adoras patologias da religi\u00e3o e da raz\u00e3o, que irrompem necessariamente quando a raz\u00e3o \u00e9 de tal modo reduzida que as quest\u00f5es da religi\u00e3o e da \u00e9tica j\u00e1 n\u00e3o lhe dizem respeito.  Tentativas de construir uma \u00e9tica a partir das regras da evolu\u00e7\u00e3o ou da psicologia e sociologia, acabam por se mostrar simplesmente insuficientes.Antes de retirar as conclus\u00f5es a que tudo isto conduz, devo referir brevemente a terceira vaga de des-heleniza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em curso. \u00c0 luz da nossa experi\u00eancia com o pluralismo cultural, diz-se hoje frequentemente que a s\u00edntese da f\u00e9 crist\u00e3 com o helenismo realizada na Igreja antiga foi uma primeira incultura\u00e7\u00e3o a que se n\u00e3o deveriam obrigar outras culturas. Diz-se destas \u00faltimas que t\u00eam o direito de regressar ao tempo antes daquela incultura\u00e7\u00e3o, \u00e0 simples mensagem do Novo Testamento, de modo a poderem-na de novo inculturar no seu espa\u00e7o pr\u00f3prio. Esta tese n\u00e3o \u00e9 pura e simplesmente falsa, apresenta-se no entanto de modo indiferenciado e impreciso. O Novo Testamento foi escrito em grego e constitui, em si mesmo, o testemunho do encontro com o esp\u00edrito grego, encontro que j\u00e1 havia amadurecido no \u00faltimo desenvolvimento do Antigo Testamento.  Certamente, h\u00e1 estratos no processo de forma\u00e7\u00e3o da Igreja antiga que n\u00e3o t\u00eam de ser integrados em todas as culturas. Mas as decis\u00f5es fundamentais que dizem respeito, precisamente, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e a inquiri\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o humana, integram essa mesma f\u00e9, constituem o seu adequado desenvolvimento.E chego assim \u00e0 conclus\u00e3o. Esta tentativa, a tra\u00e7os largos, de uma autocr\u00edtica da raz\u00e3o moderna n\u00e3o implica, de modo algum, a ideia de que se dever\u00e1 recuar, de novo, ao tempo anterior \u00e0s Luzes e rejeitar os conhecimentos da modernidade.  A grandeza do desenvolvimento cultural moderno \u00e9 reconhecida sem reservas: estamos todos gratos pelas grandes possibilidades que nos tornou acess\u00edveis e pelo progresso em humanidade que nos facultou. O ethos cient\u00edfico consiste ali\u00e1s \u2013 como foi mencionado por V. Ex.cia, Magn\u00edfico Reitor \u2013 na vontade de obedecer \u00e0 verdade, constituindo assim a express\u00e3o de uma atitude fundamental que pertence essencialmente ao que \u00e9 decisivo no cristianismo. A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 eliminar, n\u00e3o \u00e9 fazer cr\u00edtica negativa, trata-se antes de alargar o \u00e2mbito do nosso conceito de raz\u00e3o e do seu uso. Pois que, ao mesmo tempo que nos alegramos com as novas possibilidades que se abrem \u00e0 humanidade, deparamo-nos tamb\u00e9m com os perigos que delas decorrem, e temos de nos perguntar como os podemos dominar. Seremos apenas bem sucedidos se raz\u00e3o e f\u00e9 de novo se encontrarem, se ultrapassarmos a limita\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria raz\u00e3o se imp\u00f5e ao experimentalmente verific\u00e1vel, e se de novo abrirmos a raz\u00e3o aos seus vastos horizontes.  Neste sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas como disciplina hist\u00f3rica e integrada nas ci\u00eancias humanas que a teologia tem lugar na universidade e no largo leque do di\u00e1logo entre as ci\u00eancias; compete-lhe este lugar propriamente como teologia, como questionamento sobre a racionalidade da f\u00e9.S\u00f3 assim nos tornaremos capazes de um aut\u00eantico di\u00e1logo entre culturas e religi\u00f5es, t\u00e3o urgentemente necess\u00e1rio nos nossos dias. No mundo ocidental domina largamente a opini\u00e3o de que s\u00f3 a raz\u00e3o positivista e as formas de filosofia nela baseadas s\u00e3o universalmente v\u00e1lidas. Contudo, as culturas profundamente religiosas que h\u00e1 no mundo v\u00eaem esta exclus\u00e3o do divino da universalidade da raz\u00e3o como uma viola\u00e7\u00e3o das suas mais \u00edntimas convic\u00e7\u00f5es. Uma raz\u00e3o que \u00e9 surda ao divino e que relega a religi\u00e3o para o \u00e2mbito das subculturas \u00e9 incapaz de se inserir no di\u00e1logo das culturas.  Ao mesmo tempo, como tentei mostrar, a moderna raz\u00e3o das ci\u00eancias da natureza com o seu elemento integrante plat\u00f3nico traz consigo uma quest\u00e3o que aponta para al\u00e9m de si pr\u00f3pria e das suas possibilidades metodol\u00f3gicas. A moderna raz\u00e3o das ci\u00eancias da natureza tem, muito simplesmente, de aceitar como um dado a estrutura racional da mat\u00e9ria assim como a correspond\u00eancia entre o nosso esp\u00edrito e as estruturas racionais que imperam na natureza, e nesse dado se funda a sua metodologia. Mas subsiste ainda a pergunta do porque isto \u00e9 assim; e esta \u00e9 uma aut\u00eantica quest\u00e3o que tem de ser remetida pelas ci\u00eancias da natureza para outros n\u00edveis e outros modos de pensamento \u2013 para a filosofia e a teologia.  Ao escutarem as grandes experi\u00eancias e percep\u00e7\u00f5es das tradi\u00e7\u00f5es religiosas da humanidade, as da f\u00e9 crist\u00e3 em particular, quer a filosofia quer, de forma diferente, a teologia encontram uma fonte de conhecimento; ignor\u00e1-la seria uma inaceit\u00e1vel restri\u00e7\u00e3o do nosso ouvir e responder. Aqui lembro-me de algo que S\u00f3crates disse a F\u00e9don. Nas suas primeiras conversas, tinham surgido muitas opini\u00f5es filos\u00f3ficas falsas. S\u00f3crates afirma ent\u00e3o ser facilmente compreens\u00edvel que algu\u00e9m ficasse t\u00e3o irritado com todas essas falsidades que, durante o resto da sua vida, odiasse e invectivasse todo o discurso acerca do ser \u2013 mas, deste modo, ficaria privado da verdade do que \u00e9 e sofreria um grande preju\u00edzo.  O Ocidente est\u00e1 amea\u00e7ado, desde h\u00e1 muito tempo, por esta avers\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es que suportam a sua racionalidade, o que para ele poder\u00e1 representar um grande dano que ter\u00e1 de suportar. Coragem para o vasto \u00e2mbito da raz\u00e3o, n\u00e3o recusar a sua grandeza: este \u00e9 o programa com que uma teologia comprometida com a f\u00e9 b\u00edblica entra nos debates do nosso tempo. \u201cN\u00e3o agir razoavelmente, n\u00e3o agir com logos, \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 natureza de Deus\u201d disse Manuel II, de acordo com a sua compreens\u00e3o crist\u00e3 de Deus, em resposta ao seu interlocutor persa. \u00c9 a este grande logos, a esta vastid\u00e3o da raz\u00e3o, que convidamos os nossos parceiros no di\u00e1logo de culturas. Redescobri-lo constantemente \u00e9 a grande tarefa da universidade.   Aula Magna da Universidade de Regensburg, 12 de Setembro de 2006   NOTA: O Papa reserva-se o direito de publicar posteriormente este texto, completado com notas. A presente vers\u00e3o deve ser, portanto, considerada como provis\u00f3ria..  <i>A pedido de leitores da revista Communio, divulga-se a tradu\u00e7\u00e3o do texto integral da li\u00e7\u00e3o proferida pelo Papa na Universidade de Regensburg, feita a partir do original alem\u00e3o por H. Noronha Galv\u00e3o. N\u00e3o existe ainda tradu\u00e7\u00e3o oficial para portugu\u00eas e t\u00eam aparecido tradu\u00e7\u00f5es menos correctas de algumas passagens da li\u00e7\u00e3o de Bento XVI.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li\u00e7\u00e3o de Bento XVI na Universidade de Regensburg<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,139,203],"class_list":["post-20307","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-communio","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20307"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20307\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}