{"id":202988,"date":"2021-03-25T11:17:13","date_gmt":"2021-03-25T11:17:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=202988"},"modified":"2021-03-25T11:17:13","modified_gmt":"2021-03-25T11:17:13","slug":"semana-santa-entre-a-devocao-e-o-espetaculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/semana-santa-entre-a-devocao-e-o-espetaculo\/","title":{"rendered":"Semana Santa: \u00a0entre a devo\u00e7\u00e3o e o espet\u00e1culo"},"content":{"rendered":"<p><em>Rui Ferreira, Arquidiocese de Braga<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Semana-Santa-Braga.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-202989\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Semana-Santa-Braga.jpeg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"852\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Semana-Santa-Braga.jpeg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Semana-Santa-Braga-391x260.jpeg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Semana-Santa-Braga-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Semana-Santa-Braga-768x511.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Semana-Santa-Braga-1080x719.jpeg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Semana-Santa-Braga-980x652.jpeg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Semana-Santa-Braga-480x320.jpeg 480w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/a><\/p>\n<p>1 \u2013 As celebra\u00e7\u00f5es da Semana Santa, associadas ao tempo Quaresmal que a precede e \u00e0 P\u00e1scoa na qual culmina, s\u00e3o uma das manifesta\u00e7\u00f5es coletivas mais revelantes da Igreja Cat\u00f3lica em Portugal. Num tempo em que se procura, em muitos lugares, o reconhecimento das pr\u00e1ticas associadas \u00e0 Semana Santa como Patrim\u00f3nio Cultural Imaterial, devemos convocar uma reflex\u00e3o sobre estas realidades sociais, mormente as pr\u00e1ticas associadas \u00e0 religiosidade dado o seu car\u00e1ter profundamente dial\u00e9tico e simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>2 &#8211; O Patrim\u00f3nio Cultural, im\u00f3vel, m\u00f3vel e imaterial, \u00e9 um dos \u00e2mbitos mais \u00f3bvios onde a Igreja se cruza com as comunidades humanas. \u00c0 partida rejeitamos o preconceito existente de que o lugar da religi\u00e3o se resume \u00e0 esfera privada do indiv\u00edduo. Esta atitude corresponderia a uma ced\u00eancia para com o laicismo exacerbado, que se funda meramente num ideal social e n\u00e3o propriamente na realidade objetiva dos indiv\u00edduos e das suas rela\u00e7\u00f5es sociais mais aut\u00eanticas. Contudo, n\u00e3o negamos que existe uma ideologia dominante que defende que a religi\u00e3o foi, e ainda \u00e9 compreendida como um fen\u00f3meno anacr\u00f3nico ou marginal que j\u00e1 n\u00e3o pode despertar muito interesse no quotidiano ou influenciar a vida p\u00fablica numa sociedade moderna<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>3- Obviamente que, considerando a Cultura como o conjunto de pr\u00e1ticas e formas de vida que expressamos no nosso quotidiano, temos necessariamente que integrar as pr\u00e1ticas de natureza religiosa na esfera cultural, dado que as mesmas fazem parte da experi\u00eancia concreta das pessoas. Por isso mesmo, quando nos referimos \u00e0s solenidades da Semana Santa temos necessariamente que falar de Cultura. Recordemos que a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com a Cultura foi um dos principais debates da terceira sess\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II. De que forma poderia a Igreja quebrar ou limitar a linha imagin\u00e1ria que as sociedades deixaram adensar-se entre o que consideram ser de natureza religiosa e, por conseguinte, de \u00e2mbito privado, e aquilo que \u00e9 efetivamente p\u00fablico?<\/p>\n<p>4 \u2013 Diz-nos a Igreja que a cultura \u201c\u00e9 t\u00e3o natural ao homem, que a sua natureza n\u00e3o tem nenhum aspeto que n\u00e3o se manifeste na sua cultura\u201d (Conselho Pontif\u00edcio da Cultura, 1999). Este entendimento alargado do conceito de cultura, obviamente que integra a dimens\u00e3o religiosa, presente num incomensur\u00e1vel rol de a\u00e7\u00f5es promovidas pelo ser humano. Como sabemos a quest\u00e3o da religiosidade n\u00e3o \u00e9 consensual, muito menos o seu aprofundamento num contexto em que se revelam alguns desvios que decorrentes de uma pr\u00e1tica da religiosidade popular desordenada, proveniente, algumas vezes, de um culto demasiado apegado a rituais esvaziados de conte\u00fado e pouco reveladores de uma espiritualidade aut\u00eantica.<\/p>\n<p>5 \u2013 No caso das celebra\u00e7\u00f5es da Semana Santa temos que afirmar que, apesar dos desvios, n\u00e3o deixaram de ser constitu\u00eddas por pr\u00e1ticas de natureza eminentemente espiritual. Essa \u00e9, ali\u00e1s, a motiva\u00e7\u00e3o sempre declarada <em>a priori<\/em>. No entanto, \u00e9 tamb\u00e9m espet\u00e1culo e isso entrev\u00ea-se particularmente na multid\u00e3o de turistas que procuram anualmente algumas localidades, como \u00e9 o caso de Braga. Continua obviamente a ser significativa a dimens\u00e3o espiritual e devocional de muitos dos crentes que participam nos cerimoniais, no entanto \u00e9 evidente a mistura de outras motiva\u00e7\u00f5es mais \u2018profanas\u2019. Uma parte significativa dos cerimoniais que comp\u00f5em a Semana Santa por todo o pa\u00eds, mormente as grandes prociss\u00f5es, constitui-se hoje tal qual um espet\u00e1culo em que podemos identificar atores e espectadores.<\/p>\n<p>6 &#8211; Tal como perspetiva Guy Debord vivemos numa sociedade do espet\u00e1culo em que se verifica uma invers\u00e3o do sentido das coisas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Este car\u00e1ter medi\u00e1tico conduz muitas pessoas, que procuram estes cerimoniais por mera curiosidade. Levam a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, n\u00e3o participam nos ritos e apenas procuram registar o que se vai passando. Esta fronteira, t\u00e3o tenuemente explorada, entre o espiritual e o medi\u00e1tico \u00e9 uma problem\u00e1tica que integra a identidade hodierna das solenidades da Semana Santa e P\u00e1scoa, em especial quando aplicada \u00e0 religiosidade popular minhota. Como n\u00e3o lembrar o especial mediatismo das prociss\u00f5es da Semana Santa em Braga ou do c\u00e9lebre Compasso Pascal na par\u00f3quia amarense de Fiscal? Apesar disso, antes de emitir ju\u00edzos de valor precipitados, precisamos de perceber que no medi\u00e1tico tamb\u00e9m reside o espiritual e que a devo\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>7 \u2013 O que \u00e9 a prociss\u00e3o das velas em F\u00e1tima sen\u00e3o um verdadeiro ato de religiosidade? No entanto, n\u00e3o deixa de se afirmar como um dos espet\u00e1culos mais imponentes da experi\u00eancia de f\u00e9 a n\u00edvel mundial. Tamb\u00e9m as celebra\u00e7\u00f5es da Quaresma, Semana Santa e P\u00e1scoa, enquanto pr\u00e1ticas culturais, se subjugam ao papel que os media adquiriram na sociedade, investindo sucessivamente em meios de comunica\u00e7\u00e3o e, at\u00e9, na sua monitoriza\u00e7\u00e3o, tendo por finalidade aferir impactos e contribuir para a atra\u00e7\u00e3o de mecenato. Estaremos perante uma ced\u00eancia \u00e0 \u201cditadura\u201d que os media imp\u00f5em \u00e0 sociedade hodierna ou apenas diante de uma natural adapta\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e0 sociedade em que nos inserimos?<\/p>\n<p><em><strong>Rui Ferreira<\/strong><\/em><\/p>\n<p>__________<br \/>\n<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Dix, S. (2007) <em>O que significa o estudo das religi\u00f5es: Uma ci\u00eancia monol\u00edtica ou interdisciplinar?<\/em>, Lisboa: Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Lisboa.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Debord, G. (2012) <em>A sociedade do espect\u00e1culo<\/em>, Lisboa: Ant\u00edgona.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Ferreira, Arquidiocese de Braga<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":186439,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-202988","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202988","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=202988"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202988\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/186439"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=202988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=202988"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=202988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}