{"id":202566,"date":"2021-03-21T09:34:26","date_gmt":"2021-03-21T09:34:26","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=202566"},"modified":"2021-03-19T13:07:03","modified_gmt":"2021-03-19T13:07:03","slug":"inviolavel-e-inviolavel-nao-ha-graus-de-inviolabilidade-ana-sofia-carvalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/inviolavel-e-inviolavel-nao-ha-graus-de-inviolabilidade-ana-sofia-carvalho\/","title":{"rendered":"\u00abInviol\u00e1vel \u00e9 inviol\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 graus de inviolabilidade\u00bb &#8211; Ana Sofia Carvalho"},"content":{"rendered":"<p><em>O Tribunal Constitucional chumbou alguns artigos da Lei da Eutan\u00e1sia, mas considerou que, enquanto conceito, a mesma n\u00e3o viola a Constitui\u00e7\u00e3o. A ECCLESIA e a Renascen\u00e7a entrevista Ana Sofia Carvalho, do Instituto de Bio\u00e9tica da Universidade Cat\u00f3lica, membro do Conselho Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida<\/em><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-202567 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho.jpg\" alt=\"\" width=\"1599\" height=\"1065\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho.jpg 1599w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho-1536x1023.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho-1080x719.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ana_Sofia_Carvalho-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1599px) 100vw, 1599px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 leu este ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal, com a resposta ao pedido de fiscaliza\u00e7\u00e3o preventiva enviado pelo Presidente da Rep\u00fablica. Ler este documento na \u00edntegra alterou a perce\u00e7\u00e3o inicial que teve, quando foi conhecida a not\u00edcia? Este chumbo pode ser considerado uma vit\u00f3ria por quem se op\u00f5e \u00e0 eutan\u00e1sia?<\/em><\/p>\n<p>Uma vit\u00f3ria n\u00e3o \u00e9, certamente, e isso \u00e9 muito claro nas 90 p\u00e1ginas do documento. Mesmo n\u00e3o sendo nem jurista, muito menos constitucionalista, d\u00e1 para perceber que na quest\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da inviolabilidade da vida humana, como tamb\u00e9m os artigos que foram considerados constitucionais, que entre os conselheiros existiam posi\u00e7\u00f5es distintas, tanto que h\u00e1 quatro conselheiros que acabam por fazer uma declara\u00e7\u00e3o de voto no sentido de considerar que a eutan\u00e1sia viola o artigo 24 &#8211; 1\u00ba, no sentido de que qualquer circunst\u00e2ncia da eutan\u00e1sia poria em causa o princ\u00edpio da inviolabilidade da vida humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Foram quatro ju\u00edzes em 12. \u00c9 significativo que os ju\u00edzes tenham ido mais longe do que pediu o Presidente e tenham j\u00e1 dito, neste ac\u00f3rd\u00e3o, que a eutan\u00e1sia, por si s\u00f3, n\u00e3o viola a Constitui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o viola o direito \u00e0 vida, e que &#8220;o direito a viver n\u00e3o pode significar o dever de viver em quaisquer circunst\u00e2ncias&#8221;?<\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a grande quest\u00e3o. Obviamente que o Presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o tinha pedido pron\u00fancia sobre esse assunto em espec\u00edfico, mas percebe-se na leitura do documento que essa discuss\u00e3o surgiu, e a posi\u00e7\u00e3o que acabou por prevalecer \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o de compromisso, n\u00e3o de consenso. Porque obviamente continuam a existir pelo menos quatro conselheiros, e outro grupo de conselheiros que at\u00e9 acha que o documento est\u00e1 excessivamente limitador. Portanto, aquilo que me parece transparecer do documento \u00e9 que realmente n\u00e3o existia um compromisso entre os senhores conselheiros, e que esta foi, no fundo, uma forma de o estabelecer, ou responder \u00e0quele que tinha sido o apelo do senhor Presidente, situando o debate nesta quest\u00e3o dos conceitos indeterminados, que me parece tamb\u00e9m estranho.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que ouvindo, por exemplo, o baston\u00e1rio da Ordem dos M\u00e9dicos &#8211; que considera exatamente esta quest\u00e3o do &#8220;sofrimento intoler\u00e1vel&#8221; muito indeterminado do ponto de vista m\u00e9dico -, como \u00e9 que os senhores conselheiros consideram que, sendo um conceito indeterminado, \u00e9 determin\u00e1vel pelos m\u00e9dicos? N\u00e3o me parece que ningu\u00e9m, para al\u00e9m dos m\u00e9dicos, possa pronunciar-se sobre esta quest\u00e3o, se \u00e9 determinado, ou se n\u00e3o \u00e9 determinado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 no Parlamento os pareceres da Ordem dos M\u00e9dicos, por exemplo, n\u00e3o foram tomados em grande considera\u00e7\u00e3o. Temos aqui, mais uma vez, juristas a determinar um conceito m\u00e9dico contra o parecer dos m\u00e9dicos e da reflex\u00e3o bio\u00e9tica, que tamb\u00e9m \u00e9 importante?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. O Conselho Nacional de \u00c9tica, ali\u00e1s, todas as entidades que se pronunciaram deram pareceres desfavor\u00e1veis. Realmente \u00e9 muito estranho.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou propriamente habituada a ler ac\u00f3rd\u00e3os, n\u00e3o sei exatamente que tipo de conte\u00fado \u00e9 que costumam pronunciar. Li o da Gesta\u00e7\u00e3o de Substitui\u00e7\u00e3o, que me pareceu um documento muito bem conseguido, que faz uma reflex\u00e3o excelente, mas aquilo que me soou mais estranho neste ac\u00f3rd\u00e3o foi parecer que ensina os senhores deputados a fazerem leis, ou a estabelecerem conceitos mais determinados, porque vai buscar um conjunto de legisla\u00e7\u00e3o, da morte medicamente assistida &#8211; que \u00e9, no fundo, um b\u00e1lsamo para n\u00e3o se chamar eutan\u00e1sia e suic\u00eddio assistido., o que de si j\u00e1 \u00e9 sintom\u00e1tico. No fundo preocupam-se em estabelecer um conjunto de situa\u00e7\u00f5es que os deputados poder\u00e3o usar para tornar este conceito mais determinado, o que me deixa um bocadinho perplexa, talvez, eventualmente, pela minha inexperi\u00eancia relativamente a ac\u00f3rd\u00e3os do Tribunal Constitucional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso vai condicionar o debate que se vai seguir no Parlamento, e at\u00e9 na sociedade civil, quase indicado &#8220;sigam por aqui, para acabarmos j\u00e1 com isto&#8221;?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9. A minha sensa\u00e7\u00e3o de estranheza foi exatamente essa. E mais: quando estamos a falar de conceitos indeterminados, que t\u00eam de ser determinados por pessoas que n\u00e3o, obviamente, um juiz do Tribunal Constitucional, como \u00e9 que o TC coloca propostas sem as discutir com aqueles que ser\u00e3o os principais intervenientes, que s\u00e3o claramente os profissionais de sa\u00fade? N\u00e3o deixa de ser muito estranho que isto tenha acontecido e que estas solu\u00e7\u00f5es tenham sido apresentadas da forma que foram, e t\u00e3o expl\u00edcitas no sentido de &#8220;resolvam o assunto, a partir daqui t\u00eam a solu\u00e7\u00e3o para resolver o assunto&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Tribunal disse que \u00e9 preciso definir melhor o conceito de &#8220;les\u00e3o definitiva de gravidade extrema&#8221;. J\u00e1 o outro conceito de &#8220;sofrimento intoler\u00e1vel&#8221;, que tamb\u00e9m levantou d\u00favidas ao Presidente, os ju\u00edzes dizem que pode manter-se. Mas, isto \u00e9 poss\u00edvel ficar totalmente clarificado na lei? \u00c9 poss\u00edvel ter conceitos seguros nesta mat\u00e9ria?<\/em><\/p>\n<p>A minha opini\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o, por um assunto que me parece que foi relevado para segundo plano relativamente a esta quest\u00e3o da eutan\u00e1sia, e que a mim \u00e9 dos assuntos que mais me preocupa, que \u00e9 quest\u00e3o da autonomia. Ao ler a legisla\u00e7\u00e3o proposta, assim como o parecer do Tribunal Constitucional, parece que todas as pessoas que pedem para ser mortas est\u00e3o absolutamente capazes de tomar uma decis\u00e3o aut\u00f3noma, com todos os elementos, quando qualquer pessoa que pede para ser morta est\u00e1 num processo de vulnerabilidade tal que n\u00f3s sabemos que automaticamente a sua capacidade de autonomia &#8211; ou de autodetermina\u00e7\u00e3o, como o ac\u00f3rd\u00e3o fala &#8211; est\u00e1 altamente condicionada. Juntando essa quest\u00e3o a esta dos termos serem t\u00e3o indeterminados, e serem t\u00e3o dif\u00edceis de julgar &#8211; independentemente de termos esta catadupa de profissionais de sa\u00fade envolvidos -, estranha-se um bocadinho como \u00e9 o Tribunal tomou a posi\u00e7\u00e3o que tomou.<\/p>\n<p>Nesse sentido, tanto as d\u00favidas do Presidente, como a justifica\u00e7\u00e3o do TC para chumbar alguns artigos, mostram que o diploma como estava n\u00e3o impedia &#8211; ao contr\u00e1rio do que foi dito pelos seus respons\u00e1veis &#8211; que se resvale para a tal &#8220;rampa deslizante&#8221;, e que depois a legisla\u00e7\u00e3o v\u00e1 sendo cada vez mais permissiva em rela\u00e7\u00e3o aos casos em que seria permitida a eutan\u00e1sia?<\/p>\n<p>Pois, esse para mim \u00e9 um dos pontos que aparece desde as primeiras propostas de lei que discutimos sobre eutan\u00e1sia. \u00c9 que a reda\u00e7\u00e3o desta lei em espec\u00edfico coloca Portugal j\u00e1 no meio da rampa, ou seja, n\u00f3s come\u00e7\u00e1mos j\u00e1 a deslizar. Quando falamos de &#8220;les\u00e3o definitiva&#8221; &#8211; e vejam, \u00e9 definitiva, n\u00e3o \u00e9 fatal &#8211; &#8220;de gravidade extrema&#8221;, de acordo com o consenso cient\u00edfico, isto abre a porta para situa\u00e7\u00f5es absolutamente inaceit\u00e1veis. O que \u00e9 uma les\u00e3o definitiva? H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es, como a diabetes, ou uma situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade cr\u00f3nica, que s\u00e3o definitivas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E que ser\u00e3o cada vez mais no futuro, dado o avan\u00e7o da medicina\u2026<\/em><\/p>\n<p>E que, pior, v\u00e3o ser cada vez, com o tsunami de problemas que vamos ter num futuro muito pr\u00f3ximo com os doentes n\u00e3o Covid, isso vai crescer exponencialmente!<\/p>\n<p>Ao colocar &#8220;les\u00e3o definitiva de gravidade extrema&#8221; sem colocar a palavra &#8220;fatal&#8221; &#8211; que foi aquilo que foi definido em todos os pa\u00edses que come\u00e7aram uma lei da Eutan\u00e1sia, teoricamente no in\u00edcio da rampa deslizante; essa era a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, a quest\u00e3o de ser fatal -, n\u00f3s come\u00e7amos j\u00e1 com uma &#8220;les\u00e3o definitiva de gravidade extrema&#8221;, sem ser fatal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O presidente da Rep\u00fablica tamb\u00e9m deu a entender que a eutan\u00e1sia s\u00f3 devia ser permitida em caso de &#8220;doen\u00e7a fatal&#8221;\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. E aqui nem sequer se diz isso. O que est\u00e1 a acontecer relativamente \u00e0 rampa deslizante, o que n\u00f3s temos assistido em pa\u00edses como a Holanda e como a B\u00e9lgica \u2013 essencialmente, de come\u00e7armos a ter eutan\u00e1sia de outras pessoas que t\u00eam doen\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o fatais &#8211; tem sido a prova de que existe, efetivamente, essa rampa deslizante. Falamos, por exemplo de alco\u00f3licos, duas pessoas que foram mortas recentemente atrav\u00e9s da eutan\u00e1sia, porque tinham uma situa\u00e7\u00e3o de cronicidade \u2013 o alcoolismo -, viviam um sofrimento extremo porque n\u00e3o se conseguiam ver livres dessa situa\u00e7\u00e3o cr\u00f3nica e pediram-na. E foram eutanasiados.<\/p>\n<p>N\u00f3s, por aquilo que \u00e9 a letra da lei, come\u00e7amos j\u00e1 no meio da rampa. Estas pessoas, teoricamente, ser\u00e3o j\u00e1 eleg\u00edveis em Portugal para pedir a morte assistida \u2013 este b\u00e1lsamo que arranjaram para fugir ao termo eutan\u00e1sia ou suic\u00eddio assistido. N\u00e3o se percebe, realmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Assumindo que a lei ser\u00e1 aprovada, mais tarde ou mais cedo, que balizas \u00e9ticas seriam fundamentais?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei, francamente teria muitas d\u00favidas mesmo partindo de um \u201ca priori\u201d de que n\u00e3o fosse contra a eutan\u00e1sia, por si, e tentando perceber de que forma \u00e9 que conseguir\u00edamos, numa legisla\u00e7\u00e3o, colocar termos que permitam garantir que n\u00e3o h\u00e1 desvios \u00e9ticos significativos. Tenho a maior d\u00favida em perceber como \u00e9 que isso pode ser feito, n\u00e3o consigo encontrar nenhuma justifica\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o s\u00f3 eu, os pr\u00f3prios m\u00e9dicos dizem-no.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma reflex\u00e3o \u00e9tica sobre o ser humano, o valor da sua vida e em que momento \u00e9 que essa vida, afinal, deixaria de ter valor at\u00e9 aos olhos da Constitui\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 algo que n\u00e3o se percebe. Inviol\u00e1vel \u00e9 inviol\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 graus de inviolabilidade. Percebe-se muito bem, tamb\u00e9m, pelo acordo do Tribunal Constitucional, quando faz a hist\u00f3ria do termo, que o facto de se referir essa inviolabilidade n\u00e3o aconteceu por acaso. Foi exatamente no sentido de dizer que \u00e9 em nenhuma circunst\u00e2ncia. Por isso \u00e9 que me parece muito estranha esta interpreta\u00e7\u00e3o de que a eutan\u00e1sia, em si, o suic\u00eddio assistido, n\u00e3o violam claramente a inviolabilidade da vida humana\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os partidos que aprovaram esta lei em janeiro j\u00e1 se comprometeram a alterar o diploma. Acredita que a lei poder\u00e1 ser modificada no sentido de se garantir que as condi\u00e7\u00f5es sejam totalmente claras e control\u00e1veis, como pede o Tribunal Constitucional?<\/em><\/p>\n<p>Que a lei vai ser alterada, penso que n\u00e3o restam d\u00favidas. Ali\u00e1s, esta foi uma bandeira de alguns deputados, que n\u00e3o se coibiram de apresentar uma legisla\u00e7\u00e3o e de aprovar uma legisla\u00e7\u00e3o desta natureza quando o pa\u00eds vivia a cat\u00e1strofe da Covid, num dos seus piores dias. O professor Ant\u00f3nio Barreto dizia que era uma obscenidade pol\u00edtica. Numa circunst\u00e2ncia desta natureza, \u00e9 claramente uma obscenidade pol\u00edtica aprovar essa legisla\u00e7\u00e3o. Se nessa altura n\u00e3o houve qualquer tipo de inc\u00f3modo \u00e9tica, de mal-estar moral, nesse sentido, agora que as coisas parecem estar mais controladas certamente vai acontecer o quanto antes.<\/p>\n<p>Se realmente os deputados v\u00e3o conseguir responder \u00e0s que s\u00e3o as exig\u00eancia do Tribunal Constitucional\u2026 Dado que o trabalho de casa est\u00e1 feito, praticamente se diz \u201cfa\u00e7am assim, que resolvem o problema\u201d, acho que ter\u00e3o todas as condi\u00e7\u00f5es para ter uma lei o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Do seu ponto de vista, estamos aqui perante uma formalidade? N\u00e3o espera que haja debate suplementar ou um pedido de pronunciamento ao Conselho Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida face \u00e0 nova proposta de lei?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, acho que n\u00e3o. Existe claramente aqui um sinal sobre os pareceres, a ausculta\u00e7\u00e3o de quem estar\u00e1 envolvido \u2013 os terceiros elementos que far\u00e3o um servi\u00e7o que o Estado considera legal\u2026 Tenho muitas d\u00favidas de que o debate venha a ser aberto, no sentido de ausculta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esperava mais dos pol\u00edticos, na abordagem destas mat\u00e9rias?<\/em><\/p>\n<p>Esperava. Posso dizer que fiquei absolutamente chocada pelo facto de a lei ter sido aprovada na altura em que foi aprovada, com os timings\u2026 A pessoa olha para a lei e percebe claramente que, no estado em que temos o nosso Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, o nossos Sistema Nacional de Sa\u00fade, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel colocar dois m\u00e9dicos \u2013 um m\u00e9dico orientador e um m\u00e9dico especialista \u2013 mais uma comiss\u00e3o que integra m\u00e9dicos, a tratar de um processo que, teoricamente, tem de ser respondido num prazo muit\u00edssimo curto. A comiss\u00e3o, por exemplo, tem cinco dias para dar o seu parecer.<\/p>\n<p>Sabemos que j\u00e1 em tempos Covid e no p\u00f3s-Covid vamos viver situa\u00e7\u00f5es de escassez de recursos para a sa\u00fade, de uma forma absolutamente \u00edmpar. O que vai acontecer com estes doentes que, durante muito tempo, n\u00e3o tiveram acesso a cuidados de sa\u00fade adequados, ser\u00e1 realmente assustador, como sabemos. Ora, estarmos nesta altura a utilizar recursos no sentido de permitir que pessoas que v\u00e3o sofrer imenso, que v\u00e3o ter dificuldades, pe\u00e7am para ser mortas, parece-me de uma falta de gosto absolutamente incr\u00edvel e inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A \u00faltima quest\u00e3o tem a ver com o facto de se morrer mal em Portugal. N\u00e3o querendo confundir conceitos, a lei da eutan\u00e1sia fala da oferta de cuidados paliativos, mas sabemos que ela est\u00e1 muito longe de corresponder \u00e0s necessidades do pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Sim, at\u00e9 poder\u00e1 haver escolha para certas pessoas, mas para a maioria n\u00e3o vai existir, porque a escassez de recursos tamb\u00e9m nessa \u00e1rea \u00e9 muito significativa. As pessoas morrem mal em Portugal, realmente, e isso acontece por falta de apoio relativamente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de que padecem, mas essa situa\u00e7\u00e3o ainda se vai agravar mais\u2026<\/p>\n<p>Se n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos um problema de escassez para cuidar daquelas pessoas que se encontravam numa reta final de vida, isso vai tornar-se t\u00e3o grave que colocar\u00e1 um n\u00famero muito mais significativo de pessoas em circunst\u00e2ncias de fim de vida. Basta ver as cirurgias que n\u00e3o foram realizadas, as consultas que n\u00e3o foram feitas\u2026 Existe, inclusive, um documento da Ordem dos M\u00e9dicos que retrata a desgra\u00e7a dos doentes n\u00e3o-Covid e os n\u00fameros s\u00e3o absolutamente avassaladores.<\/p>\n<p>N\u00f3s sabemos que o que vem a\u00ed, a seguir, \u00e9 um tsunami de dificuldades imensas para quem cuida e para quem \u00e9 cuidado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Tribunal Constitucional chumbou alguns artigos da Lei da Eutan\u00e1sia, mas considerou que, enquanto conceito, a mesma n\u00e3o viola a Constitui\u00e7\u00e3o. A ECCLESIA e a Renascen\u00e7a entrevista Ana Sofia Carvalho, do Instituto de Bio\u00e9tica da Universidade Cat\u00f3lica, membro do Conselho Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":202567,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[204],"class_list":["post-202566","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-eutanasia-bioetica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=202566"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202566\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/202567"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=202566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=202566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=202566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}