{"id":202322,"date":"2021-03-17T12:02:59","date_gmt":"2021-03-17T12:02:59","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=202322"},"modified":"2021-03-17T12:08:18","modified_gmt":"2021-03-17T12:08:18","slug":"saber-aprender-a-reencontrar-a-proximidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-reencontrar-a-proximidade\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A reencontrar a proximidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em 1976, Mele Koneya e Alton Barbour, dois investigadores na \u00e1rea da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-verbal chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que 7% da comunica\u00e7\u00e3o entre pessoas \u00e9 verbal, cerca de 38% envolve o tom de voz, se grave ou agudo, se o volume \u00e9 baixo ou alto, e uns incr\u00edveis 55% dizem respeito aos movimentos corporais, como os gestos e as express\u00f5es faciais. Por isso, quando as pessoas investem nas redes sociais para desenvolverem a relacionalidade com outras pessoas, restringem-se a 7% da comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o admira que se perca tanto tempo com t\u00e3o pouco e os relacionamentos n\u00e3o estejam melhores por existirem redes sociais. Ser\u00e1 que os encontros por <em>streaming<\/em> ou por Zoom melhoraram a comunica\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s?<\/p>\n<figure id=\"attachment_202323\" aria-describedby=\"caption-attachment-202323\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-202323\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/GruposZoom1-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-202323\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Chris Montgomery em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com a impossibilidade de fazermos encontros presenciais, cresceu exponencialmente a oferta de encontros on-line. Para muitas pessoas que antes conseguiam dedicar algum tempo \u00e0 solitude, hoje, \u00e9 dif\u00edcil. Muitos investem nos encontros via <em>streaming<\/em> e v\u00eaem nisso um modo de chegar a mais pessoas, podendo, inclusiv\u00e9, abrir novos campos de evangeliza\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1?<\/p>\n<p>Ao usarmos o formato v\u00eddeo, acabamos por incluir alguma da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal nas mensagens trocadas. Mas no que diz respeito \u00e0 vers\u00e3o <em>streaming<\/em>, o efeito \u00e9 enganador. Pois, acontece apenas por uma via, a do emissor. O modo que as pessoas t\u00eam de expressar aquilo que est\u00e3o a viver ser\u00e1 atrav\u00e9s das mensagens que podem escrever no <em>chat<\/em> enquanto dura a emiss\u00e3o do programa. Logo, na pr\u00e1tica, acabamos por estar restritos aos 7% de comunica\u00e7\u00e3o verbal. E quem emite o programa n\u00e3o faz a menor ideia do modo como as pessoas est\u00e3o, realmente, a viver o momento pela falta da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-verbal. O mesmo acontece com as eucaristias on-line. Melhor do que nada, mas insuficiente para fazer uma experi\u00eancia, sobretudo, penso, para o sacerdote.<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 fez uma palestra para muitas pessoas sabe que durante esse per\u00edodo, n\u00e3o \u00e9 que se estabele\u00e7am relacionamentos de proximidade, como em grupos mais pequenos. Por\u00e9m, para a pessoa que se dirige \u00e0 audi\u00eancia, a reac\u00e7\u00e3o das pessoas a algo que diz, ou de umas poucas pessoas que o palestrante escolhe para avaliar a reac\u00e7\u00e3o \u00e0s suas palavras, s\u00e3o muito importantes, e podem mesmo alterar o modo e o conte\u00fado daquilo que pensava dizer. Um sacerdote numa eucaristia fala para uma audi\u00eancia, mas o seu discurso estar\u00e1, inevitavelmente, desprovido do olhar das pessoas. O que lhe vale s\u00e3o as poucas presentes e ser\u00e3o essas que acabam por dar alguma autenticidade \u00e0 eucaristia que vemos on-line, sem substituir a viv\u00eancia corporal.<\/p>\n<p>Na primeira segunda-feira depois dos primeiro sinais de desconfinamento fui \u00e0 Eucaristia. Estavam mais pessoas presentes do que o n\u00famero habitual para uma missa de semana. N\u00e3o eram apenas as saudades de estarmos juntos, ou a possibilidade da comunh\u00e3o da h\u00f3stia, ou at\u00e9 a de escutar, presencialmente, a medita\u00e7\u00e3o do sacerdote sobre o Evangelho. Era tudo. Tudo contava. Pois, na sua ess\u00eancia, a comunica\u00e7\u00e3o espiritual que fazemos com Deus na Eucaristia \u00e9 n\u00e3o-verbal. N\u00e3o fosse esse o sentido da liturgia para cada crist\u00e3o, isto \u00e9, a presen\u00e7a de Deus est\u00e1 para al\u00e9m do ver, cheirar, ouvir, saborear e tocar, podendo-se experimentar uma uni\u00e3o particular com Ele atrav\u00e9s da viv\u00eancia comunit\u00e1ria. O desafio est\u00e1 nos encontros nas comunidades mais pequenas de vida e de ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas actuais circunst\u00e2ncias, muitas jornadas s\u00e3o feitas on-line. Creio que, em muitas dessas, a pandemia revelou como resultam, abrindo essa possibilidade para futuras iniciativas. Depois, aqueles que desejam ir mais a fundo nos relacionamentos com as pessoas que dinamizam essas jornadas, ter\u00e3o no futuro a possibilidade de o fazer presencialmente. Mas, para muitos, essa proximidade e necessidade de presen\u00e7a, j\u00e1 n\u00e3o existia. Podia ser pela timidez das pessoas, ou por se querer dar espa\u00e7o a tantas outras que gostariam de falar com o interveniente depois de terminar o seu tema. O que muitas vezes assistia, ou experimentava, era que estar ou n\u00e3o presente, ou poder ouvir remotamente, seria a mesma coisa. Por isso, daqui em diante, ser\u00e1 fundamental encontrar o justo equil\u00edbrio entre a presen\u00e7a f\u00edsica e a remota para estes encontro comunit\u00e1rios. Mas podemos diminuir mais o n\u00fameros das pessoas ao pensar em grupos mais pequenos e \u00edntimos.<\/p>\n<p>Nos encontros em grupos mais pequenos, o desafio ser\u00e1 grande porque levar\u00e1 algum tempo at\u00e9 que as pessoas se sintam seguras de estarem umas com a outras e \u2014 salvo seja \u2014 poderem contagiar-se (mesmo de doen\u00e7as) sem que isso represente um perigo para a sua vida e a daqueles que lhes est\u00e3o pr\u00f3ximos. Antes da pandemia, j\u00e1 nos contagi\u00e1vamos com v\u00edrus e n\u00e3o era por isso que rece\u00e1vamos estar juntos. Por\u00e9m, pela facilidade com nos encontramos por Zoom nos grupos pequenos, a tend\u00eancia pode ser a de manter o ritmo de encontros (desculpem) fren\u00e9ticos por tudo e mais alguma coisa. E se essa tend\u00eancia se mantiver, rebentaremos. Por que raz\u00e3o n\u00e3o fazemos menos?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se encontra para mostrar aos outros trabalho feito, ou se essa \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o dos pequenos grupos se encontrarem, convinha reflectir se a espiritualidade subjacente \u00e0 raz\u00e3o de se encontrarem est\u00e1 a ser, ou n\u00e3o, vivida com autenticidade. Vejo imensas pessoas que conhe\u00e7o a terem Zooms quase todas as noites, e bem pela noite dentro. Depois sinto-as cansadas e pergunto-me: porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Antes, os tempos de espera entre encontros existiam por haver apenas uma data em que todos pod\u00edamos estar presentes. Essa espera dava \u00e0 vida tempo para ser vivida, de modo a poder, depois, ser partilhada. Agora, com Zoom ap\u00f3s Zoom, parece-me que as pessoas perderam esse espa\u00e7o e tempo de viver, e vivem para reunir e fazer.<\/p>\n<p>Fazer menos implica, necessariamente, fazer melhor. Encontrarmo-nos menos implica, necessariamente, privilegiar os momentos em que nos encontramos. A frequ\u00eancia fren\u00e9tica retira o lugar da viv\u00eancia serena e gozo pleno das experi\u00eancias que juntos fazemos. Queremos todos voltar a um normal relacional, mas como haveremos de lidar com as mazelas do anormal virtual que gerou uma nova cultura no \u00faltimo ano?<\/p>\n<p>Era diria: com muita paci\u00eancia. Mas, talvez tenha chegado o momento de percebermos que a acelera\u00e7\u00e3o da vida digital pode levar-nos a perder o sabor das experi\u00eancias raras e profundas. N\u00e3o tenhamos medo de fazer menos para saber aprender a reencontrar a proximidade aut\u00eantica e que nos constr\u00f3i por dentro.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-202322","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202322","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=202322"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202322\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=202322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=202322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=202322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}