{"id":20232,"date":"2006-09-19T13:19:01","date_gmt":"2006-09-19T13:19:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/09\/19\/polemica-artificial\/"},"modified":"2006-09-19T13:19:01","modified_gmt":"2006-09-19T13:19:01","slug":"polemica-artificial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/polemica-artificial\/","title":{"rendered":"Pol\u00e9mica artificial"},"content":{"rendered":"<p>A pol\u00e9mica que, por estes dias, rebentou em volta da interven\u00e7\u00e3o de Bento XVI na Universidade de Regensburg &#8211; aquando da visita \u00e0 Baviera &#8211; parte de uma cita\u00e7\u00e3o do discurso, fora de contexto, e da ideia de que o pensamento do Papa sobre o Isl\u00e3o ali se teria revelado verdadeiramente. Esta li\u00e7\u00e3o do &#8220;professor Ratzinger&#8221; passou pela rela\u00e7\u00e3o entre o Cristianismo e o helenismo, as religi\u00f5es do mundo moderno e o Isl\u00e3o. Bento XVI falou de religi\u00e3o e viol\u00eancia, defendendo que &#8220;a difus\u00e3o da f\u00e9 atrav\u00e9s da viol\u00eancia \u00e9 irracional&#8221;. Partindo do relato de uma conversa entre um Imperador bizantino do s\u00e9c. XIV e um intelectual persa, sobre o Cristianismo e o Isl\u00e3o, o Papa citou o tema da jihad (guerra santa), frisando que a viol\u00eancia &#8220;est\u00e1 em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza de Deus&#8221;. Numa passagem desse discurso, o Imperador Manuel II Pale\u00f3logo dizia que, de Maom\u00e9 tinham surgido apenas coisas &#8220;perversas e desumanas&#8221;, palavras que foram tomadas erradamente, pela opini\u00e3o p\u00fablica internacional, como a opini\u00e3o pessoal do Papa. Falando diante dos &#8220;representantes da ci\u00eancia&#8221; na aula magna da Universidade onde ensinou Teologia, o Papa criticou a tend\u00eancia difundida no Ocidente de considerar como universais apenas a &#8220;raz\u00e3o positivista e as formas de filosofia da\u00ed derivantes&#8221;. Como em dias anteriores, Bento XVI falou de &#8220;culturas profundamente religiosas&#8221; que v\u00eaem nesta atitude ocidental &#8220;um ataque \u00e0s suas convic\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas&#8221;. \u201cO Isl\u00e3o, apontou, \u00e9 uma doutrina segundo a qual Deus \u00e9 absolutamente transcendente e a sua vontade n\u00e3o est\u00e1 ligada a nenhuma das nossas categorias, mesmo a da raz\u00e3o&#8221;. Bento XVI citou igualmente um te\u00f3logo mu\u00e7ulmano dos s\u00e9c. X e XI, Ibn Hazn, segundo o qual &#8220;Deus n\u00e3o seria sequer ligado pela sua pr\u00f3pria palavra e nada o obrigaria a revelar-nos a verdade&#8221;. Ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia no mundo isl\u00e2mico, Bento XVI quis precisar o sentido do seu discurso, manifestando-se &#8220;profundamente amargurado&#8221;. O Papa disse que o trecho n\u00e3o corresponde ao seu pensamento sobre o Isl\u00e3o. &#8220;Espero que isto possa apaziguar os esp\u00edritos e esclarecer o verdadeiro significado do meu discurso em Regensburg que, na sua totalidade, era e \u00e9 um convite ao di\u00e1logo franco e sincero no respeito rec\u00edproco&#8221;, acrescentou depois o Papa, antes da recita\u00e7\u00e3o do Angelus, em Castel Gandolfo. Segunda-feira, o Secret\u00e1rio de Estado do Vaticano anunciou o lan\u00e7amento de uma iniciativa diplom\u00e1tica para explicar as declara\u00e7\u00f5es de Bento XVI que provocaram a ira de v\u00e1rios dirigentes mu\u00e7ulmanos. O Cardeal Tarcisio Bertone entende que houve uma &#8220;pesada manipula\u00e7\u00e3o que transformou as inten\u00e7\u00f5es do Santo Padre&#8221;. Os N\u00fancios Apost\u00f3licos nos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos j\u00e1 receberam instru\u00e7\u00f5es para explicar as declara\u00e7\u00f5es de Bento XVI &#8220;\u00e0s autoridades pol\u00edticas e religiosas e fazer conhecer o texto do Papa para valorizar os elementos ignorados at\u00e9 agora&#8221;.  <b>Reac\u00e7\u00e3o destemperada<\/b> D. Carlos Azevedo, Secret\u00e1rio da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa (CEP), considera que a reac\u00e7\u00e3o do mundo isl\u00e2mico \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Papa \u00e9 &#8220;destemperada&#8221;, lamentando, por outro lado, que a comunica\u00e7\u00e3o social apresente informa\u00e7\u00f5es de forma &#8220;selectiva e muitas vezes fora do contexto&#8221;. Para o Padre Peter Stilwell, assistente religioso da R\u00e1dio Renascen\u00e7a, Bento XVI ter\u00e1 certamente pesado as suas palavras, &#8220;que apresentou como uma reflex\u00e3o sua&#8221;. &#8220;H\u00e1 por vezes nas religi\u00f5es &#8211; e mais adiante o Papa vai dizer no interior at\u00e9 do pr\u00f3prio Cristianismo na Idade M\u00e9dia &#8211; a op\u00e7\u00e3o de querer colocar Deus acima de toda a racionalidade e dizer que o nosso cumprimento das suas ordens deve ser feito mesmo quando isso \u00e9 irracional, quando isso vai contra o que nos parece o bem&#8221;, sublinha. D. Janu\u00e1rio Torgal Ferreira considera que o objectivo do texto de Bento XVI \u00e9 o convite \u00e0 defesa da racionalidade &#8220;no di\u00e1logo das culturas&#8221;. &#8220;A leitura do \u00faltimo imperador Bizantino, dirigida a um contempor\u00e2neo seu, p\u00f5e em causa a aus\u00eancia desse cuidado racional quer no tratamento te\u00f3rico de Deus, quer, sobretudo, no mundo da ac\u00e7\u00e3o, onde o mesmo Deus \u00e9 desconsiderado racionalmente pelo uso da viol\u00eancia. Mas igual cr\u00edtica \u00e9 formulada a respeito de um autor cat\u00f3lico, o Franciscano Jo\u00e3o Duns Escoto&#8221;, aponta, acrescentando que &#8220;a irracionalidade das f\u00farias j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a cultura a impedir a guerra, mas \u00e9 a guerra a ser espect\u00e1culo da incultura&#8221;. Jos\u00e9 Manuel Fernandes, director do &#8220;P\u00fablico&#8221;, escreveu em editorial que &#8220;muitos jornalistas desistiram de ler, quanto mais de pensar&#8221;, lamentando o tratamento dado ao discurso do Papa e, por outro lado, as reac\u00e7\u00f5es violentas \u00e0s suas palavras. Neste sentido, cita George Carey, antigo Arcebispo da Cantu\u00e1ria: &#8220;os mu\u00e7ulmanos, tal como os crist\u00e3os, devem aprender a dialogar sem gritar histericamente&#8221;. Vasco Pulido Valente frisa, no P\u00fablico, que &#8220;o mais preliminar assistente de Literatura, Hist\u00f3ria, Filosofia ou Teologia&#8221; compreende que o Papa n\u00e3o d\u00e1 o imperador Pale\u00f3logo como &#8220;interprete autorizado da religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, mas como um opositor intransigente \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o religiosa&#8221;.  Judite de Sousa, jornalista da RTP, escreve no JN: &#8220;Se n\u00e3o podemos citar palavras de h\u00e1 600 anos com o medo de ofender os mu\u00e7ulmanos, o que \u00e9 que podemos fazer? Resignamo-nos a perder a nossa liberdade e condenamo-nos ao obscurantismo?&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00e9mica que, por estes dias, rebentou em volta da interven\u00e7\u00e3o de Bento XVI na Universidade de Regensburg &#8211; aquando da visita \u00e0 Baviera &#8211; parte de uma cita\u00e7\u00e3o do discurso, fora de contexto, e da ideia de que o pensamento do Papa sobre o Isl\u00e3o ali se teria revelado verdadeiramente. 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