{"id":201929,"date":"2021-03-14T09:30:42","date_gmt":"2021-03-14T09:30:42","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=201929"},"modified":"2021-03-12T14:11:45","modified_gmt":"2021-03-12T14:11:45","slug":"covid-19-experiencia-de-crise-vivida-nas-suas-mais-diversas-dimensoes-e-claramente-um-lugar-de-oportunidade-para-a-mensagem-crista-se-recolocar-alfredo-teixeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/covid-19-experiencia-de-crise-vivida-nas-suas-mais-diversas-dimensoes-e-claramente-um-lugar-de-oportunidade-para-a-mensagem-crista-se-recolocar-alfredo-teixeira\/","title":{"rendered":"Covid-19: \u00abExperi\u00eancia de crise, vivida nas suas mais diversas dimens\u00f5es, \u00e9 claramente um lugar de oportunidade para a mensagem crist\u00e3 se recolocar\u00bb &#8211; Alfredo Teixeira"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->Foi h\u00e1 um ano que a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa determinou, pela primeira vez, a suspens\u00e3o da celebra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria das Eucaristias e em janeiro \u00faltimo o agravamento da situa\u00e7\u00e3o pand\u00e9mica levou os bispos a renovarem a medida.<\/p>\n<p>Num ano mudou muita coisa na forma como os cat\u00f3licos vivem a sua f\u00e9, mas que mudan\u00e7as vieram para ficar? A Igreja soube adaptar-se? O recurso aos meios digitais serviu para aproximar os fi\u00e9is, ou abriu portas a que se afastem mais? Quest\u00f5es que d\u00e3o o mote para a conversa com Alfredo Teixeira, antrop\u00f3logo e investigador da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_201932\" aria-describedby=\"caption-attachment-201932\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-201932 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/IMG_4899-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-201932\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Ao fim de um ano\u00a0j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel avaliar com precis\u00e3o que marcas ficam na Igreja? Ou ainda \u00e9 cedo para dizer que nada voltar\u00e1 a ser como antes<\/em>?<\/p>\n<p>Podemos dizer alguma coisa, de facto, mas que ser\u00e1 sempre alguma coisa de provis\u00f3rio. O contexto que vivemos \u00e9 um contexto de crise, portanto h\u00e1 um conjunto de comportamentos, de viv\u00eancias, que se explicam pelo pr\u00f3prio fen\u00f3meno de crise. Diria que \u00e9 dif\u00edcil, nalguns casos, dizer o que \u00e9 que permanecer\u00e1 destas experi\u00eancias e viv\u00eancias ou aquilo que, de alguma forma, \u00e9 apenas um intervalo, \u00e0 espera que, de alguma maneira, os nossos contextos se possam voltar a normalizar. No entanto, h\u00e1 experi\u00eancias que s\u00e3o novas e outras que, n\u00e3o sendo propriamente novas, foram aceleradas, e h\u00e1 um rasto que vai ficar. Talvez o campo religioso seja at\u00e9 um dos lugares em que, de alguma maneira, os efeitos desta pandemia poder\u00e3o durar no tempo.<\/p>\n<p>Como sabemos, a experi\u00eancia religiosa, a atividade religiosa tem uma dimens\u00e3o fortemente comunit\u00e1ria, depende dessa estrutura, e este v\u00edrus, como sabemos, afeta a nossa experi\u00eancia social, sobretudo as dimens\u00f5es comunit\u00e1rias, j\u00e1 que a comunidade pode reconstituir-se noutros contextos \u2013 no digital, nas rela\u00e7\u00f5es em rede -, mas h\u00e1 dimens\u00f5es de sociabilidade, em todo o caso, que parecem ser dif\u00edceis de reproduzir noutros contextos.<\/p>\n<p>Aquilo que acontece, normalmente, \u00e9 que essas rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem a partir de outros ambientes, como o ambiente digital, est\u00e3o at\u00e9 dependentes das rela\u00e7\u00f5es que se criam noutros contextos. Nesse sentido, \u00e9 de esperar que haja altera\u00e7\u00f5es e que estas tenham de ser pensadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 novas formas de estar e de celebrar que acabar\u00e3o por ficar para o futuro<\/em>?<\/p>\n<p>H\u00e1 coisas que poder\u00e1 ficar, as comunidades aprenderam que \u00e9 poss\u00edvel estabelecer rela\u00e7\u00f5es, tecer rela\u00e7\u00f5es de outras formas. Que \u00e9 poss\u00edvel estar mais pr\u00f3ximo das pessoas, a partir de outros meios.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m alguma coisa que aconteceu que eu diria ser uma esp\u00e9cie de prolifera\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o sem comunidade, algo que ter\u00e1 de ser ultrapassado, de alguma forma. Devo dizer que, em muitos casos, a pura reprodu\u00e7\u00e3o do que existia em termos presenciais nos meios digitais n\u00e3o me pareceu muito eficaz. A viv\u00eancia de dimens\u00f5es como a dimens\u00e3o ritual dificilmente, a meu ver, pode ser replicada a partir de um contexto de comunica\u00e7\u00e3o digital. Se fic\u00e1ssemos nesse registo, apenas, poderia facilmente acontecer aquilo que a soci\u00f3loga brit\u00e2nica Grace Davie chamou \u2013 a prop\u00f3sito de uma certa tend\u00eancia da religiosidade na Europa \u2013 a persist\u00eancia de uma religi\u00e3o vic\u00e1ria. Ou seja, a ideia de que muitos come\u00e7am a viver uma religi\u00e3o de um certo distanciamento, em que veem as pr\u00e1ticas rituais de um pequeno grupo, num determinado contexto, como pr\u00e1ticas que os representam a eles pr\u00f3prios. Sentem-se representados nessas pr\u00e1ticas, mas \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta comunica\u00e7\u00e3o sem comunidade, a suspens\u00e3o das celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e a transposi\u00e7\u00e3o de atividades presenciais para o espa\u00e7o dom\u00e9stico podem refor\u00e7ar uma interpreta\u00e7\u00e3o mais individual da vida religiosa<\/em>?<\/p>\n<p>Sim, podem, em determinados perfis de identifica\u00e7\u00e3o. Ou seja, temos de compreender que a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9, sob o ponto de vista social, em Portugal, o que eu chamaria uma eclesi\u00f3sfera, um conjunto de c\u00edrculos de aproxima\u00e7\u00e3o. Alguns cat\u00f3licos est\u00e3o relativamente distanciados, numa situa\u00e7\u00e3o mais perif\u00e9rica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s viv\u00eancias comunit\u00e1rias, e esta situa\u00e7\u00e3o pode agravar este distanciamento. Todos n\u00f3s temos consci\u00eancia de que h\u00e1 um conjunto de cat\u00f3licos &#8211; mesmo quando regressamos de forma condicionada \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es, em particular \u00e0 grande celebra\u00e7\u00e3o dominical \u2013 que n\u00e3o regressou, ainda, a essas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um risco de se acelerar esse distanciamento, nalguns casos, ou de se aprofundar, mas \u00e9 um facto tamb\u00e9m que algumas pessoas, alguns grupos com uma forte vincula\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, reinventaram as suas rela\u00e7\u00f5es a partir destes contextos novos. Digamos que o ecossistema de perten\u00e7a eclesial, neste contexto, para alguns cat\u00f3licos, foi enriquecido, porque descobriram outras formas, que n\u00e3o v\u00e3o substituir as anteriores, mas que v\u00e3o continuar as suas rela\u00e7\u00f5es, partilhar a f\u00e9\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o me parece que possamos ter um ju\u00edzo \u00fanico sobre as consequ\u00eancias do que vivemos, mas n\u00f3s teremos certamente, nalguns setores do universo cat\u00f3lico, um certo aprofundamento dessa gest\u00e3o hiperindividualizada da sua rela\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nas novas orienta\u00e7\u00f5es a Confer\u00eancia Episcopal mant\u00e9m a\u00a0suspens\u00e3o das prociss\u00f5es, incluindo o tradicional \u201ccompasso\u201d da P\u00e1scoa, por exemplo. Sabemos que estes momentos t\u00eam, nalgumas localidades, uma tradi\u00e7\u00e3o muito vincada. Que consequ\u00eancias poder\u00e1 ter esta suspens\u00e3o, pelo segundo ano consecutivo<\/em>?<\/p>\n<p>Eu penso que essas pr\u00e1ticas, que s\u00e3o comunit\u00e1rias em sentido estrito \u2013 ou seja, envolvem uma popula\u00e7\u00e3o, um territ\u00f3rio, as fam\u00edlias, s\u00e3o festas num sentido antropol\u00f3gico do termo, dimens\u00f5es totais que envolvem as diferentes da experi\u00eancia das pessoas \u2013, s\u00e3o contextos de viv\u00eancia fortemente afetados. Mas diria que essas pr\u00e1ticas s\u00e3o aquelas que, de alguma maneira, se v\u00e3o reconstituir mais facilmente, porque elas apelam a uma mem\u00f3ria enraizada. O que se vive no contexto \u00e9, claramente, a experi\u00eancia de um intervalo provocado por uma crise. N\u00e3o creio que sejam essas as pr\u00e1ticas que v\u00e3o ser mais afetadas por este tipo de constrangimentos, porque elas se enra\u00edzam numa mem\u00f3ria e essa mem\u00f3ria \u00e9 resistente.<\/p>\n<p>Parece-me mais complexo analisar aquilo que possam ser altera\u00e7\u00f5es nos comportamentos mais individualizados, em que de alguma maneira n\u00e3o h\u00e1 essa estrutura comunit\u00e1ria, de mem\u00f3rias, que pode dar uma maior resist\u00eancia a essas viv\u00eancias de natureza religiosa e social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pelo que vai observando, \u00e9 poss\u00edvel dizer que\u00a0a dimens\u00e3o espiritual foi mais valorizada durante este tempo de pandemia e confinamento? Mesmo quem n\u00e3o tem uma f\u00e9 assumida, procurou respostas diferentes para aquilo que est\u00e1 a acontecer?<\/em><\/p>\n<p>Ter\u00edamos de decidir o que \u00e9 que entendemos por espiritual. Em todo o caso diria que, se vivemos um tempo em que se deposita uma enorme esperan\u00e7a na possibilidade de uma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e sanit\u00e1ria para a crise global que nos assola, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que essa expectativa n\u00e3o preenche todas as procuras de sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 nesse sentido a pergunta, sobre a busca de sentido\u2026<\/em><\/p>\n<p>De uma maneira mais clara no primeiro confinamento do que neste, foi muito interessante observar o que eu designaria como uma certa procura de &#8220;empalavrar&#8221; esta situa\u00e7\u00e3o que vivemos. Ou seja, \u00e9 muito interessante observar como nesse per\u00edodo atores, criadores, tamb\u00e9m l\u00edderes espirituais, de alguma maneira habitaram esse tempo construindo discursos, linguagens, palavras que habitaram esse tempo de isolamento de uma forma que, a meu ver, dizia respeito claramente a esta experi\u00eancia de procura de sentido. Ali\u00e1s, recordo-me mesmo at\u00e9 que, sob o ponto de vista da comunica\u00e7\u00e3o social, na altura era muito frequente que programas abordassem coisas como boas pr\u00e1ticas, coisas que estavam a acontecer no mundo e que de alguma maneira permitiam v\u00ea-lo, n\u00e3o apenas a partir dessa l\u00f3gica de contar quantos infetados, quantos internados, quantos curados, quantos mortos, quantos avi\u00f5es ficaram em terra, mas para al\u00e9m deste exerc\u00edcio de contagem encontrar, de facto, uma palavra que possa iluminar com sentido aquilo que vivemos. Penso que a experi\u00eancia da pandemia foi criativa, sob o ponto de vista espiritual.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O te\u00f3logo checo Tom\u00e1s Hal\u00edk, a prop\u00f3sito do seu mais recente livro &#8216;O tempo das igrejas vazias&#8217;, sustenta que a Igreja cat\u00f3lica deve ser uma plataforma de encontro num tempo em que as certezas foram abaladas. \u00c9 uma reconfigura\u00e7\u00e3o poss\u00edvel?<\/em><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 verdade que a experi\u00eancia religiosa, n\u00e3o apenas a partir do contexto crist\u00e3o, mas a experi\u00eancia religiosa em geral tem uma particular rela\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia de vulnerabilidade. A experi\u00eancia religiosa, no fundo, traz sempre para o centro das viv\u00eancias este sentido de que a nossa vida, a vida humana, pode n\u00e3o ter o centro em si pr\u00f3pria, que de alguma maneira para ganhar sentido tem de se ultrapassar a si pr\u00f3pria. Portanto, creio que a experi\u00eancia de crise, vivida nas suas mais diversas dimens\u00f5es, \u00e9 claramente um lugar de oportunidade para a mensagem crist\u00e3 se recolocar, de forma que possa acolher as narrativas e as experi\u00eancias que as pessoas viveram. Porque uma das coisas que esta pandemia nos mostrou \u00e9 que a nossa sociedade tem um problema com a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>As nossas dificuldades com a pandemia passaram, em muitos casos, pelo facto de n\u00e3o termos uma mem\u00f3ria comunit\u00e1ria de viv\u00eancia destas experi\u00eancias. As sociedades antigas, como sabemos, viveram constantemente epidemias graves, obviamente n\u00e3o com esta escala, porque n\u00e3o viviam nesta escala global como n\u00f3s vivemos, mas em todo o caso com forte impacto na estrutura das cidades, e desenvolveram cren\u00e7as, narrativas, mitos que alguns casos habitaram as suas mem\u00f3rias e tiveram uma dimens\u00e3o preventiva. Ou seja, a recita\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria foi um fator importante neste contexto.<\/p>\n<p>Eu acho que uma das coisas importantes para o dia seguinte \u00e9 pensar como podemos tornar esta experi\u00eancia uma mem\u00f3ria viva, uma mem\u00f3ria que possa ser contada, e que se torne tamb\u00e9m uma mem\u00f3ria de reden\u00e7\u00e3o. E nesse sentido acho que, de facto, as comunidades crist\u00e3s n\u00e3o deviam, nesse dia seguinte, tentar esquecer o que foi vivido, mas pelo contr\u00e1rio, tornar-se um lugar de elabora\u00e7\u00e3o de sentido daquilo que foi vivido, construindo de alguma maneira uma mem\u00f3ria religiosa e cultural desta experi\u00eancia cr\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As outras confiss\u00f5es religiosas em geral tamb\u00e9m sofreram o impacto desta pandemia. As condicionantes impostas pelos v\u00e1rios confinamentos, pelas novas formas de estar, poder\u00e3o alterar de forma significativa os resultados de um futuro inqu\u00e9rito sobre as identidades religiosas em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Poder\u00e1 ser um fator, entre outros. De uma forma geral, em termos das suas pr\u00e1ticas religiosas, as minorias religiosas sofreram talvez ainda mais do que a maioria cat\u00f3lica, porque reparem: em boa parte das situa\u00e7\u00f5es as pessoas pertencentes a outras comunidades normalmente para se encontrarem, para se reunirem, est\u00e3o ainda mais afetadas na sua mobilidade, n\u00e3o acontece como no espa\u00e7o cat\u00f3lico, em que todos os cat\u00f3licos t\u00eam, de alguma maneira, uma comunidade, uma igreja perto de si. Isso n\u00e3o acontece com as outras comunidades religiosas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por exemplo, esta medida persistente de n\u00e3o se poder deslocar para fora do seu concelho, em alguns casos, por exemplo na \u00e1rea metropolitana de Lisboa afeta alguns aspetos importantes do exerc\u00edcio da liberdade religiosa. Ali\u00e1s, devo dizer que espantosamente todas estas medidas, desde o primeiro confinamento, nunca tiveram por parte do governo portugu\u00eas, qualquer estrat\u00e9gia de consulta da Comiss\u00e3o da Liberdade Religiosa, que \u00e9 uma Inst\u00e2ncia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, que precisamente tem a fun\u00e7\u00e3o de acompanhar as decis\u00f5es do governo relativamente a assuntos que dizem respeito \u00e0 liberdade religiosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E seria importante que isso tivesse acontecido, em sua opini\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim, seria importante, porque houve v\u00e1rios momentos em que esse direito fundamental de liberdade religiosa n\u00e3o foi devidamente acautelado. Ou seja, todos compreendemos as circunst\u00e2ncias de crise que exigiram um acompanhamento de medidas excecionais, e as lideran\u00e7as religiosas, de uma forma geral, todas acompanharam essa necessidade, mas nem em todos os momentos houve o devido discernimento.<\/p>\n<p>Recordo, por exemplo, que no primeiro confinamento, ao contr\u00e1rio do que est\u00e1 acontecer agora, as pr\u00e1ticas cultuais s\u00f3 abriram na \u00faltima fase, sem evid\u00eancia nenhuma de que elas pudessem, de facto, acrescentar um risco assinal\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mobilidades que j\u00e1 estavam a ocorrer nas pr\u00e1ticas sociais. Portanto, de facto, em alguns momentos da gest\u00e3o desta crise o problema da liberdade religiosa n\u00e3o foi totalmente salvaguardado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No dia em que tomou posse o Presidente da Rep\u00fablica, Marcelo Rebelo de Sousa, fez quest\u00e3o de se encontrar, rezar e dialogar com representantes das principais confiss\u00f5es religiosas em Portugal. \u00c9 um sinal importante para o pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Penso que sim, ali\u00e1s, quando fa\u00e7o esta observa\u00e7\u00e3o de que nem sempre essa quest\u00e3o essencial da liberdade religiosa mereceu todo o cuidado, n\u00e3o parece sequer que seja por uma qualquer inten\u00e7\u00e3o de hostiliza\u00e7\u00e3o, mas essencialmente por uma falta de compreens\u00e3o do impacto que a limita\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio da liberdade religiosa, em particular do exerc\u00edcio da reuni\u00e3o, tem de facto na vida das pessoas. Mas, nesse sentido, e de uma forma geral, esses gestos t\u00eam um valor p\u00fablico muito grande. Talvez n\u00e3o tenham ainda um impacto muito grande dentro das pr\u00f3prias comunidades, que porventura permanecer\u00e3o ainda bastante distantes entre si, mas sob o ponto de vista p\u00fablico, de constru\u00e7\u00e3o de uma forma de vermos a sociedade, e de a habitarmos em conjunto como um espa\u00e7o partilhado a partir das diferen\u00e7as &#8211; inclusiv\u00e9 as diferen\u00e7as que sabemos, historicamente, em muitos casos constru\u00edram muros quase inultrapass\u00e1veis &#8211; \u00e9, de facto, um gesto simb\u00f3lico muito eficaz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":201932,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[698,200],"class_list":["post-201929","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-covid-19","tag-estudos-teologicos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201929","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=201929"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201929\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/201932"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=201929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=201929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=201929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}