{"id":201798,"date":"2021-03-11T17:05:35","date_gmt":"2021-03-11T17:05:35","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=201798"},"modified":"2021-03-12T10:04:59","modified_gmt":"2021-03-12T10:04:59","slug":"covida-19-a-igreja-tambem-deveria-ser-uma-solidariedade-dos-sacudidos-nao-apenas-oferecer-respostas-simples-padre-tomas-halik","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/covida-19-a-igreja-tambem-deveria-ser-uma-solidariedade-dos-sacudidos-nao-apenas-oferecer-respostas-simples-padre-tomas-halik\/","title":{"rendered":"Covid-19: \u00abA Igreja tamb\u00e9m deveria ser uma solidariedade dos sacudidos, n\u00e3o apenas oferecer respostas simples\u00bb &#8211; padre Tom\u00e1s Hal\u00edk"},"content":{"rendered":"<p><em>Autor tem dedicado a sua reflex\u00e3o teol\u00f3gica ao di\u00e1logo entre cren\u00e7as e descren\u00e7a, analisando agora o impacto da pandemia e o tempo das \u00abIgrejas vazias\u00bb<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/halik_20181003_pc.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-201782 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/halik_20181003_pc.jpg\" alt=\"\" width=\"1010\" height=\"674\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/halik_20181003_pc.jpg 1010w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/halik_20181003_pc-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/halik_20181003_pc-768x513.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/halik_20181003_pc-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/halik_20181003_pc-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1010px) 100vw, 1010px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Oct\u00e1vio Carmo<\/em><\/p>\n<p><em>Estamos a passar por uma emerg\u00eancia sanit\u00e1ria, social, pol\u00edtica, econ\u00f3mica, mas tamb\u00e9m uma crise de sentido. O que pode dizer a teologia aos que n\u00e3o compreendem a pandemia?<\/em><\/p>\n<p>A crise n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma trag\u00e9dia. A crise \u00e9 um <em>kair\u00f3s <\/em><em>(express\u00e3o grega que denomina um tempo oportuno)<\/em>, uma oportunidade, um desafio. A crise \u00e9 um tempo para ajudar os outros, em primeiro lugar, e tamb\u00e9m um tempo para a reflex\u00e3o, para voltar a pensar, para avaliar. Penso que esta crise \u00e9 um tempo para reavaliar muito dos nossos valores, dos nossos estilos de vida.<\/p>\n<p>A teologia deve dizer que h\u00e1 momentos de \u201cnoite escura\u201d na nossa vida pessoal, na vida da sociedade, na vida da Igreja. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria da P\u00e1scoa \u00e9 a hist\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da Cruz, do sofrimento; a ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um final feliz, na hist\u00f3ria da P\u00e1scoa. Cristo ressuscitado chega at\u00e9 n\u00f3s de uma forma diferente, foi transformado nesta experi\u00eancia de morte. Como crist\u00e3os, devemos aceitar a crise e o sofrimento como uma esp\u00e9cie de participa\u00e7\u00e3o m\u00edstica na Cruz.<\/p>\n<p>A Igreja e a nossa teologia espiritual devem ensinar-nos que estes momentos obscuros, crises, s\u00e3o tempo de purifica\u00e7\u00e3o, de aprofundamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Escreveu que muitos \u201cn\u00e3o-crentes\u201d come\u00e7aram a fazer perguntas fundamentais. Este foi um tempo em que as pessoas vieram bater \u00e0 porta da Igreja, oferecendo a possibilidade de falar a uma audi\u00eancia mais amplas?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Quando a morte est\u00e1 a espreitar por cima do nosso ombro, todos fazem perguntas importantes.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um tempo em que temos muitos peritos em pandemias, sobre as suas causas e solu\u00e7\u00f5es, muitas vozes. A voz da Igreja deve ser clara, mas n\u00e3o devemos oferecer solu\u00e7\u00f5es simples: em primeiro lugar, temos de ajudar as pessoas a passar por esta crise com a mente aberta e o cora\u00e7\u00e3o aberto, tentando compreender os desafios que existem, para a Igreja e para todos. Para todos. Pode ser uma mensagem especial para cada pessoa.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o pessoas que reavaliaram o seu estilo de vida, descobriram que a vida familiar era mais importante para elas do que fazer neg\u00f3cios, ter mais dinheiro. Numa crise, reconhecemos sempre o que \u00e9 realmente importante para n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 um ano come\u00e7amos o tempo das Igrejas fechadas. Como avalia as prioridades da pastoral cat\u00f3lica, no acompanhamento de quem procurava respostas? Ou foi apenas um compasso de espera, para pode voltar ao que se fazia antes?<\/em><\/p>\n<p>A Igreja \u00e9 muito plural e tamb\u00e9m dividida, h\u00e1 muitos entendimentos sobre \u201cser Igreja\u201d, muitos estilos de pastoral. Haver\u00e1, certamente, pessoas que querem regressar ao que era antes, \u2018business as usual\u2019, mas isso n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 a mudar e os desafios desta pandemia v\u00e3o aparecer durante muito tempo. N\u00e3o devemos apenas suprimir esta experi\u00eancia, porque cada sofrimento, cada trag\u00e9dia, cada crise que \u00e9 suprimida pode virar-se contra n\u00f3s, do ponto de vista pessoal e coletivo. Devemos refletir, falar sobre isto. Muitos dos efeitos deste tempo v\u00e3o aparecer lentamente, passo a passo, em muitas \u00e1reas da nossa vida \u2013 economia, pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m na nossa vida espiritual.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um tempo em que muitos valores e muitas certezas s\u00e3o abaladas. As pessoas falaram do abalo das antigas certezas religiosas, mas agora tamb\u00e9m as certezas seculares foram sacudidas. Estamos num mundo sacudido.<\/p>\n<p>Um professor falava da solidariedade dos sacudidos. Penso que a Igreja tamb\u00e9m deveria ser uma solidariedade dos sacudidos n\u00e3o apenas oferecer respostas simples, antigas, mas tamb\u00e9m apoiar as pessoas neste tempo\u2026<\/p>\n<p>Julgo que haver\u00e1 pessoas a regressar ao que faziam sempre, mas para outros crist\u00e3os ser\u00e1 uma oportunidade para se questionarem sobre o que \u00e9 importante na nossa vida espiritual. H\u00e1 quem pense que o Cristianismo \u00e9 um passatempo para pessoas pias, que v\u00e3o \u00e0 Missa aos domingos.<\/p>\n<p>Este tempo das Igrejas fechadas \u00e9 um tempo para nos questionarmos, porque o Cristianismo n\u00e3o existe s\u00f3 quando h\u00e1 velas no altar. Cristo est\u00e1 em todos os lugares onde as pessoas ajudam outras pessoas. Deus n\u00e3o est\u00e1 apenas por tr\u00e1s da cortina do nosso mundo, Deus est\u00e1 presente no amor, esperan\u00e7a e amor das pessoas. E n\u00e3o s\u00f3 dos crentes.<\/p>\n<p>Falo do amor n\u00e3o s\u00f3 como sentimento, mas como autotranscend\u00eancia, o amor e solidariedade com as pessoas em necessidade. Vejo tanta energia de amor em muitas pessoas, que n\u00e3o s\u00e3o os crentes tradicionais, mas que tamb\u00e9m procuram pela fonte da sua energia espiritual e precisam de acompanhamento, de inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Alerta na sua reflex\u00e3o que este tempo de Igrejas vazias pode ser um alerta para o futuro pr\u00f3ximo. As pessoas est\u00e3o mesmo a afastar-se de Deus ou procuram algo que n\u00e3o encontram na Igreja?<\/em><\/p>\n<p>Insisto que devemos mostrar que o Cristianismo n\u00e3o \u00e9 apenas um passatempo para os pios. A Igreja n\u00e3o existe apenas para si, para os seus membros, \u00e9 um convite para todos. Temos de superar o nosso narcisismo eclesi\u00e1stico, o nosso isolacionismo, deixar de estar centrados em n\u00f3s mesmos. \u00c9 o que o Papa Francisco chama de clericalismo, temos de superar este modelo, estamos numa sociedade diferente, n\u00e3o temos o monop\u00f3lio da vida espiritual.<\/p>\n<p>Muitas pessoas deixaram a Igreja, mas nem todos s\u00e3o ateus. Mesmo no meu pa\u00eds (Rep\u00fablica Checa), que \u00e9 considerado o pa\u00eds mais ateu, n\u00e3o h\u00e1 muitas pessoas que se identifiquem com as Igrejas, mas continuam a ser pessoas espirituais. Outras deixam as Igrejas n\u00e3o porque tenham perdido a f\u00e9, mas porque procuram uma vida mais profunda face \u00e0quilo que encontraram na sua experi\u00eancia de Igreja. Por isso, penso que temos de ir para l\u00e1 das nossas fronteiras, ser um convite para todos. A Igreja, do ponto de vista teol\u00f3gico, \u00e9 o sacramento, o s\u00edmbolo da unidade de todos os povos em Cristo. Esta unidade ser\u00e1 concretizada na dimens\u00e3o escatol\u00f3gica, mas temos de trabalhar j\u00e1 para superar as fronteiras.<\/p>\n<p>Particularmente agora, o Papa Francisco fala desta fraternidade, \u2018Fratelli Tutti\u2019. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 falar, esta viagem ao Iraque e o di\u00e1logo com o Isl\u00e3o mostram que a Igreja tem de trabalhar nesta fraternidade universal, solidariedade universal. Isto coloca, contudo, a quest\u00e3o de como entender a nossa identidade crist\u00e3 neste catolicismo sem fronteiras. Devemos sempre perguntar-nos sobre a nossa identidade, perguntar onde est\u00e1 Cristo, agora, procur\u00e1-lo, procurar Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Defende que algo tem de morrer para que a ressurrei\u00e7\u00e3o possa acontecer, uma transforma\u00e7\u00e3o profunda. O que \u00e9 preciso deixar de parte para construir comunidades menos fechadas em si?<\/em><\/p>\n<p>Este tempo em que as certezas s\u00e3o abaladas \u00e9 um tempo para que as perguntas fundamentais v\u00e3o cada vez mais fundo. No futuro, a Igreja ser\u00e1 muito importante como um lugar de partilha e di\u00e1logo, como escreve o Papa na <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html\">enc\u00edclica<\/a> \u2018Fratelli Tutti\u2019.<\/p>\n<p>Penso em muitos modelos de Igreja, para o futuro. Um \u00e9 a met\u00e1fora usada muitas vezes pelo Papa Francisco, da Igreja como \u201chospital de campanha\u201d. Temos de entend\u00ea-la de uma forma mais ampla: claro que h\u00e1 necessidade de ajudar as pessoas, fisicamente, \u00e9 parte do nosso testemunho, mas este hospital de campanha tamb\u00e9m precisa de retaguarda, como espa\u00e7o de busca, de imunidade, de recupera\u00e7\u00e3o. A Igreja deve desenvolver v\u00e1rios servi\u00e7os, em analogia com um bom hospital, promovendo tamb\u00e9m a imunidade espiritual, num tempo de tantas not\u00edcias falsas, teorias da conspira\u00e7\u00e3o por causa da pandemia, tantas mentiras, propaganda, influ\u00eancias pol\u00edticas. A nossa atmosfera est\u00e1 afetada n\u00e3o s\u00f3 pelo coronav\u00edrus, mas tamb\u00e9m pelo v\u00edrus do medo, da ansiedade, etc.<\/p>\n<p>N\u00f3s, enquanto Igreja, temos de ajudar a curar esta falsidade, mas tamb\u00e9m purificar esta atmosfera espiritual, esta atmosfera moral, na transforma\u00e7\u00e3o que est\u00e1 para chegar. O mundo n\u00e3o ser\u00e1 o mesmo, precisamos de transforma\u00e7\u00e3o na economia, na pol\u00edtica\u2026<\/p>\n<p>Depois desta grande experi\u00eancia de crise, precisamos de um novo estilo de vida. O Papa tem falado disso. E esta nova economia, esta nova pol\u00edtica, precisa de uma biosfera moral, e temos de desenvolv\u00ea-la para a oferecermos \u00e0 sociedade. Temos de pensar para as outras pessoas, n\u00e3o existimos s\u00f3 para n\u00f3s, enquanto Igreja. Essa \u00e9 a mensagem mais importante: somos para todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta P\u00e1scoa vai acontecer de novo, em muitos pa\u00edses, com um \u2018jejum for\u00e7ado da Eucaristia\u2019, como escreve. O que \u00e9 poss\u00edvel aprender, com esta experi\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Todas as crises s\u00e3o uma oportunidade de avaliar muitas coisas e penso que precisamos, para o futuro, de centros para uma espiritualidade profundamente vivida. Talvez mais do que as par\u00f3quias normais, antigas, locais. Elas s\u00e3o necess\u00e1rias, mas tamb\u00e9m precisamos de centros de espiritualidade, onde as pessoas aprendam a refletir sobre a sua vida pessoal, a vida da sociedade, numa abordagem contemplativa. E para partilhar estas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Este tempo das Igrejas fechadas foi, para muitas fam\u00edlias, uma oportunidade para falar sobre a sua f\u00e9, porque nunca falavam sobre isso. Iam \u00e0 Igreja, tentavam viver de uma forma \u00e9tica, mas nunca partilhavam as suas experi\u00eancias interiores. Agora, o tempo de ora\u00e7\u00e3o comum nas fam\u00edlias foi tamb\u00e9m um tempo de partilhar as experi\u00eancias pessoais de f\u00e9, perguntas, d\u00favidas. Isso sustenta o modelo de Igreja local.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Outra quest\u00e3o que tem abordado \u00e9 a vis\u00e3o da pandemia como um castigo de Deus\u2026<\/em><\/p>\n<p>O nosso Deus n\u00e3o \u00e9 um Deus de vingan\u00e7a, \u00e9 um Deus de amor. Esta ideia da pandemia como vingan\u00e7a, como castigo\u2026 Que imagem de Deus est\u00e1 por tr\u00e1s disso? \u00c0s vezes \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias pessoas que assim falam, que projetam o seu lado mais sombrio, os seus pr\u00f3prios dem\u00f3nios, a sua agressividade, os seus medos. E criam este Deus de vingan\u00e7a, como instrumento dos seus pr\u00f3prios \u00f3dios e medos. Essas pessoas sabem muito bem quem \u00e9 que tem de ser castigado. Fazem de Deus o instrumento da sua inimizade.<\/p>\n<p>Eu penso que Deus n\u00e3o se faz presente pelas trag\u00e9dias, Deus est\u00e1 presente nos atos de amor, de esperan\u00e7a e de f\u00e9 no nosso mundo. Esta crise foi uma oportunidade para encontrar Deus nestes atos de amor das pessoas, Deus \u00e9 o que h\u00e1 de sagrado no nosso amor.<\/p>\n<p>Temos de refletir sobre esta experi\u00eancia de amor como doa\u00e7\u00e3o de si, autotranscend\u00eancia, h\u00e1 sempre algo de sagrado nesta experi\u00eancia de amor que se oferece a si pr\u00f3prio. \u00c9 a experi\u00eancia de Deus nestas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos tentar criar esta imagem negativa de Deus como um castigo, como um instrumento nosso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor tem dedicado a sua reflex\u00e3o teol\u00f3gica ao di\u00e1logo entre cren\u00e7as e descren\u00e7a, analisando agora o impacto da pandemia e o tempo das \u00abIgrejas 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