{"id":201678,"date":"2021-03-10T11:51:19","date_gmt":"2021-03-10T11:51:19","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=201678"},"modified":"2021-03-10T11:51:19","modified_gmt":"2021-03-10T11:51:19","slug":"saber-aprender-a-apreciar-o-ocio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-apreciar-o-ocio\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A apreciar o \u00f3cio"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Jesus ficou irritado com o efeito que o neg\u00f3cio estava a ter sobre a vida espiritual das pessoas do seu tempo. Expulsou o neg\u00f3cio do templo e qual o motivo? O Com\u00e9rcio. Os bens espirituais, o espa\u00e7o de encontro com Deus, e o tempo em que nos encontramos para estar com os outros em ora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o comercializ\u00e1veis. Mas ao escutar esta passagem que nos impele a reflectir na quaresma, lembrei-me de algo n\u00e3o comercializ\u00e1vel, mas que talvez n\u00e3o ocupe o espa\u00e7o e o tempo que poderia ocupar no templo que \u00e9 o nosso corpo: o \u00f3cio.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/idle-954058.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-201680 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/idle-954058.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"237\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/idle-954058.jpg 590w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/idle-954058-400x237.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/idle-954058-480x285.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a>Na defini\u00e7\u00e3o desta palavra encontramos tanto a \u201cpregui\u00e7a\u201d, como a \u201cocupa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel em momentos de folga\u201d. Por isso, o modo como procuramos que essa palavra crie um impacto positivo na nossa vida depende muito do contexto. Por outro lado, na l\u00f3gica, uma dupla nega\u00e7\u00e3o \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o. Assim, o \u00f3cio \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do neg-\u00f3cio, isto \u00e9, da tomada de consci\u00eancia de que existem valores na vida que n\u00e3o s\u00e3o comercializ\u00e1veis. Por exemplo, a nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1965, no MIT, uma conhecida universidade americana, os computadores tinham instalado um programa chamado \u201cMAILBOX\u201d. Os utilizadores deixavam mensagens no computador de outras pessoas usando este programa. E essas pessoas viam as mensagens somente quando se ligavam ao computador. Por esse motivo, o sistema s\u00f3 funcionava se as pessoas usassem, regularmente, o mesmo computador. Hoje, para n\u00f3s, esta comunica\u00e7\u00e3o ass\u00edncrona \u00e9 um dado adquirido, mas n\u00e3o naquele tempo. Em 1971 ser\u00e1 Ray Tomlinson que inventar\u00e1 o \u201ccorreio eletr\u00f3nico\u201d ou \u201cemail\u201d (de <em>electronic mail<\/em>). O conceito era pr\u00e1tico, instant\u00e2neo e o fluxo de mensagens entre as pessoas de uma empresa aumentou exponencialmente. Qual o pre\u00e7o? A gradual perda dos per\u00edodos de aten\u00e7\u00e3o m\u00e1xima dedicada ao que queremos fazer e tem valor para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Que o email tenha revolucionado o modo de comunicar, n\u00e3o restam d\u00favidas. Mas que o seu efeito a longo prazo seria o da superficialidade dos conte\u00fados, o aumento da ansiedade, e a distrac\u00e7\u00e3o constante, ningu\u00e9m podia imaginar. Hoje, o trabalho de muitas pessoas \u00e9: responder a emails. At\u00e9 mesmo daqueles cujo trabalho deveria ser ensinar ou investigar. A capacidade que os emails t\u00eam de prender a nossa aten\u00e7\u00e3o deve-se \u00e0 aus\u00eancia de fric\u00e7\u00e3o no meio de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 f\u00e1cil, simples e imediato. Porque n\u00e3o? Mas uma aten\u00e7\u00e3o fragmentada pode ser o primeiro passo para uma vida stressada.<\/p>\n<p>Parece imposs\u00edvel imaginar \u201cum mundo sem email\u201d, mas foi precisamente isso que Cal Newport, professor de computa\u00e7\u00e3o da Universidade de Georgetown, fez com o seu \u00faltimo livro (ainda por traduzir em portugu\u00eas). Na reflex\u00e3o que faz recorda como a distrac\u00e7\u00e3o de um email obriga o nosso c\u00e9rebro a mudar de tarefa, e muito do cansa\u00e7o que as pessoas sentem quando est\u00e3o sempre a consultar e a responder aos emails prov\u00e9m desta constante troca do foco da nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para se entender como \u00e9 bom para a nossa sa\u00fade cerebral estar concentrado a fazer uma coisa de cada vez, houve um grupo de investigadores que fizeram uma experi\u00eancia com um grupo de pessoas. A tarefa consistia em adicionarem 6 a cada n\u00famero de uma sequ\u00eancia que lhes tinham dado. Depois, numa segunda tarefa, pediram que usassem a mesma sequ\u00eancia original e uma vez somavam 6 e ao n\u00famero seguinte subtra\u00edam 3, depois voltavam a somar 6, e diminuir 3, mudando a opera\u00e7\u00e3o a cada n\u00famero da sequ\u00eancia. O resultado foi demorarem mais tempo a completar a segunda tarefa. Assim, demonstraram o efeito que o email pode ter na nossa aten\u00e7\u00e3o: demoramos mais tempo a fazer o que dever\u00edamos e cansamo-nos mais.<\/p>\n<p>O que me deixa desconfort\u00e1vel foi aperceber-me de que as pessoas com as aplica\u00e7\u00f5es de email nos seus telem\u00f3vel est\u00e3o, sistematicamente, sujeitas a serem capturadas na sua aten\u00e7\u00e3o. E ao email poder\u00edamos juntar as mensagens SMS, WhatsApp, Slack, novos posts nas redes sociais, etc. E muitos pensam que desligar as notifica\u00e7\u00f5es \u00e9 suficiente, mas n\u00e3o. Pois, desligar as notifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o elimina a ansiedade de \u2014 <em>\u00abser\u00e1 que algu\u00e9m me enviou alguma mensagem?\u00bb<\/em> \u2014 ou as impede de levar a m\u00e3o ao bolso, constantemente, por lhes parece que o telem\u00f3vel vibrou. Receio que esta incurs\u00e3o involunt\u00e1ria pelo nosso espa\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o comece a influenciar a nossa vida espiritual.<\/p>\n<p>Os argumentos para que isso n\u00e3o seja verdade s\u00e3o sempre os mesmos: \u201ceu sou imune a essas coisas.\u201d Lamento, mas ningu\u00e9m est\u00e1 imune de ver a sua aten\u00e7\u00e3o consumida e economizada (sem que nos demos conta disso). Precisamos de uma mudan\u00e7a radical nos nossos comportamentos e iniciar uma onda cultural que nos inspire a recuperar a nossa aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que entra o \u00f3cio.<\/p>\n<p>No brilhante livro \u201cS\u00f3 avan\u00e7a quem descansa\u201d, o P. Vasco Pinto de Magalh\u00e3es S.J. reflecte sobre o \u00f3cio e aprende-se muito. Por exemplo, o facto da palavra <em>\u00f3cio<\/em> ser uma tradu\u00e7\u00e3o latina da palavra grega <em>escol\u00e9<\/em>, isto \u00e9, escola. Um <em>\u00abtempo de liberdade, de escuta e interioriza\u00e7\u00e3o, de aprendizagem!\u00bb<\/em> Como diz o P. Vasco, <em>\u00abo \u201c\u00f3cio\u201d era o espa\u00e7o-tempo para fazer aquilo que vale a pena fazer e \u00e9 gratuito. (\u2026) diz-se que \u00e9 fonte de v\u00edcios\u2026 Sim, se for n\u00e3o fazer nada e tempo mal vivido! Mas aquele \u201c\u00f3cio\u201d a que se referia Arist\u00f3teles, como tempo livre e de liberdade para meditar e conversar\u2026 \u201cpasseando pelos campos\u201d, contemplando e reflectindo!\u00bb<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 assim que devia ser para o crist\u00e3o a viv\u00eancia do tempo quaresmal? Tempo para pensar se os nossos comportamentos digitais n\u00e3o estar\u00e3o a diminuir a experi\u00eancia da liberdade de acolher a vontade de Deus em cada momento? Mas h\u00e1 um aspecto que penso de modo diferente do P. Vasco. Ele iguala \u201cn\u00e3o fazer nada\u201d a \u201ctempo mal vivido\u201d, mas \u201cnada fazer\u201d nos tempos de hoje pode ser um modo libertador que adv\u00e9m de pararmos, desacelerarmos e darmos tempo \u00e0 lentid\u00e3o que \u00e9 a escala de tempo da montanha. Tempo de contempla\u00e7\u00e3o. Jesus expulsou os comerciantes que monetizavam a aten\u00e7\u00e3o das pessoas quando essas se deslocavam ao templo para rezar e estar com Deus. O que faria Jesus hoje? Talvez pegasse no nosso telem\u00f3vel e o deitasse fora.<\/p>\n<p>O que podemos n\u00f3s fazer para n\u00e3o chegarmos a esse ponto? Cabe a cada um. No meu caso, apaguei todas as aplica\u00e7\u00f5es de email do telem\u00f3vel.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-201678","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=201678"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201678\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=201678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=201678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=201678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}