{"id":200838,"date":"2021-03-03T10:16:17","date_gmt":"2021-03-03T10:16:17","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=200838"},"modified":"2021-03-03T10:16:17","modified_gmt":"2021-03-03T10:16:17","slug":"saber-aprender-a-contemplar-a-vida-a-partir-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-contemplar-a-vida-a-partir-da-morte\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A contemplar a vida a partir da morte"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Uma flor no meio de um deserto \u00e9 um \u00edcone contemplativo da vida a partir de uma paisagem de escassez e, aparentemente, de morte. Apesar do caminho da paix\u00e3o de Cristo ser um convite \u00e0 reflex\u00e3o sobre os excessos, a parar para re-centrar o nosso olhar, sentir e agir sobre o que tem valor, a meta \u00e9 a vida a partir da ressurrei\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, com esse momento da hist\u00f3ria do cristianismo e \u2014 diria \u2014 da hist\u00f3ria humana, Deus baralhou a nossa cabe\u00e7a habituada \u00e0s coisas terrenas, e n\u00e3o cessa de nos surpreender, de cada vez que pensamos nas coisas que est\u00e3o para l\u00e1 das terrenas. A ressurrei\u00e7\u00e3o veio dar uma dimens\u00e3o contemplativa \u00e0 vida a partir da morte que n\u00e3o estava \u00e0 espera.<\/p>\n<figure id=\"attachment_200839\" aria-describedby=\"caption-attachment-200839\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FlorDeserto.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-200839\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FlorDeserto.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FlorDeserto.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FlorDeserto-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FlorDeserto-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FlorDeserto-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FlorDeserto-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FlorDeserto-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FlorDeserto-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-200839\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Jill Heyer em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 2007, fui com a minha fam\u00edlia a Montet, uma pequena vila na Su\u00ed\u00e7a francesa, e fic\u00e1mos instalados numa casa ligada a uma escola de forma\u00e7\u00e3o que tinha pr\u00f3ximo um pequeno cemit\u00e9rio. As flores que nasciam em volta das campas transmitia-me mais do que simples beleza. Era uma experi\u00eancia aut\u00eantica de contempla\u00e7\u00e3o da vida alimentada por aqueles que a terra consumia ap\u00f3s terem morrido. Desde aquele momento, os cemit\u00e9rios deixaram de ser, para mim, lugares de morte, mas miradouros da vida quando deixamos que a natureza interaja com aqueles que voltaram ao p\u00f3 da terra.<\/p>\n<p>No norte da China, os cemit\u00e9rios formam uma aut\u00eantica paisagem cultural. As campas daqueles que descansam em paz s\u00e3o deixadas em paz, e a natureza segue o seu curso, livre das ideias humanas de saber como se deve cuidar desse espa\u00e7o. O resultado \u00e9 not\u00e1vel. A riqueza do n\u00famero de esp\u00e9cies vegetais e animais \u00e9 enorme. As fam\u00edlias chinesas visitam os familiares que partiram uma vez por ano (como n\u00f3s no dia 2 de novembro, Dia dos Fi\u00e9is Defuntos), mas durante o ano deixam que seja a pr\u00f3pria natureza a cuidar do cemit\u00e9rio. Assim, esse torna-se mais um s\u00edmbolo de vida do que de morte.<\/p>\n<p>A diversidade da vida depende de uma complexa rede de rela\u00e7\u00f5es entre recursos e esp\u00e9cies, e quanto mais esp\u00e9cies viverem num determinado ecossistema, maior \u00e9 a sua produtividade e resili\u00eancia. E se a natureza desperta dentro de n\u00f3s um desejo daquela suave brisa que refresca o rosto, esse desejo expressa o anseio que temos de um maior contacto com essa. No seu livro <em>Wilding<\/em>, Isabella Tree diz que dev\u00edamos \u2014 <em>\u00ababrir a caixa, deixar que os processos naturais se desenvolvam, dando amplo espa\u00e7o \u00e0s esp\u00e9cies para que se expressem [com] minima interven\u00e7\u00e3o. Deixar que a natureza se revele. E o resultado ser\u00e1 um ambiente que desconhecemos.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>O bispo da Igreja Ortodoxa, Ioannis Zizioulas, que apresentou a <em>Laudato Si\u2019<\/em> do papa Francisco, diz que \u2014 <em>\u00aba superioridade dos seres humanos (&#8230;) n\u00e3o consiste na raz\u00e3o que eles possuem, e sim na capacidade de <strong>colocar-se em rela\u00e7\u00e3o<\/strong>, de modo a <strong>criar<\/strong> situa\u00e7\u00f5es de comunh\u00e3o a partir das quais os seres individuais s\u00e3o libertados do seu ser voltado sobre si mesmos (&#8230;) e passam a ser referidos a algo mais geral do que eles mesmos, a um \u201coutro\u201d.\u00bb<\/em> Por isso, ao pensar nestas palavras e nos cemit\u00e9rios como lugares de paz onde a natureza se revela tal qual \u00e9, relembro os que foram entregues \u00e0 terra que, apesar de mortos, continuam a dar vida.<\/p>\n<p>Os lugares in\u00f3spitos dentro de n\u00f3s, onde a secura das ideias nos desorienta, ou a aus\u00eancia de emo\u00e7\u00f5es endurece o cora\u00e7\u00e3o, s\u00e3o desertos interiores que se tornam dif\u00edceis de esconder para n\u00f3s pr\u00f3prios, a n\u00e3o ser que vivamos alienados com demasiado entretenimento. Interiormente, n\u00e3o somos como a natureza e, por n\u00f3s mesmos, n\u00e3o conseguimos sobreviver e fazer florescer a vida a partir da morte interior. Ou ser\u00e1 que podemos?<\/p>\n<p>A natureza que desabrocha nos cemit\u00e9rios n\u00e3o vive para si mesma, mas vive para a rede de rela\u00e7\u00f5es que estabelece porque encontra a paz suficiente para isso. Mergulhados em tarefas e mais tarefas, compromissos e encontros virtuais, sobra pouco espa\u00e7o e tempo para deixar a vida interior fluir e amadurecer. Agora que penso nas pessoas cristificadas em vida, ao serem acolhidas pela terra, tornam-se eucaristia para o cosmos. Logo, o que poder\u00e1 Jesus fazer em n\u00f3s quando o recebemos em vida e nos transformamos n\u2019Ele? Quando comungamos, n\u00e3o seremos n\u00f3s a terra onde Ele d\u00e1 a Sua vida como h\u00f3stia para nos transformar a partir de dentro? Por que raz\u00e3o nos sentimos, ent\u00e3o, na mesma como a lesma? E mais ainda agora que muitos n\u00e3o podem comungar fisicamente o Senhor?<\/p>\n<p>Os cemit\u00e9rios d\u00e3o lugar \u00e0 biodiversidade porque nos retiramos e deixamos de controlar o ambiente. A nossa no\u00e7\u00e3o de beleza \u00e9 muito diferente da no\u00e7\u00e3o da natureza. E a no\u00e7\u00e3o da natureza gera mais biodiversidade que a nossa. Ser\u00e1 que o deserto interior prov\u00e9m da incapacidade de n\u00e3o abdicarmos do controlo que exercemos sobre o interior de n\u00f3s mesmos? Talvez o impulso a controlar as transforma\u00e7\u00f5es que ocorrem na dimens\u00e3o espiritual da nossa vida, nos impe\u00e7a de acolher aquilo que Deus quer fazer em n\u00f3s a cada momento.<\/p>\n<p>Os sinais exteriores que deslumbram o nosso olhar s\u00e3o de tal modo din\u00e2micos, com cores vivas e saturadas, que nos d\u00e3o uma sensa\u00e7\u00e3o de saciedade. Mas \u00e9 exterior. Interiormente, se n\u00e3o acolhermos aquilo que Deus quer em cada momento presente, acabamos por secar e dar vida a um deserto, ainda que n\u00e3o nos demos conta disso. Por isso, nos per\u00edodos prop\u00edcios a olhar para dentro, custa, e desviamos o olhar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso morrermos para n\u00f3s pr\u00f3prios, e fazer da morte do \u201ceu\u201d um lugar onde deixamos que a natureza espiritual se revele e a <em>noodiversidade<\/em> flores\u00e7a, isto \u00e9, a diversidade da consci\u00eancia (<em>nous<\/em>). Essa n\u00e3o subsiste por si mesma, mas precisa de entrar em rela\u00e7\u00e3o com as outras consci\u00eancia pela partilha e di\u00e1logo e, sobretudo, pela sensibilidade \u00e0 presen\u00e7a d\u2019Aquele que nos criou. Deus convida-nos a saber aprender a contemplar a vida a partir da morte de n\u00f3s mesmos para experimentarmos a unidade na noodiversidade que \u00e9 a vida da Trindade em n\u00f3s e entre n\u00f3s.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-200838","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200838","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=200838"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200838\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=200838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=200838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=200838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}