{"id":20064,"date":"2006-09-08T23:10:24","date_gmt":"2006-09-08T23:10:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/09\/08\/v-simposio-do-clero\/"},"modified":"2006-09-08T23:10:24","modified_gmt":"2006-09-08T23:10:24","slug":"v-simposio-do-clero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/v-simposio-do-clero\/","title":{"rendered":"V Simp\u00f3sio do Clero"},"content":{"rendered":"<p>Mem\u00f3ria do percurso <!--more--> Resumo dia 05  \tO primeiro dia foi dedicado sobretudo ao diagn\u00f3stico actual do contexto de actividade em que os presb\u00edteros s\u00e3o chamados a realizar o seu minist\u00e9rio e voca\u00e7\u00e3o. \tUma das tem\u00e1ticas que provocou a organiza\u00e7\u00e3o deste encontro foi a do individualismo p\u00f3s moderno reinante onde o sacerdote \u00e9 desafiado a viver o contra ponto da comunh\u00e3o. Neste cen\u00e1rio foi destacada a necessidade de conhecimento da cultura actual e dos avan\u00e7os teol\u00f3gicos de forma a chegar ao interlocutor. Isto resulta do problema levantado pela chamada quest\u00e3o da linguagem na necessidade de atingir o interlocutor culturalmente dilacerado pela ruptura entre a cultura e a f\u00e9, se bem que esta constitua por si uma oportunidade para a pr\u00f3pria f\u00e9. O nosso tempo est\u00e1 marcado pela mudan\u00e7a de alguns paradigmas de pensamento. Isto obriga a descodificar alguns conceitos e a recodificar novas linguagens que se tornam emergentes para chegarem a ser significativas e verdadeiras propostas de sentido. Tal \u00e9 imprescind\u00edvel em tempos de diasporiza\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e do cristianismo, processo este que acarreta por sua vez um processo inexor\u00e1vel de desumaniza\u00e7\u00e3o. \tA quest\u00e3o nodal ent\u00e3o consiste neste contexto em saber como se insere nesta cultura o an\u00fancio que a Igreja faz. Esta quest\u00e3o assume uma pertin\u00eancia cultural na medida em que somos filhos da modernidade da subjectividade sobretudo a partir de Kant, na qual o sujeito passou a determinar a refer\u00eancia central do conhecimento veritativo. A somar a isto, existe o fen\u00f3meno contempor\u00e2neo da seculariza\u00e7\u00e3o, horizonte em que o homem moderno surge enfraquecido nas suas convic\u00e7\u00f5es religiosas naturais criando-se um hiato entre Deus e o homem. Este hiato provocou a deriva de uma concep\u00e7\u00e3o completamente profana do mundo em que a experi\u00eancia da liberdade se torna ainda mais amb\u00edgua e \u00e9 mais sentido o eclipse de Deus. Perante esta eros\u00e3o, relativizou-se o valor da vida e o sentido escatol\u00f3gico da mesma. Foram trazidos \u00e0 cola\u00e7\u00e3o consequentemente a nova sem\u00e2ntica imanente dos conceitos de natureza e de homem. O outro p\u00f3lo do tri\u00e2ngulo em que se articula o pensamento necessariamente obriga a reflectir na pr\u00f3pria imagem de Deus que as novas gera\u00e7\u00f5es est\u00e3o a construir, sobretudo a imagem ir\u00e9nica de um Deus impessoal ou difuso. Foi salientada a t\u00e9cnica como a nova imagem t\u00e9trica de Medusa que mata os seus pr\u00f3prios filhos pois ela pretende no nosso tempo afastar a quest\u00e3o do limite. Este tabu produz a fragmenta\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da vida na ilus\u00e3o de oferecer respostas ditas cient\u00edficas ou t\u00e9cnicas para tudo. Foi salientado aqui como a vida para o homem p\u00f3s moderno corre o risco de perder o seu mist\u00e9rio. Ent\u00e3o, a subjectividade da modernidade traduz-se na substitui\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o pela emotividade como forma de compensa\u00e7\u00e3o. Ora, o presb\u00edtero \u00e9 hoje protagonista desta mudan\u00e7a epocal. Ao ser salientado como sofre tamb\u00e9m a influ\u00eancia deste ambiente, foi destacada a necessidade de redefinir (ou reafirmar) a respectiva identidade presbiteral eucar\u00edstica na fidelidade cr\u00edstica da sua voca\u00e7\u00e3o \u00fanica e unitiva imersa na encarna\u00e7\u00e3o do Filho. Isto ajudar\u00e1 \u00e0 tarefa mission\u00e1ria de provocar hoje a t\u00e3o esquecida (mas t\u00e3o desejada) quest\u00e3o da transcend\u00eancia nos nossos contempor\u00e2neos abertos ao mist\u00e9rio, a essa transcend\u00eancia. Foi real\u00e7ado como a identidade sacerdotal resulta da intimidade com Deus e da solidariedade aos irm\u00e3os, configurando-o como sinal indel\u00e9vel da miseric\u00f3rdia do perd\u00e3o do Pai, sinal t\u00e3o vis\u00edvel e desejado pelo nosso mundo, afinal, sinal esse outro do mist\u00e9rio. \tPara ajudar a viver essa identidade, foi solicitada uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o diante da globaliza\u00e7\u00e3o avassaladora onde se torna necess\u00e1rio aprender a trabalhar em rede, em comunh\u00e3o inter presbiteral, aproveitando sinergias j\u00e1 constitu\u00eddas. Isto ajudar\u00e1 a realizar outra tarefa muito importante em tempos de privatiza\u00e7\u00e3o da f\u00e9, a saber, a necessidade de uma maior visibilidade p\u00fablica da presen\u00e7a dos presb\u00edteros no meio do mundo onde levam a cabo a miss\u00e3o da profecia e da simpatia com esse mundo. Este encontro com o mundo incita \u00e0 revis\u00e3o tamb\u00e9m da pr\u00f3pria prega\u00e7\u00e3o (acossada hoje por muitos outros comunicadores muito bem preparados) e ao inconformismo joanino com alguma cultura. Foi destacado como a pr\u00f3pria viv\u00eancia da comunh\u00e3o dos presb\u00edteros entre si ser\u00e1 um meio para realizar esta miss\u00e3o. Mas ficou patente tamb\u00e9m como os pedidos que s\u00e3o dirigidos aos presb\u00edteros resultam da inoper\u00e2ncia de muitos intervenientes ou actores eclesiais com os quais os presb\u00edteros constroem a comunh\u00e3o eclesial, intervenientes esses que por vezes desconhecem o que j\u00e1 se vai fazendo ou t\u00eam de ser substitu\u00eddos por demiss\u00e3o sua dessas tarefas.        Resumo dia 06  \tO segundo dia considerou a pertin\u00eancia antropol\u00f3gica da confiss\u00e3o do Deus uno e trino, o mesmo \u00e9 dizer, se tem algum conte\u00fado esta confiss\u00e3o e como ser\u00e1 poss\u00edvel reconstruir esse conte\u00fado. Para tal foi mostrado como \u00e9 imprescind\u00edvel ultrapassar quer o formalismo kantiano (que justifica apenas com base no dever) quer o contextualismo relativista cultural (que justifica conforme as circunst\u00e2ncias) para poder dar um conte\u00fado \u00e0 confiss\u00e3o da f\u00e9 no Deus triuno e s\u00f3 assim adquirir relev\u00e2ncia pragm\u00e1tica essa mesma confiss\u00e3o, pois \u00e9 isto precisamente o que pretende oferecer o cristianismo enquanto proposta de sentido e de significabilidade para a vida concreta do sujeito hist\u00f3rico. Com isto pretendeu mostrar-se como o conte\u00fado da nossa ac\u00e7\u00e3o cont\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica \u00e0 Trindade, pois s\u00f3 assim a pr\u00f3pria confiss\u00e3o trinit\u00e1ria assume um significado fundamental de rela\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica com o nosso esfor\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o. Ora, se a compreens\u00e3o anal\u00f3gica da realidade ensina que a verdade s\u00f3 o \u00e9 ela mesma por rela\u00e7\u00e3o a outra realidade, isto significa que o acesso \u00e0 verdade da comunh\u00e3o trinit\u00e1ria poder ser mostrado como n\u00e3o sendo nem uma quimera nem auto-constru\u00eddo pela imagina\u00e7\u00e3o efabulante do sujeito crente, mas antes \u00e9 uma verdade analogicamente confessada porque percebida e recebida. Esta recep\u00e7\u00e3o \u00e9 uma alternativa cred\u00edvel a um processo un\u00edvoco e\/ou equ\u00edvoco instaurando uma analogia dial\u00f3gica entre o Criador e a criatura. Por a\u00ed, a analogia trinit\u00e1ria permite participar na comunh\u00e3o trinit\u00e1ria, permite conhecer Deus como uno e trino, isto \u00e9, como comunh\u00e3o. \tEsta participa\u00e7\u00e3o acompanha a realidade da comunh\u00e3o eclesial. O conceito de mist\u00e9rio resulta aqui como apropriado na medida em que posso conhecer algo desse mist\u00e9rio. S\u00f3 assim posso afirmar a Igreja como sacramento do mist\u00e9rio de Deus. \u00c9 necess\u00e1rio conhecer algo desse mist\u00e9rio para poder mostr\u00e1-lo. Ent\u00e3o a Igreja s\u00f3 \u00e9 mist\u00e9rio de comunh\u00e3o trinit\u00e1ria se eu puder conhecer algo desse mist\u00e9rio comunional, se for poss\u00edvel dar-lhe algum conte\u00fado. A possibilidade reside na pr\u00f3pria possibilidade da relacionalidade como conceito cred\u00edvel para a teologia trinit\u00e1ria, pois ela define o ser de Deus enquanto amor de rela\u00e7\u00e3o. Esta rela\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e, como qualquer rela\u00e7\u00e3o, a diferen\u00e7a. Aplicada \u00e0 Trindade implica uma rela\u00e7\u00e3o de actividade e outra de passividade, a primeira enquanto doa\u00e7\u00e3o fundamental de ser e a segunda enquanto recep\u00e7\u00e3o desse mesmo ser. Deus \u00e9 recep\u00e7\u00e3o e doa\u00e7\u00e3o. O seu ser \u00e9 definido a partir da rela\u00e7\u00e3o a Algu\u00e9m no seu pr\u00f3prio ser, o Filho. Foi salientada a import\u00e2ncia desta concep\u00e7\u00e3o para a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o da Igreja como sacramento e sinal de comunh\u00e3o onde \u00e9 experimentada a comunh\u00e3o eclesial tamb\u00e9m na sua modalidade presbiteral. O ser \u00e9 ser a partir de algu\u00e9m e ser para algu\u00e9m. Isto constitui a ess\u00eancia do pr\u00f3prio Deus triuno, e de ambos movimentos brota analogicamente a identidade da criatura. Esta exist\u00eancia configura-se assim no respectivo momento ken\u00f3tico. \u00c9 poss\u00edvel deste modo fugir a dois perigos: a tenta\u00e7\u00e3o da gnose eclesial dos grupos que se fechem em si mesmos porque pensam que s\u00e3o perfeitos e conhecem perfeitamente o mist\u00e9rio, e o perigo de uma vis\u00e3o exteriorizada da Igreja apenas como enviada ao mundo. O primeiro perigo consiste na sectariza\u00e7\u00e3o e no individualismo (riscos permanentes das comunidades eclesiais) daqueles que se consideram os salvos ou os eleitos. O segundo perigo conduz ao activismo ou \u00e0 perda da identidade na desfigura\u00e7\u00e3o de uma mundaniza\u00e7\u00e3o da Igreja na qual ela perde o seu centro e deixa de viver a partir do seu centro para passar a viver a partir apenas do mundo (ab extra). A Igreja perderia assim o seu sentido se perdesse o objectivo que \u00e9 construir a comunh\u00e3o. Mas \u00e9 um facto, como foi notado, que a Igreja n\u00e3o se pode fechar sobre si mesma. \u00c0 imagem da Trindade ela procede de uma miss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao Outro e aos outros, o que indica como a comunh\u00e3o eclesial \u00e9 uma di\u00e1logo n\u00e3o s\u00f3 na origem mas tamb\u00e9m de destino, a partir do Outro e para o Outro, em rela\u00e7\u00e3o aos outros e para os outros. A comunh\u00e3o eclesial de que o presb\u00edtero participa \u00e9 constru\u00edda na rela\u00e7\u00e3o a partir de Deus (ab intra) e na rela\u00e7\u00e3o a partir do Filho (ab extra) tornando-a numa rela\u00e7\u00e3o ex-c\u00eantrica (a partir do centro) e para o centro. Foi salientado como esta rela\u00e7\u00e3o de ex-centricidade se constitui como uma rela\u00e7\u00e3o diferenciadora que supera a l\u00f3gica da uniformiza\u00e7\u00e3o segundo a l\u00f3gica do poder ou da indiferen\u00e7a segundo a l\u00f3gica da anarquia. Foram aqui evocados os perigos do puritanismo e do sectarismo quando n\u00e3o \u00e9 respeitada esta rela\u00e7\u00e3o diferenciadora que est\u00e1 na medula da pr\u00f3pria comunh\u00e3o eclesial. No entanto, no outro p\u00f3lo, n\u00e3o foi esquecida a pr\u00f3pria natureza te\u00e2ndrica da Igreja enquanto esta n\u00e3o exime destes riscos, pois ela est\u00e1 constru\u00edda na dramaticidade do tempo e nas perturba\u00e7\u00f5es dos limites da humana condi\u00e7\u00e3o, o que condiciona naturalmente a participa\u00e7\u00e3o na comunh\u00e3o trinit\u00e1ria. De facto, n\u00e3o se pode deixar de ter presente o car\u00e1cter amb\u00edguo do mundo que constitui a pr\u00f3pria Igreja, o que a diferencia da pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica da Trindade. \tNeste quadro, foram apenas evocados alguns p\u00f3los de rela\u00e7\u00e3o do presb\u00edtero: uma rela\u00e7\u00e3o filial ao bispo atrav\u00e9s de uma hist\u00f3ria de tradi\u00e7\u00e3o que o liga a uma rela\u00e7\u00e3o de origem e de destino, rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade eclesial numa miss\u00e3o de paternidade ou de maternidade, rela\u00e7\u00e3o polarizada no seio das pessoas ou dos grupos da pr\u00f3pria comunidade, rela\u00e7\u00e3o vivida nas pr\u00f3prias comunidades representadas no presb\u00edtero, rela\u00e7\u00e3o a toda a comunidade humana, e rela\u00e7\u00e3o com a Igreja de Roma e o respectivo Bispo e nela com a Igreja universal. \tEstes p\u00f3los e esta analogia constituem o ponto de partida com que Enzo Bianchi reflectiu o ser presbiteral como comunh\u00e3o em si mesmo. Adoptou os conceitos de fraternidade e de sinodalidade para ultrapassar os perigos da colegialidade enquanto perigo de corporativismo. O conceito de sinodalidade permite pensar a Igreja como caminho conjunto em que todos s\u00e3o um s\u00f3 corpo em Cristo. Este conceito ajuda a pensar o presb\u00edtero como n\u00e3o dependente do bispo, pois ambos possuem a mesma miss\u00e3o. Foi pedida aos bispos uma maior audi\u00e7\u00e3o dos presb\u00edteros decorrente desta comum miss\u00e3o de sinodalidade, de constru\u00e7\u00e3o de um caminho conjunto. Recordou-se neste contexto que o governo da Igreja n\u00e3o se pode sobrepor \u00e0 vida comungada com os presb\u00edteros, pois estes devem ser a primeira preocupa\u00e7\u00e3o para os bispos. Foi tamb\u00e9m avisado como a vida em comunh\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nem rom\u00e2ntica nem id\u00edlica (como por vezes o discurso parece fazer crer), mas comporta sacrif\u00edcios, fatiga, dedica\u00e7\u00e3o e paci\u00eancia. Este esfor\u00e7o passa por viver uma nota peculiar do cristianismo \u2013 viver o amor antes do conhecimento \u2013 amar o outro antes de o conhecer como forma radical de comunh\u00e3o com o outro que para mim \u00e9 um dom de Deus. Os presb\u00edteros poder\u00e3o ent\u00e3o construir novas formas de vida em comum, em comunh\u00e3o, em comum uni\u00e3o. Mas Enzo Bianchi, ainda que tenha pedido que estas formas n\u00e3o sejam monacalizadas, n\u00e3o deixa de pensar nesse modelo que ele pr\u00f3prio vive. Assim, prop\u00f4s a constitui\u00e7\u00e3o de unidades operativas de v\u00e1rias par\u00f3quias, tamb\u00e9m chamadas unidades pastorais, o que ajudar\u00e1 a superar o individualismo moderno, a autarquia paroquial ou presbiteral bem como o medo destas novas realidades, onde ser\u00e1 poss\u00edvel respeitar a pr\u00f3pria humanidade dos presb\u00edteros. \tA realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica destes objectivos avaliou a realidade dos conselhos paroquiais e dos conselhos presbiterais. Foi notada a desilus\u00e3o perante a situa\u00e7\u00e3o presente dos mesmos, mas n\u00e3o deixaram de ser pensados na respectiva origem como organismos de comunh\u00e3o e de corresponsabilidade, e n\u00e3o como sindicatos, montras, adere\u00e7os, ou espa\u00e7os para fazer funcionar ou obter uma maioria. S\u00e3o espa\u00e7os de teste da pr\u00f3pria comunh\u00e3o eclesial. Foram apresentados casos particulares. Por eles foi salientada a necessidade da paci\u00eancia, da boa prepara\u00e7\u00e3o dos mesmos, da exig\u00eancia de serem espa\u00e7os intelectualmente habit\u00e1veis e eticamente respons\u00e1veis onde \u00e9 poss\u00edvel a cont\u00ednua negocia\u00e7\u00e3o e onde a comunidade crist\u00e3 \u00e9 constru\u00edda. Por isso, n\u00e3o s\u00e3o meros \u00f3rg\u00e3os consultivos. S\u00e3o espa\u00e7o privilegiado de concerta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deve tanto fazer mas pensar a consci\u00eancia cr\u00edtica e o modelo morfol\u00f3gico da comunidade. Dia 07  \tNo terceiro dia pensou-se a comunidade como lugar de unidade, de diversidade e de pluralidade a partir da diferen\u00e7a no pr\u00f3prio Deus. Enzo Bianchi adoptou o conceito de \u201ctriunidade\u201d para significar esta realidade de um Deus que n\u00e3o \u00e9 estranho \u00e0 nossa vis\u00e3o do mundo, do homem e da hist\u00f3ria. Pensar este mist\u00e9rio triuno possibilita conhecer n\u00e3o s\u00f3 Deus quanto o humano. O conceito de mist\u00e9rio foi assumido na sua raiz b\u00edblica de desvelamento, de algo que n\u00e3o \u00e9 enigma mas abertura de sentido e de revela\u00e7\u00e3o iniciada sem esgotar a realidade cujo sentido entreabre. \tFoi salientada a caracter\u00edstica espec\u00edfica da revela\u00e7\u00e3o divina na f\u00e9 crist\u00e3 cuja profiss\u00e3o assenta num Deus que fala e que ama, o que constitui uma marca radicalmente diferenciadora face \u00e0s restantes tradi\u00e7\u00f5es religiosas. A raz\u00e3o anselmiana foi apresentada e pensada al\u00e9m da motiva\u00e7\u00e3o soteriol\u00f3gica de um Deus que encarna para salvar e al\u00e9m da gra\u00e7a divinizante oriental de um Deus que encarna para fazer o homem divino participante da pluralidade triunit\u00e1ria. Assim, a encarna\u00e7\u00e3o d\u00e1 in\u00edcio a uma hist\u00f3ria, introduz num processo de diferencia\u00e7\u00e3o. O Deus em Si mesmo diferente torna-nos diferentes. Neste contexto foi reflectido o elemento do \u201cterceiro\u201d como aquele que perfaz a unidade e a diferen\u00e7a para al\u00e9m da reciprocidade fechada entre um \u201ceu\u201d e um \u201ctu\u201d t\u00e3o a gosto da mentalidade rom\u00e2ntica contempor\u00e2nea. Este elemento \u00e9 importante porque comporta consequ\u00eancias a n\u00edvel social e pol\u00edtico. A deriva orientalizante na busca contempor\u00e2nea das espiritualidades orientais resulta precisamente da aus\u00eancia deste terceiro como o elemento diferenciador. Aqui assume lugar primacial o lugar do Esp\u00edrito Santo na teologia crist\u00e3 e na espiritualidade eclesial como espa\u00e7os de viv\u00eancia do Diferente, por isso mesmo espa\u00e7os de abertura ao Diferente e \u00e0 diferen\u00e7a. Ao n\u00edvel eclesial, o Diferente traduz-se na recep\u00e7\u00e3o do outro. A problem\u00e1tica da alteridade foi bastante desenvolvida ao longo destes dias, e ressoa como o pano de fundo teol\u00f3gico e espiritual que aparece como desejo de implementa\u00e7\u00e3o. Este simp\u00f3sio alertou para o lugar eclesial do outro enquanto dom e possibilidade de participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio triunit\u00e1rio do nosso Deus plural. Pretendeu-se deste modo superar o monolitismo eclesiol\u00f3gico, a uniformidade ou algum tom ditatorial. A Diferen\u00e7a triunit\u00e1ria instaura o diferente humano como o lugar da comunh\u00e3o, o mesmo \u00e9 dizer, o humano como o lugar da comunh\u00e3o. Neste sentido, a comunh\u00e3o eclesial ultrapassa atitudes defensivas de receio ou condena\u00e7\u00f5es fechadas ao diferente. Estes foram sentidos como os riscos permanentes da comunh\u00e3o eclesial e das nossas rela\u00e7\u00f5es, pois muitas vezes receamos o diferente, dele nos afastamos ou recusamos, pois n\u00e3o \u00e9 percebida a natureza matricial da comunidade eclesial enquanto \u00e9 constitu\u00edda na pluralidade mesma. A diversidade na Igreja e entre as comunidades eclesiais \u00e9 constitutiva da mesma. \tFoi aqui colocada a quest\u00e3o nodal a partir da tradi\u00e7\u00e3o joanina: se os crist\u00e3os se distinguem por serem aqueles que cr\u00eaem no amor, o que dizer de n\u00f3s? A pergunta foi atirada directamente \u00e0 assembleia. Foi distinguido o amor abstracto do exerc\u00edcio concreto dos amantes. A tem\u00e1tica do amor acabou por servir para redizer a comunh\u00e3o eclesial. Recorreu-se igualmente aos dados da antropologia (como deve ser com qualquer discurso minimamente consistente) para mostrar o h\u00famus humano da recep\u00e7\u00e3o da identidade na alteridade: o rosto e o nome s\u00e3o conhecidos pelo outro e por esse outro a eles acedemos, e por a\u00ed \u00e0 identidade de n\u00f3s mesmos. A analogia do primeiro dia foi aqui recuperada na medida em que somos no rosto e no nome modelados \u00e0 imagem da triunidade de Deus. \tEstando esta alteridade na base da matriz crist\u00e3, foi considerada como fundamental para ajudar a transmitir a f\u00e9 crist\u00e3 \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es nesta \u00e9poca de ruptura da mem\u00f3ria. Elencaram-se alguns sinais dessa crise: redu\u00e7\u00e3o das ordena\u00e7\u00f5es e das voca\u00e7\u00f5es religiosas, redu\u00e7\u00e3o da Igreja a um movimento, disparidade entre o evangelho e a vida, esquecimento que a f\u00e9 crist\u00e3 proporciona uma sabedoria concreta de vida. \u00c9 este amor sapiencial que permitir\u00e1 fazer do cristianismo uma proposta de vida aut\u00eantica. A exequibilidade do evangelho e do projecto do reino de Jesus ser\u00e1 a proposta que dar\u00e1 consist\u00eancia cultural e cr\u00e9dito ao an\u00fancio da Igreja perante o grande risco do nosso tempo \u2013 o da indiferen\u00e7a (esse inquilino estranho na Europa em que Deus parece que deixou de ser necess\u00e1rio). O amor obriga hoje a coloc\u00e1-Lo n\u00e3o no espa\u00e7o dos ritos nem dos dogmas mas da pura gratuidade. O cristianismo n\u00e3o pode ser dilu\u00eddo numa \u00e9tica, n\u00e3o pode regredir para o restauracionismo nem deixar-se instrumentalizar pelo poder. O amor contra a morte e mais forte do que ela narrar\u00e1 a ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor, a gratuidade de Deus, a possibilidade de continuar a fazer ressurgir a vida amando at\u00e9 ao fim. O cristianismo tornar-se-\u00e1 assim o testemunho e o an\u00fancio sedutor de uma maneira diferente de ser homem. Algumas experi\u00eancias concretas de caminhos diferentes que amam e constroem a comunh\u00e3o eclesial foram apresentados como experi\u00eancias concretas dessa comunh\u00e3o enriquecedora na diferen\u00e7a, e mostraram como afinal \u00e9 poss\u00edvel viver a comunh\u00e3o. F\u00e1tima 08-09-2006 Jos\u00e9 Carlos Carvalho (jcarvalho@porto.ucp.pt)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mem\u00f3ria do percurso<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[187,199,203,207,268,314,321],"class_list":["post-20064","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-diocese-do-porto","tag-espiritualidade","tag-europa","tag-fatima","tag-nova-evangelizacao","tag-solidariedade","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20064"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20064\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}