{"id":20029,"date":"2006-09-07T10:46:06","date_gmt":"2006-09-07T10:46:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/09\/07\/taize-sempre\/"},"modified":"2006-09-07T10:46:06","modified_gmt":"2006-09-07T10:46:06","slug":"taize-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/taize-sempre\/","title":{"rendered":"Taiz\u00e9, sempre"},"content":{"rendered":"<p>Taiz\u00e9: duas s\u00edlabas muito curtas, quase secas, que se tocam por um instante. Como uma pontua\u00e7\u00e3o sonora. Um nome para condensar o essencial, para expressar o indiz\u00edvel. Taiz\u00e9 para estar em sil\u00eancio e Taiz\u00e9 para ser falado! Taiz\u00e9 para vir, por milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, h\u00e1 quase dois ter\u00e7os de s\u00e9culo. Taiz\u00e9 para partir, cheios de algo invis\u00edvel. Taiz\u00e9 para as gera\u00e7\u00f5es. Longe de Taiz\u00e9 fica algo de Taiz\u00e9 naqueles que alguma vez l\u00e1 passaram. Momentos de luz; sil\u00eancios dos quais nos pens\u00e1vamos incapazes; tra\u00e7os de amizades an\u00f3nimas; olhares que dir\u00edamos serem quase demasiado brilhantes para serem humanos; rostos incont\u00e1veis, frequentemente jovens; tamb\u00e9m remorsos por termos tanto e tantas vezes negligenciarmos o sentido da vida. Tra\u00e7os dos outros e de si mesmo. Temos todos algo de Taiz\u00e9 no fundo cora\u00e7\u00e3o. Temos todos, nos tortuosos registos das nossas mem\u00f3rias, etapas feitas em Taiz\u00e9, em diferentes datas que se sobrep\u00f5em nas recorda\u00e7\u00f5es. Caminhos sinuosos da bonita Borgonha, luz dourada das colinas no fim do Ver\u00e3o, quando a natureza aspira \u00e0s chuvas que tardam a chegar, casas de pedra que dir\u00edamos estarem aqui desde a eternidade; sinos que, longe de romperem o sil\u00eancio, o sublinham enfaticamente. Acolhimento, servi\u00e7o, c\u00e2nticos conhecidos e reconhecidos, \u00edcones, a paz colorida da igreja da Reconcilia\u00e7\u00e3o. Quem passou um dia por Taiz\u00e9 diz sempre que tem que voltar. E quem diz isso e n\u00e3o o faz sabe, sem nunca o esquecer, que Taiz\u00e9 est\u00e1 ali, longe das grandes euforias do tempo, dispon\u00edvel, como se estivesse de servi\u00e7o aqui na terra. Lanterna perp\u00e9tua no oceano de uma humanidade agitada e perturbadora. Vigilante na noite das actualidades e das trag\u00e9dias colectivas ou pessoais. Stress, ambi\u00e7\u00f5es, disputas, batalhas por isto e por aquilo, obsess\u00f5es pelo dinheiro e pelo poder, emo\u00e7\u00f5es ao acaso, apegos oscilantes, vacuidade das modas e das futilidades da tagarelice medi\u00e1tica: tudo o que acontece longe de Taiz\u00e9, tudo o que fervilha ruidosamente e faz furor longe desta colina que se tornou sagrada, anula-se aqui. Reconcilia\u00e7\u00e3o? Sim, mas antes de tudo reconcilia\u00e7\u00e3o consigo mesmo. Em todo o caso, com essa parte de si que, oportunamente, quando as tempestades amea\u00e7am as vidas, nos diz: basta, agora precisas de um pouco de sil\u00eancio! Escuta o que te fala no sil\u00eancio. Escuta quem te fala.  <b>Madeira<\/b> Era um caix\u00e3o de madeira branca, muito simples: porqu\u00ea ser complicado e pretensioso quando tudo acaba e tudo come\u00e7a? Madeira dos pobres. Madeira da cruz. Transportado pelos irm\u00e3os de Taiz\u00e9, no sil\u00eancio de Taiz\u00e9, entre milhares de pessoas silenciosas, atravessou duas vezes, na ter\u00e7a-feira, a igreja da Reconcilia\u00e7\u00e3o. O irm\u00e3o Roger, Roger Schutz, morto aos noventa anos com uma faca, fazia h\u00e1 uma semana, neste caix\u00e3o, a sua \u00faltima prociss\u00e3o. No pr\u00f3prio local onde tinha morrido, durante uma ora\u00e7\u00e3o da noite. Estava na idade para ser v\u00edtima? Ter\u00e1 sido o ponto final do mart\u00edrio que este incidente provocou a esta longa vida terrestre? Em Taiz\u00e9, em nenhum momento se experimentou ou ressentiu um sentimento de c\u00f3lera, nem de revolta, nem de injusti\u00e7a face ao crime e face ao absurdo deste acto. \u00c9 que Taiz\u00e9 j\u00e1 se tinha reconciliado com a autora da morte. A tal ponto que ela foi nomeada nas intercess\u00f5es, de forma forte, s\u00f3bria e expl\u00edcita. E que foi dito aos jovens romenos, aqui sempre em grande n\u00famero, que a Rom\u00e9nia \u00e9 aqui amada, tal como a terra inteira. E at\u00e9 mais. Como se Taiz\u00e9 encontrasse nesse crime e no seu perd\u00e3o imediato o expoente m\u00e1ximo da evid\u00eancia da sua funda\u00e7\u00e3o. Como se Taiz\u00e9 tivesse sido criado, h\u00e1 sessenta e quatro anos, para ir at\u00e9 este acontecimento, afirmando que a esperan\u00e7a \u00e9 mais forte do que o mal e mais s\u00f3lida do que a morte. Como para dizer que Taiz\u00e9 tinha raz\u00e3o.  <b>Mestre<\/b> O irm\u00e3o Roger n\u00e3o era um pensador, no sentido em que certas pessoas s\u00e3o capazes de criar escolas de pensamento. N\u00e3o era um te\u00f3rico no sentido de criar conceitos para fazer reflectir longamente. Ele era algu\u00e9m que acompanhava, uma esp\u00e9cie de guia que nos pega pela m\u00e3o e nos conduz por caminhos dos quais desconhec\u00edamos a extens\u00e3o e o destino. Ele dizia coisas simples e claras. Os seus livros e as suas medita\u00e7\u00f5es eram escritos numa linguagem simples, l\u00facida, sem pretens\u00e3o nem artif\u00edcios rebuscados. Ele meditava modestamente. E deve ser por isso que algumas pessoas consideravam que a tudo isso faltava subst\u00e2ncia, que havia, nos seus escritos, gentileza, bondade, virtudes morais e pessoais, mas pouca erudi\u00e7\u00e3o e aprofundamento. O caminho f\u00e1cil! Ele falava \u00e0 humanidade inteira, e particularmente a essa parte da humanidade sempre presente e sempre a renovar-se a si mesma que \u00e9 a juventude, em quem ele tinha uma confian\u00e7a infinita. E n\u00e3o se enche a juventude com dogmas r\u00edgidos ou com considera\u00e7\u00f5es complexas. E a evid\u00eancia evang\u00e9lica, se n\u00e3o tiver o gosto e a forma evidente, parece pesada, oprime, apresenta-se mais como um dever do que com entusiasmo. Irm\u00e3o, mestre, pai, mesmo av\u00f4, guia? Tudo isto, certamente, mas principalmente o modesto papel daquele que, \u00e0 frente do grupo, sust\u00e9m bem alto a lanterna que ilumina o caminho e diz: olhem bem, venham por este caminho, sigam-me. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que isso \u00e9 que \u00e9 ser um profeta. N\u00e3o um s\u00e1bio. O profeta n\u00e3o se faz munir de uma biblioteca inteira, n\u00e3o tem jurisdi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o avan\u00e7a num trono de jurisprud\u00eancia, n\u00e3o tem compatibilidades, n\u00e3o vela constantemente sobre o estado do seu poder, n\u00e3o percorre os est\u00fadios de televis\u00e3o, mas centra-se no essencial: eis aquilo que, na minha opini\u00e3o, pode dar sentido \u00e0 vida. Ele revela o sentido e indica a direc\u00e7\u00e3o. Depois cabe a cada um escolher, escolher-se. O irm\u00e3o Roger ter\u00e1 sido, sem d\u00favida, um dos maiores dos nossos contempor\u00e2neos. Aquele de tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es, as tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es que se aglomeraram ter\u00e7a-feira, sob a chuva miudinha de Taiz\u00e9, para o seguir, mais uma vez. N\u00e3o o fundador de um imp\u00e9rio, n\u00e3o um poderoso da ind\u00fastria ou do com\u00e9rcio, n\u00e3o um vaidoso da celebridade medi\u00e1tica, n\u00e3o um opulento do patrim\u00f3nio e dos bens ef\u00e9meros. N\u00e3o deixou nada concreto, material, palp\u00e1vel ou negoci\u00e1vel. Fundou uma parcela da humanidade, como se tivesse reinventado uma forma de se ser humano. Com palavras de todos. \u00abSanto subito!\u00bb, pedia um cartaz na ter\u00e7a-feira, no meio da multid\u00e3o. Como em Roma para o Papa Jo\u00e3o Paulo II. Um cartaz sorridente, certamente t\u00e3o ir\u00f3nico quanto sincero. Se ele ali estivesse de p\u00e9, em vez de deitado no seu caix\u00e3o de madeira branca, teria sorrido e pedido que o retirassem. N\u00e3o importa: se n\u00e3o havia santidade nesse homem, onde haver\u00e1?  <i>Bruno Frappat, jornal \u00abLa Croix\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Taiz\u00e9: duas s\u00edlabas muito curtas, quase secas, que se tocam por um instante. Como uma pontua\u00e7\u00e3o sonora. Um nome para condensar o essencial, para expressar o indiz\u00edvel. Taiz\u00e9 para estar em sil\u00eancio e Taiz\u00e9 para ser falado! 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