{"id":200247,"date":"2021-02-24T14:31:34","date_gmt":"2021-02-24T14:31:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=200247"},"modified":"2021-02-24T14:31:34","modified_gmt":"2021-02-24T14:31:34","slug":"saber-aprender-a-ser-mais-com-menos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-ser-mais-com-menos\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A ser mais com menos."},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Na quaresma privamo-nos de doces, carnes, redes sociais (segundo uma investiga\u00e7\u00e3o da DecisionData em 2019), e tudo para examinarmos o que tem mais valor espiritual na nossa vida. Por\u00e9m, o que a quaresma sempre representou para um crist\u00e3o, come\u00e7a a revelar-se uma verdade universal humana. Por exemplo, existem estudos que procuraram perceber melhor que experi\u00eancia fazemos quando nos privamos de algumas coisas. Pensemos no chocolate que sabe melhor depois de um tempo de priva\u00e7\u00e3o. Ou quando se diz que a espera aumenta o desejo significa que a dificuldade sentida com a priva\u00e7\u00e3o interessa menos do que o efeito que essa tem sobre a nossa felicidade. A finalidade da priva\u00e7\u00e3o quaresmal \u00e9 sermos e experimentarmos mais com menos. Como os minimalistas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_200248\" aria-describedby=\"caption-attachment-200248\" style=\"width: 1175px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/sarah-dorweiler-x2Tmfd1-SgA-unsplash-ecclesia.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-200248 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/sarah-dorweiler-x2Tmfd1-SgA-unsplash-ecclesia.jpg\" alt=\"\" width=\"1175\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/sarah-dorweiler-x2Tmfd1-SgA-unsplash-ecclesia.jpg 1175w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/sarah-dorweiler-x2Tmfd1-SgA-unsplash-ecclesia-382x260.jpg 382w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/sarah-dorweiler-x2Tmfd1-SgA-unsplash-ecclesia-1024x697.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/sarah-dorweiler-x2Tmfd1-SgA-unsplash-ecclesia-768x523.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/sarah-dorweiler-x2Tmfd1-SgA-unsplash-ecclesia-1080x735.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/sarah-dorweiler-x2Tmfd1-SgA-unsplash-ecclesia-980x667.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/sarah-dorweiler-x2Tmfd1-SgA-unsplash-ecclesia-480x327.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1175px) 100vw, 1175px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-200248\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Sarah Dorweiler em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>O minimalismo \u00e9 uma ferramenta para nos ajudar a encontrar a liberdade. Os receios que temos, as preocupa\u00e7\u00f5es, a culpa, a depress\u00e3o, s\u00e3o o resultado da acumula\u00e7\u00e3o de coisas materiais. A liberdade que o minimalismo oferece \u00e0 cultura do consumo que usa e descarta, n\u00e3o implica n\u00e3o possuir coisas, mas possuir as coisas essenciais que trazem real valor \u00e0 nossa vida e nos fazem experimentar a liberdade. E o que abunda na liberdade? Jesus disse \u2014 <em>\u00abEu vim para que tenham vida e a vida em abund\u00e2ncia.\u00bb<\/em> Logo, na liberdade abunda a vida. Por isso, n\u00e3o precisamos de mais coisas, mas de menos para criar o espa\u00e7o interior que acolhe a vida que prov\u00e9m do essencial.<\/p>\n<p>Esse <em>menos<\/em> que cria espa\u00e7o interior pode n\u00e3o se referir somente a coisas, ou actividades, mas tamb\u00e9m ao que flui pelo espa\u00e7o e pelo tempo. O naturalista Sir David Attenborough disse numa recente entrevista que uma das coisas que poder\u00edamos fazer para restaurar o nosso relacionamento com a natureza \u00e9, naturalmente, parar. Sentar. Ficar quieto. Esperar 10 minutos. A tend\u00eancia de tudo o que se move \u00e9 manter-se em movimento. Mas a vida interior n\u00e3o se move da mesma maneira que a vida exterior. Enquanto n\u00e3o soubermos parar e deixar os pensamentos e emo\u00e7\u00f5es interiores flu\u00edrem, a vida interior continua \u00e0 espera do nosso sinal para caminhar em frente.<\/p>\n<p>A facilidade com que estamos presentes em todo o tipo de reuni\u00f5es e encontros por Zoom, parados, sentados, a ouvir ou a falar, acabam por preencher muito do nosso tempo, enquanto fechados no mesmo espa\u00e7o. E quando as sess\u00f5es necess\u00e1rias terminam, mantemo-nos conectados, com o olhar fixo no ecr\u00e3 de cores saturadas. Ser\u00e1 que isso nos ajuda a reflectir e a examinar a nossa consci\u00eancia? Talvez. Podemos estar a ver um v\u00eddeo em jeito de medita\u00e7\u00e3o. Ou a escrever uma mensagem para algu\u00e9m como manifesta\u00e7\u00e3o do desejo de proximidade. Mas fico sempre intrigado como Jesus deixa tudo para peregrinar pelo deserto onde abunda a escassez dos ritmos fren\u00e9ticos advenientes dos fluxos de informa\u00e7\u00e3o. No deserto vive-se do essencial e do momento presente.<\/p>\n<p>O <em>menos<\/em> que nos ajuda a <em>ser mais<\/em> pode viver-se nos momentos anal\u00f3gicos da nossa vida. Por exemplo, quando \u00e9 necess\u00e1rio arrumar a cozinha, fazer a cama, estender a roupa, ou dar uma arruma\u00e7\u00e3o geral numa divis\u00e3o da casa, n\u00e3o \u00e9 que seja uma actividade que exija muito da nossa aten\u00e7\u00e3o. Por isso, s\u00e3o oportunidades anal\u00f3gicas para pensar na vida interior, e nas escolhas que fazemos do modo como alimentamos, ou n\u00e3o, a nossa vida de ora\u00e7\u00e3o e de uni\u00e3o com Deus. Confesso que devia aproveitar melhor estes momentos.<\/p>\n<p>Uma outra forma anal\u00f3gica de criar momentos de reflex\u00e3o pode ser quando escrevemos num caderno o que passarei a chamar de <em>p\u00e1ginas pessoais<\/em>. H\u00e1 alguns anos que pratico as \u201cp\u00e1ginas matinais\u201d, onde escrevo tr\u00eas p\u00e1ginas, diariamente, de tudo aquilo que me passa pela cabe\u00e7a. Por\u00e9m, como o matinal por vezes n\u00e3o se proporciona, comecei a escrever \u00e0 tarde, ou at\u00e9 \u00e0 noite, pois, o que importa \u00e9 escrever. Depois, nem sempre consigo ter for\u00e7a para escrever as tr\u00eas p\u00e1ginas, mas, no m\u00ednimo, uma p\u00e1gina \u00e9 poss\u00edvel. Por essa liberdade de escrever em qualquer momento do dia, e no m\u00ednimo uma p\u00e1gina at\u00e9 um m\u00e1ximo de tr\u00eas, em vez de p\u00e1ginas matinais, passei a designar este h\u00e1bito por <em>p\u00e1ginas pessoais<\/em>. E um modo de criar este h\u00e1bito di\u00e1rio, at\u00e9 por menos do que uma p\u00e1gina que, para muitas pessoas, ainda \u00e9 muito, basta come\u00e7ar com uma frase. Uma frase dedicada \u00e0 gratid\u00e3o. Como se respond\u00eassemos \u00e0 pergunta simples: \u201choje, por que estou grato?\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 quem argumente que a tecnologia possui todos os tra\u00e7os de quem ganha vida pr\u00f3pria. Penso na obra de Kevin Kelly intitulada <em>What Technology Wants<\/em> (O que a tecnologia quer). Mas George Dyson no seu livro <em>Analogia<\/em>, dedicado \u00e0 emerg\u00eancia da tecnologia para al\u00e9m do controlo program\u00e1vel, refere que, no universo anal\u00f3gico, o tempo \u00e9 um cont\u00ednuo. E, por isso, quaisquer dois momentos, n\u00e3o importa qu\u00e3o pr\u00f3ximos estejam um do outro, possuem uma infinitude de outros momentos entre si. Por\u00e9m, no universo digital, por contraste ao anal\u00f3gico, o tempo n\u00e3o \u00e9 um cont\u00ednuo, mas feito de contagens finitas de eventos, sem quaisquer outros eventos entre si. S\u00e3o momentos pontuais.<\/p>\n<p>A tecnologia vive de momentos contados, sem um cont\u00ednuo entre si. N\u00f3s, humanos, \u00e9 que introduzimos a no\u00e7\u00e3o de tempo no universo digital com os rel\u00f3gios (<em>clock<\/em>) no interior dos dispositivos que marcam a obriga\u00e7\u00e3o de realizar opera\u00e7\u00f5es com uma determinada velocidade. De facto, um computador conta mais os eventos do que o tempo em que ocorrem. Pois, para as m\u00e1quinas, que importa o tempo? Por isso, diz Dyson que \u2014 <em>\u00abpara os observadores no nosso universo, o universo digital, regulado por \u201cciclos temporais\u201d cada vez mais r\u00e1pidos, parece estar a acelerar, a fazer mais e mais num dado intervalo de tempo cont\u00ednuo. Para os observadores no universo digital, o nosso universo, a fazer cada vez menos num dado n\u00famero de incrementos, parece estar a desacelerar.\u00bb<\/em> Em s\u00edntese, n\u00f3s sentimos que a tecnologia cresce na sua capacidade de processar informa\u00e7\u00e3o, enquanto do ponto de vista da tecnologia, o ser humano \u00e9 cada vez mais lento a processar informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um sinal da necessidade de parar para pensar e equilibrar.<\/p>\n<p>Quem pensa que n\u00e3o tem tempo para se dedicar \u00e0 dimens\u00e3o anal\u00f3gica da vida, porque tem demasiadas coisas a fazer, ou a atender, na dimens\u00e3o digital, pode n\u00e3o ver o valor que tem o tempo dedicado a fazer menos. Sente que se atrasa nos seus prop\u00f3sitos, mas precisa de se dar conta de que, assim, vive para o tempo, em vez de viver o tempo que lhe \u00e9 dado.<\/p>\n<p>Fazer menos com o tempo cont\u00ednuo que nos \u00e9 dado, abre o espa\u00e7o interior para pensar sobre as coisas que trazem real valor \u00e0 nossa vida e a tornam profunda. E uma vida profunda \u00e9 o sinal concreto de como podemos aprender a ser mais com menos.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-200247","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200247","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=200247"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200247\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=200247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=200247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=200247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}