{"id":19997,"date":"2006-09-05T12:42:16","date_gmt":"2006-09-05T12:42:16","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/09\/05\/ecos-de-uma-experiencia-missionaria-na-guine\/"},"modified":"2006-09-05T12:42:16","modified_gmt":"2006-09-05T12:42:16","slug":"ecos-de-uma-experiencia-missionaria-na-guine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ecos-de-uma-experiencia-missionaria-na-guine\/","title":{"rendered":"Ecos de uma Experi\u00eancia Mission\u00e1ria na Guin\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Quando foi acordada com os Espiritanos e com o meu Bispo a minha ida para a Guin\u00e9, n\u00e3o sabia que partir era t\u00e3o dif\u00edcil! Partir obriga a sufocar aquela voz que teima em gritar dentro de n\u00f3s o imperativo fica; Partir implica soltar amarras do porto das nossas seguran\u00e7as e fazer-se ao mar do desconhecido em barco de insufici\u00eancias adivinhando tempestades sem que para elas se esteja totalmente preparado; Partir \u00e9 partirmo-nos por dentro e darmos a Deus os bocados da fragmenta\u00e7\u00e3o; Partir \u00e9 vencer a indecis\u00e3o com a decis\u00e3o e ganhar a batalha travada com o velho do Restelo expulsando-o da nossa p\u00e1tria interior desfraldando a bandeira da nossa liberdade; Partir \u00e9, como Maria, ouvir o Anjo interior, dizer-lhe SIM sem entender o mist\u00e9rio todo e p\u00f4r-se a caminho para levar aos outros o Amor de que estamos fecundados; Partir n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e obriga a p\u00f4r um pesco\u00e7o de a\u00e7o para evitar que a cabe\u00e7a rode e olhe para tr\u00e1s. Partir para a Miss\u00e3o na Guin\u00e9 n\u00e3o foi uma can\u00e7\u00e3o de embalar, mas uma descolagem mais dolorosa do que aquilo que eu pensava que veio a revelar-se um dom ainda mais extraordin\u00e1rio do que aquilo que eu tinha imaginado e que s\u00f3 agora vou compreendendo e agradecendo a Deus. Se partir foi dif\u00edcil, chegar e ficar n\u00e3o o foi menos. As saudades, o calor, que na Guin\u00e9 \u00e9 insuport\u00e1vel, os mosquitos que s\u00e3o um verdadeiro tormento, o receio de ficar doente, o volume das ocupa\u00e7\u00f5es e preocupa\u00e7\u00f5es, a avalancha dos violentos assaltos \u00e0s miss\u00f5es, o falecimento da minha irm\u00e3 e logo a seguir a morte do meu pai, fizeram com que os primeiros tempos na Guin\u00e9 implicassem uma dose acrescida de f\u00e9 e de for\u00e7a interior. Mas, de tudo, o que mais me custou foi ver o sofrimento dos guineenses. Na Guin\u00e9 n\u00e3o h\u00e1, como em Portugal, rendimento m\u00ednimo. Podia haver, ao menos, sofrimento m\u00ednimo. Mas n\u00e3o. Na Guin\u00e9 s\u00f3 existe sofrimento m\u00e1ximo e moderado. Depende da sorte. E ambos est\u00e3o garantidos para os pr\u00f3ximos tempos, pois n\u00e3o consta, para j\u00e1, a fal\u00eancia do sistema pol\u00edtico que apouca aquela gente e tolhe aquele povo. Falo das dificuldades apenas para ser fiel \u00e0 hist\u00f3ria dos meus dias passados na Guin\u00e9, mas \u00e9-me particularmente feliz referenciar as vantagens, as alegrias e as gra\u00e7as vividas. Este tempo em \u00c1frica foi o mais incr\u00edvel e talvez o mais extraordin\u00e1rio da minha vida de sacerdote. Foi, verdadeiramente, um dom de Deus, uma gra\u00e7a que muito agrade\u00e7o. Estar na Guin\u00e9 possibilitou-me ser fiel testemunha de que os Mission\u00e1rios, com parcos recursos mas grande criatividade e sobretudo infinita generosidade, contribuem, em grande parte, para as solu\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao desenvolvimento daquele pa\u00eds, para a felicidade daquelas gentes e para a dilata\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e consist\u00eancia da Igreja; Estar na Guin\u00e9 levou-me a constatar que nunca ningu\u00e9m fez tanto com t\u00e3o parcos recursos como os Mission\u00e1rios. Eles s\u00e3o estafetas ol\u00edmpicos a transportar mais al\u00e9m o facho da beleza da vida, da f\u00e9 e da esperan\u00e7a; Estar na Guin\u00e9 fez-me perceber que a maior parte dos pol\u00edticos(os de l\u00e1 como os de c\u00e1), com os seus desvarios, vestem de pobreza os corpos fr\u00e1geis das pessoas e desnudam, sem pudor na consci\u00eancia, a alma nobre de um povo; Estar na Guin\u00e9 e conviver com dois bispos simples mas extraordin\u00e1rios, fez-me concluir que embora muito possa significar a pompa na Igreja, para pouco presta ou para nada vale; Estar na Guin\u00e9 ajudou-me a descobrir que as v\u00e1rias Miss\u00f5es dos Espiritanos e das Espiritanas s\u00e3o O\u00e1sis num deserto de solu\u00e7\u00f5es e possibilidades; Estar na Guin\u00e9 deu-me a certeza de que a nossa compaix\u00e3o pelos que sofrem, mesmo se demasiada, \u00e9 sempre pouca, pois a dor dos que padecem, mesmo que pequena, \u00e9 sempre mais do que aquilo que merecem. Na Guin\u00e9 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel divorciarmo-nos da compaix\u00e3o. L\u00e1, onde a gente se fere n\u00e3o \u00e9 nos nossos problemas e nas nossas dores, mas nas dores alheias. L\u00e1 habita-nos a ang\u00fastia que a dor de tantos desafortunados nos provoca; Estar na Guin\u00e9 possibilitou-me a experi\u00eancia feliz de acolher os que sofrem, ajud\u00e1-los, am\u00e1-los e v\u00ea-los partir aliviados ficando eu a gemer por dentro; Estar na Guin\u00e9 fez-me entender melhor a idiossincrasia da Igreja; Na Guin\u00e9 tive a possibilidade de rezar mais e fazer sil\u00eancio. O sil\u00eancio \u00e9 um nada que em mim \u00e9 um quase tudo. Faz parte da ess\u00eancia da minha alma que fica \u00e0 deriva quando o n\u00e3o tem como h\u00f3spede.  Estar na Guin\u00e9 deu-me, enfim, novas prospectivas e abriu-me novos horizontes\u2026 Estar na Guin\u00e9, julgo poder diz\u00ea-lo, tornou-me mais humano, talvez mais espiritual, pelo menos fez-me ficar um padre diferente.  Se o partir de Portugal n\u00e3o foi uma can\u00e7\u00e3o de embalar e se o chegar e ficar na Guin\u00e9 n\u00e3o foi f\u00e1cil pelas circunst\u00e2ncias j\u00e1 descritas, embora se tenha revelado a experi\u00eancia mais incr\u00edvel da minha vida, o regressar a Portugal foi ainda mais dif\u00edcil: Vim, mas deixei-me l\u00e1.  Vim, mas trouxe as tatuagens de sofrimento daquela gente.  Estou aqui na civiliza\u00e7\u00e3o e nas seguran\u00e7as que a Europa e Portugal me d\u00e3o, mas desejava estar l\u00e1 nas dificuldades daquele pa\u00eds e nos perigos daquela terra. O adeus que disse \u00e0 Guin\u00e9 foi embrulhado num vendaval de emo\u00e7\u00f5es. Foi um adeus escrito com letras dolorosas e que me deixou os olhos marejados de saudade. Foi um adeus comovido. Sinto que amo para sempre a Guin\u00e9 que agora me foge. Quem chega \u00e0 Guin\u00e9 atraca num cais de mist\u00e9rios, mergulha numa beleza rara e indiz\u00edvel, veste-se de paisagens \u00edmpares e irretrat\u00e1veis, mas tamb\u00e9m se v\u00ea envolvido numa noite de dramas e sofrimentos incomensur\u00e1veis. Depois, quando temos de soltar amarras e de l\u00e1 partir, vestimo-nos como que de uma paix\u00e3o secreta e levamos os olhos impregnados de mem\u00f3rias e significa\u00e7\u00f5es que pintar\u00e3o com as cores da saudade a tela dos nosso dias futuros. E, como que assolapada, teima em vir connosco a vontade de um dia l\u00e1 voltar.  Esta minha aventura mission\u00e1ria na Guin\u00e9 teve contornos que a mem\u00f3ria apanhou e eternizou e provocou emo\u00e7\u00f5es que a recorda\u00e7\u00e3o chora com saudosas l\u00e1grimas douradas. Agrade\u00e7o a Cristo, o Mission\u00e1rio do Pai, este dom t\u00e3o inolvid\u00e1vel que me concedeu e rogo a Maria, Rainha das Miss\u00f5es, a Sua b\u00ean\u00e7\u00e3o de M\u00e3e para o querido povo da Guin\u00e9.  <i>Padre Almiro Mendes, Diocese do Porto<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando foi acordada com os Espiritanos e com o meu Bispo a minha ida para a Guin\u00e9, n\u00e3o sabia que partir era t\u00e3o dif\u00edcil! 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