{"id":199598,"date":"2021-02-17T11:31:34","date_gmt":"2021-02-17T11:31:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=199598"},"modified":"2021-02-17T11:33:06","modified_gmt":"2021-02-17T11:33:06","slug":"saber-aprender-a-descobrir-as-cinzas-digitais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-descobrir-as-cinzas-digitais\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A descobrir as cinzas digitais"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A quaresma \u00e9 um per\u00edodo de reflex\u00e3o profunda sobre o que realmente tem valor na nossa vida. E sempre me pareceu curioso come\u00e7ar com as cinzas. P\u00f3, muitas vezes desprezado, mas que nos lembra sermos <em>p\u00f3 das estrelas<\/em>. Pensar que tamb\u00e9m Jesus era feito do p\u00f3 das estrelas eleva o significado que as cinzas podem ter na sociedade virtualizada que temos hoje. Os valores vivem mais da realidade f\u00edsica, do p\u00f3, do que da sua virtualiza\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, \u00e9 ineg\u00e1vel que a vida humana se orienta muito por essa virtualiza\u00e7\u00e3o. E nesse sentido questionei-me sobre o que poder\u00e3o ser, e como descobrir as cinzas digitais deste tempo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Screenshot_from_2015-02-14_03-29-21.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-199599\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Screenshot_from_2015-02-14_03-29-21.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Screenshot_from_2015-02-14_03-29-21.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Screenshot_from_2015-02-14_03-29-21-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Screenshot_from_2015-02-14_03-29-21-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Screenshot_from_2015-02-14_03-29-21-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Screenshot_from_2015-02-14_03-29-21-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Screenshot_from_2015-02-14_03-29-21-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Screenshot_from_2015-02-14_03-29-21-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Como estamos num per\u00edodo em que n\u00e3o podemos, ainda, realizar celebra\u00e7\u00f5es presenciais, o gesto das imposi\u00e7\u00e3o das cinzas n\u00e3o se realizar\u00e1. E s\u00f3 quem estiver demasiado apegado aos sinais sens\u00edveis e vis\u00edveis \u00e9 que ter\u00e1 mais dificuldade em aceitar a impossibilidade de viver essa manifesta\u00e7\u00e3o de f\u00e9 como desejaria. Quando o sacerdote faz o sinal da cruz com as cinzas, pronuncia as palavras \u2014 <em>\u00abarrependei-vos e acreditai no Evangelho.\u00bb<\/em> A sabedoria milenar escrita no Livro do G\u00e9nesis de que <em>\u00abtu \u00e9s p\u00f3 e ao p\u00f3 voltar\u00e1s\u00bb<\/em> (Gn 3, 19), reconhece a materialidade da nossa vida e o seu car\u00e1cter transit\u00f3rio. E cada um de n\u00f3s \u00e9 feito do p\u00f3 que fez parte de coisas mais inimagin\u00e1veis da hist\u00f3ria deste planeta. Por isso, h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre este p\u00f3 que somos e aquilo que esse p\u00f3 foi no passado. Tudo a n\u00f3s se liga, e n\u00f3s estamos ligados a tudo por sermos p\u00f3.<\/p>\n<p>A interconectividade, os relacionamentos, fazem de tal forma parte da nossa natureza que nos descobrimos, a cada momento, como seres relacionais. Por isso, n\u00e3o \u00e9 de admirar que a conectividade digital que extra\u00edu muita da fric\u00e7\u00e3o aos relacionamentos tenha evolu\u00eddo tanto na \u00faltima d\u00e9cada. Se esta no\u00e7\u00e3o de sermos p\u00f3 das estrelas est\u00e1 na nossa origem, no tempo da quaresma, importa pensar sobre as nossas origens e examinarmos a vida \u00e0 sua luz.<\/p>\n<p>Na origem da vida profunda, alimentada pelo crescimento e amadurecimento espirituais, est\u00e1 o reconhecimento do ser humano ter sido criado \u00e0 imagem de Deus. Por isso, a imagem que temos de Deus influi muito sobre a imagem que temos de n\u00f3s pr\u00f3prios. Em Deus-Trindade nada se consegue compreender ausente do elemento relacional. Por isso, toda a Sua cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 envolta de uma din\u00e2mica relacional sem a qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender de onde vimos, onde estamos e para onde vamos.<\/p>\n<p>Criados \u00e0 imagem de Deus, e criados diferentes nas express\u00f5es masculina e feminina do ser humano, a comunh\u00e3o da nossa diversidade \u00e9 um reflex\u00e3o da comunh\u00e3o profunda que Jesus nos revela ser o cerne da Trindade. O te\u00f3logo australiano Denis Edwards, no seu livro <em>\u201dMade from stardust\u201d<\/em>, afirma que \u2014 <em>\u00abtodos os elementos qu\u00edmicos na m\u00e3o e c\u00e9rebro humanos foram forjados na fornalha das estrelas. (\u2026) N\u00f3s somos netos das supernovas. N\u00f3s somos, de facto, feitos de p\u00f3 das estrelas.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Como a mol\u00e9cula de ADN que nos torna \u00fanicos n\u00e3o apareceu do nada, mas prov\u00e9m de uma evolu\u00e7\u00e3o na Terra com milhares de milh\u00f5es de anos, sem esse tempo, e sem a evolu\u00e7\u00e3o do nosso ADN, n\u00e3o existir\u00edamos como somos. Atrav\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o do ADN, cada um de n\u00f3s liga-se \u00e0 rede de relacionamentos que ocorreram ao longo da hist\u00f3ria do planeta. Assim, como diz Edwards, <em>\u00abos nossos corpos podem ser pensados como f\u00f3sseis vivos, rel\u00edquias do movimento evolucion\u00e1rio que come\u00e7ou com a primeira express\u00e3o de vida nas algas verde-azuis, e continua em n\u00f3s.\u00bb<\/em> Todos fazemos parte de um cont\u00ednuo que vem e que vai.<\/p>\n<p>O f\u00edsico Paul Davies diz, tamb\u00e9m, que \u2014 <em>\u00aba ci\u00eancia pode explicar todos os passos pelos quais o universo evolui em rela\u00e7\u00e3o ao seu destino, mas isso deixa, ainda, espa\u00e7o para haver um significado por detr\u00e1s da exist\u00eancia.\u00bb<\/em> O sinal que as cinzas representa apela-nos a procurar, particularmente neste tempo, esse significado. E n\u00e3o chega usar o <em>clich\u00e9<\/em> de que encontramos o significado em Deus. Pois, afirm\u00e1-lo n\u00e3o quer dizer que compreendemos o que estamos a afirmar. Caso contr\u00e1rio, por que raz\u00e3o haver\u00edamos de insistir na viv\u00eancia da quaresma todos os anos lit\u00fargicos? Por outro lado, a virtualiza\u00e7\u00e3o da vida introduz um elemento sem corpo aos nossos corpos. Bastaria pensar na enorme quantidade de relacionamentos virtuais que vivemos des-incorporados, mas reais, porque nos afectam de in\u00fameras maneiras.<\/p>\n<p>Cinzas. P\u00f3. Um apelo ao arrependimento. Um apelo \u00e0 convers\u00e3o. O que pode significar isso na era digital? Podemos associar as cinzas e o p\u00f3 aos elementos base que constituem a nossa vida. E n\u00e3o me refiro somente aos materiais. Os nossos pensamentos, actos e relacionamentos constituem-nos mais do que a mat\u00e9ria. Existem pensamentos, actos e relacionamentos que nos impedem de ser aquilo que Deus nos chama a ser. E aquilo que Deus nos chama a ser n\u00e3o est\u00e1 pr\u00e9-definido porque todos somos chamados ao amor. Ora, o amor transforma-nos por dentro a cada momento de descoberta de algo novo sobre n\u00f3s, transformando, por isso, o nosso pensar, fazer ou relacionar e, consequentemente, a compreens\u00e3o daquilo que Deus nos chama a ser. Isto \u00e9, qual a Sua vontade para n\u00f3s.<\/p>\n<p>A desincorpora\u00e7\u00e3o da nossa vida em duas facetas \u2014 a real e a virtual \u2014 veio expandir, inesperadamente, o horizonte dos pensamentos, dos actos e dos relacionamentos. Os fluxos de informa\u00e7\u00e3o excessivos levam-nos, hoje, a ter uma grande dificuldade em distinguir facto de fic\u00e7\u00e3o. A capacidade de influenciar digitalmente quem est\u00e1 longe, levou-nos a agir \u00e0 dist\u00e2ncia, por exemplo, com jogos como a baleia-azul que levaram crian\u00e7as a cometer suic\u00eddio. E os relacionamentos come\u00e7aram a estabelecer-se com quem nunca conhecemos fisicamente, superficializando os relacionamentos estabelecidos com quem conhecemos pessoalmente (por vezes, dentro da mesma casa). De tal modo que, em muitos relacionamentos, prevalece mais a mensagem escrita edit\u00e1vel, sem voz, ou cara, do que o encontro com o outro. Mas a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em regredir, ou eliminar, a faceta virtual da nossa vida. H\u00e1 que renascer, tamb\u00e9m, das cinzas virtuais.<\/p>\n<p>As cinzas s\u00e3o um convite \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o dos nossos pensamentos, actos e relacionamentos. O jejum que fazemos de certos alimentos com o sentido de purifica\u00e7\u00e3o da vida real, inspira a um jejum adaptado \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, da nossa vida virtual. O per\u00edodo da quaresma oferece uma oportunidade de fazer um s\u00e9rio exame de consci\u00eancia \u00e0 nossa vida virtual.<\/p>\n<p>Eu comecei a fazer esta experi\u00eancia com uma simples altera\u00e7\u00e3o das cores do meu ecr\u00e3, e elimina\u00e7\u00e3o de algumas aplica\u00e7\u00f5es que me mantinham demasiado tempo com o telem\u00f3vel na m\u00e3o. A cor do meu ecr\u00e3, agora, \u00e9 cinzento (carreguei 3x seguidas no bot\u00e3o Home do iPhone). S\u00e3o parte das cinzas digitais que me recordam o essencial do arrependimento e de orientar mais os meus pensamentos, actos e relacionamentos para a profundidade do Evangelho. Algo a saber aprender durante este tempo.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-199598","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199598","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=199598"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199598\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=199598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=199598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=199598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}