{"id":198850,"date":"2021-02-10T08:00:04","date_gmt":"2021-02-10T08:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=198850"},"modified":"2021-02-10T22:45:15","modified_gmt":"2021-02-10T22:45:15","slug":"saude-ser-medica-em-tempo-de-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saude-ser-medica-em-tempo-de-covid-19\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade: Ser m\u00e9dica em tempo de Covid-19 (C\/Video)"},"content":{"rendered":"<p><em>Marta Jonet \u00e9 especialista de Medicina Interna no Hospital Fernando Fonseca h\u00e1 10 anos. Desde mar\u00e7o de 2020 cuida de doentes Covid e tamb\u00e9m ela foi infetada<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, Maria Jonet elogia a capacidade dos colegas, d\u00e1 conta do \u00abdesolamento\u00bb que vivem por causa das chefias e das \u00abdiretrizes dos confinamentos\u00bb. A m\u00e9dica recorda todos os \u00abSim\u00bb que tem dado nesta \u00abmaratona\u00bb que lhe deu apenas cinco dias de f\u00e9rias em 2020, a afastou dos tr\u00eas filhos em muitas ocasi\u00f5es e leva a aprender a lidar com a perda de pacientes em t\u00e3o curto espa\u00e7o de tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por L\u00edgia Silveira<\/em><\/p>\n<p class=\"western\"><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-198858 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara1.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara1-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/em><\/p>\n<p class=\"western\"><em>Ag\u00eancia Ecclesia (AE) \u2013 Desde quando \u00e9 m\u00e9dica no Hospital Fernando Fonseca (vulgo, Hospital Amadora-Sintra)?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\"><em>Marta Jonet (MJ) &#8211;<\/em> Em 2012 comecei a especialidade que fiz em seis anos e meio. Atrasei-me um pouco porque tive duas filhas pelo meio, prolongou-se um pouco mais.<\/p>\n<p class=\"western\">Quando terminei a especialidade percebi que era o Hospital e a popula\u00e7\u00e3o onde queria trabalhar. A decis\u00e3o foi muito f\u00e1cil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 Porqu\u00ea a certeza que era com esta popula\u00e7\u00e3o e este Hospital onde queria estar?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 O Amadora Sintra apresenta imensos desafios tanto a n\u00edvel pessoal como profissional. Foi um Hospital que teve inicialmente uma parceria p\u00fablico-privada mas em pouco tempo deixou de ter.<\/p>\n<p class=\"western\">Abrange uma popula\u00e7\u00e3o estimada em 300 a 400 mil habitantes mas sabemos que ser\u00e1 pelo menos o dobro, por causa das pessoas n\u00e3o legalizadas e das fam\u00edlias numerosas. S\u00e3o dois dos maiores concelhos de Portugal. Tendo muita popula\u00e7\u00e3o menos diferenciada e mais carenciada. Desde que escolhi Medicina, e mais tarde Medicina Interna, que a minha escolha foi baseada em querer servir a fundo ao povo e ao Reino de Deus. Sabia desde o in\u00edcio que o exercer Medicina ia ser sobretudo num hospital publico.<\/p>\n<p class=\"western\">Tenho alguma privada, trabalho em lares, que para mim se relaciona com a conce\u00e7\u00e3o do Reino de Deus, mas poder estar ao servi\u00e7o de uma popula\u00e7\u00e3o pouco diferenciada e com pouco acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade foi o que mais me motivou.<\/p>\n<p class=\"western\">Do ponto de vista profissional, o Hospital oferece uma riqueza enorme de diagn\u00f3stico porque tem muita popula\u00e7\u00e3o, muita popula\u00e7\u00e3o jovem doente, oriunda sobretudo de pa\u00edses africanos e de Leste, que trazem diferentes doen\u00e7as que n\u00e3o estamos habitados a ver nos hospitais centrais de Lisboa.<\/p>\n<p class=\"western\">Para um internista que gosta sobretudo de diagn\u00f3stico e investiga\u00e7\u00e3o do doente \u00e9 uma riqueza enorme do ponto de vista profissional.<\/p>\n<p class=\"western\">Sermos poucos m\u00e9dicos e sentimo-nos essenciais na miss\u00e3o do Hospital. Somos t\u00e3o poucos que temos sempre de tapar buracos, precisamos de um jogo de cintura grande para manter as urg\u00eancias, e \u00e9 desafiante a coes\u00e3o na equipa que l\u00e1 trabalha. Foi algo que me agradou desde in\u00edcio, h\u00e1 10 anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 A voca\u00e7\u00e3o de servir quem precisa \u00e9 ainda mais confirmada nesta altura, em que h\u00e1 um aumento do n\u00famero de pessoas que precisam de cuidados por causa da pandemia?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 N\u00e3o s\u00f3 doentes com Covid-19, mas sim, uma avalanche muito grande desde dezembro e janeiro, que se vai prolongar este m\u00eas. H\u00e1 sobretudo outros doentes que desde mar\u00e7o ficaram um pouco ao abandono, porque as consultas passaram a ser por telefone, ganharam um medo com a ida aos hospital, os m\u00e9dicos de fam\u00edlia foram encaminhados para a admiss\u00e3o ao doente Covid-19 e deixaram de seguir os seus doentes, que \u00e9 a sua voca\u00e7\u00e3o. Os doentes est\u00e3o abandonados.<\/p>\n<p class=\"western\">Chegam-nos os doentes com Covid-19 e doen\u00e7a grave que \u00e9 algo que j\u00e1 ouvimos falar desde mar\u00e7o de 2020, com as experi\u00eancias de It\u00e1lia e Espanha, com avalanche di\u00e1ria de pacientes a ser admitidos no servi\u00e7o de urg\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"western\">Mas tamb\u00e9m doentes neopl\u00e1sicos, com insufici\u00eancia card\u00edaca ou pulmonar, que t\u00eam menos cumprimento terap\u00eautico, menos acompanhamento dos seus m\u00e9dicos que era uma ferramenta essencial no tratamento terap\u00eautico. O seguimento faz parte da terap\u00eautica: refor\u00e7ar que precisam de fazer a medica\u00e7\u00e3o, fazer h\u00e1bitos de vida saud\u00e1vel, faz parte do sue plano terap\u00eautico. Este desacompanhamento dos doentes faz com que inevitavelmente os doentes nos cheguem pior e mais tarde, muitas vezes em fase em que n\u00e3o os conseguimos salvar ou n\u00e3o conseguimos melhorar o seu estado, se viessem mais cedo.<\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe  id=\"_ytid_67358\"  width=\"480\" height=\"270\"  data-origwidth=\"480\" data-origheight=\"270\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QRZIlHCJdZY?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=pt&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=0&#038;fs=1&#038;playsinline=1&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 Que realidade como m\u00e9dica de Medicina Interna tem vivido desde mar\u00e7o de 2020?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 Eu fa\u00e7o urg\u00eancia, no Servi\u00e7o de Urg\u00eancia geral do Hospital, trabalho numa enfermaria de medicina e desde mar\u00e7o tive integrada nas v\u00e1rias equipas que trataram doentes Covid-19. N\u00e3o tive sempre na \u00e1rea Covid \u2013 houve uma altura extensa entre junho e novembro em que tratei doentes n\u00e3o-Covid e foi nessa altura que a pandemia esteve mais controlada em Portugal.<\/p>\n<p class=\"western\">Nessa altura, Amadora Sintra conseguimos reduzir a enfermaria Covid a uma \u2013 ao dia de hoje temos 11 enfermarias abertas no Amadora Sintra.<\/p>\n<p class=\"western\">O percurso foi sendo adaptado de acordo com as necessidades do Hospital e da popula\u00e7\u00e3o que servimos.<\/p>\n<p class=\"western\">Desde o final de novembro houve necessidade de aumentar a capacidade de resposta aos doentes Covid e diferenciar toda a gente, n\u00e3o s\u00f3 internistas mas todas as especialidades. Neste momento temos enfermarias multidisplinares, normalmente com um internista e com especialistas de outras especialidades a colaborar e a ver doentes do ponto de vista da medicina interna \u2013 os cardiologistas n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3 a ver enfartes e as insufici\u00eancias card\u00edacas mas a ver as pneumonias a Covid, os neurologistas, os pneumologias, os nefrologistas est\u00e3o todos juntos neste barco e isso criou uma coes\u00e3o inacredit\u00e1vel no Hospital.<\/p>\n<p class=\"western\">As pessoas percebem que t\u00eam de colaborar, que n\u00e3o vamos conseguir dar resposta aos nossos doentes se isto n\u00e3o funcionar de uma forma coesa e, se no in\u00edcio houve alguma dificuldade em integrar as pessoas, sobretudo pela inseguran\u00e7a que sentiam para tratar doentes que n\u00e3o s\u00e3o da sua \u00e1rea, muito rapidamente se percebe que \u00e9 preciso form\u00e1-los, eles estudam, n\u00f3s ajudamos, eles fazem muito mais do que seria da sua compet\u00eancia, e consegue-se uma equipa a trabalhar.<\/p>\n<p class=\"western\">O que fa\u00e7o no dia-a-dia, na enfermaria \u00e9 avalia\u00e7\u00e3o di\u00e1ria destes doentes, muitos precisam de oxig\u00e9nio mas n\u00e3o s\u00f3 de oxig\u00e9nio, precisam da ventila\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 a que estamos habituados a ver nos cuidados intensivos &#8211; um tubo que vai aos pulm\u00f5es, mas uma m\u00e1scara que nos d\u00e1 uma press\u00e3o positiva e que ajuda a melhorar o oxigena\u00e7\u00e3o e as trocas respirat\u00f3rias dos doentes Covid.<\/p>\n<p class=\"western\">Temos vindo a conseguir tratar cada vez mais doentes assim sem precisar recorrer aos intensivos, mas com um sobrecarga enorme, tanto para a equipa de enfermagem e m\u00e9dica porque s\u00e3o doentes que descompensam muito durante a noite, os enfermeiros est\u00e3o sempre de volta deles, deixou de ser o registo de enfermaria normal, mas s\u00e3o pacientes de unidade de interm\u00e9dios. S\u00e3o sempre doentes cr\u00edticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 Foi uma surpresa quando percebeu que podia estar positiva?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013N\u00e3o. Quando andamos na boca do lobo sabemos que mais tarde ou mais cedo vamos ser mordidos e foi o que aconteceu.<\/p>\n<p class=\"western\">Desde mar\u00e7o que achava que podia positivar. Inicialmente houve um per\u00edodo dif\u00edcil que, por terem fechado as escolas, houve necessidade de reajusto de log\u00edstica de casa, tive os meus filhos afastados de mim, porque estavam fechados num apartamento e era mais dif\u00edcil gerir, com o meu marido a conseguir manter a atividade profissional. As tr\u00eas crian\u00e7as foram para casa da minha sogra com todo o apoio.<\/p>\n<p class=\"western\">Nessa altura tinha muito medo da doen\u00e7a, sobretudo com medo de contagiar aos mi\u00fados, ao meu marido e aos que nos est\u00e3o pr\u00f3ximos. Com o continuar da exposi\u00e7\u00e3o di\u00e1ria esse medo manteve-se mas tornou-se mais uma preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\">S\u00e3o doentes que temos de tratar com carinho e proximidade. N\u00e3o h\u00e1 forma de entrar naqueles quartos uma vez por turno, eles est\u00e3o sozinhos, n\u00e3o t\u00eam visitas. Muitas pessoas mais idosas, com algum grau de dem\u00eancia, n\u00e3o sabem usar os telem\u00f3veis e n\u00e3o conseguem falar com as fam\u00edlias ao telefone e n\u00f3s somos os seus principais cuidadores nos hospitais.<\/p>\n<p class=\"western\">Ao longo do tempo, a necessidade destes doentes foi-me ensinando uma maneira diferente de estar presente junto deles.<\/p>\n<p class=\"western\">Curiosamente, quando infetei, n\u00e3o estava numa enfermaria Covid, mas numa n\u00e3o-Covid &#8211; que estou sempre a dizer que s\u00e3o de maior risco, porque estamos menos protegidos e s\u00e3o doentes que entram negativos no hospital e dois ou tr\u00eas dias depois, positivam, sendo, por isso, um foco maior de transmiss\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 N\u00e3o teve sintomas graves?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 Tive doen\u00e7a ligeira, um quadro muito parecido com uma gripe, muitas dores musculares, n\u00e3o tive febre, estava muito cansada, mas estive 20 dias em casa e quando regressei estava quase 100% recuperada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara4.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-198855\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara4-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara4-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara4-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara4-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara4-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/enfermeira-mascara4.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>AE \u2013 O que se manifesta quando percebe que est\u00e1 positiva, tendo em conta a sua vida?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 A minha primeira preocupa\u00e7\u00e3o foi \u00abAi os pais dos outros meninos da sala da Isabelinha e da Teresa\u00bb (as filhas, ndr). Elas continuavam a ir \u00e0 escola. Na segunda-feira em que fui fazer o teste j\u00e1 n\u00e3o foram porque eu tinha tido a exposi\u00e7\u00e3o de risco na 6\u00aa e no domingo comecei a ter dor de garganta e sabia que era poss\u00edvel estar positiva.<\/p>\n<p class=\"western\">Foi pensar em todas as ra\u00edzes dos meus contactos para prever cont\u00e1gios.<\/p>\n<p class=\"western\">Desde mar\u00e7o que a minha vida social tem sido reduzida ao suporte familiar que eu preciso para conseguir manter a minha atividade profissional: a escola das mi\u00fadas e um apoio da minha fam\u00edlia direta para o mais pequeno, o Ant\u00f3nio.<\/p>\n<p class=\"western\">Por outro lado a minha grande preocupa\u00e7\u00e3o foram as pessoas com quem eu trabalhava: internos mais novos que reportam a mim, chefio uma equipa de banco e trabalho em dois lares. De repente, toda esta rede de doentes, um Lar com 90 e outro com 30, a equipa de banco, mas percebi que ningu\u00e9m \u00e9 insubstitu\u00edvel. Achamos sempre que as coisas n\u00e3o se resolvem sem n\u00f3s, mas obviamente correu tudo igual.<\/p>\n<p class=\"western\">Foi uma grande alegria perceber que o nosso legado vai ficando mas n\u00e3o somos insubstitu\u00edveis e h\u00e1 quem possa fazer o nosso trabalho quando n\u00e3o pudermos estar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 Havia preocupa\u00e7\u00f5es de contamina\u00e7\u00e3o com filhos, isso causava ansiedade?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 As minhas filhas fizeram teste e o meu marido tamb\u00e9m e e foram negativos. Apesar de termos estado juntas. Desde mar\u00e7o que eu andava com uma vida louca e pensei \u00abOlha, pelo menos temos 20 dias para estar todos juntos\u00bb.<\/p>\n<p class=\"western\">Havia o suporte familiar, os meus pais, uma senhora que trabalha em casa dos meus pais e \u00e9 cuidadora do meu filho mais novo, que tem mais de 75 anos e era uma pessoa de risco. At\u00e9 perceber que toda a gente estava bem \u2013 e n\u00e3o ficou toda a gente 100% bem \u2013 tive muita ansiedade. Os meu pais ficaram os dois positivos, n\u00e3o foi doen\u00e7a grave nem teve grandes implica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"western\">Obviamente n\u00f3s somos novos e sabemos que estamos nisto, \u00e9 a nossa voca\u00e7\u00e3o e dizemos que sim, e carregarmos com as consequ\u00eancias. Mas pensar que o nosso \u00abSim\u00bb tem complica\u00e7\u00f5es \u00e0 nossa volta acaba por ser mais penoso. Eu tenho a certeza que neste caminho tenho feito tudo o que Deus me pede, tenho dito todos os \u00abSins\u00bb que tenho de dizer. Deus n\u00e3o me est\u00e1 a pedir um \u00absim\u00bb para depois em dar uma machadada, \u00e9 um \u00absim\u00bb integral. Era uma prova\u00e7\u00e3o que a nossa fam\u00edlia precisava de viver e alertar para o problema do isolamento e do distanciamento social. \u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o sim, mas n\u00e3o posso usar a palavra \u00abtemor\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 Teve vontade de nos 20 dias regressar ao trabalho?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 Sim, sobretudo porque foi numa altura em que come\u00e7aram a aumentar paulatinamente os casos e entre os profissionais de sa\u00fade, tamb\u00e9m porque \u00e9 sempre proporcional. Perceber que o hospital estava muito deficit\u00e1rio e eu quase sem sintomas e ter de ficar em casa, custou-me muito.<\/p>\n<p class=\"western\">Consegui manter a atividade do lar, via telefone, tenho uma equipa muito boa que conseguimos gerir, de enfermeiros e auxiliares muito presentes e foi f\u00e1cil gerir.<\/p>\n<p class=\"western\">Os doentes de enfermaria foram lindamente tratados por outro colega. Mas faz-me sempre impress\u00e3o a sobrecarga que uma aus\u00eancia nossa provoca nos nossos colegas. N\u00e3o \u00e9 como uma baixa numa empresa que se contrata algu\u00e9m para substituir. N\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m, n\u00f3s estamos esticados ao m\u00e1ximo em termos de trabalho, carga hor\u00e1ria. Sai uma pessoa e fica um buraco que tem de ser colmatado por outros que l\u00e1 est\u00e3o. Isso custa muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 Sem a conhecer arriscaria dizer que desde mar\u00e7o os seus dias t\u00eam sido muito rezados e numa rela\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo e confian\u00e7a com Deus?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 Era imposs\u00edvel que n\u00e3o fosse. Infelizmente conseguimos tirar alguns milagres e ver com muita alegria os acontecimentos, mas n\u00e3o deixou de ser um caminho com muitas priva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"western\">Em mar\u00e7o n\u00e3o sab\u00edamos tratar a doen\u00e7a. Houve no in\u00edcio muito medo de esgotar as vagas de cuidados intensivos e houve sempre necessidade de muita adapta\u00e7\u00e3o ao longo deste tempo.<\/p>\n<p class=\"western\">N\u00f3s sabemos fazer \u00absprints\u00bb e correr a maratona, mas esta est\u00e1 a durar muito tempo, e n\u00e3o se v\u00ea o fim. Em 2020 eu gozei cinco dias de f\u00e9rias, n\u00e3o consegui tirar mais, porque fomo-nos ajustando. E quando um falta os outros te\u00ea de substituir e n\u00e3o conseguimos mesmo ter mais tempos de descanso.<\/p>\n<p class=\"western\">Eu sei que quem corre por gosto n\u00e3o cansa \u2013 vivo muito com esta m\u00e1xima. Raramente me canso do trabalho mas as pessoas ficam cansadas. E tamb\u00e9m porque h\u00e1 muita desola\u00e7\u00e3o. H\u00e1 sentimento de mau trato por causa das chefias, das diretrizes dos confinamentos. Vemos um hospital completamente atolado de doentes, uma urg\u00eancia cheia sem capacidade para mais nada e vemos na televis\u00e3o que as urg\u00eancias ainda n\u00e3o est\u00e3o no limite. H\u00e1 uma falta de transpar\u00eancia que nos causa alguma desola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\">O caminho com Deus tem sido um aspeto muito importante que finalmente estamos a conseguir trazer aos doentes na enfermaria.<\/p>\n<p class=\"western\">Se em mar\u00e7o, abril e maio foi muito dif\u00edcil os padres permanecerem no hospital, n\u00e3o se sabia como gerir e houve um deserto, agora temos tido cada vez mais possibilidade de levar padres aos doentes. H\u00e1 duas semanas, estava de sa\u00edda do Hospital cheia de pressa para ir buscar os meus filhos, e uma senhora abordou-me no corredor a pedir um padre. A capelania j\u00e1 tinha fechado e acabei por me lembrar que tenho um grupo no WhatstApp e enviei uma mensagem a dizer que precisava de um padre. Dez minutos depois eu tinha um padre dentro do hospital Amadora Sintra que deu a Santa Un\u00e7\u00e3o a um doente que pediu e confessou mais quatro doentes na unidade interm\u00e9dia. Ele deu a Santa un\u00e7\u00e3o e depois perguntou: mais algu\u00e9m quer a visita do padre e os doentes esticavam a m\u00e3o a pux\u00e1-lo. Foi uma alegria enorme. No final ainda me disse: \u00abGuarde o meu contacto porque eu trabalho pr\u00f3ximo do hospital e venho sempre que for preciso\u00bb. Abrimos uma ponte \u00e0 presen\u00e7a de Deus junto destes doentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 Acredito que haja manifesta\u00e7\u00f5es mesmo quando o nome de Deus n\u00e3o aparece.<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 H\u00e1 muitos epis\u00f3dios de Deus nos hospital, nos profissionais de sa\u00fade que nem s\u00e3o cat\u00f3licos mas na forma como tratam os doentes e como cada vez mais a proximidade se manifesta.<\/p>\n<p class=\"western\">At\u00e9 no progresso cientifico e na forma como melhor tratamos estes doentes ao longo dos meses com melhores oportunidades de tratamento, de abordagem de ventila\u00e7\u00e3o, que no in\u00edcio era desconhecido. At\u00e9 a forma cientifica como isto tem crescido e as ofertas que podemos dar aos doentes, \u00e9 a presen\u00e7a de Deus aqui. Isso traz alegria e uma sensa\u00e7\u00e3o de dever cumprido. Fazemos o que podemos e fazemos com a sensa\u00e7\u00e3o que estamos a fazer o melhor para os doentes que temos ao nosso cuidado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 Como lida com as perdas? Quando a entrega aos doentes \u00e9 o seu dia-a-dia, como \u00e9 lidar com a perda de um paciente?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 At\u00e9 nisso eu acho que tem sido um caminho muito bom de mudan\u00e7a. Se no principio n\u00e3o consegu\u00edamos que as fam\u00edlias se despedissem, hoje j\u00e1 deixamos as fam\u00edlias vestirem o equipamento, ensinamos a equiparem-se, entram e despedem-se. At\u00e9 aqui tem havido um caminho grande de proximidade na rela\u00e7\u00e3o. Lidar com a morte n\u00e3o \u00e9 ensinado no curso, nem a forma de informarmos um familiar. A dificuldade neste tempo \u00e9 que deixamos de ter visitas ao hospital e as not\u00edcias de \u00f3bito s\u00e3o dada por telefone, o que \u00e9 uma enorme crueldade. N\u00e3o conseguimos dar a m\u00e3o \u00e0 pessoa, n\u00e3o conseguimos mostrar que estamos empaticamente com elas. \u00abLamento muito a sua perda\u00bb &#8211; a pessoa ouve e n\u00e3o v\u00ea que os nossos olhos brilham, que estamos comovidos.<\/p>\n<p class=\"western\">O caminho de lidar com a perda \u00e9 um caminho de 10 anos que tenho feito, n\u00e3o apenas agora neste tempo, em que, obviamente h\u00e1 mais perdas e me obriga a uma capacidade maior de encaixe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 Porque o tempo escasseia e imprime uma diferen\u00e7a na perda?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 \u00c9 tudo muito r\u00e1pido, s\u00e3o mais perdas e s\u00e3o doentes com quem n\u00e3o tivemos ainda capacidade de criar uma rela\u00e7\u00e3o. Normalmente os doentes que morrem com Covid-19 n\u00e3o s\u00e3o pessoas que entram e morrem em pouco tempo, esses casos j\u00e1 chegam tarde. S\u00e3o pessoas que chegam, agravam no hospital, que vamos tratando. S\u00e3o doentes que t\u00eam algum percurso de doen\u00e7a, morrem j\u00e1 depois de algumas semanas afastados da fam\u00edlia, alguns doentes com dem\u00eancia que nem percebem porque t\u00eam de estar afastados da fam\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"western\">Nunca \u00e9 f\u00e1cil lidar com uma perda. N\u00e3o \u00e9 pelo sentimento ego\u00edsta de \u00abperdi o meu doente\u00bb, mas porque se perde uma vida.<\/p>\n<p class=\"western\">Eu trago todos os doentes que morrem ao meu cuidado comigo. Nesta fase j\u00e1 n\u00e3o recordo todos os nomes e as suas fam\u00edlias, porque s\u00e3o muitos, mas fa\u00e7o sempre quest\u00e3o de falar com os familiares, mesmo que n\u00e3o seja no meu dia de urg\u00eancia, eu ligo sempre. Se n\u00e3o no dia, por aus\u00eancia, no dia seguinte ligo para dar uma palavra e um conforto.<\/p>\n<p class=\"western\">N\u00e3o se aprende nunca a lidar com uma perda, tal como n\u00f3s n\u00e3o aprendemos a lidar com a perda dos nossos, apesar de assistirmos ao desaparecimento de familiares. Mas \u00e9 sempre uma nova pessoa que perdemos. Por isso n\u00e3o se aprende a lidar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\"><em>AE \u2013 De que forma o trabalho que faz \u00e9 uma media\u00e7\u00e3o, junto dos pacientes e familiares?<\/em><\/p>\n<p class=\"western\">MJ \u2013 N\u00e3o sei se consigo utilizar a palavra media\u00e7\u00e3o, e neste caso, de Deus. Mas quando me perguntam como exer\u00e7o de forma crist\u00e3 o ser m\u00e9dica digo sempre que a minha profiss\u00e3o \u00e9 a mais f\u00e1cil de todas. Eu tenho um trabalho de proximidade muito grande \u00e0s pessoas e eu tenho a minha miss\u00e3o muito bem definida: eu sei desde pequena, desde seis ou sete anos, que a minha miss\u00e3o era ser m\u00e9dica e junto das pessoas.<\/p>\n<p class=\"western\">N\u00e3o consigo usar a palavra mediadora. Os pacientes percebem que eu sou cat\u00f3lica, mas n\u00e3o uso cruzes. \u00c0s vezes perguntam se podem rezar uma Ave-Maria, n\u00e3o \u00e9 muito frequente, mas acontece. Antes de verificar um \u00f3bito rezo uma Ave-Maria pela pessoa que tenha falecido, para a entregar a Nossa Senhora. Fa\u00e7o-o desde o primeiro dia em que perdi um doente. Criei essa rotina para mim. J\u00e1 n\u00e3o posso tratar deste doente, entrego-o a quem trata dele a seguir. No in\u00edcio perguntavam-me porque \u00e9 que eu o fazia, desconhecendo se a pessoa era crente. Eu n\u00e3o sei se \u00e9 crente, mas eu estou a entreg\u00e1-la a quem eu sei que vai tomar conta dela. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma obrigatoriedade de a pessoa seguir o que eu acredito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marta Jonet \u00e9 especialista de Medicina Interna no Hospital Fernando Fonseca h\u00e1 10 anos. 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