{"id":198621,"date":"2021-02-07T09:30:16","date_gmt":"2021-02-07T09:30:16","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=198621"},"modified":"2021-02-07T10:46:59","modified_gmt":"2021-02-07T10:46:59","slug":"portugal-saude-eutanasia-e-o-mais-facil-mas-certamente-o-mais-agressivo-e-o-mais-horrendo-que-se-pode-imaginar-filipe-santos-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-saude-eutanasia-e-o-mais-facil-mas-certamente-o-mais-agressivo-e-o-mais-horrendo-que-se-pode-imaginar-filipe-santos-almeida\/","title":{"rendered":"Portugal\/Sa\u00fade: Eutan\u00e1sia \u00ab\u00e9 o mais f\u00e1cil, mas certamente o mais agressivo e o mais horrendo que se pode imaginar\u00bb &#8211; Filipe Santos Almeida"},"content":{"rendered":"<p><em>M\u00e9dico do Hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o, consultor da Academia Pontif\u00edcia para a Vida e membro do Conselho Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida \u00e9 o convidado desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0<\/em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/filipe_almeida6856404edefaultlarge_1024-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-198622 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/filipe_almeida6856404edefaultlarge_1024-1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/filipe_almeida6856404edefaultlarge_1024-1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/filipe_almeida6856404edefaultlarge_1024-1-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/filipe_almeida6856404edefaultlarge_1024-1.jpg 712w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Vamos come\u00e7ar pela quest\u00e3o da eutan\u00e1sia. Que sinal \u00e9 dado pelo Parlamento com este processo legislativo, num momento em que a sociedade multiplica \u2013 ou deveria multiplicar \u2013 esfor\u00e7os para salvar vidas?<\/em><\/p>\n<p>Esta discuss\u00e3o, neste tempo e nesta hora, no Parlamento \u00e9 talvez um pouco paradoxal. Quando, na verdade estamos empenhados numa trag\u00e9dia da dimens\u00e3o que temos em que queremos salvar vidas surge a vota\u00e7\u00e3o neste tempo critico que vivemos. E \u00e9 paradoxal por esta raz\u00e3o de uma cronologia que se torna aqui coincidente, mas eu penso que a nossa preocupa\u00e7\u00e3o tem que ser distante desta coincid\u00eancia cronol\u00f3gica. De facto, o que aqui est\u00e1 em causa \u00e9 a compreens\u00e3o que se faz da dignidade da vida humana, da dignidade do viver humano, agudizado certamente neste tempo de pandemia que vivemos, mas ela \u00e9 anterior \u00e0 pandemia, ela existe durante a pandemia, e ela continuar\u00e1 depois da pandemia. Aquilo que est\u00e1 aqui em causa verdadeiramente e retomando aquilo que tem sido a justifica\u00e7\u00e3o que vamos ouvindo nos media de que a reflex\u00e3o j\u00e1 vem de algum tempo; esta circunst\u00e2ncia da pandemia que vivemos n\u00e3o tem necessariamente que a alterar; e a verdade est\u00e1 exatamente a\u00ed. Porque esta reflex\u00e3o que deve acontecer antes, durante e depois da pandemia \u00e9 de alguma maneira distante destas condi\u00e7\u00f5es concretas e particulares da pandemia porque ela \u00e9 inerente ao ser humano no seu viver de sempre. Esta \u00e9 que \u00e9 a quest\u00e3o que tem de ser colocada que \u00e9: como \u00e9 que hoje, o Parlamento que nos deve representar do ponto de vista pol\u00edtico e daquilo que \u00e9 o compromisso social perante a dimens\u00e3o do viver humano, a dimens\u00e3o da vida humana; como \u00e9 que ela \u00e9 pensada nos seus alicerces, nos seus fundamentos e na sua proje\u00e7\u00e3o para o nosso quotidiano. A quest\u00e3o \u00e9 anterior \u00e0 pandemia e a nossa preocupa\u00e7\u00e3o deve ir exatamente a esta reflex\u00e3o inicial, estruturante que \u00e9: Qual \u00e9 o valor da vida humana e qual \u00e9 o respeito que se deve ter, que limites se podem ou n\u00e3o colocar a este respeito pela dignidade da vida humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 cerca de um ano defendeu em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a que o Parlamento n\u00e3o tinha legitimidade para legislar sem ouvir a popula\u00e7\u00e3o. Considera que este pode ser mais um motivo para o presidente da Rep\u00fablica vetar o diploma?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim. Penso que ouvir a popula\u00e7\u00e3o na sua maior dimens\u00e3o pode eventualmente ajudar aqui a refletir de alguma maneira e de uma\u00a0forma mais particular aquilo que deve ser feito perante esta situa\u00e7\u00e3o. E isso porque o pulsar que nas consci\u00eancias, nas pessoas t\u00eam acerca desta quest\u00e3o que t\u00eam muitas vezes na sua vida familiar a experi\u00eancia deste viver o final de vida, pode ajudar \u00e0 reflex\u00e3o que deve ser feita. A reflex\u00e3o pol\u00edtica, enclausurada num ambiente parlamentar pode n\u00e3o traduzir efetivamente aquilo que \u00e9 o querer da popula\u00e7\u00e3o na sua maioria. Se bem, se bem que continuo a pensar que sendo mais uma ferramenta que pode ajudar aqui a dirimir e a pensar as quest\u00f5es t\u00e3o duras, t\u00e3o complexas que t\u00eam a ver com o final de vida, apesar de tudo isto n\u00e3o deve ficar sujeito a um escrut\u00ednio de maioria ou de minoria. H\u00e1 reflex\u00f5es que t\u00eam a ver com a estrutura vertebral de uma sociedade que t\u00eam de ser pensadas exatamente nesta dimens\u00e3o daquilo que \u00e9 o sustent\u00e1culo da dignidade de uma sociedade. Passa por aqui tamb\u00e9m, por estas quest\u00f5es que depois se particularizam em cada um, mas que t\u00eam sempre uma inser\u00e7\u00e3o naquilo que \u00e9 uma dignidade absoluta de uma sociedade humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que um consultor do Papa explica ao seu conselho que um pa\u00eds com cuidados paliativos t\u00e3o deficit\u00e1rios \u00e9 capaz de legislar sobre a possibilidade de se pedir a morte?<\/em><\/p>\n<p>Continuamos de novo na linha do paradoxo que vamos tendo. Mas deixe-me retomar esta quest\u00e3o: os cuidados paliativos t\u00eam naturalmente um ponto muito certo de serem refletidos, estruturados, desenvolvidos, pedidos, implementados.<\/p>\n<p>Certamente que uma sociedade que percebeu a import\u00e2ncia dos cuidados paliativos, n\u00e3o como uma mera disciplina acrescentada da medicina, mas como uma dimens\u00e3o estruturante daquilo que \u00e9 o cuidar na sua ess\u00eancia mais radical do ser humano em sofrimento agudo, atroz, final; deve ser colocada exatamente nesta linha de que como \u00e9 que n\u00f3s devemos ajudar as pessoas a viver este tempo de finalidade. N\u00e3o como a resposta direta \u00e0 quest\u00e3o da eutan\u00e1sia, mas como aquilo que pode colocado em tempos &#8211; digamos &#8211; a montante da situa\u00e7\u00e3o pode ajudar a encontrar respostas. N\u00e3o a definir aquilo que \u00e9 a dignidade do viver humano, como dizia h\u00e1 bocadinho, mas no encontrar respostas para. E a\u00ed sim, a\u00ed era necess\u00e1rio fazer o desenvolvimento desta especialidade para poder ajudar a perceber o tipo de respostas que deve ser encontrado para o sofrimento atroz, dif\u00edcil, marcante de tantas vidas no seu tempo de finalidade. Portanto, em termos da resposta sim; em termos da concess\u00e3o e da decis\u00e3o sobre aquilo que \u00e9 legitimo ou n\u00e3o fazer perante pedidos de morrer de forma ativa deve-se ter aqui alguma dissocia\u00e7\u00e3o entre a forma de refletir, olhar e agir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O pensamento \u00e9tico da Igreja Cat\u00f3lica rejeita que um doente tenha de viver uma situa\u00e7\u00e3o de sofrimento sem controlo e defende o\u00a0acompanhamento digno\u00a0da pessoa. Mas nem sempre \u00e9 essa a perce\u00e7\u00e3o por parte da sociedade, quando se debatem estes temas\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o repare, estamos a falar de uma mat\u00e9ria na verdade muito, muito complexa. N\u00f3s vivemos um tempo em que viver o sofrimento \u00e9 quase uma enormidade do ponto de vista daquilo que \u00e9 hoje o que se prop\u00f5e hoje ao viver. Viver perante o tempo e perante o mundo de forma feliz, sem amarguras, sem apertos, sem constri\u00e7\u00f5es e tudo quanto pode violentar este paradigma de felicidade absoluta emerge cada vez mais possante, mais poderoso e que deve ser contraditado a todo o custo. A todo o custo, podendo o pre\u00e7o ser t\u00e3o elevado quanto este pedir a pr\u00f3pria morte. A perspetiva que temos hoje de uma sociedade hedonista que se quer de facto colocar apenas na perspetiva do bem-estar ou da felicidade, da aus\u00eancia da dor e do sofrimento, que \u00e9 irreal, que \u00e9 absolutamente irreal, deve ser repensada exatamente na sua pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o. Naquilo que \u00e9 por exemplo a educa\u00e7\u00e3o dos nossos jovens hoje para entenderem o que vai ser o seu viver no seu tempo de adulto. Eu penso que esta quest\u00e3o deve ser colocada aqui tamb\u00e9m. Quando estamos a preparar os jovens nesta linha de uma depend\u00eancia enorme de uma tecnologia que tudo faz para se desenvolver para que n\u00f3s possamos ser felizes n\u00e3o sendo capazes de encontrar formas de entender, acolher, justificar e responder ao sofrimento que sendo de sempre vai continuar a existir. Enquanto n\u00e3o percebermos que temos de encontrar respostas humanas para esta quest\u00e3o que \u00e9 humana, isto vai-se tornar naturalmente dif\u00edcil. E as respostas mais f\u00e1ceis s\u00e3o de facto esconder esta situa\u00e7\u00e3o anulando-as. Este \u00e9 de facto o grande problema da eutan\u00e1sia: \u00e9 tentar a resposta a situa\u00e7\u00f5es graves escondendo-as, anulando-as de forma definitiva. \u00c9 o mais f\u00e1cil, mas certamente o mais agressivo e o mais horrendo que se pode imaginar para a nossa consci\u00eancia de humanos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Na carta \u2018Samaritanus Bonus\u2019 (O Bom Samaritano), a Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 (Santa S\u00e9) real\u00e7a o \u201cvalor permanente da dignidade humana\u201d, lamentando que muitos doentes sejam \u201cconsiderados um peso para a sociedade\u201d. H\u00e1 esse risco de \u201cpress\u00e3o social\u201d para quem vive uma fase terminal e se sente um peso familiar e at\u00e9 econ\u00f3mico?<\/em><\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o \u00e9 fundamental. A sensa\u00e7\u00e3o que temos muitas vezes \u00e9 que o avan\u00e7ar da idade, o envelhecimento e as quest\u00f5es que naturalmente decorrem deste envelhecimento como que reduzem a dignidade e o valor da vida quando a sua capacidade de interven\u00e7\u00e3o e de express\u00e3o e de experi\u00eancia daquilo que \u00e9 a felicidade e o bem-estar se diminuem tamb\u00e9m. Uma diminui\u00e7\u00e3o n\u00e3o acarreta a outra diminui\u00e7\u00e3o. O envelhecimento, a aproxima\u00e7\u00e3o da debilidade f\u00edsica e corporal n\u00e3o diminui nada o valor, pelo contr\u00e1rio acrescenta; acrescenta ao valor da vida algo que vai por exemplo atr\u00e1s daquilo que \u00e9 a necessidade de respeitarmos e atendermos a vulnerabilidade que naturalmente caracteriza este viver no final da vida. E isto \u00e9 naturalmente muito exigente para as institui\u00e7\u00f5es, muito mais exigente para o agir individual de cada profissional. E num tempo em que, com poucos recursos, com tantas solicita\u00e7\u00f5es a outro n\u00edvel, aquilo que \u00e9 mais exigente neste patamar de uma assist\u00eancia de proximidade, de um cuidar absoluto, de um exerc\u00edcio da compaix\u00e3o que \u00e9 muito mais demorado, que \u00e9 muito mais exigente do que a ministra\u00e7\u00e3o simples de um comprimido ou de uma inje\u00e7\u00e3o. Esta resposta \u00e9 aparentemente uma resposta mais eficaz e \u00e9 efetivamente mais eficaz, mas menos adequada. Porque n\u00e3o exige \u00e0 sociedade e a uma estrutura assistencial que deve ser implementada como por exemplo \u00e9 a proposta dos cuidados paliativos no sentido de, ainda que mais exigente, responder aquilo que \u00e9 de facto a grande motiva\u00e7\u00e3o dos pedidos de eutan\u00e1sia. N\u00f3s olhamos muitas vezes para um pedido de eutan\u00e1sia como algo de fechado em si mesmo e nesta palavra de quero morrer. De facto, os pedidos de eutan\u00e1sia s\u00e3o, n\u00e3o o resultado de uma sedu\u00e7\u00e3o pela morte, mas fundamentalmente por uma incapacidade de aguentar a amargura de um viver dorido e sofrido. E a resposta est\u00e1 em sabermos como \u00e9 que devemos responder efetivamente a esta amargura da vida e de um sofrimento da dor e do sofrimentos, cujas respostas do ponto de vista social, do ponto cient\u00edfico, do ponto de vista m\u00e9dico, do ponto de vista de uma cultura de aproxima\u00e7\u00e3o ao ser vulner\u00e1vel tem de ser muito mais desenvolvidas e robustas&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O mesmo texto alerta para a perda da rela\u00e7\u00e3o confian\u00e7a entre m\u00e9dico e paciente, com a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, quando n\u00f3s endeusamos a autonomia, justificando a\u00ed a legitimidade destes pedidos de eutan\u00e1sia, alocando a cada um a possibilidade de, por si, para si \u2013 e independentemente de quaisquer outros fatores -, decidir em fun\u00e7\u00e3o do seu querer e da sua vontade, autonomizando-a de forma absoluta e errada \u2013 errada do ponto de vista do que \u00e9 a conce\u00e7\u00e3o da vida e da dignidade humana. A pr\u00f3pria lei condiciona esta no\u00e7\u00e3o de autonomia: quando procura reconhecer em cada pessoa o exerc\u00edcio, sem limites nem restri\u00e7\u00f5es, da sua autonomia, a lei imp\u00f5e a esse indiv\u00edduo uma limita\u00e7\u00e3o fundamental, porque quem vai decidir, enfim, \u00e9 o m\u00e9dico\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O m\u00e9dico que n\u00e3o o quer fazer\u2026 O parecer da Ordem dos M\u00e9dicos enviado \u00e0 Assembleia da Rep\u00fablica \u00e9 negativo, em rela\u00e7\u00e3o aos v\u00e1rios projetos que foram apreciados.<\/em><\/p>\n<p>A deontologia m\u00e9dica \u00e9 muito clara, a pr\u00f3pria reafirma\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Mundial, recentemente, sobre esta incoer\u00eancia entre o que \u00e9 o agir m\u00e9dico, o seu m\u00fanus, a sua miss\u00e3o, de ajudar as pessoas no seu nascer, no seu viver e nos morrer, e o encontrar respostas m\u00e9dicas, para o morrer que contrariam aquilo que \u00e9 hoje o des\u00edgnio da atividade m\u00e9dica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Vaticano defende a obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia por parte dos profissionais da sa\u00fade e das institui\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias cat\u00f3licas perante leis que permitam a eutan\u00e1sia ou o suic\u00eddio assistido. Prev\u00ea que isso venha a acontecer em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Prevejo que sim, at\u00e9 porque \u00e9 uma resposta diplom\u00e1tica, politicamente correta, para uma quest\u00e3o que seria crucial. Portanto, tentando pintar com cores mais suaves esta quest\u00e3o da eutan\u00e1sia, diria, j\u00e1 que se pede aos m\u00e9dicos que sejam os seus agentes \u2013 \u00e9 aos m\u00e9dicos que est\u00e1 acometida a responsabilidade de matar, n\u00e3o lhes \u00e9 pedida uma responsabilidade acrescida no sentido de fazer o que \u00e9 necess\u00e1rio fazer perante estas situa\u00e7\u00f5es de grande sofrimento -, sem ter assegurado que isso v\u00e1 ser poss\u00edvel numa sociedade m\u00e9dica que, no limite, poderia n\u00e3o o aceitar. Ainda assim, a quest\u00e3o \u00e9 anterior: reconhecer a consci\u00eancia m\u00e9dica n\u00e3o s\u00f3 naquilo que deve ser projetado na sua responsabilidade deontol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m daquilo que decorre da sua consci\u00eancia individual. Isto \u00e9 o m\u00ednimo dos m\u00ednimos, estou convencido que a obje\u00e7\u00e3o vai ser\u00a0colocada na lei, at\u00e9 para dar uma fei\u00e7\u00e3o aparentemente mais justa\u2026 Escondendo, escondendo outra quest\u00e3o de base, mais profunda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Alguns pa\u00edses legislaram sobre a eutan\u00e1sia de uma forma muito restrita e foram ao longo do tempo alargando exce\u00e7\u00f5es. O diploma agora aprovado em Portugal \u00e9 desse ponto de vista mais restritivo, ou propicia o alavancar da chamada rampa deslizante?<\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a hist\u00f3ria que tem acontecido nos pa\u00edses que legislaram favoravelmente \u00e0 eutan\u00e1sia. Portugal quis seguir o percurso desses pa\u00edses, na sua fundamenta\u00e7\u00e3o, e vai naturalmente, por um quadro de <em>copy-paste<\/em>, seguir os passos que ali aconteceram. Quando retiramos um balizamento estruturante da defesa da integridade e da dignidade da vida humana, a partir do primeiro descondicionamento tornam-se f\u00e1ceis as justifica\u00e7\u00f5es para um alargamento destas exce\u00e7\u00f5es. E isto redundar\u00e1, certamente, como tem acontecido nos outros pa\u00edses, num acrescento de portas que se abrem para justificar estes pedidos de eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Prev\u00ea que, como aconteceu noutros pa\u00edses, o debate sobre a legaliza\u00e7\u00e3o seja alargado aos menores de idade?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 o que temos a\u00ed, nalguns pa\u00edses. N\u00e3o vejo porque \u00e9 que em Portugal n\u00e3o se ir\u00e1 tamb\u00e9m nesse sentido, ao abrirmos a primeira das portas para a legitima\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia\u2026 Para os menores, as portas parecem, \u00e0s vezes, ter uma dimens\u00e3o menor, como se tivessem menor dignidade. \u00c9 mais f\u00e1cil abrir portas mais pequenas do que portas maiores. Portanto, por uma natural evolu\u00e7\u00e3o destas quest\u00f5es e at\u00e9 pelo paralelo que se tem feito noutras \u00e1reas, para os menores vai ser, estou convencido, ainda mais f\u00e1cil abrir esta porta\u2026<\/p>\n<p>At\u00e9 porque se procura responsabilizar os adultos perante os menores, sempre no intuito daquilo que \u00e9 a perspetiva que os adultos t\u00eam sobre os menores, n\u00e3o os responsabilizando, para perceberem que esta decis\u00e3o sobre menores tem de visar o bem desses menores e n\u00e3o o bem dos pr\u00f3prios. Este sofrimento \u00e9, \u00e0s vezes, muito dif\u00edcil para n\u00f3s de suportar, mas quando ele \u00e9 objetivado nos menores, parece ainda mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Eu durante mais de 20 anos trabalhei em cuidados intensivos. Registo hoje, quando fa\u00e7o uma revis\u00e3o desse trabalho longo que fiz, que perante tantas e tantas situa\u00e7\u00f5es de doen\u00e7as\u00a0incur\u00e1veis e terminais, muito pr\u00f3ximas de morrer e que terminaram efetivamente na morte das crian\u00e7as, nunca vi nenhum pai pedir a morte dos seus filhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que pode partilhar connosco da sua experi\u00eancia de trabalho no \u00faltimo ano, num hospital que est\u00e1 na linha da frente na luta contra a Covid-19?<\/em><\/p>\n<p>Depois de uma primeira onda, na qual fomos todos sacudidos com esta dimens\u00e3o tremenda da pandemia, a resposta foi: para crises agudas, responder de forma aguda. Respondemos de forma eficaz \u00e0 pandemia, mas \u00e0 margem dela ficaram \u2013 e hoje percebe-se que de forma compreens\u00edvel \u2013 algumas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os doentes n\u00e3o-Covid?<\/em><\/p>\n<p>Os n\u00e3o-Covid. Mas isso percebeu-se ao fim de muito pouco tempo. Temos de compreender que, numa situa\u00e7\u00e3o em que fomos todos apanhados desprevenidamente, alguns erros seriam cometidos. E foram. O importante \u00e9 que o Hospital foi capaz de compreender alguns dos seus erros e, na medida do poss\u00edvel, preparou-se para, numa segunda onda, numa terceira onda, acautelar minimamente todos os outros que continuavam a existir, ao lado desta pandemia, a necessitar de assist\u00eancia. Conseguimos, numa segunda onda brutal, do ponto de vista do impacto dos n\u00fameros e da for\u00e7a do sofrimento, manter uma atividade para os doentes n\u00e3o-Covid, sendo capazes de respeitar a emerg\u00eancia das suas necessidades.<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o \u00e9, de facto, not\u00e1vel e estou \u00e0 vontade para o dizer, porque n\u00e3o trabalho, neste momento, na linha da frente. \u00c9 um Hospital que se abre a esta dimens\u00e3o global da sua responsabilidade com tantos outros doentes n\u00e3o-Covid e que acolhe as propostas que lhe v\u00e3o sendo feitas no sentido de manter esta vis\u00e3o, de responsabilidade por todos, de que n\u00e3o pode declinar nesta fase.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e9dico do Hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o, consultor da Academia Pontif\u00edcia para a Vida e membro do Conselho Nacional de \u00c9tica para as Ci\u00eancias da Vida \u00e9 o convidado desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":198622,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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