{"id":19646,"date":"2006-08-13T16:32:54","date_gmt":"2006-08-13T16:32:54","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/08\/13\/migracoes-sinal-dos-tempos\/"},"modified":"2006-08-13T16:32:54","modified_gmt":"2006-08-13T16:32:54","slug":"migracoes-sinal-dos-tempos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/migracoes-sinal-dos-tempos\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00f5es, sinal dos tempos"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Ant\u00f3nio Vitalino, bispo de Beja e presidente da CEMH <!--more--> 1. O deserto e a terra \u00e1rida v\u00e3o alegrar-se, a estepe exultar\u00e1 e dar\u00e1 flores belas como narcisos. Vai cobrir-se de flores e transbordar de j\u00fabilo e de alegria&#8230;Ver\u00e3o a gl\u00f3ria do Senhor, e o esplendor do nosso Deus. Fortalecei as m\u00e3os d\u00e9beis, robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos que t\u00eam o cora\u00e7\u00e3o pusil\u00e2nime: \u00abTomai \u00e2nimo, n\u00e3o temais!\u00bb Eis o vosso Deus, &#8230; que vem salvar-vos (Is 35, 1-4). Amados peregrinos, estamos aqui neste lugar sagrado da Cova da Iria, vindos de muitos pontos da terra, precisamente para escutar a voz de Deus, transmitida \u00e0 humanidade por Jesus Cristo, filho de Maria, que h\u00e1 89 anos aqui dela se fez eco junto dos tr\u00eas pastorinhos de F\u00e1tima, os bem-aventurados Francisco e Jacinta e a sua prima L\u00facia. Se nos convertermos e rezarmos, acabar\u00e1 a guerra e haver\u00e1 paz, condi\u00e7\u00f5es essenciais para o desenvolvimento dos povos e para a conviv\u00eancia pac\u00edfica entre todos. Aqui ressoa de nova torna-se quase realidade a mensagem do profeta Isa\u00edas, dirigida a um povo exilado e quase a perder a sua identidade:  Tomai \u00e2nimo, n\u00e3o temais. O vosso Deus vem em pessoa salvar-vos. Aqui vimos fortalecer as nossas m\u00e3os d\u00e9beis, robustecer os nossos joelhos vacilantes, animar o nosso cora\u00e7\u00e3o pusil\u00e2nime. Esta peregrina\u00e7\u00e3o de Agosto, dedicada aos migrantes e refugiados, \u00e9, mais que qualquer outra, um sinal concreto da mensagem do profeta Isa\u00edas.  Aqui estamos para receber a for\u00e7a de Deus. Hoje, mais que nunca, vivemos num mundo em constante mobilidade e, mesmo aqueles que aguentam permanecer nas suas aldeias, partilham das alegrias e tristezas, esperan\u00e7as e des\u00e2nimos dos seus vizinhos ou familiares que se puseram a caminho \u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida ou da liberdade, que, por diferentes raz\u00f5es, lhes era negada na sua terra. Na sua mensagem para o dia mundial do migrante e refugiado o Papa Bento XVI chama a este fen\u00f3meno um sinal dos tempos, que tem os seus aspectos positivos, mas tamb\u00e9m muitos negativos, sobretudo quando motivado pela fome, pela guerra, pela falta de liberdade pol\u00edtica ou religiosa, pela persegui\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o \u00e9 da mesma ra\u00e7a, cor ou credo religioso ou pelos instintos descontrolados de muitas pessoas, que, para os satisfazer, exploram os mais d\u00e9beis, sobretudo mulheres e crian\u00e7as. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o social falam-nos, frequentemente, de imigra\u00e7\u00e3o clandestina relacionada com casas de alterne, mas n\u00e3o mencionam aqueles que exploram esses imigrantes e est\u00e3o por tr\u00e1s do seu tr\u00e1fico.  2. Aqui, junto da M\u00e3e de Jesus, viemos fortalecer a nossa esperan\u00e7a, a nossa f\u00e9 e caridade, para sabermos viver em paz e hospitaleiramente com todos os nossos irm\u00e3os, sejam eles da nossa fam\u00edlia ou de outros pa\u00edses, que aqui procuram o que n\u00e3o encontraram noutra parte. Connosco eles querem contribuir para a transforma\u00e7\u00e3o das terras desertas e secas em terras povoadas e irrigadas com a linfa da vida. Apesar do desemprego, a Europa j\u00e1 n\u00e3o consegue subsistir sem o contributo dos imigrantes. A redu\u00e7\u00e3o da natalidade entre n\u00f3s deixou muitas aldeias desertas e muitos sectores da vida social e laboral sem as for\u00e7as activas necess\u00e1rias. H\u00e1 terras a transformar-se em matagais, com idosos amea\u00e7ados pelas chamas dos inc\u00eandios; h\u00e1 doentes \u00e0 espera de uma companhia amiga, que lhe d\u00ea consola\u00e7\u00e3o e ajuda na sua debilidade; h\u00e1 herdades por cultivar e culturas a apodrecer nos campos por falta de m\u00e3o de obra para trabalhos que os nossos jovens j\u00e1 n\u00e3o procuram. E a listagem de sectores carecidos de trabalhadores poderia continuar, para nos consciencializarmos da necessidade que temos de imigrantes, mas sobretudo para assumirmos a atitude que S. Pedro nos recomendava na segunda leitura desta Missa: Praticai entre v\u00f3s a hospitalidade.  3. No Evangelho de hoje escut\u00e1mos que tamb\u00e9m Jesus teve de deixar a sua terra por motivos de ordem pol\u00edtica e religiosa. Herodes n\u00e3o queria concorrentes ao seu poder, nem mesmo de ordem religiosa. Os poderes absolutos e os fanatismos do poder, seja pol\u00edtico ou religioso, n\u00e3o toleram a diferen\u00e7a, o pluralismo. T\u00eam de Deus uma ideia uniformista e intolerante. N\u00e3o querem admitir que a diversidade \u00e9 querida por Deus e existe at\u00e9 no pr\u00f3prio Deus, como Ele se nos revelou em Jesus Cristo. O nosso Deus \u00e9 Trindade de pessoas, unidas por um amor infinito, que \u00e9 a ess\u00eancia do pr\u00f3prio Deus. Deus \u00e9 amor, diz o Novo Testamento e repetiu-o de modo actual e belo o nosso Santo Padre, na sua primeira enc\u00edclica.  Vivemos um tempo de apregoada democracia e toler\u00e2ncia, mas na realidade perseguimos aqueles que s\u00e3o diferentes. Vivemos um relativismo redutor das diferen\u00e7as sexuais, religiosas, culturais e outras, esquecemos que a diferen\u00e7a \u00e9 o alimento da unidade, o desafio da complementaridade, a base do amor, a condi\u00e7\u00e3o da criatividade, o sinal e sacramento da Trindade. Aqui em F\u00e1tima, nesta peregrina\u00e7\u00e3o internacional dos migrantes e refugiados, embora provenientes de diversos pa\u00edses ou vivendo em diversas partes do mundo, sentimo-nos e somos de verdade uma grande fam\u00edlia dos filhos de Deus, que junto de cruz de Cristo, acolheu Maria como M\u00e3e no \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o. Aqui prometemos-lhe fazer o que seu Filho, Jesus Cristo, nos disse ou disser, a ela recorremos em todas as nossas afli\u00e7\u00f5es. E, por certo, cada um de n\u00f3s,  sente as dificuldades de muitos companheiros de caminho pelas terras onde vivemos. H\u00e1 muita gente a morrer de fome ou a viver em condi\u00e7\u00f5es sub-humanas e por isso anda pelo mundo \u00e0 procura de trabalho justamente remunerado. Alguns ficam pelos caminhos, no deserto, no mar ou nas fronteiras e s\u00e3o tratados como criminosos, s\u00f3 porque n\u00e3o resignaram a vegetar em pa\u00edses sem condi\u00e7\u00f5es de vida humana. Outros caem nas m\u00e3os de exploradores em escr\u00fapulos, que roubam a sua dignidade e os usam para satisfazer os seus v\u00edcios. Muitos vivem e trabalham fora dos seus pa\u00edses, mas s\u00e3o vistos e tratados com inveja, como se fossem ladr\u00f5es dos nossos empregos e do nosso p\u00e3o. Outros ainda s\u00e3o obrigados a fugir das suas terras, para evitar a pris\u00e3o, os maus tratos e a pr\u00f3pria morte, vivendo como refugiados noutros pa\u00edses. E em todas estas categorias de migrantes podemos encontrar casos de maior ou menor viol\u00eancia, que nos deveria envergonhar de mais parecermos lobos e inimigos do que seres humanos e filhos de Deus.  4. Amados peregrinos, a hist\u00f3ria da humanidade mostra-nos muito sofrimento causado pelo pr\u00f3prio homem, pelo pecado do homem, mas tamb\u00e9m nos aponta muitas tentativas de ajuda para mudan\u00e7a de rumo, para que n\u00e3o aceitemos o mal como uma fatalidade. Olhando para Jesus Cristo e Maria, vemos neles a aurora da vit\u00f3ria do bem pela escuta e seguimento das suas palavras, que s\u00e3o mensagem de Deus, pelo exemplo das suas vidas, pela ora\u00e7\u00e3o, pelo perd\u00e3o, pelo amor, pelo dom da vida. Aqui em F\u00e1tima estamos mais sens\u00edveis a estas mensagens, que Nossa Senhora repetiu neste lugar h\u00e1 89 anos e nos transmitiu atrav\u00e9s da linguagem simples dos tr\u00eas pastorinhos: convertei-vos, fazei penit\u00eancia, rezai pela convers\u00e3o dos pecadores, deixem de ofender a Nosso Senhor, rezai o ros\u00e1rio\u2026 ent\u00e3o haver\u00e1 paz, acabar\u00e1 a guerra, a R\u00fassia converter-se-\u00e1\u2026Continua a ser urgente a escuta deste apelo. Muitos continuam a chafurdar no pecado e at\u00e9 exigem a protec\u00e7\u00e3o da lei para as suas atitudes criminosas, ego\u00edstas, para a sua cultura do pecado e da morte. As guerras e as amea\u00e7as de novas guerras n\u00e3o s\u00e3o do passado e do presente, mas ser\u00e3o uma realidade no futuro, se n\u00e3o nos convencermos todos que o testemunho da vida de Jesus \u00e9 o \u00fanico que pode salvar a humanidade e o mundo. Ele proferiu e viveu as bem-aventuran\u00e7as, que nos desafiam a pautar por elas a nossa vida. Felizes os mansos, porque possuir\u00e3o a terra. Felizes os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a, porque ser\u00e3o saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcan\u00e7ar\u00e3o miseric\u00f3rdia. Felizes os puros de cora\u00e7\u00e3o, porque ver\u00e3o a Deus. Felizes os pacificadores, porque ser\u00e3o chamados filhos de Deus. Felizes os que sofrem persegui\u00e7\u00e3o por causa da justi\u00e7a, porque deles \u00e9 o Reino do C\u00e9u (Mt 5, 5-10).  5. Irm\u00e3os, Jesus Cristo chama-nos, interpela-nos, mas tamb\u00e9m nos acompanha e est\u00e1 connosco aqui, agora e sempre. Nesta celebra\u00e7\u00e3o pe\u00e7amos-Lhe que fortale\u00e7a a nossa esperan\u00e7a e o nosso empenho por um mundo melhor. Com Cristo, radicados n\u2019Ele e em uni\u00e3o uns com os outros, bispos, padres, consagrados, pais, filhos, jovens e adultos, seremos uma for\u00e7a, que nenhuma dificuldade far\u00e1 recuar no compromisso de seguir Jesus.  Aqui estamos, Senhor. Fazei de n\u00f3s vossos mensageiros. Com Maria, que escolheu este lugar e os tr\u00eas pastorinhos para relembrar ao mundo o Evangelho, boa nova de salva\u00e7\u00e3o para todos, queremos tamb\u00e9m n\u00f3s comprometer-nos a tomar como lema da nossa vida a resposta de Maria \u00e0 vontade de Deus: fa\u00e7a-se em mim segundo a vossa vontade.  F\u00e1tima, 12 de Agosto de 2006 <i>+ D. Ant\u00f3nio Vitalino, Bispo de Beja e presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Mobilidade Humana de Portugal<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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