{"id":19645,"date":"2006-08-13T16:30:31","date_gmt":"2006-08-13T16:30:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/08\/13\/imigracao-de-leste-riquezas-e-desafios\/"},"modified":"2006-08-13T16:30:31","modified_gmt":"2006-08-13T16:30:31","slug":"imigracao-de-leste-riquezas-e-desafios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/imigracao-de-leste-riquezas-e-desafios\/","title":{"rendered":"Imigra\u00e7\u00e3o de Leste: riquezas e desafios"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Dionisio Lachovicz, da Ucr\u00e2nia, na 34\u00aa Peregrina\u00e7\u00e3o Internacional do Migrante e Refugiado a F\u00e1tima <!--more--> Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo! Excel\u00eancias Reverend\u00edssimas &#8211; D. Ant\u00f3nio Marto, D. Ant\u00f3nio Vitalino, D. Joseph Voss&#8230; (em ucraniano ao bispo Michael Koltun), estimados padres concelebrantes, irm\u00e3s e irm\u00e3os em Cristo, queridos migrantes de todas as na\u00e7\u00f5es, l\u00ednguas e culturas unidos num \u00fanico Povo de Deus, neste Santu\u00e1rio. Confesso que senti apreens\u00e3o e medo ao ser designado para proferir a homilia neste grande evento em F\u00e1tima como representante da Igreja Greco-Cat\u00f3lica da Ucr\u00e2nia, e ter que falar em nome do nosso Arcebispo-M\u00f3r, Cardeal D. Lubomyr Husar. A mesma apreens\u00e3o me assaltou por ter que abordar temas dificeis e complexos como as migra\u00e7\u00f5es e o mandamento da castidade, tema escolhido pelo Santu\u00e1rio para a catequese aos peregrinos ao longo deste ano.  Durante uma minha recente viagem de comboio, no passado dia 27 de Julho, de Bucareste para Bucovina, senti dentro do meu cora\u00e7\u00e3o o drama do imigrante. O que significa deixar a p\u00e1tria, a fam\u00edlia; enfrentar novos mundos, outros desafios, perigos e dificuldades; a nostalgia de um viver longe dos entes queridos. No sacolejar do comboio procurei rezar e pensar na homilia de F\u00e1tima. De repente, quase adormecendo, regressei aos meus tempos de crian\u00e7a \u2013 l\u00e1 na minha aldeia no Brasil \u2013 e lembrei-me das primeiras leituras religiosas, precisamente os livrinhos sobre as apari\u00e7\u00f5es de F\u00e1tima. Recordei-me imediatamente do pedido da convers\u00e3o ao Evangelho, da \u201cdan\u00e7a do Sol\u201d, da promessa da convers\u00e3o da R\u00fassia. Naquele tempo vivenciava na minha alma juvenil a experi\u00eancia dos tr\u00eas pastorinhos \u2013 beatos Francisco e Jacinta e L\u00facia &#8211; e acreditava na promessa de Nossa Senhora: de que R\u00fassia, um dia, se converteria! Para mim essa promessa era muito importante por ser descendente daqueles imigrantes que partiram for\u00e7ados da Rus de Kiev para o distante Brasil, em finais do s\u00e9c. XIX. Durante essa ora\u00e7\u00e3o meditada no comboio romeno, a minha mente viajou subitamente at\u00e9 Moscovo, por volta do in\u00edcio do m\u00eas de Julho de 1988. Como havia perdido os documentos durante uma viagem pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, deambulei preocupado ao redor dos muros do Kremlin. Tive uma sensa\u00e7\u00e3o de extrema fragilidade diante do poder da for\u00e7a militar da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E perguntei-me ao caminhar pelas redondezas dos altos e intranspon\u00edveis muros: ser\u00e1 que n\u00e3o poder\u00e3o cair como ca\u00edram outrora os muros de Jeric\u00f3? Poder\u00e1 a promessa da N. Sra. de F\u00e1tima ser atendida? A realidade \u00e9 que, diante dessa promessa, os muros n\u00e3o conseguiram resistir!  A partir de 1988, ano em que se celebrava o Mil\u00e9nio do Cristianismo na Rus de Kiev, apareceram as primeiras fendas nos muros de Berlim. Desmorona-se o sistema comunista sovi\u00e9tico, rasgam-se as cortinas de ferro e abrem-se os muros do Kremlin. A pris\u00e3o dos povos chega ao fim! Na\u00e7\u00f5es inteiras puderam respirar o primeiro ar da liberdade e os crist\u00e3os sa\u00edram da escurid\u00e3o das catacumbas para a luz do Sol.  Ao ca\u00edrem os muros e rasgarem-se as cortinas de ferro, o mundo inteiro percebeu o mal que o sistema sovi\u00e9tico ateu conseguiu fazer nas pessoas e na sociedade, al\u00e9m da fal\u00eancia total do seu sistema econ\u00f3mico. Nessas regi\u00f5es apareceram ent\u00e3o outras cabe\u00e7as da serpente do mal&#8230; A fal\u00eancia do sistema sovi\u00e9tico gerou novas estruturas da morte. O \u00edndice de mortalidade passou a superar o dos nascimentos. A R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia t\u00eam hoje o maior \u00edndice de abortos no mundo. Surge a ind\u00fastria do sexo, a explora\u00e7\u00e3o e o tr\u00e1fico de mulheres.  Milh\u00f5es de pessoas do Leste Europeu foram for\u00e7adas a emigrar em busca de p\u00e3o, a abandonar as terras que s\u00e3o consideradas os celeiros da Europa. As imensas riquezas desses pa\u00edses foram parar \u00e0s m\u00e3os de poucos oligarcas. Como consequ\u00eancia desse fen\u00f3meno p\u00f3s-sovi\u00e9tico, no decorrer dos \u00faltimos 10 anos, a popula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia diminuiu em cerca de 7 milh\u00f5es de pessoas. Os pa\u00edses industrializados da Europa deparam-se actualmente com o novo fen\u00f3meno, o da imigra\u00e7\u00e3o de povos do Leste Europeu, na sua maioria de proced\u00eancia eslava, de escrita com alfabeto cir\u00edlico, cultura e ritos religiosos diferentes. N\u00f3s somos testemunhas desse processo e hoje foi-nos dada a oportunidade de mostrar uma faceta dessa emigra\u00e7\u00e3o, da cultura e rito oriental pr\u00f3prio desses povos: o &#8220;segundo pulm\u00e3o da Igreja&#8221;, express\u00e3o muito familiar ao saudoso Papa Jo\u00e3o Paulo II. No entanto, a busca pelo p\u00e3o em terras estrangeiras, provoca a quebra dos la\u00e7os familiares na terra natal. O pai imigra para Portugal, a m\u00e3e vai para a It\u00e1lia. Os filhos ficam por conta das av\u00f3s. Est\u00e1 a surgir a realidade do \u00f3rf\u00e3o virtual: os meninos de rua abastecidos com o dinheiro enviado pelos pais. Meninos de rua diferentes, com dinheiro no bolso, mas sem o calor e a ternura da fam\u00edlia. A rua traz a droga e o sexo f\u00e1cil. O sexo como dom de Deus e fonte de vida transforma-se assim em ind\u00fastria da morte. Como resolver os grandes problemas duma imigra\u00e7\u00e3o que \u00e9 sequela de um sistema injusto e criminoso? Como recuperar o sentido da vida, da fam\u00edlia, da castidade, da pureza num contexto saturado de dor, separa\u00e7\u00e3o e fort\u00edssimas tenta\u00e7\u00f5es de infidelidade? \u00c9 poss\u00edvel ser honesto num mundo de mentiras e explora\u00e7\u00e3o? \u00c9 poss\u00edvel ainda viver a cultura da vida dentro do contexto da cultura da morte? Do ponto de vista humano parece imposs\u00edvel, apesar de tanto esfor\u00e7o dispensado pelos Governos e pela Sociedade, pela Igreja e suas organiza\u00e7\u00f5es de caridade. Todavia, sim, \u00e9 poss\u00edvel! \u00c8 preciso olhar para o alto! Para o alto, na direc\u00e7\u00e3o do sol e acharemos a solu\u00e7\u00e3o. Acredito que o milagre da &#8220;dan\u00e7a do Sol&#8221; poder\u00e1 repetir-se, apesar das tempestades morais do contexto actual. Nossa Senhora pede-nos convers\u00e3o! \u00c9 preciso converter-se da dimens\u00e3o horizontal, das mazelas humanas, erguer os olhos rumo ao alto, recuperar di\u00e1logo singelo com Deus, a simplicidade da ora\u00e7\u00e3o do ros\u00e1rio, e l\u00e1 se descobrir\u00e1 a fonte da justi\u00e7a, fidelidade e vida. Redescobriremos a fonte do eterno Amor! \u00c8 preciso receber esse alimento que desce do C\u00e9u, e n\u00e3o ficar apenas \u00e0 merc\u00ea do man\u00e1 desta vida, como nos lembra o Evangelho de hoje. Os nossos pais comeram o man\u00e1 e morreram. S\u00f3 o p\u00e3o que desce do C\u00e9u \u00e9 que d\u00e1 a vida! A recupera\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o vertical, da fidelidade a Deus, nos far\u00e1 renovar a fidelidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, o respeito pela vida que brota do ventre de uma m\u00e3e, a responsabilidade pelos filhos. A pureza na nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus, faz nascer a pureza nas nossas rela\u00e7\u00f5es humanas e sociais, sem hipocrisia e sem mentira. O reencontro com Deus, faz acontecer o milagre do reencontro com as nossas fam\u00edlias, apesar das dificuldades e separa\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias. A fidelidade a Deus, faz recuperar a fidelidade \u00e0 esposa\/esposo, \u00e0 vida transparente, casta e pura. Esse grande milagre poder\u00e1 acontecer hoje se o pedido de convers\u00e3o de Nossa Senhora for acolhido por cada um de n\u00f3s. Acontecer\u00e1 o milagre da \u201cdan\u00e7a do Sol&#8221;, pois o Sol verdadeiro &#8211; Deus, faz inverter os valores e mudar as coordenadas da humanidade actual. Poder\u00e1 acontecer tamb\u00e9m o novo milagre da convers\u00e3o da R\u00fassia numa sociedade mais justa e humana, acontecer\u00e1 tamb\u00e9m a nossa convers\u00e3o e a \u201crevers\u00e3o\u201d do fen\u00f3meno migrat\u00f3rio, isto \u00e9, o regresso dos imigrantes \u00e0 sua P\u00e1tria, enriquecidos com a cultura do pa\u00eds que os acolheu e robustecidos pela f\u00e9 recebida dentro do espa\u00e7o deste santu\u00e1rio.  Em F\u00e1tima, hoje acontece o milagre! Cheg\u00e1mos peregrinos de v\u00e1rias latitudes &#8211; portugueses emigrantes dispersos pelos Mundo, trabalhadores imigrantes em Portugal procedentes de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es, refugiados \u00e1 procura de paz e liberdade \u2013 aqui todos  irmanados na f\u00e9 em Cristo, com o cora\u00e7\u00e3o ao Alto, em direc\u00e7\u00e3o do Sol, donde veio Nossa Senhora, cheia de luz. Aqui podeis reencontrar a vossa f\u00e9, a luz para a vossa vida de migrantes, a solu\u00e7\u00e3o dos vossos problemas pessoais e familiares e o conforto da Igreja que vos ama com uma m\u00e3e.  O que \u00e9 F\u00e1tima? O que significa F\u00e1tima para cada um de n\u00f3s? Vamos descobrir a partir daquele que, como ningu\u00e9m, tem grande experi\u00eancia da mensagem de F\u00e1tima, D. Serafim Ferreira e Silva, bispo em\u00e9rito desta diocese, atrav\u00e9s da sua &#8220;Can\u00e7\u00e3o de F\u00e1tima&#8221;:  \u00ab F\u00e1tima, altar do mundo, sacramento\u2026 F\u00e1tima, amor fecundo, fonte de paz e de gra\u00e7a\u2026 F\u00e1tima \u00e9 ser total, um todo em unidade\u2026  F\u00e1tima \u00e9 um abrigo, um cen\u00e1culo, sinal bem alto e profundo F\u00e1tima \u00e9 mensagem, sanat\u00f3rio, lugar de encontro\u2026 F\u00e1tima \u00e9 farol de luz, \u00e9 bandeira de paz, \u00e9 mist\u00e9rio sem segredos\u2026\u00bb E conclui, o senhor D. Serafim: \u00ab a Senhora, que se mostrou &#8220;mais brilhante que o Sol&#8221;, pede a vida interior e espiritual, e promete que a Civiliza\u00e7\u00e3o do Amor &#8220;triunfar\u00e1&#8221; (p. 91) \u00bb. Sigamos o convite de S. Paulo na sua carta aos Ef\u00e9sios, para que desapare\u00e7a do meio de n\u00f3s toda a esp\u00e9cie de mal\u00edcia. Em contrapartida, sejamos ben\u00e9volos uns com os outros, misericordiosos, perdoando-nos como Deus nos perdoou.  E a exemplo do profeta Elias, alimentados pelo p\u00e3o que desce dos C\u00e9us, continuemos a caminhar em direc\u00e7\u00e3o ao Sol, ao monte Horeb, \u00e0 Jerusal\u00e9m celeste, em companhia de Maria, a Senhora da luz.  \u00c1men.  13 de Agosto de 2006 <i>. Dion\u00edsio Lachovicz, Bispo uxiliar do Arcebispo Maior de Kiev e Halytch e respons\u00e1vel pela Pastoral das Comunidades Ucranianas no Exterior<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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