{"id":195608,"date":"2021-01-09T11:45:04","date_gmt":"2021-01-09T11:45:04","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=195608"},"modified":"2021-01-09T11:45:21","modified_gmt":"2021-01-09T11:45:21","slug":"cumpriu-se-joao-cutileiro-e-o-poema-fez-se-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cumpriu-se-joao-cutileiro-e-o-poema-fez-se-pedra\/","title":{"rendered":"Cumpriu-se Jo\u00e3o Cutileiro: E o Poema fez-se Pedra!"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00a0C\u00f3nego M\u00e1rio Tavares de Oliveira, Arquidiocese de \u00c9vora<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-195609 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Conego-Mario-TavaresOliveira.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>No pret\u00e9rito dia 5 de Janeiro, Jo\u00e3o Cutileiro concluiu a sua passagem entre n\u00f3s. A arte foi a sua veste e a escultura em pedra o seu alfabeto e a sua gram\u00e1tica. \u00c9vora e o pa\u00eds viram partir, inequivocamente, um nome maior do panorama art\u00edstico nacional e internacional.<\/p>\n<p>\u00c9 opini\u00e3o un\u00e2nime que Jo\u00e3o Cutileiro deu novo rumo \u00e0 escultura em Portugal. Ele diz que nunca pensou em realizar tal fa\u00e7anha porque o que sempre quis foi s\u00f3 ser um homem livre. A verdade \u00e9 que, desde que em Floren\u00e7a as obras de Miguel \u00c2ngelo lhe fizeram despertar o estro, o seu percurso revelaria um g\u00e9nio com um itiner\u00e1rio n\u00e3o s\u00f3 brilhante, mas tamb\u00e9m mapeador para muitos outros artistas. Irreverente e de humor espont\u00e2neo, de esp\u00edrito descontra\u00eddo e repentista, fulminava-nos o seu olhar vibrante onde pressent\u00edamos, ao mesmo tempo, horizontes largos e pr\u00f3ximos que nos envolviam fraternalmente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Cutileiro captou o meu olhar com uma singela escultura, um Esp\u00edrito Santo, esculpido em m\u00e1rmore puro, de alvura feminina, patente num corredor do Hospital de \u00c9vora, mesmo em frente \u00e0 capelania. A simplicidade e a espiritualidade intr\u00ednseca desta obra foram um sobressalto inesperado que ainda hoje recordo. Certamente, n\u00e3o ser\u00e1 a vertente da religiosidade a que mais sobressai na obra do Mestre com origens em Pavia, mas \u00e9 indisfar\u00e7\u00e1vel que h\u00e1 uma espiritualidade clandestina e subterr\u00e2nea que est\u00e1 presente na obra de Jo\u00e3o Cutileiro.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de 25 anos, estava profundamente envolvido com a constru\u00e7\u00e3o da igreja de Nossa Senhora de F\u00e1tima, do bairro das Corunheiras, nos arredores da cidade de \u00c9vora. A atrac\u00e7\u00e3o que tinha sentido pelo \u201cEsp\u00edrito Santo\u201d do hospital de \u00c9vora levou-me \u00e0 ousadia de ir ao encontro do artista para lhe encomendar um \u201cEsp\u00edrito Santo\u201d para a capela do Baptismo da igreja em constru\u00e7\u00e3o. Fui encontr\u00e1-lo de reverberadora na m\u00e3o, a esquartejar com paix\u00e3o um bloco de m\u00e1rmore no seu atelier a c\u00e9u aberto, junto \u00e0s Portas do Raimundo, como quem lhe quisesse vislumbrar a alma. Debaixo da cortina de p\u00f3 que o revestia, os seus olhos n\u00e3o escondiam a surpresa de ser visitado por um padre interessado numa obra sua. Depois de ouvir a minha proposta, atalhou sem hesitar: \u201c- Padre: quantos esp\u00edritos santos \u00e9 que h\u00e1? \u2013 Um s\u00f3, claro! \u2013 retorqui.\u201d Esbo\u00e7ando um sorriso af\u00e1vel, muito ao seu jeito, l\u00e1 me foi dizendo: \u201c- Pois, o meu j\u00e1 est\u00e1 feito. E como s\u00f3 h\u00e1 um&#8230; j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer!\u201d. N\u00e3o conseguimos demover o artista a mudar de ideias e ficaria assim intacta a verdade dogm\u00e1tica. Mas, inesperadamente, contraprop\u00f5e: \u201c- E se fosse um Cristo? Sempre quis fazer o meu Cristo!\u201d Confesso que n\u00e3o esperava tal repto e foi com algum desencanto que tive de lhe dizer que o Cristo da nova igreja seria um Ressuscitado, em bronze, e j\u00e1 tinha sido encomendado a um atelier de arte em Floren\u00e7a. \u201c- Fico \u00e0 espera! Ainda n\u00e3o \u00e9 desta!\u201d. Perguntei-lhe, ent\u00e3o, qual a raz\u00e3o desse seu desejo, ao que ele respondeu: \u201c- \u00c9 por causa do abra\u00e7o. Algu\u00e9m que morre de bra\u00e7os abertos e fica a abra\u00e7ar a humanidade para sempre, atrai-me muito. \u00c9 um abra\u00e7o universal e precisamos disso. E depois&#8230;eu tamb\u00e9m sou JC!\u201d Rimo-nos descontraidamente diante daquela profiss\u00e3o genu\u00edna e singela e sel\u00e1vamos ali tamb\u00e9m o nosso abra\u00e7o.<\/p>\n<p>Na vasta obra de Jo\u00e3o Cutileiro, h\u00e1 uma intermitente, mas persistente, pegada de religiosidade que deixou plasmada em poemas de pedra. Na sua vasta obra h\u00e1 lugar para esculturas como a Nossa Senhora do \u00d3 ou o S\u00e3o Jo\u00e3o Baptista, da Ribeira do Porto. \u00c0 pedra fria, comunicava-lhe o calor e o afecto, a paix\u00e3o e o compromisso com todos n\u00f3s como quem acena, sem impor. Um artista inala o sopro da hist\u00f3ria, intui-lhe um sentido que anda suspenso e plasma em pedra um poema que \u00e9 um mapa ou, no m\u00ednimo, um convite a entrar no \u201cpara al\u00e9m de n\u00f3s\u201d. A arte se n\u00e3o nos toca nas perguntas radicais da nossa exist\u00eancia, n\u00e3o serve para muito. E quando, como em Cutileiro, nos sentimos tocados pelo compromisso e miss\u00e3o do artista, descobrimos pontes que n\u00e3o imagin\u00e1vamos e que s\u00f3 o ideal da beleza pode edificar.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tempo, soube que JC se cruzou com o \u201cseu\u201d Cristo. No solar das Bou\u00e7as, no verde Minho, na capela que tamb\u00e9m foi chamado a redesenhar, pontifica um Cristo de pedra que foi precedido dum longo advento. Para al\u00e9m do Cristo da abside, tamb\u00e9m o altar e a via sacra tiveram a sua autoria. N\u00e3o sei se esculpiu outro, mas fico contente em saber que a sua espera o conduziu a um encontro certamente feliz, com o \u201cseu\u201d Cristo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0C\u00f3nego M\u00e1rio Tavares de Oliveira, Arquidiocese de \u00c9vora<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":195609,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-195608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=195608"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195608\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/195609"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=195608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=195608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=195608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}