{"id":195289,"date":"2021-01-06T09:00:49","date_gmt":"2021-01-06T09:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=195289"},"modified":"2021-01-05T17:44:47","modified_gmt":"2021-01-05T17:44:47","slug":"saber-aprender-a-cuidar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-cuidar\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A cuidar"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O primeiro dia do ano \u00e9 dedicado \u00e0 Paz e, habitualmente, o Papa Francisco escreve-nos uma mensagem que pretende inspirar-nos nesse caminho. Este ano, as palavras do Papa ajudam-nos a reflectir sobre como saber aprender, cada vez mais e melhor, a desenvolver uma <em>cultura do cuidado.<\/em> O Papa toca em muitos pontos importantes, mas h\u00e1 uma palavra que me pareceu exclu\u00edda da mensagem, e que pode limitar o seu alcance. Uma exclus\u00e3o talvez ligada \u00e0 l\u00edngua italiana que, apesar da sua imensa riqueza, n\u00e3o lhe confere o significado que pode ter. Refiro-me \u00e0 palavra \u2014 <em>cuidador.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_195290\" aria-describedby=\"caption-attachment-195290\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Cuidar.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-195290\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Cuidar.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Cuidar.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Cuidar-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Cuidar-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Cuidar-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Cuidar-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Cuidar-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Cuidar-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-195290\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Jonathan Borba em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>As palavras possuem um grande poder transformativo na cultura e, consequentemente, na nossa vida. Por isso, o uso de uma certa linguagem pode informar n\u00e3o s\u00f3 a nossa consci\u00eancia, como o modo de ser e estar no mundo. Quando nos referimos ao cuidado da cria\u00e7\u00e3o, a palavra mais usada para o nosso papel \u00e9 o de administrador. Num livro que publiquei intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Pessoa-Comunh%C3%A3o-Portuguese-Miguel-Pan%C3%A3o-ebook\/dp\/B01KQS0X0W\">Pessoa como comunh\u00e3o<\/a>\u201d inclui, com a devida autoriza\u00e7\u00e3o, a tradu\u00e7\u00e3o de um documento da Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional que sempre considerei como um ponto de refer\u00eancia para o modo da Tradi\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica entender o relacionamento que podemos ter com a cria\u00e7\u00e3o. Esse modo est\u00e1 presente no pr\u00f3prio t\u00edtulo: <em>Comunh\u00e3o e Servi\u00e7o.<\/em><\/p>\n<p>As palavras como <em>administrador<\/em> e <em>uso comum<\/em> que o Papa utiliza na mensagem deste ano, fazem-me alguma impress\u00e3o por n\u00e3o irem, plenamente, ao encontro da voca\u00e7\u00e3o humana \u00e0 comunh\u00e3o e ao servi\u00e7o. Faz sentido pensar num sacerdote como um <em>administrador<\/em> de Deus? Fazemos n\u00f3s um <em>uso comum<\/em> do p\u00e3o eucar\u00edstico? \u00c9 estranho. E penso que dev\u00edamos sentir a mesma estranheza quando escutamos estas palavras no que diz respeito ao cuidado da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Referi que a limita\u00e7\u00e3o que encontro na mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz poder\u00e1 dever-se \u00e0 l\u00edngua italiana. O ano passado participei num encontro internacional dedicado ao 5\u00ba Anivers\u00e1rio da <em>Laudato Si\u2019<\/em>, organizado pelo EcoOne, uma iniciativa cultural do Movimento dos Focolares do qual fa\u00e7o parte (quer do Movimento, quer da Comiss\u00e3o Internacional da iniciativa). Num momento em que dialogava com o respons\u00e1vel do EcoOne sobre o texto que ele havia escrito para abrir a confer\u00eancia, fiz a sugest\u00e3o de usar a palavra <em>cuidador<\/em> em vez de administrador para o nosso papel em rela\u00e7\u00e3o ao cuidado pela cria\u00e7\u00e3o. Em italiano, a palavra <em>curatore<\/em> n\u00e3o tem a mesma carga emocional e de significado que tem em portugu\u00eas. <em>Curatore<\/em> refere-se mais a um relacionamento jur\u00eddico de tutela, do que no sentido da cultura do cuidado que o Papa desenvolve nesta mensagem.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a <em>gram\u00e1tica do cuidado<\/em> que o Papa Francisco nos convida a viver possui todos os tra\u00e7os do servi\u00e7o prestado por um <em>cuidador<\/em>. Isto \u00e9, aquele que promove a <em>\u00abdignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da cria\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/em> Quando penso nos cuidadores informais cujo <a href=\"http:\/\/www.seg-social.pt\/documents\/10152\/17083150\/8004_Estatuto%20Cuidador%20Informal%20Principal%20e%20Cuidador%20Informal%20n%C3%A3o%20Principal\/edcbe0f7-3b85-48b8-ad98-2e0b2e475dd4\">Guia Pr\u00e1tico<\/a> foi recentemente publicado, penso no car\u00e1cter de gratuidade que tem esta palavra, e de como um cuidador pode tornar a sua vida numa obra de miseric\u00f3rdia quando a coloca ao servi\u00e7o daqueles que precisam do nosso cuidado. N\u00e3o <em>administram<\/em> a nossa sa\u00fade, mas cuidam. A nossa consci\u00eancia e pensamento cultural beneficiariam muito se houvesse uma palavra universal, isto \u00e9, traduz\u00edvel em todas as l\u00ednguas, que contivesse em si tudo o que diz respeito \u00e0 <em>cultura do cuidado<\/em> que une inextricavelmente o grito da natureza ao grito dos pobres. Mas, qual seria essa palavra?<\/p>\n<p>A palavra ser\u00e1 a que melhor expressa o que o relacionamento com a cria\u00e7\u00e3o, e o relacionamento com os pobres t\u00eam de comum. Na cultura do cuidado, para mim, bastaria a palavra <em>cuidador<\/em>, mas j\u00e1 vimos que no universo da l\u00edngua italiana isso n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel. Em tempos pensei na palavra <em>servidor<\/em>, ou <em>ministro<\/em>, mas dado o car\u00e1cter esclavagista ainda associado \u00e0 primeira, e o car\u00e1cter corruptivo associado, por vezes, \u00e0 segunda, infelizmente, talvez estas n\u00e3o fossem as melhores palavras. Por outro lado, na tradi\u00e7\u00e3o ortodoxa, atrav\u00e9s do Metropolitano Joannis Zizioulas, soube pela primeira vez da express\u00e3o <em>sacerdote da cria\u00e7\u00e3o<\/em>, sublinhando a dimens\u00e3o lit\u00fargica do relacionamento com a cria\u00e7\u00e3o e os pobres, mas uma pessoa que n\u00e3o possua convic\u00e7\u00f5es religiosas, dificilmente se identifica com essa palavra. Que palavra, ent\u00e3o?<\/p>\n<p>A um dado momento da mensagem do Papa Francisco, quando usa a met\u00e1fora da <em>&#8220;b\u00fassola para o rumo comum\u201d<\/em> (n. 7), encoraja a tornarmo-nos <em>\u00abprofetas e testemunhas da cultura do cuidado\u00bb.<\/em> Ser\u00e1 <em>testemunha<\/em> uma boa palavra? Por\u00e9m, essa n\u00e3o cont\u00e9m o car\u00e1cter de responsabiliza\u00e7\u00e3o subjacente ao <em>administrador, cuidador, ministro,<\/em> ou at\u00e9 <em>sacerdote<\/em>. Mas, um pouco mais \u00e0 frente na sua mensagem, o Papa reflecte sobre o <em>\u201deducar em ordem \u00e0 cultura do cuidado\u201d<\/em> (n. 8), onde come\u00e7a por dizer que <em>\u00aba promo\u00e7\u00e3o da cultura do cuidado requer um processo educativo\u00bb<\/em> e destaca tr\u00eas contextos relacionados entre si onde este processo \u00e9, particularmente, relevante: a fam\u00edlia, o ensino, e os media. Neste momento, comecei a pensar se <em>\u201dapreendedor\u201d<\/em> pudesse ser uma poss\u00edvel palavra. Por\u00e9m, mais \u00e0 frente, o Papa diz algo que pode iluminar mais ainda.<\/p>\n<p>Ao terminar a mensagem referindo-se \u00e0 cultura do cuidado enquanto <em>disposi\u00e7\u00e3o<\/em>, uma pessoa sente-se impelida a <em>\u00abinteressar-se, a prestar aten\u00e7\u00e3o, disposi\u00e7\u00e3o \u00e0 compaix\u00e3o, \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o e \u00e0 cura, ao respeito m\u00fatuo e ao acolhimento rec\u00edproco\u00bb<\/em>. Todas essas s\u00e3o as caracter\u00edsticas de um <strong>apaixonado<\/strong>.<\/p>\n<p><em>Apaixonados da cria\u00e7\u00e3o.<\/em> Ser\u00e1 esta a melhor express\u00e3o?<\/p>\n<p>O tempo usado a pensar em palavras \u00e9 entendido por muitas pessoas como um desperd\u00edcio, quando esse deveria ser gasto a pensar no modo e conte\u00fado da ac\u00e7\u00e3o para concretizar a cultura do cuidado, em vez de picuinhices centradas em palavras. Mas n\u00e3o \u00e9 uma ac\u00e7\u00e3o aut\u00eantica e verdadeira quando prov\u00e9m da vida interior que lhe d\u00e1 origem? A palavra \u00e9 mais forte do que a espada (ac\u00e7\u00e3o) porque perdura no tempo e no espa\u00e7o a partir do momento em que \u00e9 escrita e lida.<\/p>\n<p>Quando estamos apaixonados orientamos a nossa vida para cuidar daqueles a quem dedicamos o nosso amor. O apaixonar-se n\u00e3o \u00e9 uma atitude lamechas dos fracos, mas dos corajosos da miseric\u00f3rdia que s\u00e3o capazes de colocar os outros como horizonte, em vez de si mesmos. Estou ciente de ser uma proposta que n\u00e3o encontrar\u00e1 eco em todas as pessoas, mas quem sabe se n\u00e3o coloca a semente de transforma\u00e7\u00e3o de vida de quem deseja saber aprender a cuidar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-195289","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195289","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=195289"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195289\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=195289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=195289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=195289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}