{"id":195038,"date":"2021-01-01T19:23:07","date_gmt":"2021-01-01T19:23:07","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=195038"},"modified":"2021-01-01T19:23:07","modified_gmt":"2021-01-01T19:23:07","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-na-solenidade-de-santa-maria-mae-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-na-solenidade-de-santa-maria-mae-de-deus\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo do Funchal na solenidade de Santa Maria, M\u00e3e de Deus"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><em>\u201cDeus mandou o seu Filho, nascido de mulher e sujeito \u00e0 Lei, para redimir os que estavam sujeitos \u00e0 Lei, e pud\u00e9ssemos receber a filia\u00e7\u00e3o adotiva\u201d (Gal 4,4b-5).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>A Liturgia destes dias de Natal, longe de se perder na apresenta\u00e7\u00e3o de uma cena id\u00edlica (mesmo ideal) de um surgimento de Deus fora do tempo e do espa\u00e7o, convida-nos antes a centrar a aten\u00e7\u00e3o num acontecimento da hist\u00f3ria: o nascimento de Deus em nossa carne.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Como escut\u00e1mos na II\u00aa Leitura: Deus despediu o Seu Filho, mandando-o ao seio do tempo, fazendo-O assumir a natureza humana, sujeitando-o \u00e0s prescri\u00e7\u00f5es da Lei de Mois\u00e9s para nos resgatar da sujei\u00e7\u00e3o da Lei e nos fazer seus filhos adotivos.<\/p>\n<p>S\u00e3o os mesmos dois movimentos que encontramos no c\u00e9lebre hino da Carta aos Filipenses que S. Paulo nos reporta (Filp 2,6-11), e nos quais a salva\u00e7\u00e3o que Cristo nos ganhou aparece de um modo quase visual:<\/p>\n<p>\u201cSendo na forma de Deus,<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o usou o seu direito de ser tratado como Deus,<\/p>\n<p>mas esvaziou-se a si pr\u00f3prio<\/p>\n<p>assumindo a forma de escravo.<\/p>\n<p>Tornando-se semelhante ao homem<\/p>\n<p>e no seu aspeto sendo achado como homem,<\/p>\n<p>humilhou-se a si pr\u00f3prio,<\/p>\n<p>tornando-se obediente at\u00e9 \u00e0 morte,<\/p>\n<p>\u00e0 morte numa cruz.<\/p>\n<p>Por isso, Deus de sobremaneira o elevou<\/p>\n<p>e lhe deu o nome que est\u00e1 acima de todo o nome,<\/p>\n<p>para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho<\/p>\n<p>nos c\u00e9us, na terra e debaixo da terra,<\/p>\n<p>e toda a l\u00edngua proclame que Jesus Cristo \u00e9 o Senhor,<\/p>\n<p>para gl\u00f3ria de Deus Pai\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O acontecimento da salva\u00e7\u00e3o consiste neste movimento de humilha\u00e7\u00e3o e glorifica\u00e7\u00e3o do Filho de Deus que se faz homem para \u2014 como diz S. Paulo \u2014 nos libertar da sujei\u00e7\u00e3o \u00e0 Lei e nos tornar filhos adotivos. Desceu ao nosso abismo para nos elevar \u00e0 gl\u00f3ria da Sua Vida.<\/p>\n<p>A \u201cLei\u201d significa, nesta passagem, todo o conjunto de normas e prescri\u00e7\u00f5es que, de acordo com a Antiga Alian\u00e7a, o homem deveria realizar para se poder apresentar como justo diante de Deus. S\u00e3o as capacidades, as a\u00e7\u00f5es, o querer do homem quando atua exclusivamente a partir de si pr\u00f3prio, mesmo quando procura fazer o bem. \u00c9 esta Lei que mostra a nossa real incapacidade de chegar a Deus com as nossas for\u00e7as.<\/p>\n<p>Ao fazer-se homem, ao viver como homem, Jesus cumpriu por n\u00f3s toda a Lei \u2014 amou a Deus com todo o cora\u00e7\u00e3o e amou o pr\u00f3ximo como a si mesmo. Como o pr\u00f3prio Senhor afirmou: \u201cn\u00e3o penseis que tenha vindo abolir a Lei ou os profetas; n\u00e3o vim abolir mas cumprir plenamente\u201d (Mt 5,17). Apenas nele a Lei ficou foi plenamente cumprida e realizadas todas as suas exig\u00eancias. Por isso, \u00e9 em Jesus Cristo \u2014 apenas nele \u2014 que o homem se pode apresentar diante do Pai. F\u00e1-lo como membro do corpo do Filho \u00danico de Deus. F\u00e1-lo como \u201cfilho adotivo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 a vida crist\u00e3 como \u201cvida em Cristo\u201d: vivendo unidos a Cristo, cumprimos, tamb\u00e9m n\u00f3s, a Lei, e recebemos a sua condi\u00e7\u00e3o de Filho, a sua filia\u00e7\u00e3o. Podemos chamar a Deus por Pai \u2014 como acontece na ora\u00e7\u00e3o que o Senhor ensinou e que ousamos rezar todos os dias.<\/p>\n<p>Tudo isto \u00e9 poss\u00edvel porque o Senhor nos quis \u201cresgatar\u201d. O pre\u00e7o do resgate foi a sua humilha\u00e7\u00e3o: fez-se homem, deixando a qualidade de Senhor e assumindo o lugar de escravo; cumpriu a Lei; e uniu-se de tal forma a cada um de n\u00f3s que, por n\u00f3s, pagou o \u201csal\u00e1rio do pecado\u201d que \u00e9 a morte (cf. Rom 6,23) \u2014 e morte de cruz. Mas uniu-se tamb\u00e9m de tal forma a cada um de n\u00f3s que nos transmitiu a Sua singular condi\u00e7\u00e3o de filho. Tudo sem qualquer merecimento da nossa parte.<\/p>\n<p>Desapareceu por isso \u2014 como afirma tamb\u00e9m S. Paulo noutra passagem \u2014 qualquer motivo de gl\u00f3ria humana (cf. Rom 3,27). O que existe \u00e9, apenas, o amor de Deus por cada um e por todos: Amor provado, vivido at\u00e9 ao fim, sofrido at\u00e9 \u00e0 morte de cruz. Este \u00e9 o cuidado de Deus por cada um de n\u00f3s e por todos \u2014 cuidado que n\u00e3o deixar\u00e1 nunca de nos surpreender; que n\u00e3o deixaremos nunca de contemplar, cheios de admira\u00e7\u00e3o; e, ao mesmo tempo, cuidado a que n\u00e3o deixaremos tamb\u00e9m de procurar corresponder, n\u00e3o tanto com as nossas pobres for\u00e7as (sempre inclinadas para o pecado) mas com a gra\u00e7a que nos \u00e9 dada: \u201ccomo hei-de agradecer ao Senhor tudo quanto me deu? Tomarei o c\u00e1lice da salva\u00e7\u00e3o e invocarei o nome do Senhor\u201d, diz o salmista (Sl 116,12-13).<\/p>\n<ol>\n<li>Bernardo de Claraval, num dos seus serm\u00f5es, ajuda-nos a entender este misterioso cuidado de Deus por cada um de n\u00f3s:<\/li>\n<\/ol>\n<p>\u201cVeio em carne para se revelar aos que eram de carne e para que, ao manifestar-se a sua humanidade, fosse reconhecida a sua bondade. De facto, se Deus d\u00e1 a conhecer a sua humanidade, j\u00e1 n\u00e3o pode ficar oculta a sua bondade. Como podia o Senhor manifestar melhor a sua bondade, sen\u00e3o assumindo a minha carne? Foi precisamente a minha carne que Ele assumiu. [\u2026]<\/p>\n<p>Poder\u00e1 haver maior prova de amor, do que tornar-se o Verbo de Deus t\u00e3o humilde como a erva do campo? Senhor, que \u00e9 o homem para que vos lembreis dele, para que vos preocupeis com ele? Compreenda assim o homem at\u00e9 que ponto Deus tem cuidado dele; reconhe\u00e7a bem o que Deus pensa e sente a seu respeito. N\u00e3o perguntes, \u00f3 homem, porque tens de sofrer tu; pergunta antes porque sofreu Ele. Por aquilo que Ele fez por ti reconhece quanto vales para Ele e compreender\u00e1s a sua bondade atrav\u00e9s da sua humanidade. Quanto mais pequeno se fez na sua humanidade, tanto maior se revelou na sua bondade; quanto mais se humilhou por mim, tanto mais digno \u00e9 agora do meu amor\u201d (S. Bernardo, Sermo 1 in Epiphania Domini 1-2; LH I, 403).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>\u00c9 deste cuidado de Deus que, na Mensagem para o Dia Mundial da Paz que hoje decorre, o Papa Francisco nos convida a ser presen\u00e7a e espelho. Convida-nos o Santo Padre a uma \u201ccultura do cuidado\u201d, quer dizer: ao \u201ccompromisso comum, solid\u00e1rio e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos; [\u2026] disposi\u00e7\u00e3o a interessar-se, a prestar aten\u00e7\u00e3o; disposi\u00e7\u00e3o \u00e0 compaix\u00e3o, \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o e \u00e0 cura, ao respeito m\u00fatuo e ao acolhimento rec\u00edproco\u201d (n. 9).<\/li>\n<\/ol>\n<p>E, em consequ\u00eancia, convida-nos o Papa \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da dignidade e dos direitos da pessoa; ao cuidado pelo bem comum; ao cuidado pelos pobres e indefesos; ao cuidado por toda a cria\u00e7\u00e3o. E acrescenta: \u201cencorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais\u201d (n. 7). E conclui: \u201cN\u00e3o cedamos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais fr\u00e1geis; n\u00e3o nos habituemos a desviar o olhar, mas empenhemo-nos cada dia concretamente por formar uma comunidade feita de irm\u00e3os que se acolham mutuamente e cuidem uns dos outros\u201d (n. 9).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>A Virgem Maria, que hoje celebramos como M\u00e3e de Deus, \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima deste cuidado. Como M\u00e3e, ofereceu a sua natureza para que, atrav\u00e9s dela, Deus assumisse a carne humana; como M\u00e3e, cuidou do Salvador e acompanhou-O pelos caminhos da Galileia at\u00e9 \u00e0 cruz; como M\u00e3e, cuidou dos crist\u00e3os desde o dia de Pentecostes at\u00e9 hoje. \u201cTemos M\u00e3e\u201d \u2014 recordava-nos o Papa em F\u00e1tima.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Ao iniciarmos mais um ano, cheio de imensos desafios para toda a humanidade, fa\u00e7amos aqui o nosso prop\u00f3sito de espalhar e promover \u00e0 nossa volta a cultura do cuidado: cuidado do pr\u00f3ximo, cuidado de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e9 do Funchal, 1 de janeiro de 2021<\/p>\n<p><em>D. Nuno Br\u00e1s, bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":195040,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186,267],"class_list":["post-195038","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195038","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=195038"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195038\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/195040"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=195038"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=195038"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=195038"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}