{"id":194719,"date":"2020-12-28T21:19:53","date_gmt":"2020-12-28T21:19:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=194719"},"modified":"2020-12-28T21:19:53","modified_gmt":"2020-12-28T21:19:53","slug":"homilia-do-bispo-de-lamego-na-noite-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-lamego-na-noite-de-natal\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Lamego na Noite de Natal"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Deus abreviou a Sua Palavra<\/em><\/p>\n<ol>\n<li>Noite Santa. Noite com excesso de Luz, que encandeia os olhos dos pastores. Os olhos e os ouvidos, pois veem o nunca antes visto e ouvem o inaudito, vindo de Deus, atrav\u00e9s do seu anjo: \u00abNasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que \u00e9 o Cristo Senhor. Isto vos servir\u00e1 de Sinal: encontrareis um rec\u00e9m-nascido envolto em faixas deitado numa manjedoura\u00bb, como acab\u00e1mos de ouvir no Evangelho de Lucas (Lucas2,11-12), e que Isa\u00edas dizia assim: \u00abUm menino nasceu para n\u00f3s, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os seus ombros\u00bb (Isa\u00edas 9,5).<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>Um Salvador acabado de nascer. Um menino que tem o poder sobre os ombros. Contemplai bem, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, o Sinal da salva\u00e7\u00e3o e do poder dado por Deus aos pastores de Bel\u00e9m, e a n\u00f3s tamb\u00e9m: nada mais, nada menos do que um menino acabado de nascer envolto em faixas, igual, portanto, a todos os rec\u00e9m-nascidos, que necessitam de todos os cuidados! Necessitam de todos os cuidados, mas p\u00f5em tanta gente em movimento! Mais espantoso ainda pode ser o facto de este beb\u00e9, em quem se pode ver a salva\u00e7\u00e3o com poder, ter nascido num est\u00e1bulo, aparecendo, por isso, deitado numa manjedoura, e n\u00e3o num ber\u00e7o! E espantoso continua a ser que o Sinal da salva\u00e7\u00e3o e do poder dado por Deus seja um beb\u00e9, pobre e necessitado, n\u00e3o apenas de alguma coisa, mas de tudo! Portanto, \u00e0 primeira vista, aos pastores n\u00e3o \u00e9 dado ver nada de extraordin\u00e1rio que os possa convencer de que est\u00e1 ali um Salvador com poder. Nem aos pastores nem a n\u00f3s, que n\u00e3o temos para ver mais do que os pastores, quando ousamos contemplar demoradamente o cen\u00e1rio do Pres\u00e9pio.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>O Sinal de Deus n\u00e3o passa, como vemos, por uma cena grandiosa de poder, mas pela m\u00e1xima fragilidade e pobreza. O Sinal de Deus \u00e9 um Menino, acabado de nascer, de tudo necessitado! O Sinal de Deus \u00e9 que Ele se faz pequeno no meio de n\u00f3s. Nunca ningu\u00e9m viu um Deus assim pequenino! Viu-o Maria, viu-o Jos\u00e9, viram-no os pastores, e podemos v\u00ea-lo n\u00f3s tamb\u00e9m, para assim o podermos compreender, acolher e amar. E n\u00e3o nos esque\u00e7amos de que este Sinal dado aos pastores e a n\u00f3s tamb\u00e9m continua a\u00ed bem diante de n\u00f3s, n\u00e3o apenas no Pres\u00e9pio, mas nas encruzilhadas da vida, pois, quando este Menino crescer e falar, ouvi-lo-emos dizer, para espanto nosso: \u00abTodas as vezes que [n\u00e3o] fizestes isto a um destes meus irm\u00e3os mais pequeninos, foi a mim que o fizestes [deixastes de fazer]\u00bb (Mateus 25,40.45).<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li>Os antigos Padres da Igreja, de tradi\u00e7\u00e3o e l\u00edngua grega, frequentavam a tradu\u00e7\u00e3o grega do Antigo Testamento, e citavam ami\u00fade um dizer do profeta Isa\u00edas em que se lia que \u00abDeus abreviou a sua Palavra\u00bb (Isa\u00edas10,23). E comentavam e glosavam mais ou menos assim, com os olhos postos no nascimento de Jesus: a Palavra de Deus \u00e9 o seu pr\u00f3prio Filho, Palavra eterna, que se fez pequena, t\u00e3o pequena que cabe numa manjedoura! A Palavra fez-se crian\u00e7a, para poder ser compreendida, acolhida e amada! Escreveu o insigne mestre das escolas de Alexandria e de Cesareia Mar\u00edtima, Or\u00edgenes (185-254): \u00abSuponhamos que se fez uma imagem de tal modo grande que, dada a sua imensid\u00e3o, dentro dela conteria o mundo inteiro, e que, devido \u00e0 sua imensid\u00e3o, n\u00e3o podia ser vista por ningu\u00e9m; e que se fez tamb\u00e9m uma segunda imagem, em tudo semelhante \u00e0 primeira, pela configura\u00e7\u00e3o dos membros e pelos tra\u00e7os do seu rosto, pela forma e pela mat\u00e9ria, sem, todavia, ser t\u00e3o grande: aqueles que n\u00e3o podiam examinar e contemplar a primeira devido \u00e0 sua imensid\u00e3o, podiam, pelo menos, ao ver a pequena, acreditar que viam a grande, dado que as duas eram absolutamente semelhantes quer pelo tra\u00e7ado dos membros quer do rosto, quer pela forma e pela mat\u00e9ria. Do mesmo modo, o Filho, despojando-se da sua igualdade com o Pai para nos mostrar o caminho do conhecimento (cf. Filipenses 2,6-11), torna-se a imagem e a express\u00e3o da sua subst\u00e2ncia (cf. Colossenses 1,15); assim, n\u00f3s, que n\u00e3o podemos ver a Gl\u00f3ria da Luz pura que se encontra na grandeza da sua divindade, pelo facto de ele se tornar para n\u00f3s o reflexo, recebemos o meio de contemplar a Luz divina ao contemplar o seu reflexo (cf. Hebreus 1,3). Esta compara\u00e7\u00e3o das duas imagens, aplicada a objetos materiais, deve ter o sentido seguinte: o Filho de Deus, entrado na forma min\u00fascula de um corpo humano, indicava em si mesmo, mediante as suas obras e o seu poder, a grandeza infinita e invis\u00edvel de Deus Pai nele presente\u00bb (<em>Per\u00ec Arch\u00f4n<\/em>, I, 2, 8). Na express\u00e3o bela de Or\u00edgenes, a\u00ed est\u00e1 diante de n\u00f3s o Filho de Deus, um Deus pequenino, mas em tudo igual ao Pai. N\u00e3o podendo ver diretamente a Gl\u00f3ria e a Luz de Deus Pai, \u00e9-nos dada a gra\u00e7a de o poder ver atrav\u00e9s do seu reflexo.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li>N\u00e3o podemos, portanto, ver diretamente o Pai, dada a imensid\u00e3o da sua Luz e da sua Gl\u00f3ria. Mas podemos v\u00ea-lo atrav\u00e9s do Filho, Palavra eterna, que se fez pequena, mas em tudo igual ao Pai (cf. Jo\u00e3o 14,9; 10,30.38). Deus abreviou ent\u00e3o a sua Palavra, que \u00e9 o seu pr\u00f3prio Filho, Jesus Cristo, Palavra eterna, que se fez pequena, para caber numa manjedoura, que se fez crian\u00e7a, para caber no colo de uma m\u00e3e, nos bra\u00e7os de um pai, para poder ser por todos acolhida e compreendida.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li>\u00c9 assim tamb\u00e9m, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, que os Padres antigos usam transpor o imagin\u00e1rio da manjedoura para o Altar, mostrando no Altar a imagem da manjedoura. E a\u00ed est\u00e1 outra vez o Filho, agora P\u00e3o pequenino partido aos bocadinhos, e a n\u00f3s dado em alimento por amor. Dom e Amor. Dom de Amor. Dom que \u00e9 Amor. Na verdade, o Amor \u00e9 tamb\u00e9m a Palavra de Deus abreviada, s\u00famula e recapitula\u00e7\u00e3o da inteira Escritura Santa, como explica Jesus ao fariseu que quer saber qual \u00e9 o maior mandamento da Lei. Jesus responde: \u00ab<em>Amar\u00e1s<\/em> o Senhor, teu Deus, com todo o teu cora\u00e7\u00e3o, com toda a tua alma e com toda a tua intelig\u00eancia. Este \u00e9 o maior e o primeiro mandamento. O segundo \u00e9 semelhante a este: <em>Amar\u00e1s<\/em> o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a Lei e os Profetas\u00bb (Mateus 22,37-40). Portanto, a inteira Escritura Santa, 419.687 palavras na B\u00edblia Hebraica, cerca de 800.000 na B\u00edblia Cat\u00f3lica, pode abreviar-se, condensar-se e resumir-se na palavra <em>Amor<\/em>, amor a Deus e ao pr\u00f3ximo, vivido como Jesus o viveu e nos mostrou atrav\u00e9s da sua Vida dada em alimento e alento. \u00c9 este Amor que cabe no Altar ou na Manjedoura que \u00e9 o Sinal Hoje dado a toda a humanidade.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li>Chegados aqui, \u00e9 claro que uma pergunta pode saltar fora com toda a naturalidade: como podemos amar a Deus com toda a nossa intelig\u00eancia, se n\u00e3o conseguimos v\u00ea-lo e encontr\u00e1-lo? Como podemos amar a Deus com todo o nosso cora\u00e7\u00e3o e com toda a nossa alma, se este pobre cora\u00e7\u00e3o consegue apenas entrev\u00ea-lo s\u00f3 de longe e de forma difusa, como num espelho (cf. 1 Cor\u00edntios 13,12), porque vivemos num mundo em que se atravessam diante dos nossos olhos tantas nuvens de frieza, indiferen\u00e7a e desamor, que toldam o seu rosto diante de n\u00f3s?<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li>\u00c9 nesta situa\u00e7\u00e3o nebulosa em que vivemos que \u00abo Esp\u00edrito vem em aux\u00edlio da nossa fraqueza [\u2026] com gemidos sem palavras (<em>stenagmo\u00ec alal\u00eato\u00ed<\/em>)\u00bb (Romanos 8,26), entenda-se: lala\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o das palavras ao seu sopro, ao seu esp\u00edrito, e ao Esp\u00edrito que as inspira. Assim se coloca Deus ao nosso n\u00edvel. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 longe de n\u00f3s. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um desconhecido, pois sentimos o seu sopro, o seu alento. N\u00e3o est\u00e1 fora do alcance do nosso cora\u00e7\u00e3o. Fez-se menino por n\u00f3s e, com isto, dissolveu toda a ambiguidade. Tanto se aproximou de n\u00f3s que se fez mesmo o nosso pr\u00f3ximo, restabelecendo tamb\u00e9m deste modo a imagem do homem que, com frequ\u00eancia, se nos revela t\u00e3o pouco am\u00e1vel. Compreendemos ent\u00e3o que, por amor de n\u00f3s, Deus se faz dom, doando-se a si mesmo. Perde tempo connosco. Debru\u00e7a-se sobre n\u00f3s. \u00c9 nesse sentido que o Natal se assumiu como a festa dos dons, imita\u00e7\u00e3o de Deus que a si mesmo se doou por n\u00f3s.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Que o c\u00e9u se abra,<br \/>\nE que o orvalho des\u00e7a<br \/>\nSobre esta terra dura e seca,<br \/>\nCom as m\u00e3os em prece,<br \/>\nPois v\u00ea-se que carece<br \/>\nDe paz<br \/>\nE de ternura.<\/p>\n<p>Que o Teu orvalho des\u00e7a,<br \/>\nMas desce Tu tamb\u00e9m,<br \/>\nMenino de Bel\u00e9m,<br \/>\nPor essa escada<br \/>\nRendilhada<br \/>\nDe \u00e1gua pura.<br \/>\nE n\u00e3o Te esque\u00e7as<br \/>\nDe que est\u00e1 na altura<br \/>\nDe vires nascer em Bel\u00e9m<br \/>\nE aqui tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Lamego, Noite de Natal, 24-25 de dezembro de 2020<\/p>\n<p>+ Ant\u00f3nio, vosso bispo e irm\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":5,"featured_media":187052,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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