{"id":194416,"date":"2020-12-24T23:00:01","date_gmt":"2020-12-24T23:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=194416"},"modified":"2020-12-24T18:07:52","modified_gmt":"2020-12-24T18:07:52","slug":"o-povo-que-andava-nas-trevas-viu-uma-grande-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-povo-que-andava-nas-trevas-viu-uma-grande-luz\/","title":{"rendered":"\u201cO povo que andava nas trevas viu uma grande luz\u201d"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em>Homilia do bispo do Funchal na Missa da Noite de Natal<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">1. Andamos n\u00f3s e o mundo inteiro, de h\u00e1 v\u00e1rios meses a esta parte, \u00e0 procura de \u201cuma luz ao fundo do t\u00fanel\u201d. Dizem-nos agora que, com a descoberta de uma vacina, a j\u00e1 enxergamos.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Este <span lang=\"IT\">ano<\/span>, o nosso mundo viveu aflito e angustiado com a opress\u00e3o de um v\u00edrus. O que parecia ser um mundo que caminhava de m\u00e3os dadas com o progresso, de vit\u00f3ria em vit\u00f3ria \u2014 mesmo ignorando ostensivamente tantas situa\u00e7\u00f5es de desgra\u00e7a noutras partes do globo e at\u00e9 no seu pr\u00f3prio seio (situa\u00e7\u00f5es de derrota efectiva de humanidade) \u2014 este nosso mundo viu-se, de repente, colocado em causa no seu modo de viver despreocupado e distra\u00eddo, centrado em si e no prazer que conseguia construir, voltado para o seu umbigo, sem outros horizontes de vida que n\u00e3o o \u201caqui e agora\u201d do bem-estar. E descobriu-se aflito.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">O v\u00edrus causou muitas mortes, muito sofrimento. Esperemos que n\u00e3o tenha sido em v\u00e3o, e nos tenha acordado para a realidade do que somos \u2014 ou, ao menos, nos tenha feito interrogar acerca do percurso que est\u00e1vamos a realizar.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">2. Este \u00e9 um ano de trevas. Bem semelhantes \u00e0s do povo de Israel a quem se dirigia o Profeta, embrenhado no meio de lutas pol\u00edticas e militares, sem qualquer \u201cluz ao fundo do t\u00fanel\u201d. Hoje como nesse tempo, a verdadeira luz n\u00e3o vir\u00e1 de uma qualquer descoberta humana, mas de uma interven\u00e7\u00e3o de Deus que enche de claridade as nossas trevas.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">C<span lang=\"ES-TRAD\">omo n\u00f3<\/span>s hoje, Israel era um povo que se via no meio de in\u00fameras incertezas. Sem possibilidade de erguer os olhos. De cora\u00e7\u00e3o pesado e amargurado. Oprimido entre as vontades de v\u00e1rias pot\u00eancias estrangeiras. No meio desta escurid\u00e3o, o Profeta anuncia uma luz radiosa e tempos novos: tempos de alegria multiplicada, em que o jugo opressor haveria de ser quebrado, e queimada a indument\u00e1ria da guerra (o cal\u00e7ado ruidoso dos ex\u00e9rcitos e a veste ensanguentada dos guerreiros).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Olhando para a realidade que viviam, n\u00e3o poucos ter\u00e3o pensado que Isa\u00edas n\u00e3o passava de um sonhador iludido, ut\u00f3pico; ou ent\u00e3o, simplesmente, algu\u00e9m alienado, incapaz de perceber a realidade da vida, o drama das op\u00e7\u00f5es a fazer. Contudo, Isa\u00edas n\u00e3o hesita. Anuncia um mundo novo. Porque o faz? Porque olha para o mundo que o rodeia n\u00e3o com o olhar dos homens mas com o olhar de Deus. E, a partir de Deus, o Profeta pode e deve anunciar o que ir\u00e1 surgir no meio das trevas.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Que luz \u00e9 essa, capaz de transformar o ru\u00eddo e a tristeza da guerra em alegria e paz?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">\u201cUm menino nasceu para n\u00f3s \u2014 diz o Profeta \u2014 um filho nos foi dado\u201d. Este Menino n\u00e3o \u00e9 um pensador que proponha ideias que seduzam. N\u00e3o \u00e9 um orador brilhante capaz de arrebatar multid\u00f5es, massas an\u00f3nimas para o seguirem, hipnotizadas. N\u00e3o \u00e9 um comandante que conduza um ex\u00e9rcito, que imponha pela for\u00e7a o seu querer.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">\u00c9, simplesmente, <u>um menino.<\/u> Como todos os meninos: fr\u00e1gil, indefeso, necessitado de quem o alimente e cuide. \u00c9 uma vida que ali est\u00e1, um convite, uma suplica.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">\u00c9 <u>um menino que nasceu<\/u>. Um vida nova. Um novo come\u00e7o, que faz a fronteira entre um antes e um depois.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">\u00c9 <u>um menino que nasceu para n\u00f3s<\/u>. Nasceu para que cada um o acolha, sem receios nem medos. Nasceu para o deixarmos entrar na nossa vida \u2014 na vida de cada um e na vida de todos. Nasceu como proposta, como interroga\u00e7\u00e3o, como apelo. Para n\u00f3s, para cada um de n\u00f3s e para todos.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">\u00c9 <u>um menino que nos \u00e9 dado como filho<\/u>. Quer dizer: como obedi\u00eancia, como depend\u00eancia, como acolhimento do Pai. Como miss\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Toda esta debilidade parece contrastar com os seus atributos: \u201cConselheiro admir\u00e1vel, Deus forte, Pai eterno, Pr\u00edncipe da Paz\u201d \u2014 sabedoria, divindade, eternidade, paz. Ao escut\u00e1-los e ao encontrar o Menino do Pres\u00e9pio, v\u00eam-nos \u00e0 mem\u00f3ria as palavras do Ap\u00f3stolo: \u201c<span lang=\"ES-TRAD\">o que h<\/span>\u00e1 de fraco no mundo <span lang=\"FR\">\u00e9 <\/span>que Deus escolheu para confundir o que <span lang=\"FR\">\u00e9 <\/span><span lang=\"IT\">forte.<\/span> O que o mundo considera vil e desprez\u00ed<span lang=\"ES-TRAD\">vel <\/span><span lang=\"FR\">\u00e9 <\/span>que Deus escolheu; escolheu os que nada s\u00e3o, para reduzir a nada aqueles que s\u00e3o alguma coisa\u201d (1Cor 1,27-28).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">3. Assim sendo, quase podemos tomar as palavras de Isa\u00edas como uma narra\u00e7\u00e3o, realizada com v\u00e1rios s\u00e9culos de anteced\u00eancia, do sucedido naquela noite fria de Bel<span lang=\"FR\">\u00e9<\/span>m: Deus em Pessoa, que nasce na nossa carne mortal.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">O menino de Isa\u00edas \u00e9 de verdade <span lang=\"IT\">este Menino, <\/span>Deus feito homem, nascido em Bel<span lang=\"FR\">\u00e9<\/span>m, no meio de um est\u00e1<span lang=\"ES-TRAD\">bulo <\/span>de animais, necessariamente desconfort\u00e1vel e sem higiene.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">\u00c9 <span lang=\"ES-TRAD\">Ele<\/span> <span lang=\"EN-US\">\u2014 <\/span>Conselheiro admir\u00e1vel, Deus forte, Pr\u00edncipe da paz <span lang=\"EN-US\">\u2014 <\/span>que vem hoje ao cora\u00e7\u00e3o de cada um de n<span lang=\"ES-TRAD\">\u00f3<\/span>s e nos convida. Que medo poderemos ter de um rec<span lang=\"FR\">\u00e9<\/span>m-nascido?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Deus vem assim ao nosso encontro: simples, fr\u00e1gil, novo, necessitado do nosso amor. Deus mostra-se na fragilidade para que n\u00e3o tenhamos receio de O acolher. E estamos apenas no in\u00edcio do caminho que ter\u00e1 o seu ponto alto, anos depois, na fragilidade extrema da cruz, e que nos nossos dias \u00e9 prolongado na fragilidade do P\u00e3o Eucar\u00edstico \u2014 verdadeira presen\u00e7a, corpo, daquele Deus feito Homem nascido no Pres\u00e9pio de Bel\u00e9m.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">De facto, este Menino continua a vir at\u00e9 n\u00f3s, na noite que estamos a viver \u2014 aquela noite de um mundo desorientado e aflito, e aquela que agora mesmo experimentamos. \u00c9 Ele que vem at\u00e9 n\u00f3s para inundar o nosso cora\u00e7\u00e3o com a sua luz divina (aquela luz que h\u00e1-de brilhar com ainda mais fulgor na madrugada da ressurrei\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Vem para que O acolhamos, sem medo, sem preconceitos, de cora\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel e puro, como sempre estamos diante de um rec\u00e9m-nascido. Vem para que O deixemos transformar o nosso cora\u00e7\u00e3o. Vem para que a nossa vida possa ser inundada com a sua luz, com a sua vida \u2014 com a sua sabedoria, divindade, eternidade e paz.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Deus une-se dessa forma aos simples, fr\u00e1geis, pobres, famintos, sedentos, doentes, prisioneiros, sem casa nem tecto para se abrigarem, para que tamb\u00e9m atrav\u00e9s deles sejamos capazes de O encontrar.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Hoje, no meio das trevas, brilha, uma vez mais, a luz do Natal. Vem de longe \u2014 de terras long\u00ednquas e de tempos distantes \u2014 mas brilha com a mesma intensidade. Acorda os sonolentos, d\u00e1 calor aos cora\u00e7\u00f5es enregelados, entusiasmo aos desanimados: Deus est\u00e1 connosco e vem at\u00e9 n\u00f3s. Pede que O acolhamos. Que nos deixemos amar por Ele.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Como se canta no Auto de Natal d<span lang=\"FR\">a tradi<\/span>\u00e7\u00e3o popular madeirense:<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\"><i>Esta not\u00edcia tivemos \/ logo que cantou o galo \/ e deixamos nossos campos \/ para virmos ador\u00e1-lo.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\"><i>Eu vou correr a Bel\u00e9m \/ Quem quiser venha comigo \/ Fiquem os gados no campo \/ Vamos ver o nosso amigo.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\"><i>\u00d3 meu Menino Jesus \/ meu lindo amor-perfeito \/ se V\u00f3s tendes frio, vinde, \/ vinde parar ao meu peito.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">\n<\/div>\n<div>\n<p class=\"Corpo\">Que esperamos n\u00f3s? Abram-se os olhos da f\u00e9; acorde a alma sonolenta do pecado; erga-se o cora\u00e7\u00e3o. E corra, corra depressa, para junto do Pres\u00e9pio. N\u00e3o h\u00e1 tempo a perder! Nem deixemos que o mundo nos fa\u00e7a demora. Corramos, alegres, que a luz brilha nas trevas e a noite j\u00e1 se transforma em dia esplendoroso. \u201cO povo que andava nas trevas viu uma grande luz. [\u2026] Um Menino nasceu para n\u00f3s; um Filho nos foi dado\u201d!<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do bispo do Funchal na Missa da Noite de Natal<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":192822,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186,267],"class_list":["post-194416","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194416","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=194416"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194416\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/192822"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=194416"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=194416"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=194416"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}